Our History
1 O Fim - Parte 1
Notas iniciais
Seria de esperar que algum sinal, qualquer que fosse, marcasse o dia em que sua vida irá mudar. Deveria haver sinos tocando (bem, creio que mais tarde eles tocarão). Talvez devesse haver relâmpagos e um ou dois trovões. Mas, quando olhei pela janela, tudo o que vi foi uma manhã de outono luminosa e folhas castanho-avermelhadas que, levantadas por uma brisa, flutuavam no ar como confetes cor de âmbar.
O nervosismo revirava meu estômago como se ele fosse uma panqueca girando no ar. Olhei para o espelho sobre a penteadeira. Sorri para o meu reflexo. Nada mau. Respirei fundo e me obriguei a relaxar. Assim estava melhor. Era natural, claro, que eu me sentisse assim. Que homem não ficaria nervoso em um dia como aquele? Uma bebida talvez ajudasse, mas a última coisa de que eu precisava era aparecer na igreja com hálito de álcool. Embora eu soubesse quanto isso pareceria hilário para ele.
— De jeito nenhum! – disse, repreendendo a mim mesmo.
Enquanto tomava uma xícara de chá, meus olhos foram atraídos para o terno elegante e sofisticado que pendia da porta do guarda-roupa ainda protegido pela capa de plástico. Assim que o vira, tivera certeza de que aquele terno era a escolha perfeita, e eu queria muito estar lindo para ele no grande dia. Não que ele se importasse com a minha aparência… bem, ao menos não com roupas. Sinceramente, Blaine!, repreendi meu reflexo, enquanto uma série de imagens obscenas me vinham à mente. Que hora mais imprópria!
Uma batida na porta de entrada da casa me fez levantar, mas, antes que eu alcançasse o meio do quarto, pude ouvir a algazarra de vozes lá embaixo e o ruído que indicava que ela fora aberta. A casa estava cheia de parentes e amigos – alguns tinham viajado uma longa distância para estarem ali – portanto havia gente mais do que suficiente para atender à porta. Na verdade, será que eu estaria sendo ingrata por desejar poder me preparar sem a distração de todos eles à minha volta?
Ainda ouvia algumas pessoas se arrumando nos quartos próximos ao meu, entretanto sabia que àquela altura eu já deveria estar vestido e pronto. Será que eles iriam sem mim se eu me atrasasse? Dei uma risadinha diante aquele pensamento ridículo e fui até a janela para ver quem havia acabado de chegar. Uma pequena van branca da floricultura estava estacionada diante da nossa casa, e as flores que tínhamos encomendado foram descarregadas com cuidado e levadas para dentro. Certo, agora eu estava mesmo atrasado. Tinha tempo suficiente apenas para arrumar o cabelo e pôr o terno.
Eu estava indecisa quanto ao cabelo: se o usaria com gel ou solto. Então pensei nas mãos dele deslizando por meus fios cacheados e negros, enrolando-os em seus dedos e puxando-me para junto de si. Estava resolvido! Deixei-o solto. Antes de me livrar do robe de seda, olhei para o espelho e de repente levantei os cachos, tirando-os da testa e expondo uma leve cicatriz na linha do cabelo. Corri um dedo sobre a pele branca e ligeiramente elevada e fechei os olhos por um breve instante, rememorando como ela surgira ali. Aquela noite havia marcado todos nós e, embora eu pudesse ser o único que ainda trazia um lembrete visível no rosto, nada jamais fora o mesmo para nenhum de nós desde então. Muitas vidas foram modificadas naquela noite, muitos futuros foram reescritos.
Deixei que o cabelo voltasse ao lugar enquanto o espelho captava e refletia uma imagem cintilante do meu anel de noivado banhado em um feixe de raios solares outonais. Na noite do acidente, era outro anel que eu usava, mas ele acabara no fundo de um despenhadeiro. Uma longa história. E, sob muitos aspectos, inadequada. Mas não tanto quanto me apaixonar por um estranho misterioso. Eu tinha lido todas as revistas e livros disponíveis sobre casamento, mas nenhum deles parecia tratar desta questão particularmente delicada: o que fazer quando, quinze dias antes do seu casamento, você de repente se vê apaixonado por dois homens?
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