I.

—Eu venho tornar públicos detalhes recentemente descobertos sobre as minhas origens e o meu nascimento, dos quais todos já têm ciência. São documentos trazidos da Cidadela, por Samwell Tarly.

Vencendo a timidez, Sam explicou sucintamente que o príncipe Rhaegar se unira a Lady Lyanna, da Casa Stark , após promover a anulação de seu primeiro casamento com a Princesa Elia, da Casa Martell. Declarava também que ele e Lady Lyanna esperavam um filho. A rainha Daenerys aceitara a veracidade dos documentos e reconhecera publicamente o sobrinho. A isso se juntara o testemunho de Lord Reed, que vira Ned Stark sair da Torre da Alegria, local da morte de Lyanna Stark, com a criança que ele apresentou a todos como seu filho bastardo.

Em seguida, Bran tomou a palavra.

—Repito diante da assembleia o que já disse à minha família: não sou, não serei, não posso e não quero ser o Lord de Winterfell, pois o meu desígnio na terra é outro. Quando perdi a capacidade de andar senti revolta, mas agora aceito o meu destino. Hoje, percebo que sou um meio para um fim e preciso da concentração para isso. O Lorde de Winterfell é meu primo Jon, seja ele Snow, Stark ou Targaryen. Ele é filho do Norte, filho de Lyanna Stark, sangue de Ned Stark. É o Norte, o rei do escolhido e aclamado por vocês.

—Nós reconhecemos o seu valor, mas entenda, jovem, o Norte não pode ter um rei Targaryen. –disse um membro da Casa Glover.

Vários presentes o apoiaram. Lady Mormont esperou que as vozes baixassem e perguntou do seu jeito abrupto:

—Mas, o que mudou? Uma mudança na origem de alguém o modifica? No caso, aceitavam o rei mesmo na condição de bastardo de Lord Stark. Agora que ele é príncipe, tem uma origem ainda mais nobre, está desqualificado porque o sangue do Norte veio pela mãe e não pelo pai?

Alguns ensaiaram um protesto, mas Lord Manderly interveio com energia.

—É certo. E ainda mais certo é o fato de que Jon Snow, agora um príncipe Targaryen, abriu mão de sua legítima reivindicação ao trono de ferro por fidelidade e consideração ao Norte.

Jon estava pálido, Sansa e Arya se sentiram esperançosas.

—Muitos não percebem que um grande papel pode estar reservado ao Norte, uma vez que a Rainha Daenerys nomeou-o, assim como à sua linhagem, seus sucessores.

Era Howland Reed quem falava. Todos silenciaram para ouvi-lo.

—O que nos resta a fazer é colocar o Norte na linha de sucessão e garantir o apoio ao nosso rei. E para isso não há medida mais sábia e prática do que um casamento com uma dama de alta linhagem, aqui do Norte. Apesar da guerra ainda há boas candidatas e outras mais jovens que em breve estarão habilitadas ao matrimônio.

Bran sentiu que Jon estava inquieto, mas que não desejava transparecer sua preocupação ou desagrado. O motivo do desassossego era do conhecimento de Bran, mas ele se mantivera em silêncio, esperando para ver qual partido o primo tomaria. Arya ficou um pouco espantada com a objetividade com a qual discutiam e decidiam a vida de Jon. Sansa apoiou as pontas dos dedos na mesa, para que ninguém percebesse que suas mãos tremiam.

—Perfeito, Lorde Reed. Casar com o Norte é o conselho que damos ao nosso rei. Feito isso, com a chegada dos herdeiros, ninguém terá o que reclamar. Eu iria até mais longe. Uma vez que as origens do rei foram trazidas à luz, e o laço de parentesco não impede o casamento, eu sugiro uma das ladies Stark, filhas do Protetor do Norte, Ned Stark.

Os vivas choveram.

Lyanna Mormont olhou para o rei. Estava pálido. Arya tinha uma cara de descrença e Sansa estava passada, olhando para Jon.

II.

—Isso é muito... precipitado, não acha, Sor Davos?

Estavam sentados numa sala menor, perto do fogo, Jon, Sor Davos, Sam Tarly, Brienne, Sansa, Arya e Lyanna Mormont.

—Bem, a guerra acabou há pouco, mas algum dia o senhor ia ter que casar. Agora é rei, não está mais na Patrulha da Noite. Precisa providenciar herdeiros.

As mulheres ficaram quietas, menos Arya, que fez uma careta de desprezo.

—Esse Lord Reed é maluco? Ele me incluiu no rol das pretendentes...

—Eu e Arya, casados , tendo filhos. Isso é inconcebível.-disse Jon.

—Bem, Jon, perdão Majestade. A sua família, pelo lado paterno...

—Eu já sei, Sam. Eu estudei História. Mas são outros tempos.

Brienne não se conteve.

—Permita-me lembrá-lo, Majestade, que seu pai, o falecido príncipe Viserys e a rainha, são todos filhos de dois irmãos.

Jon parecia perturbado com o assunto. Fez-se um silêncio enorme. Foi então que Lyanna Mormont falou o que ia na mente de todos, mas que ninguém ousava falar.

—Bom, então a noiva é Lady Sansa.

