Our History
4 O Que Aconteceu Depois...
Notas iniciais
A explosão me lançou de cara na estrada, e em seu rastro senti uma onda quente subir por meu corpo. Olhei para trás, por cima do ombro, antes de me pôr de quatro novamente. Enxergar, agora, por certo não seria um problema: o fogo que consumia o carro iluminava a área ao redor
quase como se fosse de dia. Senti alguém segurar meu cotovelo e me ajudar a ficar de pé.
— Você está bem? Está machucado?
Balancei a cabeça, ainda um tanto desorientado, enquanto me perguntava por que tudo estava soando tão errado, quando me dei conta de que a explosão me deixara com um zumbido nos ouvidos. Agradecido, ergui os olhos para encarar o homem alto – eu acertara – parado à minha frente. Se não fosse por ele, a explosão teria me matado!
— Estou bem. Obrigada por… por tudo.
Ele deu de ombros, como se o que tivesse feito não fosse nada de mais, o que ambos sabíamos que não era verdade.
— Tina e Rachel. Onde elas estão?
Em resposta, Sam segurou meus ombros e me fez dar meia-volta, virando-me para a direção de onde nosso carro viera, e lá, cerca de 50 metros à nossa frente, pude distinguir duas silhuetas nas sombras. Eu não tinha percebido que, após o impacto, o carro ainda percorrera uma distância tão grande. Sam me estendeu a mão, e eu a segurei sem nem pensar no que fazia.
— Vamos.
A distância, eu pensara que Rachel estivesse rezando, ajoelhada ao lado de Tina no acostamento. Quando nos aproximamos, pude ver que não era esse o caso: na verdade, ela se balançava para a frente e para trás, de joelhos, e gemia. Percorremos os últimos metros correndo, mas, quando estávamos bem perto do ponto para onde Tina fora arremessada, Sam me puxou, obrigando-me a parar, com um aviso terrível.
—Blaine, você precisa saber, os ferimentos de Tina são muito… graves.
Assenti, ainda desnorteado, e então me soltei de suas mãos e continuei sozinho o restante do percurso.
Sabia que ele estava tentando me preparar, entendi sua intenção. Mas nem precisava ter se dado ao trabalho. Nada poderia ter me preparado para o que vi quando olhei além de Rachel para a terceira integrante de nosso trio. De repente me senti muito, muito agradecida pela iluminação ruim, porque o que eu podia ver fez meu coração dar uma guinada e meu estômago revirar. O rosto de Tina, seu lindo rosto!
Caí de joelhos ao lado de Rachel, agarrando sua mão e apertando-a com força. Acho que ela nem mesmo percebeu que eu estava ali, mas, de qualquer forma, não era Rachel quem precisava de mim naquele momento.
Os ferimentos de Tina eram tão graves que eu nem teria conseguido reconhecê-la. Eu quis fugir dali, mas não pude; quis tirar minha amiga daquele asfalto e embalá-la junto a mim, mas não me atrevi. Tentei abafar o grito de desespero que parecia determinado a forçar caminho por entre meus lábios, sobretudo quando percebi que ela não estava inconsciente. Lenta e dolorosamente, Tina virou o rosto em minha direção.
—B-B-Blaine?
Assenti com um gesto vigoroso, incapaz de confiar em minha voz enquanto lágrimas quentes rolavam por meu rosto cortado como se fossem ferrões. Então percebi que os olhos de Tina, seus lindos olhos pretos sempre sorridentes, mais pareciam poças de sangue, e, inchados, estavam praticamente fechados, de modo que ela provavelmente não podia me ver.
— Estou aqui, Tina, estou aqui.
Busquei sua mão, hesitando ao ver os cortes e as escoriações que cobriam quase cada centímetro de pele visível. Peguei-a, mesmo assim: Tina precisava do contato.
— Não tente falar – adverti, vendo seus lábios cortados e intumescidos lutarem para formar palavras.
— Você… bem?
Foi o que me fez desabar. Ela estava ali, estirada naquela estrada fria, com ferimentos tão horríveis que era impossível imaginar quanto tempo levaria para que se recuperasse, e a primeira coisa que me perguntava era se eu estava bem.
