Our History

18 Traído - Parte 2


Notas iniciais
Hey, espero que gostem!

Pela manhã, eu havia chegado a duas conclusões. Uma delas era que oito horas de sono por noite definitivamente não eram necessárias, porque eu duvidava muito de que tivesse dormido oito horas ao todo na semana inteira, e ainda assim eu continuava funcionando – bem, ou algo parecido com isso. A segunda era que não importava quanto se preparasse ou se ensaiasse o que quer que fosse que se quisesse dizer, algumas situações nunca saíam da maneira como tinham sido planejadas.

Os ônibus da excursão organizada pela escola de Kurt à estação de esqui na Áustria não retornariam antes das seis da tarde, mas cheguei ao estacionamento ao menos uma hora antes do horário previsto. Entrei de ré em uma vaga de canto, que ficava um pouco escondida em meio aos galhos de uma árvore. Não demorou muito até que uma procissão de veículos começasse a encher o estacionamento da escola, ocupando os espaços à minha volta. Apesar de o início da noite estar agradavelmente quente, permaneci dentro do carro, ao contrário das dezenas de pais que estavam reunidos por ali em grupos ansiosos, à espera do retorno dos filhos.

Logo depois das seis, os dois ônibus chegaram fazendo uma entrada ruidosa, e então os pais se dispersaram como se fossem formigas. Kurt foi o primeiro a descer do veículo da frente, ligeiramente desgrenhado e parecendo um pouco cansado, o que, após uma jornada de 24 horas, não era de surpreender. Ele correu os olhos pelo estacionamento e viu meu carro sob a copa da árvore. Acenou para mim e sorriu, pegou a prancheta que trazia debaixo do braço e deu início à última tarefa de um líder de excursão: conferir o nome de cada criança à medida que o responsável a levasse, certificando-se de que todas voltassem para casa.

Observei-o trabalhar e tenho que admitir que parecia muito bom no que fazia. Era fácil perceber que Kurt era um dos professores preferidos dos alunos, e muitos dos pais fizeram questão de ir até ele e cumprimentá-lo com um aperto de mão, em agradecimento por ele ter tomado conta de seus bens mais preciosos.

Por fim, Kurt se despediu dos motoristas dos ônibus, pegou sua bolsa de viagem e andou apressado até onde eu estava. Ele abriu a porta do carona, pulou para dentro do carro e me beijou, isso tudo em praticamente um só movimento. Eu não o repeli, mas também não correspondi, o que pelo jeito ele não percebeu. A distração talvez tenha sido influenciada pelo fato de ele estar sem dormir.

— Olá, lindo! – disse, acomodando-se no banco e sorrindo com afeto. Tentei retribuir, mas meu sorriso pareceu falso e forçado.

— Desculpe a demora. Está esperando há muito tempo?

Pelo ônibus, esperara apenas uma hora; pelo confronto que ele nem sabia que teríamos, havia esperado dois dias inteiros.

— Não muito – respondi.

E foi tudo o que eu disse. Liguei o carro, mas antes que pudesse dar a partida, Kurt se inclinou e desligou.

— Ei, por que a pressa? – perguntou, estendendo os braços para mim. – Venha aqui. Houve uma época, não fazia muito tempo, em que essas palavras teriam levado um sorriso afetuoso aos meus lábios, e eu teria ido de bom grado para os braços de Kurt. Tentei evocar aquele sentimento enquanto ele me puxava para mais perto de si e, agora que tínhamos o estacionamento só para nós dois, começava a me beijar de uma maneira que certamente não teria feito se ainda houvesse pais ou alunos por ali.

— Meu Deus, como senti sua falta! – murmurou de encontro aos meus lábios.

Ele tornou a me beijar e felizmente não pareceu notar que eu não lhe dera a resposta óbvia. Por fim, parte da minha reticência deve tê-lo alcançado, porque ele se afastou e perguntou, inseguro:

— Está tudo bem? Você parece um pouco… ausente.