Sansa tornou a corar. O rosto parecia em fogo. Jon se levantou como que impelido por uma mola.

—Vamos todos dormir.

Partiu rumo aos próprios aposentos. Sansa e Brienne fizeram o mesmo.

Sam Tarly ficou meio desapontado.

—E então, como ficou?

Arya balançou a cabeça.

—Bem, você viu algum dos dois protestar, dizer que é um absurdo ou coisa do tipo?

—Não.

—Então já está respondido, homem.

Lyanna Mormont abriu um sorriso vencedor.

III.

Jon demorou bastante a pegar no sono. Ficou pensando e acabou adormecendo vestido. Ao alvorecer levantou-se escreveu uma carta quase que compulsivamente e foi ele mesmo despachá-la através de um corvo. Sentia um grande vazio dentro de si.

No desjejum, esteve monossilábico. Arya achava estranha aquela atitude. Sansa parecia um fantasma, muito pálida e silenciosa. Havia uma atmosfera de expectativa, mas nem naquela ocasião nem nos dias seguintes, Jon se pronunciou sobre noivado ou casamento com quem quer que fosse. Lyanna Mormont já se dispunha a regressar à Ilha dos Ursos, ainda que mordida pela curiosidade do desfecho do caso do noivado.

Murmuravam que o jovem rei estava resistindo a se casar com o Norte, talvez já tivesse outra candidata em vista. Alguns falavam que ele penderia para outra dama, fora da família, com a possibilidade de Alys Karstark ou até Meera Reed. Era consenso que Arya Stark estava descartada, pelo grau de proximidade e por seu caráter notoriamente insubmisso. A maioria acreditava, porém, que a escolhida seria Sansa. Mas com o passar dos dias, surgiu um boato que o fato de Sansa ter sido casada duas vezes pesava negativamente na escolha do rei.

Quando o corvo vindo de Dragonstone chegou trazendo a resposta, o rei trancou-se em seus aposentos para ler o conteúdo. Leu e releu. Dobrou a carta e colocou a cabeça entre as mãos. Constava de poucas linhas.

"Meu amado Jon,

Não quero que se aflija, era previsível o que está ocorrendo. Faça o que tiver que ser feito para que sejam sólidos os alicerces do seu reinado. Nada mudará entre nós, a não ser por força da sua vontade. E eu tenho fé que a sua vontade, o seu amor e o seu desejo estão comigo.

Dany"

Jon foi ao corredor e mandou um criado trazer Sor Davos, Sansa, Arya e todos chegaram, ele falou:

—Eu refleti durante esses dias, pesei meus sentimentos, as implicações, enfim, tudo o que envolve o casamento de um rei. Gostaria de pedir a meus primos Bran e Arya, que me concedessem Sansa em casamento, se ela estiver de acordo, é claro. Se ela aceitar, será a rainha do Norte e um dia, possivelmente a rainha ou a mãe do futuro rei dos Sete Reinos.

Sor Davos pareceu aliviado. Arya olhou do rosto dele para o dela. Só Bran ficou impassível. Sansa pareceu desconcertada, olhou fixamente para Jon, como se apenas ele estivesse no aposento.

—Podemos falar em particular?

—Claro, Sansa.

Sor Davos encarregou-se de empurrar a cadeira de rodas de Bran. Arya foi logo atrás.

Quando a porta se fechou, Sansa ficou diante de Jon e fitou-o amorosamente.

—Por que resolveu me pedir, Jon?

Ele esperava a pergunta e já tinha a resposta.

—Você é a melhor escolha. E quis sabiamente o destino que não fossemos próximos em nossa infância.

Sansa assentiu com a cabeça.

—Mas você acha que isso é suficiente? Você gosta ...pelo menos um pouco... de mim?

Ele ficou um pouco perturbado. Mas aproximou-se dela e acariciou-lhe a face e os cabelos com a concha das mãos. Depois puxou-a para si e murmurou:

—Você é uma das minhas pessoas favoritas. Gosto incondicionalmente de você.

Sansa sorriu. Ergueu os olhos claros para ele. Era muito linda. E inocente. E, principalmente, crédula.

—Será que um dia eu serei a sua pessoa favorita? Que seremos como meu pai e minha mãe?

—Claro que sim.

Então ela aproximou o rosto do dele. Acabaram se beijando, primeiro com suavidade, mas depois, por iniciativa da própria Sansa, o beijo se tornou mais profundo. Ele ficou surpreso como seu corpo, esse grande traidor, reagia excitado ao contato com Sansa. Quando ela se afastou, ele viu que ela estava chorando de felicidade. Ele sentiu o ardor passar e uma sensação de culpa, como um punho apertando seu coração, se instalou por um momento. Além de linda, ela estava indo para ele de boa fé. Ele tentaria ser um bom rei e um bom marido. Tentaria não magoá-la ou ofendê-la. Ela já tinha sofrido demais. Se ele agisse com prudência, talvez pudesse dar certo.

—Então você aceita?

—Sim, Jon. Nunca pensei que pudesse me sentir tão segura e feliz.

Ele tornou a abraçá-la e beijou seus cabelos. Saíram de mãos dadas para falar com os outros.