Our History

3 O Resgate


Notas iniciais
Enjoy ;)

Do banco em frente ao meu, que fora lançado para trás e esmagava dolorosamente minhas pernas, ouvi Rachel gemendo e chorando. Tentei estender a mão para ela, mas o banco do motorista me mantinha imobilizada.

— Rach? Você está bem? Está machucada?

Mais choro e um longo gemido, que mais parecia um uivo e que eu por um segundo pensei vir de um animal. Estaria o cervo ali embaixo na vala conosco? Tínhamos batido nele, afinal? Então ouvi a respiração entrecortada pelos gemidos e me dei conta de que era a voz da minha amiga – bem, algo semelhante à sua voz – porque era fácil perceber que ela estava em choque.

— O que aconteceu? Onde você está?

— Estou bem aqui, Rachel. Estou no banco de trás. Você está machucada?

Ela pareceu genuinamente confusa com a pergunta.

— Machucada? Não. Por quê? O que aconteceu?

Eu não era da área médica, mas aquilo era decididamente estado de choque.

— Sofremos um acidente, Rach– falei, surpreso com o fato de a minha voz soar tão calma e controlada. – Havia um animal na estrada e nós… nós batemos.

— Nós batemos?

Fiz uma pausa antes de responder. Eu não sabia o que dizer a ela, porque tinha a sensação de que a histeria estava muito próxima e eu precisa perguntar algo muito, muito importante.

— Rachel. Você está vendo Tina? Ela está aí do seu lado?

Eu senti – mais do que vi – que ela se deslocou no assento, e então ficou de joelhos e se arrastou para o banco do carona, como se para confirmar o que seus olhos lhe diziam. A única coisa boa que veio daí foi saber que Rach ainda podia se mover, portanto era provável que não estivesse gravemente ferida.

— Ela não está aqui! Não está aqui! Aonde ela foi?

Seu rosto de repente surgiu no pequeno espaço entre os dois descansos de cabeça. Os olhos, disparando freneticamente de um lado para outro, vasculharam a traseira do carro.

— Ela está aí atrás com você?

Mordi o lábio e engoli em seco antes de responder, tentando o tempo todo não olhar além de Rachel para o buraco na direção do banco do carona no para-brisa, que parecia coberto com algo escuro e gotejante.

— Acho que ela foi lançada para fora do carro, Rachel. Tina tinha acabado de soltar o cinto de segurança antes da colisão…

— Então ela está bem? Ela não estava no carro quando batemos, então está bem, certo?

Era como falar com uma criança de 5 anos. Era somente choque ou Rachel tinha batido a cabeça? Olhei o para-brisa, ou o que restava dele, inclinado para fora e com um ponto afunilado.

Olhei para o buraco e tentei muito, muito não olhar para o sangue de Tina que ainda escorria em alguns lugares sobre o vidro estilhaçado.

—Rachel, você tem de sair do carro e encontrar Tina.

— Não – protestou minha amiga, balançando a cabeça para enfatizar as palavras. – Não posso. Não devo. Não é bom se mexer depois de um acidente. Como aquela pequena pérola havia permanecido em sua mente, quando todo o bom senso parecia perdido?

— Eu sei, eu sei. Mas você já se mexeu um pouco, e Tina está machucada. Ela voou pelo… – Alguma coisa me impediu de tornar a cena explícita demais, dado o atual estado de Rachel. – Ela não está mais no carro. Então você precisa encontrá-la e verificar se está bem. Pode fazer isso por mim? Rachel virou a cabeça, olhando para mim, e seu rosto era a imagem do terror. Eu também estava apavorado demais, não só pelo que acontecera, mas pelo que poderia estar à sua espera na estrada.

— Você vem também, não vem? Vamos procurar juntos.

Estava claro que ela não vira, ou talvez simplesmente não pudesse compreender, que o banco do motorista esmagava minhas pernas, aprisionando-me no carro.

— Não consigo sair – expliquei e, embora eu pensasse que estava sendo muito corajoso, de repente tive consciência de que durante todo o tempo em que estive falando com ela, lágrimas escorriam por meu rosto. Agora eu podia ouvi-las em minha voz. – O banco está me prendendo aqui, então você tem de fazer isso. Você tem de encontrar Tina e pedir ajuda. Por favor, Rachel.

Alguma coisa em meu desespero atravessou a névoa em que ela parecia estar envolta desde a colisão. Ela assentiu vividamente, como uma criança. Olhei para as portas dianteiras do veículo e vi que, como as traseiras, estavam lacradas pelas paredes da vala. Só havia uma forma de entrar e sair do carro.