Você não faz ideia!, pensei. Balancei a cabeça e colei outro sorriso falso nos lábios. Não tinha a menor intenção de começar nossa discussão enquanto ainda estivéssemos ao alcance das câmeras de circuito fechado de TV da escola. Eu já tinha escolhido o lugar perfeito, e não era ali.

— Estou cansado – respondi, o que não era mentira. – Não tenho dormido bem ultimamente. Ele me deu um abraço apertado.

— Isso é porque eu não estava ao seu lado – disse ele, baixando a voz enquanto prometia: – Mas consertaremos isso hoje à noite.

Por sorte, minha cabeça estava enterrada na concavidade de seu ombro, de modo que, ao dizer aquilo, Kurt não pôde ver o olhar altamente duvidoso com que recebi suas palavras.

Atencioso, ele perguntou primeiro por minha mãe e meu pai, antes de se lançar às histórias que queria partilhar comigo – vários casos curiosos da viagem. E eram fatos como aquele que tornavam tudo tão impossível de acreditar… Como alguém que obviamente se importava comigo e com todos os aspectos da minha vida podia fazer algo tão inconcebivelmente cruel? Era muito contraditório!

Ele estava muito ocupado contando uma história divertida sobre como ele e dois outros professores tinham saído, em um fim de noite, para uma degustação da cerveja local e acabaram ficando trancados do lado de fora de seus quartos, quando de repente percebeu que eu havia passado da saída que nos levaria ao seu apartamento.

— Ei, Blaine, aquela era a nossa saída!

Tirei os olhos brevemente da estrada ao olhar para ele e explicar:

— Pensei em irmos a um lugar sossegado, antes. Vai ser rápido. Ele franziu a testa, confuso.

— É sossegado, em meu apartamento.

O que eu na verdade queria dizer era que estava pensando em irmos a algum lugar neutro e isolado, algum lugar em que eu pudesse gritar com ele – se as coisas chegassem a esse ponto – sem que alguém chamasse a polícia. Porém, o que respondi foi:

— Sim, eu sei, mas pensei que seria bom se déssemos uma caminhada e quem sabe você esticasse as pernas um pouco, depois de sua longa viagem…

— O que eu gostaria mesmo era de um bom banho quente e uma massagem nas costas – contestou, esperançoso.

Bem, aquilo certamente não aconteceria.

— Vamos dar uma caminhada, Kurt. Não demoraremos – garanti, em um tom que esperava que fosse convidativo.

Ele me observou com atenção antes de tornar a se recostar no banco, com uma expressão de dúvida no olhar, o que significava que ele estava começando a se dar conta de que alguma coisa talvez estivesse errada. Bem-vindo ao clube!

Eu seguia para a Farnham Ravine, um lugar de beleza impressionante, que ficava a uns 25 quilômetros de casa e era muito procurado no verão por turistas e amantes de trilhas. Pinheiros altos guarneciam as bordas e as laterais de um despenhadeiro íngreme e rochoso – em uma de suas primeiras pinturas, minha mãe havia capturado perfeitamente raios de sol deslumbrantes atravessando a rede rendada de seus galhos.

Kurt ficou em silêncio durante quase todo o trajeto e, quando olhei para o banco do passageiro, descobri o porquê: ele havia dormido. Por alguma razão aquilo me deixou muito furioso. Ao chegarmos ao pequeno estacionamento, freei de forma um pouco mais brusca que o necessário, o que fez com que ele acordasse resmungando.

— Chegamos – anunciei, soltando o cinto de segurança e examinando o estacionamento, que, exceto por nosso veículo, estava vazio.

Ótimo. Ninguém por perto que pudesse nos perturbar.

Kurt espiou pelo para-brisa e esfregou os olhos enquanto lia a placa de boas-vindas.

— Farnham Ravine? O que estamos fazendo aqui?

Não respondi, mas saltei do carro e segui na direção de uma placa que encaminhava os visitantes para a trilha. Podia ouvir o ruído dos passos de Kurt no cascalho atrás de mim, mas não desacelerei, forçando-o a correr um instante até me alcançar.

— Blaine? O que isso tudo significa?