— Estou bem, muito bem.
Ela assentiu levemente com a cabeça acomodada em um apoio improvisado com uma jaqueta de couro dobrada – de Sam, imaginei. A essa altura, ele já se juntara a nós, indo até o outro lado de Tina e agachando-se perto de sua cabeça.
— Você está bem? – perguntou ele, sorrindo, e reconheci o tom que usara comigo no carro. Sam se aproximou mais de Tina e pousou a mão de forma confortadora em seu ombro.
— O socorro está a caminho – completou ele.
O rosto de Tina se contorceu enquanto um espasmo de dor parecia dilacerá-la, e eu olhei para Sam, desesperado.
— Eles disseram em quanto tempo? Ela precisa ir para um hospital.
Havia em seus olhos uma expressão que não me agradou quando Sam respondeu solenemente:
— Eu sei. – Ele disse aquilo e se pôs de pé, pegando o celular. – Vou ligar novamente.
Antes, porém, que discasse o primeiro dígito, o som distante de uma sirene atravessou o ar gelado da noite de março.
Os olhos de Tina haviam se fechado, então toquei delicadamente seu rosto.
— Ouça, Tina, eles estão chegando. Consegue ouvi-los? Estão quase aqui. Aguente firme.
— Machuquei…
Esse tinha de ser o maior eufemismo do mundo. Eu não poderia ter nem mesmo uma vaga noção do nível de dor que ela devia estar experimentando.
— Eu sei – murmurei –, mas eles vão lhe dar alguma coisa para aliviar a dor. Só mais um ou dois minutos de espera.
Eu desejara consolá-la e confortá-la com minhas palavras, mas a resposta que dei pareceu agitá-la ainda mais. Tina balançou a cabeça com violência de um lado para outro e abriu a boca em um gemido de desespero. E ao olhar de novo para ela, tentei não deixar transparecer em meu rosto o fato de que quase todos os seus dentes estavam quebrados.
— Machuquei… você.
Ela estava confusa, e com razão.
— Não,Tina. Eu estou bem.
Olhei para Sam, e em seu rosto vi a compaixão pura e simples.
— Este generoso americano me tirou do carro. Não estou machucada. Não mesmo.
Não como você, concluí em minha mente. Mas também essas palavras não conseguiram deixá-la satisfeita.
— Amigo… você perdoou. Sinto mui… muito.
Ela estava angustiada e falava coisas desconexas, então fiz a única coisa que me ocorreu: fingi que seus comentários faziam sentido. Eu era boa naquilo; tinha bastante prática.
— Claro, Tina. Não se preocupe, está tudo bem. Descanse agora. Por favor, descanse.
Ela assentiu levemente uma última vez, como se um fardo pesado tivesse acabado de sair de seus ombros, e posso jurar que senti parte da tensão deixar a mão ensanguentada que eu ainda segurava na minha.
—-
Eles mandaram praticamente todo tipo de veículo de emergência com que contavam. Chegaram em uma carreata de sirenes estridentes: um caminhão do corpo de bombeiros, duas ambulâncias e várias viaturas policiais. O alívio trazido pelo fato de que profissionais agora podiam entrar em ação e assumir o comando exerceu em mim efeito contrário ao que eu esperava. Quando me levantei e saí do caminho de dois paramédicos que haviam rapidamente ladeado Tina, senti os joelhos fraquejarem. Sam se aproximou de mim no mesmo instante e me envolveu com seus braços fortes, suportando todo o meu peso. Comecei a tremer violentamente, como alguém que sofresse os espasmos provocados por uma febre muito alta. Ele me apertou contra seu peito, procurando me aquecer com o calor do próprio corpo. A essa altura, meus dentes haviam começado a bater.
— É só o choque.
Ele tentou me tranquilizar enquanto acariciava meu cabelo, deslizando a mão do alto de minha cabeça até a nuca, como se eu fosse um animal assustado. O que não estava muito longe da realidade.
