Our last hope
3 A morte não me assusta...
Notas iniciais
–Ainda falta muito até Washington? –suspirei sentindo uma vontade inconcebível de fechar a boca da pirralha com um pouco de cola.
–Sim. – Carlie continuou caminhando ao meu lado e de Kate se fascinando com cada flor, com cada pedra, com cada borboleta ou até mesmo com um pequeno esquilo que avistámos.
–Quando vamos chegar a Washington? – rangi meus dentes sentindo a pouca paciência que me restava de esvairecer.
–Carlie, Washington é relativamente longe. Faltam mais ou menos 400 km. – Kate tomou as rédeas da conversa e fiquei grato por aquilo. Estávamos caminhando há mais de uma semana. A bateria da pick up morreu e estávamos caminhando há quase 2 semanas. Estávamos seguindo a rodovia tentando evitar ao máximo os infectados mas acabámos por ter de seguir pela floresta já que a ponte da rodovia estava completamente destruída. Há mais de uma semana que eu não estava conseguindo dormir direito. Apesar de tudo eu não conseguia confiar a 100% em Kate. Não a ponto de a deixar muito tempo fazendo uma vigia noturna sozinha enquanto eu dormia.
–Kate? Como era a sua vida quando o mundo não estava todo fodido? – tentei não deixar parecer um sorriso involuntário que se formava em meus lábios. Era algo tão estranho estar perto de uma criança tão boca suja. Mas o que isso importava nesta realidade?
–Era normal. Eu havia acabado de me formar. Estava procurando um apartamento para me mudar e começar a minha faculdade.- percebi o tom nostálgico na voz de Kate.
–Que faculdade você queria fazer? – Carlie pareceu indiferente ao tom de Kate e prosseguiu com o seu inquérito. Continuei caminhando ao lado delas sempre atento à possibilidade de aparecer algum infectado. Mas ainda assim interessado na conversa de Carlie e Kate.
–Eu queria fazer psicologia. Meio que era uma das minhas paixões.
–O que seria psicologia? – pois é. As crianças de hoje não sabiam coisas que para mim eram banais. A única coisas que aprendiam nos “internatos” era regras de sobrevivência e a viverem nesta nova “sociedade”.
–Um psicólogo é o estudo do comportamento humano. Um psicólogo era alguém que ajudava as pessoas quando elas estavam com problemas com elas mesmas. – Carlie pareceu pensar um pouco no assunto.
–Que tipo de problemas?
–Bom, por exemplo quando alguém estava com uma depressão. – suspirei continuando a caminhar pela floresta.
–Depressão?
–Carlie… Há coisas que eu realmente não sei como explicar. Mas uma depressão é quando você sente que nada mais faz sentido na sua vida. Você perde a vontade de viver, perde todas as perspetivas de seguir em frente…
–Então… Nós estamos todos deprimidos? – Kate ficou visivelmente sem saber o que responder. Carlie estava certa na sua ingenuidade. No fundo aquilo era realmente verdade. Quem tinha perspetivas para um futuro? Esperança? Objetivos? Sonhos? Agora que estava pensando naquilo…
–Não… Quer dizer, sim… Carlie, você faz perguntas difíceis. – Carlie continuou com o seu inquérito por um longo tempo. Parámos um pouco para comer e descansar. Tínhamos de chegar o mais depressa possível a Washington. Estávamos finalmente saindo da floresta nos encaminhando para uma pequena cidade que tinha um placar já meio destruído e com uma péssima aparência onde se podia ler “Bem vindos a Aberdeen”.
Caminhámos pela estrada e avistámos alguns infectados. Logo percebi que eram estaladores. Fiz sinal para Kate e Carlie que de imediato se calaram e começaram a caminhar lentamente olhando para os pés tentando a todo o custo não fazer nenhum barulho. Os estaladores eram cegos mas tinham uma ótima audição. Eu e Kate poderíamos dar conta de alguns estaladores mas tínhamos de poupar nossas munições. Havíamos utilizado mais de metade dos nossos recursos. Achar suplementos o que incluía, munições era algo cada vez mais difícil.
Os estaladores estavam deambulando por toda a pequena cidade. A maioria das casas estava completamente destruída e tinha serias dúvidas de que houvesse algum sobrevivente por aqui. Não havia aqui nenhum campo de refugiados por perto e os caçadores preferem pequenas cidades fechadas e vedadas as mantendo livres de infectados.
Já estava escurecendo e precisávamos de achar um abrigo o mais rápidos possível. Acendi a minha lanterna que estava presa à alça da minha mochila. Atravessámos quase toda a pequena cidade evitando a todo o custo passar por estaladores.