Não disse nada, apenas apressei o passo. Estava quase sem fôlego quando enfim me virei para encará-lo. Tínhamos percorrido apenas um pequeno trecho da trilha estreita e irregular; de um dos lados havia um imponente paredão de pinheiros altos e, do outro, a íngreme queda rochosa que levava ao pé do despenhadeiro, uns 30 metros abaixo. Agora que o momento tinha finalmente chegado, eu não sabia como começar, o que era insano, porque havia dias que vinha treinando aquilo.

— Blaine, que diabo está acontecendo? Você está começando a me assustar. Respirei fundo e então soltei o ar lentamente.

— É sobre Tina – comecei, avaliando com cuidado o semblante de Kurt em busca da reação. Não vi nada, a não ser uma perplexidade genuína. Será que eu estava errado em relação a tudo aquilo?

— O que tem ela?

O vento soprava em rajadas ao longo da trilha e balançava delicadamente o cabelo castanho-escuro de meu noivo, expondo sua testa. Parte de mim queria ceder ao impulso de estender a mão e colocá-lo no lugar, ajeitando-o. Outra parte queria socar Kurt. Agarrei minha mão pelo pulso, incerta de poder confiar que ela não acabaria tomando uma daquelas atitudes – ou ambas.

— Ela me disse uma coisa… na noite em que morreu.

— No hospital?

Fiz que não com a cabeça.

— Quando estava deitada na estrada e esperávamos a chegada da ambulância.

Ali estava. A reação que eu estivera procurando tão atentamente: os olhos de Kurt tremularam e pude ver, de modo muito claro, que ele engoliu em seco.

— O que foi que ela disse?

Havia um fio de alguma coisa em seu tom de voz, algo que eu não soube identificar de imediato. Não era culpa, mas certamente era apreensão.

— Ela só me agradeceu… disse que eu tinha perdoado…

— E por que ela fez isso?

— Eu esperava que você pudesse me dizer.

Ele correu a mão pelos cabelos, e o desalinho que causou superou o que o vento fizera.

— Como eu poderia saber? Ela era sua amiga.

— Era mesmo?

Os olhos de Kurt voaram até os meus, e sua expressão revelava assombro e raiva.

— Que tipo de pergunta idiota é essa? É claro que era. Vocês três eram como irmãos. Faziam tudo juntos, contavam tudo uns aos outros. Por que perguntar isso a mim?

— Bem, parece que não contávamos exatamente tudo uns aos outros.

Era alívio aquilo que eu via no rosto de Kurt, porque eu não sabia o que Tina de fato tinha querido dizer? Talvez. Como um guerreiro em plena batalha, continuei a atacar:

— Porque eu acho que Tina estava dormindo com alguém, talvez alguém com quem ela não devesse…

Fiz uma pausa, não para dar um efeito dramático, mas porque era muito difícil e doloroso dizer aquelas palavras.

—… e acho que pode ser você.

Eu imaginara uns cinquenta rumos diferentes para a conversa a partir dali. Mas não havia considerado o que de fato aconteceu. O rosto de Kurt ficou completamente imóvel por um segundo, e então seu semblante antes impassível e atordoado se dissolveu em dor e agonia.

— Ah, meu Deus, Blaine! Eu sinto tanto!

Aquelas palavras me atingiram fisicamente, como um soco, e eu cambaleei para trás, felizmente na direção das árvores, e não da queda íngreme. Tive a impressão que a mão de Kurt, estendida, tentava me segurar, mas então eu me afastei ainda mais, como se fugisse de um monstro.

— É verdade? – perguntei, em choque. – Você está me dizendo que é verdade?

Eu o vi assentir uma única vez, antes que seu rosto se contorcesse, em meio ao desespero. Meus joelhos de repente pareciam fracos, e uma onda de náusea ameaçou estrangular minhas palavras antes que eu pudesse colocá-las para fora.

— Como você pôde fazer isso? Como pôde fazer isso comigo? Com a gente?

Kurt compreendeu que não havia resposta possível àquela acusação. Ele deu um passo instável e vacilante em minha direção, e eu gritei:

— Fique longe! Não chegue perto de mim!

— Blaine.

