I.

Jon deixara um carta para Sansa. Ela e Arya, estavam perplexas por Jon ter partido sem mesmo se despedir, como se estivesse fugindo. Arya tinha certeza de que ele estava realmente fugindo, só não sabia o motivo. Sansa acordara melhor. Pegou o pergaminho que o servo lhe entregara e o abriu. Constava de umas poucas linhas.

"Cara Sansa

Preferi partir sem me despedir para não incomodá-la, pois soube que não se sentia bem. Espero que esteja melhor agora. Vou tratar de nossos interesses junto à rainha. Conto que você e Arya vão cuidando do nosso casamento. Ele será ser realizado assim que eu retornar. Apesar de quaisquer divergências que possamos ter, se o Norte tiver uma rainha, será você e nenhuma outra.

Fique em paz.

Jon"

Sansa passou a mensagem para Arya que conforme lia, ia franzindo o cenho.

—Isso está muito estranho, Sansa. Não me cheira bem.

A irmã abanou a cabeça em sinal de concordância. Aquela não era uma carta escrita por um noivo e, nem mesmo por um primo afetuoso. Era superficial, desafeiçoada. Jon não era assim. Jon era intenso, verdadeiro, de sentimentos profundos. Jon tratava o próprio casamento — com a prima que conhecia desde sempre- como um evento, um negócio. Todos diriam que era um matrimônio de príncipes, mas velho Jon Snow não trataria assim nem mesmo uma noiva desconhecida.

II.

Brienne e Arya estavam esgrimindo no pátio. A técnica de Arya melhorava a cada dia. O pai estaria orgulhoso daquela filha, por mais estranho que fosse. Naquele momento Sansa sentiu uma falta enorme do pai. Gostaria de poder conversar com ele, ouvir seu conselho. Resolveu visitar a cripta. Haviam colocado uma escultura sobre o túmulo do pai. Não se parecia muito com ele. Cerrou os olhos e pediu, não aos deuses, mas aos seus mortos, que lhe ajudassem a encontrar o caminho.

Procurou se ocupar. Acabou cedendo à pressão de Arya e começou a costurar a roupa do casamento. Depois de discutirem várias opções, Arya e Sansa hesitavam entre o um tecido cinza bordado a azul e prata e outro em tons de bronze, trabalhado com fios dourados. Mas consultando Brienne, acabaram se decidindo pelo segundo. Arya era péssima costureira. O que aprendera a fazer melhor era remendar, mas tentava se envolver para animar a irmã. Bran observava as duas trabalharem com uma seriedade quase desaprovadora. Tinha se distanciado, para não interferir.

III.

Três semanas haviam se passado. Os corvos traziam semanalmente mensagens de Jon para Sor Davos e Sansa. No início, ela esperara uma maior assiduidade, mas depois percebeu que seria só aquilo. As mensagens eram curtas, vinham inclusive mescladas de recados a Arya e Tormund. Não eram cartas de amor, ou pelo menos de noivos que caminhavam para uma vida juntos. Havia comentários sobre Tyrion Lannister, Podrick- que retornara ao serviço de seu antigo senhor- e até sobre os dragões. Não havia uma palavra sequer sobre a tia, apenas as habituais lembranças ao final. Até Brienne achava que aquilo não estava bem. Mas todos tinham o cuidado de evitar comentários que gerassem insegurança, principalmente por causa da longa ausência do rei.

Quando o vestido ficou pronto, Sansa experimentou-o. Estava linda. Seria, mais uma vez uma noiva magnífica. Esperava-se apenas um pouco mais de sorte desta vez. Aos poucos Sansa começava a se animar com os preparativos. Cortara e costurara também várias roupas novas de dormir em seda e lã. Fanny, a criada nova estava tecendo uma bela coberta para o leito da câmara principal.

Pensava sempre em Highgarden para se distrair. Lady Olenna nomeara Sansa como sua testamenteira pessoal e logo após o final da guerra, ela havia ido à Campina cumprir o que a velha senhora lhe havia pedido. Ela sempre prezara Sansa pelo carinho que ela tivera com Margaery e Sor Loras. Ela conhecera alguns Tyrell, descendentes do irmão do marido de Lady Olenna e os parentes dela, os Redwyne. Lady Olenna deixara para Sansa algumas das joias que ela pretendia legar inicialmente à neta. Disponibilizara também o usufruto de um palacete onde ela poderia ficar sempre que precisasse ou quisesse ir lá. Sansa ficara encantada com o lugar e gostaria de revê-lo na companhia de Jon, talvez até em viagem oficial. Quem sabe no próximo verão...

O vestido foi guardado na grande arca do quarto de Sansa. Pequena trouxas de tecido com folhas aromáticas foram colocadas também, para perfumar e afastar insetos. A espera parecia insuportável. Sansa geralmente demorava a dormir. Mas naquele dia, fosse pela intensa atividade diurna, fosse pelo cansaço acumulado, ela adormeceu logo e pesadamente.

Teve sonhos estranhos. Usava o vestido de casamento, não o novo, cor de bronze, mas o claro, que usara para casar com Ramsay Bolton. No bosque sagrado, quem a conduzia novamente era Theon Greyjoy, todo de preto com a roupa dos homens da Patrulha da Noite. Ela temia olhar o rosto do noivo, tinha medo que fosse Jeoffrey ou Ramsay, mas quem veio recebê-la foi mesmo Jon, usando um manto com as armas da Casa Stark. Mas subitamente alguém, que ela não conseguiu identificar, tirava-lhe o manto e o lançava fora, cobrindo Jon com um enorme pano de seda bordado com os dragões da Casa Targaryen.

Momentos depois, eles estavam a sós, dentro do quarto nupcial. Jon a beijava com ardor, Sansa sentia todo o corpo tremer de desejo. Mas aí ele a girava, e rasgava as costas de seu vestido, e começava a bater nela. E não era mais Jon, era Ramsay Bolton. Ele a violentava, ele torcia seu braço com brutalidade, mordia a carne macia de sua nuca e de seus ombros. Sansa sabia que Theon estava assistindo tudo. No sonho, ela gritou com tanta força, que ele a largou. Quando ela olhou perto da porta, já não eram mais Ramsay Bolton e Theon, era Jon que ria dela junto com uma mulher de longos cabelos prateados.

Sansa acordou ensopada de suor. A respiração estava ofegante. Tomou a água que ficava ao lado se sua cama. Quando se acalmou, jogou um xale sobre os ombros e foi ao quarto de Bran.

IV.

—O que devo fazer, Bran?

Ele olhou para a irmã com a sua habitual expressão grave.

—Deve fazer o que o seu instinto mandar. Mas lembre-se que agora você tem opções. Não precisa mais que fazer nada que vá contra a sua natureza. Não corre risco de vida, está em sua casa e poderá sempre contar com seus irmãos.

Ela se pôs de pé e apertou levemente o ombro dele.

—Parto hoje para Dragonstone. Vou levar Arya comigo.

Bran a reteve pelo mão, Sansa se inclinou e olhou em seus olhos.

—Lembre-se, Sansa, que ele também é um Targaryen.

Sansa lembrou do sonho e teve dúvidas do que exatamente Bran queria dizer com isso, mas guardou na memória.