— Você tem que passar pelo para-brisa e depois subir pelo capô até conseguir agarrar a vegetação das laterais do barranco. Consegue fazer isso?

Era muito pedir aquilo, era muito a fazer, mas até que alguma ajuda chegasse até nós, Rachel era nossa única esperança. Ela ficou muda e olhou fixamente para o buraco no para-brisa, então pôs as mãos no painel para tomar impulso.

— Espere! – ordenei, pegando, em meio aos destroços espalhados no banco traseiro, o casaco que Amy jogara ali mais cedo. – Ponha isto em volta do buraco antes de passar, ou vai se cortar toda.

Exatamente como deve ter acontecido com Amy, uma voz horrível entoou em minha cabeça. Pare! Eu não podia pensar assim. Não podia deixar o pânico assumir o controle.

Rachel conseguiu sair do carro e subir pelo barranco com extraordinária facilidade. Sem dizer mais nenhuma palavra, ela fez tudo o que eu pedira. Conseguiu subir da ponta do capô para o barranco segurando-se em uma raiz de árvore exposta. E então se foi. A espera pareceu interminável. Eu sabia quanto à tarefa que lhe dera era difícil.

A luz do farol iluminava inutilmente apenas o céu, e a lua estava coberta por nuvens que corriam. Lá fora estava um breu, e Tina podia estar em qualquer lugar da estrada. Rachel poderia passar ao lado dela e nunca saber. Eu a ouvi chamar o nome de Tina, o som tornando-se gradativamente mais fraco à medida que ela se afastava do carro. Tina estava inconsciente, eu disse a mim mesmo. Tina não podia responder porque estava inconsciente. Qualquer outra razão para a falta de resposta era inimaginável.

Enquanto isso, eu tentava me soltar. Colocava as mãos na parte posterior do banco e empurrava com toda a força que restava em meu corpo. Em vão. O assento não cedia e eu não conseguia libertar minhas pernas. Com o esforço, comecei a me sentir enjoada, e o ferimento na cabeça, no qual eu vinha me esforçando ao máximo para não pensar, começou a sangrar mais. Agora o sangue escorria pela testa e caía em meus olhos.

Fazia um ou dois minutos que eu não ouvia a voz de Rachel.

— Rachel, você está bem? Você a encontrou? – gritei.

Nenhuma resposta. E eu só podia rezar que uma Rachel confusa e em choque não houvesse deixado a estrada e entrado em um campo vizinho, e agora estivesse distante demais para me ouvir.

Então um grito de terror rasgou a noite, um único nome anunciado, alto e estridente. Rachel havia encontrado Tina.

Não sei o que teríamos feito se ele não houvesse surgido nesse momento. Eu certamente não ouvira a aproximação de um veículo, mas de repente a noite se encheu de sons: Rachel gritando, depois pneus derrapando. Tentei imaginar o que estava acontecendo na estrada: Rachel, ajoelhada ao lado do corpo caído de Tina, e então as duas capturadas como coelhos na luz dos faróis, quando um carro fez a curva, indo direto para cima delas.

Felizmente, não foi assim que aconteceu.

Ouvi uma porta de carro se abrindo e uma voz profunda falando rapidamente algo que não consegui distinguir, e então a resposta (provavelmente incoerente) de Rachel. Mas pelo menos havia alguém ali agora, alguém que poderia ajudar. Tentei ouvir mais, no entanto um som irritante vindo da frente do veículo chamou minha atenção. Na verdade, o barulho estava ali havia vários minutos, eu me dei conta: era uma espécie de crepitar intermitente. Inclinei-me para um lado, até onde minhas pernas presas permitiam, e esperei que ele se repetisse. Só tive de esperar alguns segundos até ver um pequeno brilho amarelo cintilando como um vagalume aprisionado atrás do

painel do carro. Mas nenhum vagalume de que eu já tivesse ouvido falar produzia aquele estranho ruído elétrico. Recuei no assento, os olhos fixos no painel como se ele fosse uma cobra enrodilhada.

Era frustrante não saber o que estava acontecendo na estrada, mas eu não queria distrair o recém-chegado com a minha situação. O caso de Tina, e em menor grau o de Rachel, eram mais urgentes naquele momento. O ruído crepitante e os estalos retornaram, dessa vez acompanhados de uma faísca mais forte.