Meu nome parecia estar sendo arrancado dele.

Balancei a cabeça com violência quando a imagem dos dois – dele e de Tina – juntos, nus, de repente se projetou em meu pensamento, na tela ardente da fúria. Engoli o sabor amargo da bile em minha boca.

— Por quê, Kurt? Por quê? Eu não era bastante para você?

— Não foi isso – protestou ele, entre gemidos.

— Então foi o quê? – gritei. – Você estava entediado? Queria variar? Queria comer coisas diferentes agora?

— Nada. Não foi assim.

Meus olhos queimavam como brasas enquanto eu gritava:

— Então foi como? Porque eu não consigo pensar em uma única coisa que pudesse justificar que você destruísse tudo o que tínhamos só para foder com a minha melhor amiga.

E, ao dizer essas palavras, senti que uma faca me atravessava, não uma vez, mas duas, porque a traição fora dupla. Contrastando com minhas palavras anteriores, a pergunta seguinte emergiu como um sussurro:

— Você estava… você estava apaixonado por ela?

— Não. Não, é claro que não. É você que eu amo. Tina foi… um erro, um erro terrível e estúpido. Não foi nem um caso, foi somente sexo, e foi apenas uma vez.

— Você espera que isso faça com que eu me sinta melhor? – trovejei. – Porque isso só piora tudo! Kurt olhou ao redor, tomado pelo desespero. Compreendera, ainda enquanto as palavras deixavam sua boca, que tinha dito a coisa errada. Francamente, não havia nada que ele pudesse dizer que fosse impedir que o nó em torno de seu pescoço se apertasse cada vez mais.

— Então me conte!

As palavras venenosas foram cuspidas contra ele, como se tivessem vindo de uma serpente.

— O quê? – perguntou ele, impotente. – O que você quer saber?

— Tudo.

Os olhos de Kurt eram poços de tormenta. Ele não tinha para onde ir, nenhuma defesa que pudesse oferecer, nem como evitar minhas perguntas. Mas tentou uma última fuga:

— Para quê, Blaine? Para quê? Não podemos apenas encontrar uma forma de superar isso? Eu fui fraco, fiz uma coisa estúpida e terrível, mas dissecá-la não vai ajudar em nada.

Sua escolha de palavras foi particularmente apropriada, porque revelou o que aquilo estava começando a parecer: a necropsia logo após a morte do nosso relacionamento.

— Diga – exigi.

Ele se afastou de mim ao começar a falar, incapaz de me olhar nos olhos enquanto rasgava minha pele com suas palavras.

— Acho que tudo começou há alguns anos…

— O quê? – gritei, e minha voz lembrou a de uma harpia enlouquecida. – Você dormiu com ela por anos?

— Não, não. Eu disse a você que foi apenas uma vez. O que eu quis dizer foi que começamos a ficar mais próximos há alguns anos. Depois que você foi embora. Depois que rompemos.

Ele me olhou, mas uma raiva amarga me estreitava os olhos; eu mal conseguia me obrigar a encará-lo.

— A princípio, éramos só amigos; saíamos com Rachel e Quinn a maior parte das vezes, apenas pela companhia. Mas à medida que o tempo foi passando…

— Você se interessou por ela – emendei com ressentimento.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Não, não no começo. Ela era apenas Tina, sua amiga. Eu nem conseguia pensar nela de outra maneira. Não conseguia pensar em ninguém. Ainda estava apaixonado por você.

— Estou comovido – falei, minha voz destilando sarcasmo como se fosse veneno.

— O tempo foi passando, e eu comecei a sair com outras pessoas, mas não dava em nada. Por sua causa.

— Você está partindo meu coração – zombei com crueldade.

E então de súbito precisei desviar os olhos, porque a verdade era que aquilo era precisamente o que ele estava fazendo.

— Tina me entendia. Nós nos dávamos bem, tínhamos o mesmo senso de humor, e eu sabia… bem, suspeitava, ao menos…

A voz de Kurt falhou, e ele pareceu constrangido ao concluir:

— Eu sabia que ela gostava de mim. Sabia que ela queria algo mais.

