I.

Os dias que se seguiram foram muito peculiares para Sansa. Pela primeira vez em muito tempo ela voltava a ter uma perspectiva positiva de futuro. Era quase como ter de volta a fé na vida que sentira em sua adolescência. Procurava aproveitar ao máximo as oportunidades de ficar ao lado de Jon. A cada momento observava seu semblante para ver se ele estava feliz, se ele modificara a visão que tinha dela e, se algo dentro dele devolvia o que ela sentia. Agora, livre do estigma de um relacionamento incestuoso, Sansa reconhecia que desde há muito ela o amava. Mas amava de uma forma humilde, solitária sem esperança de reciprocidade. Era quase como uma libertação. Não precisava esconder seus sentimentos por vergonha ou medo. Ele a escolhera. Ela seria a companheira de toda a sua vida, a mãe de seus filhos. Nunca mais ela estaria sozinha.

Jon via Sansa trabalhar muito, assumindo as tarefas que outrora haviam sido de Lady Catelyn. Ela velava por todos incansavelmente. Atualizava os livros, administrava os recursos, armazenava víveres. Fizera sempre tudo com boa vontade, mas essa agora dera lugar à mais genuína alegria. Queria ver todos bem: saudáveis, alimentados e felizes. Jon apreciava isso, essa dedicação aos outros, essa diligência de Sansa. Mas muitas vezes percebia que a sua atração natural era por mulheres guerreiras, de ânimo inquebrantável. Assim fora com Ygritte e agora com Dany. Até a sua preferência fraternal por Arya era uma variação dessa inclinação pelo caráter obstinado e independente. Sansa era linda, seria uma mãe devotada, cuidaria de todos, mas nunca empunharia uma espada. Sansa era capaz de luta e vingança, mas essa não lhe parecia a sua real natureza, mas uma imposição do destino, ao qual ela se curvara na maioria das vezes.

II.

Arya acompanhava a interação dos dois muito de perto. E ficou um pouco chocada em ver que a irmã não estava se acostumando com a ideia de ver Jon como um homem, mas que estava aliviada por não ter que mais que fingir que o queria como um irmão. Mas, afinal, Arya sofrera tanto e reconhecia na irmã também sinais de profundo sofrimento moral e físico, que jamais pensou em questioná-la. Não eram irmãos, ela poderia tê-lo. Enfim, Sansa estaria com um homem reto, sincero, exatamente aquilo que o pai sonhara para ela. Arya lembrou da determinação de Sansa ao sentenciar Petyr Baelish. E ela, Arya,o eliminara. Se um Stark dá a sentença, um Stark deve executá-la.

Aquela providencial elucidação do parentesco poupara Sansa de viver frustrada, dominada pela culpa. Ela poderia trazer os sentimentos ocultos na escuridão de seu peito para a luz do mundo. Sua alma não seria uma coisa retorcida, distorcida. Arya aprendera que a irmã também era uma lutadora, só que de uma forma muito mais sutil. Resistir é uma forma de lutar tão legítima quanto qualquer outra. Mas o que intrigava Arya era Jon, que agora focava toda a sua energia numa viagem a Dragonstone, onde se juntaria à tia e a Lord Tyrion.

—Vai viajar quando?

—Parto amanhã cedo.

—Por quanto tempo?

—Não tenho certeza, mas é provável que eu passe o verão todo por lá.

—Tudo isso?- Arya estava surpresa.

—Tenho muitas coisas para acertar.

Houve um silêncio. Arya sentou-se ao lado dele.

—Vai levar quem?

Ele teve uma expressão estranha, um imperceptível laivo de desagrado. Para muitas pessoas talvez passasse despercebido, mas não para Arya.

—Vou com Sam, a tripulação e alguns homens de confiança.

—Tormund?

—Não, ele fica.

—E Sor Davos?

—Fica para tomar conta de todos.

Ela deu uma risada.

—Desde quando preciso que Sor Davos tome conta de mim?

Jon sorriu.

—E vai levar Sansa?-inquiriu Arya.

O sorriso murchou em sua boca. Não esperava que Arya fosse tão direta.

—Não, Sansa é imprescindível em Winterfell.

—Mas não seria bom apresentá-la à rainha, sua tia? É quem lhe resta da parte de seu pai. Seria mostra de grande consideração por Sansa. Ela gostaria...não acha?

Jon contraiu o maxilar. Esforçou-se para que a voz saísse natural, relaxada.

—Elas podem se conhecer no casamento. Podemos fazer a cerimônia na volta. Enquanto isso vocês podem se ocupar dos preparativos.

Arya levantou do banco, ajoelhou-se diante dele, tomou-lhe as mãos entre as suas. Estavam geladas e contraídas.