Pareceu durar uma vida o atendimento que prestaram a Tina até que conseguissem deixá-la em uma condição estável o suficiente para que fosse transportada. E quanto mais demorava, mais agitado eu ficava.
— Por que eles simplesmente não a colocam na porcaria da ambulância e vão de uma vez? – perguntei, e era provável que minha voz não tivesse soado baixa o bastante para não ser ouvida pelos paramédicos, que trabalhavam de forma intensiva.
Vi o olhar de desculpas que Sam dirigiu aos dois profissionais, antes de me conduzir gentilmente para longe dali.
— Vamos só dar espaço para que eles trabalhem, certo? – sugeriu ele, com tranquilidade.
Para ele, podia ser fácil falar com tamanha calma. Afinal, nem nos conhecia. Ele não tinha nenhum envolvimento emocional com o que resultasse daquela noite conosco. Absolutamente nada.
Sam me conduziu até seu carro, que ele havia parado no meio de uma das pistas da estrada. Eu não queria entrar no veículo, embora ainda estivesse tremendo bastante. Se Tina estava do lado de fora, no frio, então eu deveria ficar também. De certo modo, Sam pareceu compreender essa lógica distorcida e ficou ao meu lado, recostando-se no capô. Observamos os paramédicos em ação, enquanto o soro era administrado no braço de Tina, um colar cervical era colocado para imobilizar seu pescoço e então finalmente uma maca de rodas era tirada da traseira da ambulância.
Sem pedir permissão, Sam me abraçou e eu, agradecido, me permiti ficar colada à lateral do corpo de um estranho.
— Eu lhe daria minha jaqueta… mas precisaram dela antes.
Assenti, mas na verdade prestava atenção era em Rachel, que naquele momento estava aos cuidados de um dos paramédicos da segunda ambulância e de dois policiais. Quando vi que um dos policiais pegara um bafômetro para que ela fosse testada, afastei-me depressa do carro. Não havia nenhuma necessidade daquilo! Eu era testemunha de que ela estava completamente sóbria no momento do acidente! Não havia nenhuma hipótese de ter sido ela a responsável por tudo aquilo. Se tinham de culpar alguém, que fosse o maldito cervo! Somente a mão moderadora de Sam impediu que eu partisse para a briga, exaltado.
— Só estão seguindo o procedimento padrão. Não é uma acusação. Não parta para o ataque como um pugilista.
Ele tinha razão. Eu sabia que sim. E, em circunstâncias normais, não me ocorreria nem em um milhão de anos ser tão agressivo. Tornei a me acomodar na frente do carro dele com óbvia relutância, ainda inconformado.
— Você é sempre assim ou só a peguei em uma noite ruim?
Dei uma risadinha sem humor.
— Uma das minhas melhores amigas está prestes a ser colocada numa maca e levada em uma ambulância, a outra parece prestes a ser levada em uma radiopatrulha. Já tive noites melhores.
— Radiopatrulha, é? Você deve ser fã de filmes antigos. Não é um termo que se espere ouvir de alguém jovem como você.
— Não sou assim tão jovem. Tenho 27 anos – respondi automaticamente, com minha atenção ainda toda voltada para Rachel.
Olhei para meu salvador e esbocei um sorriso. Reconhecia suas valorosas tentativas de me distrair da tragédia que se desenrolava diante de nós, mas até que eu tivesse certeza de que minhas amigas ficariam bem, não poderia pensar em mais nada.
— Pois bem, meus amores, podemos dar uma olhadinha no casal?
Eu ficara tão distraído com as táticas de Sam para me distrair que nem vira a paramédica se aproximar de nós com sua bolsa na mão. Usando uma luva de látex, ela ergueu meu rosto para examinar o ferimento na testa. Ainda havia fragmentos do para-brisa presos no corte, que a essa altura felizmente já quase parara de sangrar.
— Vamos ter que deixar a limpeza disto para quando chegarmos ao hospital, meu querido, e fazer uma radiografia também. Você tem outros ferimentos?
Balancei a cabeça, e ao meu lado Sam emitiu uma espécie de silvo.
— As pernas dele ficaram presas por um dos bancos do carro. Tem uns hematomas bem feios nas duas.
