I.

Sansa apareceu no jantar com o semblante tranquilo.

—Fiquei preocupado. Não veio almoçar. -disse Jon com ar contrito.

—Estava cansada depois do passeio. Adormeci. Mas estou muito bem. Gentileza sua se preocupar.

—Tenho medo que você adoeça.

Ela nada disse. Ao final da refeição, Sansa chamou Arya, Brienne e Lyanna Mormont para irem ao seu quarto. Chegando lá, ela abriu um grande baú que cheirava a ervas aromáticas. Tirou um volume envolto em um lençol e estendeu sobre a cama. Dentro estava o vestido que fizera para o casamento, há cinco anos atrás.

—É seu Arya. Não precisa usá-lo no casamento. Mas leve-o no seu enxoval, para a sua vida de mulher casada.

Arya admirou a peça. O vestido requintado combinava com Sansa e não com ela, que era simples. Mas sentia que a irmã estava encarando o passado e deixando para trás o que a incomodava. Ficou comovida com o presente. Sabia com que carinho Sansa fizera aquele vestido.

—É lindo, eu ainda lembro de quando você o fez.

—E você me ajudou.

—Sempre fui péssima costureira.

Todas riram.

—Você aceita? — perguntou Sansa.

—É uma honra, irmã.

Lyanna Mormont ficou feliz em ver Sansa em tão boa disposição. Brienne calculava que desfazer-se daquele precioso vestido era parte do recomeçar. Sentiu orgulho dela.

Quando elas se foram Sansa ficou aliviada. O vestido era mais um elo com o passado. Era preciso desapegar, deixar ir, sem sofrer.

II.

Chegaram a Dragonstone numa manhã ensolarada. Sansa, Arya e dois tripulantes que conduziam o bote, foram recebidos na praia por guardas da rainha. Ficaram um longo tempo aguardando alguém que viesse recebê-las. Depois de quase uma hora de espera desconfortável, viram surgir Lord Tyrion, Sam Tarly e Gendry Waters. Vinha com eles uma mulher belíssima.

Arya parecia estar vendo um fantasma. Lançou-se nos braços de Gendry. Sansa ficou ali parada. Tyrion Lannister tomou a dianteira.

—Lady Sansa e Lady Arya Stark, apresento-lhes Missandei de Nath, conselheira e tradutora da rainha Daenerys Targaryen.

As jovens Stark sorriram, Missandei fez uma leve inclinação de cabeça. Parecia muito altiva.

—E o rei?-perguntou Sansa.

Tyrion sorriu e apontou para o alto.

—Ele e a rainha saíram para dar uma volta. Vamos entrar. O rei do Norte não avisou que viriam.

—Viemos sem avisar-disse Arya com a maior tranquilidade.

—Parabéns pelo noivado, cara Sansa.

—Obrigada, milord.

Seguiram para o castelo. Sansa estava impressionada com aquele lugar.

Foram instaladas em dois apartamentos contíguos. Tinham o teto abobadado e paredes de pedra esculpidas. O lugar devia ser muito frio no inverno. Mas a vista era esplendorosa. Havia um balcão em cada quarto e era possível ver alguns terraços e as enormes rampas. Mais além, o mar.

III.

—Minhas primas? Aqui?

A cara de Jon foi da surpresa ao desagrado. Ele e Dany haviam saído muito cedo nos dragões. Depois de voar por algum tempo, haviam pousado numa enseada deserta de águas límpidas, nadado e feito amor sobre a areia. Sentia-se livre e feliz. Até receber aquela notícia. Tentou não deixar transparecer a sua irritação.

—Onde elas estão?

—Guardando suas coisas. Parecem bem dispostas.-Tyrion era muito esperto e acompanhava discretamente as reações do jovem rei do Norte.

—Que coisas?

—A bagagem, Majestade. Não achou que elas fariam uma viagem deste porte pra dar um recado e voltar no mesmo dia?

Jon fulminou-o pela ironia. Pretendia repreender as duas severamente e também a Sor Davos, quando o encontrasse.

—Sua noiva floresceu. Está ainda mais bela.

Jon estava desnorteado, não sabia o que fazer. Se é que algo poderia ser feito.

Daenerys permaneceu em silêncio, mas não havia perdido uma única palavra.

IV.

As apresentações foram feitas antes do jantar. A rainha foi muito amável. Surgira belissima vestindo uma roupa esvoaçante, muito decotada, em tons de âmbar. Sansa e Arya admiraram o jeito exótico de Daenerys se vestir, muito diferente do recato e da simplicidade das mulheres do Norte. Sua urbanidade era um contraste com Jon, que estava amuado e pouco falou com as primas. Sor Jorah não apareceu. Tyrion Lannister e Sam contribuíram para deixar o ambiente menos tenso, conversando sobre trivialidades. O sorriso benévolo da rainha contrastava como o aspecto sombrio de Jon. Estava louco para falar com Sansa a sós. Aquela iniciativa parecia invasiva e desnecessária. As coisas poderiam dar muito errado se isso se repetisse. Arya estava muito feliz em reencontrar Gendry. Conversaram animadamente, fazendo planos para o dia seguinte.

Quando a refeição acabou, Jon teve o impulso de ir falar com as primas. Mas Daenerys mandou-lhe um olhar eloquente. Ela tinha razão, ele estava com uma cabeça tão quente que seria grosseiro. Sansa de nada sabia. Agira por ímpeto. Uma reação desmedida poderia gerar desconfianças e colocar tudo a perder.

A rainha queixou-se de frio. Jon pegou uma estola prateada e cobriu os ombros de Daenerys. As mãos demoraram-se além do necessário sobre os belos ombros. Um gesto imperceptível, mas Sansa teve uma sensação de estranhamento. O pai fazia isso com a mãe. Era um gesto de cuidado. Ela não sabia que Jon era capaz desse tipo de gesto. Com ela nunca havia feito algo parecido.

Elas sabiam que algo estava errado, só não sabiam dizer o quê. Mas acabaram descobrindo a verdade duas noites depois. Como dissera Bran, era só abrir bem os olhos, a verdade estava gritando diante delas.

As irmãs estavam no balcão do quarto de Arya. Abaixo, havia um pequeno terraço. Jon surgiu ali, e ficou com as mãos apoiadas na amurada. Parecia contemplar o horizonte . O céu estava pejado de estrelas. Um luxuoso céu estrelado que Sansa nunca esqueceria. Jon parecia impaciente, olhava para os lados repetidamente. Sansa sorriu e já ia descer para se juntar a ele quando Arya instintivamente segurou sua mão. De início foi um aperto suave, mas depois se tornou forte. Das sombras emergiu uma cabeleira prateada. Se não fosse aquela raridade da cabeleira platinada dos Targaryen, o belo vestido azul que a rainha usara no jantar seria o suficiente para identificá-la. Ela abraçou Jon por trás. Ele virou-se e beijou-a ardentemente. Suas mãos acariciaram as costas da rainha e se detiveram nas belas nádegas. Depois ele a pegou no colo e eles saíram das vistas. Mas ficava muito claro o que iriam fazer. Sansa quedou-se petrificada.

Arya, sem soltar o braço da irmã, levou-a para a luz. O rosto dela estava molhado de lágrimas. As duas se abraçaram como fazem as irmãs. Sansa começou a soluçar baixinho, até desatar num pranto sentido.