Só me restava torcer para que a pessoa que havia chegado já tivesse telefonado pedindo ajuda, porquê meu telefone estava com o de Rachel em nossas bolsas, no porta-malas do carro. E o de Tina… bem, eu imaginava que, naquele momento, Tina não estaria em condições de nos dizer onde seu telefone estava. Ou nunca mais.

— Cale a boca! – gritei para aquela voz maligna, sem perceber que dissera as palavras em voz alta no exato momento em que um rosto surgiu no meu campo de visão.

Alguém me olhava da borda do barranco.

— Olá.

A voz pertencia a um homem que aparentava pouco mais de 25 anos, de cabelos loiros e levemente ondulados e um rosto tão calmo que contradizia a gravidade da nossa situação. Ele tinha de estar preocupado por de repente ter três vítimas de um acidente sob sua responsabilidade, mas ninguém diria isso pelo tom de sua voz ou pelo sorriso gentil que abriu enquanto corria os olhos pelo carro e por mim, avaliando a situação.

— Oi – respondi.

Ele ergueu a mão e correu o feixe de uma lanterna potente pelo interior do carro e então por mim, da cabeça até as pernas, que desapareciam de vista, na altura do joelho, atrás do banco desmoronado. Ele franziu um pouco a testa quando viu o ferimento em minha cabeça, que continuava a sangrar, e então a franziu mais ainda quando viu minhas pernas.

— Você está machucado.

Foi uma afirmação, não uma pergunta. Levei a mão à testa enquanto balançava a cabeça em negativa.

— Não é nada. E minhas amigas? Você telefonou pedindo ajuda? Uma delas atravessou o parabrisa. Como ela está? Está tudo bem com ela? E Rachel… Acho que ela está em choque.

— Elas estão bem – garantiu ele, em um tom tranquilizador, e eu não contestei a mentira óbvia. – O socorro está a caminho, logo estará aqui. E sua amiga… Rachel… está cuidando da outra garota…

—Tina– completei, sabendo muito bem que Rachel no momento não estava em condições de cuidar de ninguém. Por que ele não estava ajudando Tina?

— Por favor, volte para lá e cuide delas – pedi quando o vi examinar a lateral íngreme do barranco e o ângulo do carro e percebi sua intenção. – Vou ficar bem até que mais alguém chegue.

Ele sorriu para mim ao pular da borda do barranco e aterrissar suavemente no capô do automóvel. Ainda assim, o metal esmagado gemeu ruidosamente sob seu peso. Era difícil dizer, do ângulo em que eu estava, mas devia ser alto, ter bem mais que 1.80m, e parecia bem forte.

— Creio que não. Acho que deveríamos tentar tirar você daqui imediatamente. Por falar nisso, meu nome é Sam– completou ele, e foi só então que percebi o leve sotaque americano.

—Blaine– respondi, e então por nenhuma boa razão que possa me ocorrer, acrescentei: – Vou me casar daqui a duas semanas.

— Parabéns – replicou ele, enrolando as mãos no casaco de Amy para protegê-las.

— Estávamos voltando da minha despedida de solteiro.

Ele fez um breve aceno com a cabeça, com a atenção concentrada no para-brisa.

— Cubra os olhos.

Olhei para ele sem entender. Talvez Rachel não fosse a única em estado de choque.

— Preciso bater no vidro para tirá-lo e poder entrar aí e ajudá-lo a sair.

— Não vai adiantar. Minhas pernas estão presas sob o banco do motorista. Já tentei, mas não consigo sair.

Foi então que todo o painel de instrumentos se iluminou com uma imensa centelha. A testa de Sam se franziu de preocupação, mas o sorriso tranquilizador não deixou seu rosto nem por um segundo.

— Vamos tentar, certo? Cubra os olhos.

Fiz o que ele mandou, portanto não sei dizer exatamente o que ele fez em seguida, mas ouvi várias pancadas, um ou dois resmungos e então, de repente, eu me vi sob uma chuva de estilhaços do para-brisa quebrado. Os fragmentos caíram por cima de mim e à minha volta como granizo, prendendo-se no meu cabelo, aterrissando em meu rosto e até mesmo grudando no ferimento ensanguentado na minha testa. Quando fiz menção de tirar os pedaços que caíram no meu rosto, fui detido por seu grito de aviso.

— Não toque, só balance a cabeça.

Fiz como ele sugeriu, e a maior parte dos cacos caiu. Ele me deu outro sorriso.

— Não posso deixar você arruinar esse rosto bonito para as fotos do casamento – disse ele, deslizando pela abertura onde antes ficava o para-brisa.