A paramédica se abaixou, enquanto eu lançava a Sam um olhar breve e furioso; parecia-me errado que eles desperdiçassem tempo cuidando de mim quando Tina estava tão mais necessitada…
— Meus colegas estão entre os melhores da região. Vão cuidar do seu amigo – assegurou a paramédica, seguindo meu olhar preocupado até a atividade frenética que se desenrolava ao lado da maca de Tina. – Seu namorado tem razão: precisamos tratar de você agora.
— Ele não é meu namorado.
— Não precisa se envergonhar, hoje em dia, não precisa ter ciúmes de ser gay. – ela riu.
— Eu não tenho vergonha de ser gay, e... Ele não é meu... Namorado.
A paramédica ficou de pé e olhou o braço protetor de Sam, que ainda me mantinha junto ao seu corpo, e então seu olhar pousou no anel no meu dedo anular esquerdo.
— Desculpe, seu noivo – consertou ela.
— Ele não é…
Dei de ombros, cansado. De repente, estava cansado demais para me dar ao trabalho de explicar. Que pensassem o que quisessem! Havia coisas muito mais importantes com que me preocupar naquele momento.
— E o senhor? – prosseguiu a paramédica, embolando as luvas de látex e calçando um par limpo antes de estender a mão para o braço machucado de Sam.
— Eu? Não, estou bem. Eu não estava no acidente.
— Então como arranjou isto?
— Eu só me machuquei em um pedaço de metal do carro quando estava ajudando Blaine a sair.
Só? Como se fosse algo que se pudesse desconsiderar assim tão casualmente. De repente, achei
importante que todos soubessem o que ele fizera.
— Ele salvou a minha vida – declarei solenemente. Sam pareceu constrangido.
— Foi? Bem, então é ainda mais importante que cuidemos adequadamente dele, não é? – falou a paramédica.
— Não podemos apenas cobrir com um curativo? Só para garantir que eu não suje meu carro alugado?
— Nem pensar – replicou a paramédica, claramente horrorizada com a sugestão. – Precisamos limpar o ferimento e, além disso, parece que serão necessários alguns pontos. E também é provável que você tenha que tomar uma vacina antitetânica.
Sam suspirou, pressentindo que seria inútil resistir. Nossa conversa foi brevemente interrompida quando a ambulância finalmente partiu com Tina, a sirene parecendo um arauto anunciando a gravidade do paciente que seguia ali dentro.
— Tem medo de hospitais, é? – desafiei, desesperado para voltar minha atenção para qualquer assunto ao qual eu pudesse me agarrar, qualquer assunto que não envolvesse o destino da minha amiga.
— Acho que talvez eu tenha mais medo de você— rebateu ele, entrando na brincadeira. – Você é muito mandão.
—-
Sam me acompanhou até os degraus na traseira da ambulância e me apoiou pelas costas enquanto o paramédico estendia os braços para me ajudar a entrar. Segui direto para a maca estreita em que Rachel estava sentada. Fiquei aliviado ao ver que ela parecia muito mais calma agora, mas quando ergueu a cabeça e nos dirigiu um sorriso ligeiramente vago e confuso, percebi o porquê. Deviam ter administrado alguma coisa bastante forte para sedá-la. Abracei-a e senti sua cabeça descansar com todo o peso em meu ombro.
Não havia espaço suficiente na segunda ambulância para nós três. Embora quisessem chamar um terceiro veículo para transportar Sam para o hospital, ele insistira em que podia dirigir. Assim, apenas colocaram uma atadura provisória em seu braço e aceitaram suas garantias de que nos seguiria. Olhei-o, desconfiado, da maca.
— Você vem, não é? Não vai fazer nada estúpido, como ir embora sem ser examinado.
Ele viu minha preocupação, sentiu-a em minha voz, e, embora eu soubesse que aquela provavelmente fosse a última coisa que ele de fato queria, fez um pequeno gesto afirmativo com a cabeça e sorriu, repetindo a frase que já me dissera uma vez naquela noite:
— Estarei logo atrás de você.