Tina. Seu rosto apareceu diante de mim como uma miragem. Eu a conhecera quase a vida toda; partilhara com ela segredos, esperanças e medos. Confiara nela. E, no entanto, ela quebrara o código sagrado, a regra fundamental da amizade, ao correr atrás do ex do amigo.

— Eu resisti por muito tempo.

— Bem, bravo para você! Ele ignorou a interrupção.

— Mas, por fim, quando parecia que você nunca mais voltaria, as coisas começaram a… acontecer entre a gente.

Não importava quantos eufemismos ele usasse, eu ainda podia ver toda a terrível cena como se estivesse diante de mim.

— Então você ficou com ela quando eu estava em Londres?

— Não. Bem, quase. As coisas poderiam ter acontecido naquela época, eu podia ver… mas então você voltou para casa. E eu assumi o que já sabia, o tempo todo: que era você, que sempre tinha sido você, que eu não poderia amar ninguém mais, porque meu coração era seu.

— Então foi isso: ela só ficou com uma parte diferente da sua anatomia! – emendei. Kurt se encolheu como se tivesse levado um tiro, mas ainda assim prosseguiu:

— Logo que você voltou, imediatamente esfriamos as coisas entre nós. Voltamos a ser amigos, nada mais.

— E você não achou que fosse importante me contar nada disso, quando reatamos? – disparei, com raiva.

— Nós dois concordamos em não contar detalhes de outros namoros. Dissemos que não era preciso…

— Isso porque pensei que fossem estranhos sem nome, não minha melhor amiga.

— E nós não namoramos. Bem, não propriamente. Só trocamos alguns beijos e…

— Chega! – gritei.

Já estava sendo bastante difícil tirar as imagens indesejadas da minha cabeça, então era certo que eu não precisava que ele oferecesse mais detalhes.

Ficamos em silêncio por um bom tempo. Kurt talvez esperasse que eu já tivesse ouvido o suficiente daquela história desagradável, mas eu só estava reunindo forças para ouvi-la até o fim.

— Então quando foi que você a fodeu?

Não sei o que o deixou mais chocado: se a maneira como me expressei, se minha necessidade de saber tudo. Quando ele falou, a voz soou hesitante e, em cada sílaba, culpada.

— Foi no ano passado, depois que você me pediu que arranjasse um encontro de Tina com aquele idiota da escola.

Ele ergueu os olhos para mim, provavelmente esperando confirmação, mas tudo o que conseguiu em resposta foi um olhar de pedra.

— Bem, ela saiu com ele, mas o cara era um babaca. Eu disse a você que não queria fazer aquilo. A sorte de Kurt foi que não havia ali por perto nada que eu pudesse jogar nele, naquele

momento, porque ele tinha chegado perigosamente perto de fazer parecer que eu, de alguma forma, fora em parte responsável pelo que acontecera. Ele se apressou em continuar:

— Bem, a coisa ficou feia de verdade, e ela acabou ligando para mim, e estava mergulhada em um mar de lágrimas.

— Por que ela ligou para você?

— Não sei. Talvez tenha sido porque fui eu que combinei o encontro. Ou porque eu era amigo dela, quem sabe! Não tenho certeza. Você não imagina quantas vezes desejei poder voltar o relógio e dizer a ela que ligasse para outra pessoa.

Eu me preparei para que a avalanche final me enterrasse, enquanto Kurt completava sua história.

— Era tarde. Fui consolá-la, tomamos alguns drinques, e então… bem…

Ele não terminou. Não precisava. Eu tinha entendido.

— Depois, nós nos sentimos péssimos. Ambos sabíamos que aquilo tinha sido errado. Tina sabia o tempo todo que eu amava você, que era com você que eu queria ficar.

Ele me dirigiu um olhar de súplica, mas não teve resposta. Meu coração parecia uma pedra enterrada em meu peito.

— Ela me implorou que a deixasse contar para você. Queria que você soubesse quanto ela estava arrependida.

Fechei os olhos, mas a dor ainda estava lá, atrás de minhas pálpebras cerradas.