Kate apontou para uma pequena casa que tinha a janela lateral quebrada. Logo fiz sinal para que ela e Carlie me seguissem. Era mais fácil entrar por uma janela quebrada evitando fazer barulho do que ter de arrombar uma porta. Entrei pela janela segurando firmemente a minha faca para o caso de ter de enfrentar algum estalador. Olhei ao redor e logo me deparei com um corpo enforcado já em avançado estado de decomposição.
–Fiquem aqui. Vou checkar a casa. – sussurrei para Kate que assentiu.
Senti as batidas de meu coração de acelerarem à medida que caminhava lentamente pela pequena casa estando limitado à iluminação da pequena lanterna. Entrei em dois quartos que estavam praticamente intactos. Entrei no pequeno banheiro e achei uma caixa de Tylenol e algumas gasas e álcool. Guardei aquilo tudo na minha mochila e prossegui a minha exploração pela casa.
Escutei um enorme estrondo vindo da parte de baixo da casa e um grito estridente de Carlie.
–AHHHHHH! – corri pelas escadas me deparando com Kate esfaqueando um Estalador e Carlie se debatendo com um corredor que a atacava. De onde aquela porcaria havia saído? Me lancei sobre o corredor cravando minha faca em seu pescoço o matando. Carlie estava ofegante e tremendo. Tentei ajudar Kate mas já estava sendo atacado por mais dois corredores que estavam entrando pela janela.
–CARLIE FICA ATRÁS DE MIM! – peguei a minha Glock e comecei a matar os infectados. Escutei os tiros da arma de Kate e tentei recuar.
–EDWARD! SÃO MUITOS! TEMOS DE SAIR DAQUI! – Kate continuou disparando alguns tiros tentando se recompor e afastando.
–MERDA! VAMOS ! – continuei disparando sobre os infectados que continuavam a entrar pela janela.
VAMOS LOGO FODA-SE! – Kate saiu pelas traseiras sendo seguida por Carlie. As segui disparando sobre os estaladores fazendo pontaria para a cabeça os matando. Tranquei a porta e comecei a correr atrás de Kate que saltou a pequena vedação do jardim. Ajudei Carlie a subir mas logo fui agarrado por um infectado que me tentou morder o pescoço. O soquei com a arma logo em seguida enfiando uma bala na cara do zombie.
–VAMOS LOGO EDWARD! – subi a vedação e corri pelas estradas. Estávamos fazendo demasiado barulho à medida que íamos passando pelas ruas os estaladores e corredores iam seguindo nossos sons nos perseguindo. Conseguíamos ter algum avanço já que os infectados praticamente se arrastavam sendo muito mais lentos na perseguição. Precisávamos de sair desta maldita cidade o mais rápido possível e nos livrar dos infectados.
Kate ficou com o pé preso em uma tampa de esgoto que estava semi-quebrada. Escutei um estalo terrível e senti meus ossos gelarem com aquele som. O grito que Kate soltou era agonizante. Minha reacção foi pegar Kate no colo mas ela estava se debatendo com as dores dificultando minha tarefa.
–PARA CARALHO! – a peguei em meus braços e continuei a correr.
–EDWARD! A SAÍDA DA CIDADE ESTÁ VEDADA! – Carlie parecia aflita enquanto corria à minha frente carregando a mochila de Kate. Carlie bateu as mãos no enorme portão de metal que trancava a cidade. Havia uma enorme barra de ferro segurando as portas. Carlie tentou chocalhar o portão para ver se a barra cedia mas aquilo não iria acontecer. Merda, merda, merda. O que iríamos fazer agora? Podíamos tentar subir as grades mas Kate nunca conseguiria subir aquilo com a perna quebrada.
–Edward… Me deixe aqui… — Kate falou baixinho e senti meu coração falhar uma batida. Kate podia ter todos os defeitos do mundo, mas apesar de tudo ela era o que eu mais próximo tinha de uma amiga. Não a iria deixar aqui.
–Cale a merda da boca e me deixe pensar! – corri atrás de Carlie ao lado da vedação tentando achar uma abertura mas não havia nada! Meus braços estavam começando a ficar dormentes por conta de carregar Kate há tanto tempo.
–Está ali uma lata do lixo! Acho que consigo passar por cima da vedação e abrir o portão pelo outro lado. – dominado pela adrenalina pousei Kate no chão e subi para cima da lata do lixo pegando Carlie em meus braços lhe dando impulso para saltar a grade. A pirralha aterrou do outro lado da vedação aterrando com a bunda no chão e logo correu para junto do portão. Peguei Kate em meu colo e logo corri para junto do portão.
–Edward não consigo tirar as barras! Elas estão acorrentadas! – Carlie estava em pânico do outro lado do portão tentando soltar as correntes que seguravam as barras que estavam a impedir o portão.