—-
O hospital estava movimentado e caótico, de uma forma incomum para as primeiras horas da madrugada. No setor de Emergência, sem janelas, poderia facilmente ser o meio do horário de expediente, e não duas da manhã.
Trabalhando com agilidade e eficiência, a equipe médica entrou em ação: eles nos colocaram em macas e nos conduziram para dentro do hospital, avaliaram nosso estado e iniciaram os procedimentos necessários com a velocidade dos profissionais experientes, separando-me de Rachel quase de imediato. Não soube ao certo para qual setor a levaram, mas fui conduzida até uma área de triagem, para uma avaliação mais aprofundada, e, após aquela agitação inicial, fiquei sozinho pelo que me pareceu uma eternidade, à espera do médico de plantão.
À medida que os minutos passavam, minha agitação ia crescendo e se transformando em um nódulo duro e inflamado em meu estômago. Eu me sentia agradecido por saber que estavam ocupados
— o que era óbvio por toda a atividade que eu percebia do outro lado das cortinas. Mas será que ninguém poderia parar um minutinho e me dizer o que estava acontecendo com Tina? Fora a pergunta que eu fizera a todos os membros da equipe hospitalar que se aproximaram alguns metros de mim, um dos quais eu tinha quase certeza de que era na verdade um faxineiro que nem falava meu idioma.
Eu também precisava ligar para casa e para Kurt, para dizer que eu estava bem. Era muito tarde e, desde que eu voltara a morar em casa, meu pai passara a se preocupar comigo como se eu fosse um adolescente que chegasse depois da hora estipulada. Era irritante, exasperante, porém mais que compreensível, então eu me resignava a conviver com aquilo. Havia questões mais importantes que o preocupavam, e eu voltara para casa a fim de aliviá-las, não para intensificá-las.
Àquela altura, Kurt também estaria preocupado. Tínhamos combinado de nos falar quando voltássemos de nossas despedidas de solteiro, e eu tinha certeza de que nem adiantava tentar usar meu celular, que fora reduzido a plástico derretido em um inferno de chamas.
Quando a sombra de uma silhueta parou diante da cortina, perguntei em um tom que eu mesmo podia reconhecer como desagradavelmente exigente:
— Desculpe, mas você poderia entrar aqui e me examinar?
Ouviu-se um som áspero de aros de metal raspando na vara da cortina quando ela foi puxada e a figura corpulenta de Sam entrou no cubículo, fazendo com que o espaço subitamente parecesse do tamanho de uma caixa de fósforos.
— Aí está você! – anunciou, como se tivesse estado à minha procura. Será?— Acho que reconheço esse tom autoritário.
Corei diante de seu comentário um tanto crítico, mas, sejamos honestos, inteiramente correto.
— Desculpe, pensei que fosse uma enfermeira ou alguém da equipe médica.
A expressão de Sam mudou, revelando preocupação.
— Tem algo errado? Você está com dor?
Neguei com a cabeça, e ele pareceu relaxar um pouco.
— Do que você está precisando? A menos que seja de uma comadre, verei o que posso fazer.
Ele tinha uma curiosa habilidade de me fazer sorrir em situações em que não deveria haver graça nenhuma.
— Um telefone seria bom, mas melhor ainda seria alguma informação sobreTina. Não tenho a menor ideia do que pode estar acontecendo com ela.
Ele assentiu, compreensivo, e tirou o celular do bolso.
— Não creio que você…
Interrompi o que dizia no instante em que a tela se acendeu e ele me estendeu o aparelho. Quando ele me entregou o telefone, percebi a grande mancha vermelha no curativo provisório que tinham feito em seu antebraço.
— Ninguém viu isso ainda? – perguntei, indicando o ferimento que claramente continuava a sangrar.
— Eu já disse: isto não é nada. E a Emergência está um tanto enlouquecida na última meia hora: ambulâncias estão chegando a cada cinco minutos. Ouvi alguém dizer que houve um incêndio em um lar de idosos.
Aquilo explicava a atividade e a falta de atenção.