No momento em que entrou no carro, sua atitude mudou. Ele se imobilizou, agachado no banco do carona, e respirou fundo. Eu não conseguia entender o que o preocupava, até imitá-lo. Gasolina. Um cheiro muito forte de gasolina. Por que eu não o sentira antes? Talvez porque estivesse muito concentrado em fazer com que Rachel fosse atrás de Tina. Porém, agora, o cheiro se espalhava por toda parte. O carro estava embebido em vapores pungentes. Mais crepitações no painel fizeram com que nos voltássemos naquela direção.

Então nos entreolhamos com expressões idênticas.

— Vamos tirar você daqui. Balancei a cabeça, zangado.

— Vá embora. Você não vai conseguir fazer nada, e se essa coisa pegar fogo, não há a menor necessidade de estarmos os dois aqui.

Ele continuou como se eu não tivesse falado. Levou a mão ao lado do banco e soltou a alavanca para reclinar o assento do passageiro, empurrando-o para trás até onde era possível. Logo depois, ele estava ao meu lado no que restara do banco traseiro. Era um homem grande, e pareceu preencher completamente o espaço. Seu rosto estava a centímetros do meu.

— Oi – disse ele sorrindo, como se não estivéssemos em meio a uma situação de extremo perigo.

Agarrei seu braço com uma tensão que eu simplesmente não via nele.

— Você tem que sair daqui. Agora!

Ele se limitou a balançar a cabeça, como se eu tivesse dito algo totalmente ridículo.

— Você primeiro, depois eu.

Quem era ele, esse americano que estava arriscando a própria vida para salvar a minha?

— Agora me diga – continuou ele em um tom de voz que parecia casual, como se estivéssemos conversando em um jantar. – Você está machucado em algum outro lugar, além da cabeça? Consegue sentir as pernas, mexer os pés?

Girei os tornozelos o máximo que pude e me encolhi um pouco, por causa da dor.

— Não. Está tudo bem – informei. Isso me angariou outro sorriso.

— Vamos só dar uma olhada neste banco, certo? – disse Sam, inclinando-se para a frente e por cima de mim para examiná-lo de perto, experimentando empurrá-lo em vários pontos ao longo da estrutura traseira.

Ele repetiu o gesto algumas vezes, mais energicamente, grunhindo com o esforço. Meu campo de visão e meu colo estavam inteiramente ocupados por esse generoso (mas claramente equivocado) herói, que fazia do meu resgate sua missão atual.

— Desculpe, mas terei de ser um pouco íntimo aqui – explicou ele.

Em seguida pôs as mãos em minhas pernas e as deslizou por ali até que desapareceram debaixo do banco, presumivelmente tentando encontrar uma forma de me soltar.

Havia um ar de descontração em sua exploração, embora eu soubesse que um relógio mortal estava em funcionamento.

— Peço desculpas por isso – tornou ele a dizer, endireitando-se até que estivesse mais uma vez ao meu lado. – Sei quanto os britânicos prezam seu espaço pessoal.

Como ele podia soar tão despreocupado numa hora como aquela? De repente um leve ruído, sibilante e abafado, veio da parte dianteira do carro, seguido por uma fina trilha sinuosa de fumaça branca, que começava a escapar de uma das aberturas de ventilação. Sam olhou para mim, o humor desaparecendo. Pela primeira vez, mostrou-se preocupado.

— Por favor, vá.

Ele negou com a cabeça.

— Acho que eu talvez consiga empurrar o banco com força suficiente para criar espaço para você liberar suas pernas.

Ele era forte. Os antebraços eram musculosos e, com as mangas da camisa enroladas até o cotovelo, eu via seus bíceps forçando o tecido quando ele firmou os braços e empurrou a estrutura do banco. Toda a traseira do carro pareceu vibrar com a força que ele estava exercendo. De repente, um ruído abafado de algo se rasgando interrompeu o grunhido baixo que Sam emitia com o esforço. E então seu braço desapareceu por um buraco aberto no tecido na parte posterior do banco.

— Merda! Isso doeu! – exclamou ele. – Perdão – desculpou-se, sem graça.

Ele retirou o braço do buraco, e ele estava coberto do sangue que fluía de um talho longo e profundo que corria ao longo da parte interna do antebraço. O metal de sustentação do banco o havia cortado cruelmente.

— Pelo amor de Deus, desista! Agora é você que está machucado.

Ele olhou para o braço que sangrava.

— O quê? Isto? Já me cortei de maneira mais séria do que isso fazendo a barba.

— Você depila os braços?

Ele deu um rápido sorriso, antes de voltar a atenção para o assento.