–Edward… Eu… Me deixe aqui. – Kate agarrou o colarinho da minha camiseta.
–Kate não temos tempo para essas merdas! Os Estaladores não vão demorar a chegar!
–Você sabe bem que eu não vou longe com a perna quebrada. Para além disso… — Kate afastou a sua blusa deixando uma enorme marca de mordida visível em sua clavícula.
–Merda… — senti meu coração se contorcer com aquilo. Ela estava infectada.
–Você sabe o que tem de fazer… — Kate me estendeu a sua arma e senti meu peito se contorcer. Peguei a arma e encostei o cano da arma à cabeça de Kate.
–Eu lamento Kate… — Kate fechou os olhos e uma lágrima escorreu por seu rosto.
–Edward… Se você acha mesmo que me deve alguma coisa… Leve a garota até aos Vagalumes. Ela é a ultima esperança da humanidade Edward. Sei que no fundo você não é esse bloco de gelo que deixa parecer.
–Eu vou tentar… — Kate continuou de olhos fechados.
–EDWARD! OS ESTALADORES! – Carlie estava gritando histericamente do outro lado da vedação não conseguindo perceber o que se estava a passar.
–Obrigado Edward… — senti minhas mãos trémulas, mas ganhei coragem e acabei apertando o gatilho. Senti uma sensação horrível de deja vu e uma lágrima escapar por meus olhos.
–KATE! – Carlie estava gritando e chorando histericamente socando o portão. Deixei o corpo de Kate e comecei a correr para a lata de lixo a subindo e saltando a vedação.
Carlie logo se jogou contra mim socando meu peito gritando comigo.
–SEU FILHO DA PUTA! VOCÊ A MATOU SEU BABACA! – Carlie me socava com força e senti meu corpo em frangalhos escutando o som dos infectados enquanto devoravam o corpo de Kate. Carlie Continuava me socando descarregando toda a sua raiva até que acabou desmoronando chorando encostada ao meu peito. Senti meu corpo gelar sentindo seus pequenos braços me apertando com força e suas lágrimas molhando minha camisa manchada de sangue.
#Flashback on
–Dói muito papai. Meu corpo está queimando. – senti meu coração se rasgar a cada lágrima que corria pelos olhos verdes de minha filha.
–Você v…vai f..ficar bem Sophie. – tentei controlar minhas lágrimas não querendo assustar ainda mais a minha filha.
–Eu não quero ficar má papai. – minha filha apertou minha mão com força se contorcendo de dores.
–Você nunca seria má meu anjo. Eu não vou deixar…
–Promete?
–Eu prometo.
–Te amo papai.
Flashback off
–Carlie… Kate havia sido mordida. Foi ela que me pediu para a matar. – Carlie se agarrou mais ao meu corpo chorando compulsivamente.
–Porque toda a gente de quem eu gosto acaba morrendo? – Carlie se afastou limpando suas lágrimas parecendo envergonhada pelo que havia acontecido.
–Porque é a vida é uma merda. – Carlie me olhou com uma expressão vazia e pegou a mochila de Kate.
–Acho melhor continuarmos… — Carlie começou a caminhar entrando na floresta. Liguei a minha lanterna e caminhei ao lado de Carlie. Peguei o mapa da minha mochila e o analisei.
–Para onde vamos a seguir?
–Nossa próxima paragem é uma pequena cidade chamada Forks. A partir de lá conseguimos ter acesso a uma via rápida que é o caminho mais rápido para chegar a Seattle.
–Ok. – Carlie estava apagada visivelmente abalada com a morte de Kate. Talvez eu a devesse tentar distrair ou algo do tipo.
–Sabe… Eu tenho três regras de sobrevivência.
1-Nunca olhar para trás.
2- Não confiar em estranhos.
3-Nunca jamais em momento algum falar do passado.
Carlie me olhou interrogativamente.
–E?
–Talvez você devesse aprende-las, já que vamos passar algum tempo juntos.
–Edward? – Carlie me olhou interrogativamente.
–Sim?
–Você é péssimo puxando assunto. –rolei os olhos continuando a caminhar pela floresta.
–Edward?
–Sim? – suspirei. Agora já não tinha como fugir de Carlie. Kate já não estava aqui para ficar de papo…
–Você não tem medo de morrer? – olhei para minhas mãos manchadas de sangue e respirei fundo.
–Não. A morte não me assusta. O que me assusta é a forma de morrer. – Carlie pareceu pensar no assunto por um tempo. Percebi que logo viriam mais e mais perguntas às quais eu certamente não iria querer responder.
Seria uma longa viagem.
Fale com o autor