— Mas a essa altura você já deveria ter sido atendido: você sofreu um ferimento na cabeça, o que pode afetá-la de diversas maneiras.
— Não. Sou assim mesmo o tempo todo.
Ele sorriu.
— Então ele é um cara corajoso, o seu noivo.
Meu Deus! Kurt. Eu deveria estar ao telefone com ele, e não trocando gracejos com meu novo amigo salvador. Sam imediatamente entrou na frequência de meu pensamento.
— Diga o número, que eu digito para você.
Dei o número da minha casa primeiro, prontamente aceitando que ele o digitasse; não achava que estivesse em condições de lidar com um celular com o qual não era familiarizada. Na verdade, foram necessárias três tentativas até que eu acertasse o número, o que era a primeira indicação real de que eu estava bem mais abalado do que me dera conta. Como podia não saber o número de minha própria casa? Sam estava tentando me tranquilizar, dizendo que aquele era apenas mais um sintoma de choque. Assenti fracamente – ele não tinha como saber que, nos últimos tempos, esquecer alguma coisa, qualquer coisa, era algo que me apavorava.
A ligação foi atendida ao segundo toque. Respirei fundo e abri um largo sorriso antes de falar, na esperança de que aquele gesto livrasse minha voz do tremor.
— Oi, pai.
—Blaine?
— Sim, pai, sou eu. Acordei você?
Ouvi alguns ruídos e deduzi que ele estava tentando pegar o despertador na mesinha de cabeceira.
—Blaine, são duas e meia da manhã. Onde você está?
Pausa. Pense na melhor maneira de dizer isso sem causar pânico, disse a mim mesmo.
— Primeiro, eu só queria dizer que estou bem, muitíssimo bem, mas que vou demorar um pouquinho. Tivemos um pequeno acidente.
Percebi que as sobrancelhas de Sam se ergueram diante desse eufemismo absurdo.
— Você está bem? Está machucado ou algo assim?
Droga. Mesmo mentir descaradamente não tinha impedido que o pânico se infiltrasse na pergunta de meu pai. Ouvi então uma segunda voz e senti minha preocupação subir um nível.
— É o Blaine? Algum problema? Onde ele está?
— Eu estou bem. Diga à mamãe que só estou atrasado, depois eu conto os detalhes.
Esperei pacientemente enquanto ele repetia a mentira para minha mãe. Em vez de encarar Sam, fixei meu olhar na trama da manta do hospital que me cobria. O telefone podia ser dele, mas isso não significava que eu lhe devesse explicações.
— Sim, Blaine – a voz do meu pai soou novamente pelo aparelho.
— Não diga nada, pai, ou irá fazer com que ele volte a se preocupar. Apenas ouça, está bem? Ele respirou fundo. Entendia por que eu estava agindo daquele jeito.
— Certo, querido – confirmou, com uma alegria falsa em seu tom de voz.
Contei tudo da forma mais sucinta que pude:
— Sofremos um acidente de carro. Eu estou bem. Foi só um arranhãozinho na testa.
Dessa vez eu levantei a cabeça e vi que os olhos de Sam se arregalaram e as sobrancelhas se ergueram ainda mais que antes, se é que isso seria possível.
—Rach está bem, mas Tina se machucou bastante…
Havia um tremor em minha voz que nenhuma mentira poderia encobrir.
— Foi bem feio. Não tenho certeza do que está acontecendo com ela. Ninguém me diz.
— Onde você está? Vou já para aí.
Houve mais alguma pergunta abafada ao fundo, e percebi que estávamos fazendo um trabalho muito ruim de manter o tom de nossa conversa calmo o bastante para não criar pânico em minha mãe.
— Não, pai. Não é necessário. Vou ligar para o Kurt, e ele pode vir ficar comigo. Se você viesse, quem ficaria aí com mamãe a esta hora?
Ele ficou em silêncio por um período considerável, até se dar conta de que eu tinha razão.
— Não gosto da ideia de você estar sozinho aí.
Ergui os olhos para Sam e dei um breve sorriso.
— Vou ficar bem, pai. Não estou sozinho. Tem um amigo aqui comigo.
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