—Não acha que está desperdiçando tempo precioso? Vocês deveriam estar se acostumando um com o outro, se conhecendo.

—Temos o resto da vida para isso

Arya ficou chocada com a frieza com que isso foi dito. Encarou-o.

—O que você está escondendo de mim, Jon? Você parece outra pessoa.

Ele soltou-se das mãos dela, pôs-se de pé e disse com alguma rispidez antes de se retirar:

—É melhor você ir ajudar a sua irmã.

III.

—Você sabe de alguma coisa, Bran? Sinto que há algo errado.

—Há muita coisa errada, mas cabe a eles resolverem.

—Como Sansa vai resolver alguma coisa que ela ignora? Ela não tem poderes como você. Está em desvantagem.

Bran olhou severamente para Arya.

—Tanto você como ela só precisam olhar com atenção.

Arya ficou aborrecida. Mas resolveu não insistir. Foi ao encontro de Sansa.

IV.

—O verão inteiro em Dragonstone?

Sansa tinha sido pega de surpresa.

—Ele não te disse?

—Não. Só falou que iria viajar. Achei que seria rápido. Não quero...não vou ficar esse tempo todo longe dele.

Ela saiu abruptamente à procura de Jon.

V.

—Por que não me disse?

Jon estava aborrecido. Não esperava que Sansa, tão ponderada e tão contida, criasse problemas.

—Não achei que fosse importante.

Aquilo foi como uma bofetada. Os olhos de Sansa encheram-se de lágrimas. Jon percebeu que ela estava sentida. Aquela angústia lhe fez mal. Abrandou o tom.

—Sansa, se formos nos casar, você não poderá me acompanhar a todos os lugares. Pode haver uma expedição, uma guerra, enfim, coisas das quais mulheres como você não podem participar, sem correrem riscos.

—E como são as mulheres como eu?

Ele notou que ela ficara na defensiva.

—Você é uma dama. Precisa ser protegida.

Sansa levantou a cabeça e respondeu com um tom de voz decepcionado.

—Eu não tenho as habilidades de Arya, não sei lutar como Brienne e não monto um dragão e comando exércitos como a rainha Daenerys. Mas eu não sou a mulher fraca e inútil que você imagina. E digo mais, Cersei Lannister e Oleanna Redwyne, não lutavam com armas, mas conheciam o jogo do poder. Não me subestime.

Ele teve um olhar de profundo desagrado.

—Você se compara a duas serpentes, Sansa.

—A amargura as transformou em serpentes Jon. E Lady Olenna era uma mulher admirável. Sinto muito a falta dela.

Ele parecia impaciente. Sansa notou que ele ansiava se livrar daquele confronto.

—Sabe Jon, essa sua viagem, talvez seja uma boa ideia. Teremos tempo para avaliar se devemos mesmo nos casar. Não sei se sou o que você procura.

Quando ela saiu, Jon se sentiu péssimo. Mas a hipótese de levá-la consigo era disparatada. E dizer que voltaria logo seria uma promessa que ele sabia que não poderia cumprir. Ela teria que se acostumar, ele teria que se acostumar a repartir seu tempo entre Sansa e a família que formaria com ela e a paixão que sentia por Daenerys.

Sansa sentiu a cabeça estourar. Era a enxaqueca que começara a sentir quando viveu sob a pressão dos Lannister e que se agravara com a tortura de Ramsay Bolton. Há muito tempo não tinha uma crise dessas. Ficou estendida na cama, no quarto escuro e fresco. Cochilou. Foi acordada por um barulho. Uma mão pousou em sua testa. Era Lady Brienne.

—O que sente, minha senhora?

—A cabeça, dói muito. Os olhos também. Mas vou melhorar, já tive isso algumas vezes.

Brienne saiu e voltou com Arya.

—Sansa, quer que eu chame o Meistre?-Arya estava aflita por ver a irmã sentindo dor.

—Não, vou ficar bem. Vão jantar.

—Nada disso. Vou trazer o Sam Tarly.

—Sim, Lady Brienne. Ela parece estar com febre.

Jantaram apenas rei e Sor Davos.

—Onde estão os outros?

—Não vêm. Lady Arya e Lady Brienne estão com Lady Sansa, ela está indisposta. O jovem Bran está no quarto.

Jon ficou contrariado. Lembrou-se das conversas que tivera com as primas. Teve um impulso de sair da mesa e ir vê-la, talvez até pedir desculpas pela rudeza. Ser rude não era algo que fizesse parte de Jon. Mas ponderou e continuou o jantar.

—Bem, avise Sam que sairemos cedo.

Ao amanhecer, o Rei do Norte e a sua comitiva partiram para Dragonstone.