—Sam, por favor! – implorei, usando seu nome pela primeira vez. – Os bombeiros estão a caminho. Eles terão todos os equipamentos apropriados para cortar essas coisas e me tirar daqui, essas ferramentas hidráulicas…

— Desencarceradores.

— Então. Posso esperar até que cheguem. Ficarei bem, desde que a gasolina não vaze para o interior do carro e inflame.

Ele me dirigiu um olhar intenso, e me ocorreu que eu talvez devesse ter prestado mais atenção às aulas de química da escola, no fim das contas. Aparentemente, o que eu pensava saber sobre combustíveis estava completa e absolutamente errado.

— O que foi? Não é isso?

— Não é só a gasolina que pode pegar fogo, Blaine. Os gases também podem.

Eu não precisava que a realidade fosse revelada com mais clareza. Os gases liberados pelo carro ficavam mais concentrados a cada minuto.

Fiz um gesto com a cabeça na direção do assento e pedi:

— Tente de novo.

Ele virou o corpo ligeiramente, firmou as costas na lateral oposta do carro e apoiou um pé calçado com uma bota sólida de cada lado da estrutura do banco.

Qualquer pessoa poderia estar dirigindo o carro que parou para vir em nosso socorro. Poderia ter sido uma mulher, um homem fracote e magricela ou mesmo um covarde.

Sou eternamente grato pelo fato de, em vez de um desses, ter sido um homem forte e atlético, com um complexo de herói curiosamente superdesenvolvido. Sabia que ia dar certo, mesmo antes que o banco começasse a se mover. Sabia que aquele nível de determinação férrea, a careta de concentração e o esforço extraordinário teriam êxito. Ele não aceitaria o contrário. O assento não cedeu muita coisa, mas ao primeiro gemido de protesto do metal, eu me preparei.

Então, quando finalmente senti o menor dos movimentos e o alívio da pressão, puxei as pernas, e de repente estava livre. Incrivelmente, afora alguns cortes e hematomas feios, minhas pernas estavam intactas.

Quase como se o automóvel, sedento do meu sangue, soubesse que eu estava prestes a escapar, uma chuva de faíscas voou de cada uma das aberturas de ventilação no painel.

A menor e mais letal exibição de fogos de artifício.

— Vá – instruiu ele, agarrando meu braço e guiando-me sobre o assento reclinado na direção da frente do carro.

Eu passei pela abertura no para-brisa e me arrastei pela escorregadia inclinação do capô. Sam vinha logo atrás de mim.

— A gasolina vai explodir. Fique de pé na borda do capô, que eu empurro você.

— Hã? Quase não entendo o que você diz, com esse seu sotaque…

— Ah! Você é uma desses homens complicados, né?

Ele me empurrou para o alto do carro com uma das mãos apoiada desavergonhadamente no meu traseiro e me içou até que eu ficasse de pé no para-choque. Então teve de segurar e me firmar quando tentei me apoiar em minhas pernas, que formigavam após toda aquela provação. Ergui os olhos para as paredes íngremes da vala, preocupado. Não havia me dado conta de quanto era profunda: a estrada devia estar pelo menos 3 metros acima da minha cabeça. Como Rachel tinha conseguido subir com tanta facilidade?

— Acho que não vou conseguir…

Ele, que já passara na minha frente, ajoelhou-se aos meus pés, como se estivesse prestes a me propor casamento.

— Fique de pé nos meus ombros.

— Sou pesado demais.

Do painel do carro não paravam de sair faíscas. Não tínhamos muito tempo.

— Você está querendo elogios? Porque sinceramente não acho que este seja o momento. Agora, suba aí.

Eu segurei as mãos que ele esticara em minha direção, buscando equilibrar-me, e pus os pés descalços em seus ombros largos e firmes. Ele ficou de pé tão facilmente que quem visse pensaria que ele fazia aquilo todos os dias. Tentei ajudar, agarrando-me a quaisquer raízes ou vegetação que minha mão encontrasse, e de repente o topo da vala surgiu diante dos meus olhos.

Eu estava quase lá.

Olhei para o homem que literalmente me carregava nas costas:

— E você? Consegue subir?

— Não se preocupe comigo. Estarei logo atrás de você.

Eu ainda me arrastava para longe da vala, de quatro, quando as faíscas e os gases tiveram seu primeiro e fatal encontro. O carro de Rachel explodiu como se fosse uma bomba.

Notas finais
Ps: Não sei se perceberam nesse capítulo, mas Blaine é britânico. Em breve sai o próximo...