— No fim, eu a convenci de que deveria ser eu a contar. Eu é que tinha cometido a maior traição com você. Era minha função implorar a você que me perdoasse.

— E no entanto você não fez isso… – interrompi-o com frieza.

— Não pude – explicou com uma voz sussurrante e entrecortada. – Não podia correr o risco de perder você, não podia me sujeitar à possibilidade de que você me deixasse. Então menti. Para você e para Tina. Afirmei a ela que você tinha dito que a perdoaria, mas com a condição de que vocês duas jamais falassem sobre o assunto. Nunca.

O mistério, portanto, estava finalmente solucionado. Era àquilo que Tina estava se referindo enquanto perdia a vida, na beira da estrada. Por isso ficara agradecida. Olhei para o homem que havia me traído da pior maneira possível, e soube que ele estivera coberto de razão em temer que aquele fosse o fim para nós. Porque certamente teria sido. E agora era.

Ele observou minha reação e soltou um gemido que pareceu ter sido forjado com dor.

— Não! – gritou ao perceber que eu começava a tirar o anel de noivado do dedo. – Não, Blaine, por favor!

Ergui os olhos e vi que Kurt estava chorando. Estranho. Meus olhos estavam secos. Era a inversão da cena de nosso primeiro rompimento.

— Por favor, não! – implorou ele, diminuindo a distância entre nós e tentando me segurar.

Dei um último puxão, e o anel estava fora do meu dedo. Coloquei-o na palma da mão que estendi em direção a Kurt.

— Pegue.

Ele balançou a cabeça, recusando.

— Pegue, Kurt. Eu não o quero. Acabou para nós. Fim.

— Não diga isso – suplicou, e as lágrimas rolavam por seu rosto. – Me dê outra chance. Jamais farei qualquer coisa que magoe você novamente.

A mão que segurava o anel permanecia firme como uma rocha, embora por dentro não houvesse uma só parte minha que não estivesse em farrapos.

— É tarde demais. Você me deu este anel apenas algumas semanas depois de dormir com outra mulher. Disse que eu era a única pessoa no mundo para você, enquanto provavelmente ainda podia se lembrar do cheiro e do gosto dela.

Cheguei a mão que segurava o anel para mais perto dele, enquanto ordenava pela terceira vez:

— Pegue.

— Não quero. Ele é seu.

Olhei nos olhos dele, e alguma coisa dentro de mim perdeu a razão.

— Você não quer? Ele assentiu.

— Bem, nem eu.

E ao dizer aquilo, fechei a mão em torno do anel com o grande diamante e o lancei com toda a minha força no despenhadeiro. Em um arco descendente pelo céu, com as facetas capturando os últimos raios do sol, ele despencou como uma estrela cadente na direção do solo rochoso, muito abaixo de nós. O choque e o horror se estamparam no rosto de Kurt. Para ser sincero, eu mesmo fiquei um tanto horrorizado.

— Você sabe quanto…

Ele se interrompeu, felizmente, ou eu de fato poderia tê-lo empurrado para que ele se juntasse ao maldito anel. Ele deu um passo na direção do precipício, o que era uma burrice, dado meu atual estado de espírito, e olhou solenemente para o vasto e rochoso terreno lá embaixo.

— Agora nunca mais iremos encontrá-lo…

Não achei que uma resposta fosse necessária, mas fiz uma pergunta:

— Você está com o seu telefone?

Ele pareceu atordoado e confuso, mas ainda assim levou a mão ao bolso e pegou o celular. Então o estendeu para mim, quase como eu fizera com o anel.

— Não preciso dele. Você, sim – falei bruscamente.

Ele franziu a testa, ainda não tendo se dado conta das minhas intenções. Olhei-o nos olhos uma última vez:

— Vai precisar chamar um dos seus amigos, ou um táxi, ou quem você bem entender. Ele ainda parecia desnorteado, mesmo quando comecei a me afastar.

— Estou indo embora, Kurt, e não me interessa nem um pouco como você vai sair daqui. Na verdade, nada mais com relação a você vai me interessar, nunca mais.

Notas finais
Ps: Klaine shippers não me matem...