Apesar do que pode parecer, o que causou o acidente, com certeza, foi o cervo, não a falta habilidade de Rachel ao volante nem os supostos daiquiris que ela tomou.

Minha amiga é ótima motorista e, a noite toda, sua bebida mais forte tinha sido limonada. Comparada a outras despedidas de solteiro, a minha fora bastante comedida. Não tinha havido nada de espalhafatoso: nada de strippers, nem dos acessórios comuns nessas festas, nem nenhuma bizarrice de bêbado que pudesse voltar para nos assombrar nos meses seguintes. Aos 27 anos, eu tinha a sensação de que talvez estivesse um pouquinho “velho” para as festas barulhentas que haviam sido a marca registrada dos meus tempos de universidade. Bem, não quero dizer que não tivéssemos nos divertido muito.

Éramos dez amigos e tínhamos passado o dia em um spa de luxo, deliciando-nos de paparicos, massagens e hidratações, para depois seguirmos para o bar do hotel, onde (supostamente) serviam os mesmos coquetéis de Manhattan. Eu nunca tinha ido à Nova York, mas se era aquilo que as pessoas de lá bebiam, certamente valia uma visita futura.

Tínhamos bebido apenas uma rodada de drinques quando Elizabeth, minha futura sogra, levantou-se.

— Ah, não diga que você já está indo! – lamentei, desapontado.

— Preciso ir – disse ela, dando um sorriso pesaroso.

Acabei de chamar um táxi; chegará em alguns minutos.

Então me levantei com um sorriso.

— Eu acompanho você – disse, abrindo caminho em meio a pernas e bolsas.

De braço dado, ziguezagueamos em direção ao saguão do hotel. Em nosso trajeto, passamos por minha amiga Tina, que, sentada em um dos bancos muitíssimo polidos do bar, aparentemente pedia mais bebidas. No entanto, por sua linguagem corporal e pela risadinha provocante, suspeitei de que ela estivesse em busca de algo mais daquele garçom jovem e bonito que uma rodada de daiquiris.

Ele, de cabelos louros rebeldes e dentes brancos perfeitos – que eu praticamente podia contar, por causa dos sorrisos largos que dirigia a Tina –, mais parecia um integrante de boy band que um bartender. Eu quase senti pena do rapaz – aquele tipo de pena que se sente por um peixe segundos antes de ele ser fisgado. Ele ainda não sabia disso, mas não tinha a menor chance de escapar.

Depois do bar discretamente iluminado, as luzes do saguão ofuscavam. Meus olhos lacrimejaram um pouco, buscando ajustar-se, enquanto caminhávamos até as portas giratórias para esperar o táxi.

— Obrigada por ter vindo, Elizabeth – agradeci sinceramente.

De início eu ficara bastante surpreso com o fato de a mãe de Kurt ter aceitado meu convite para nos acompanhar na comemoração. Claro que eu já a considerava da família antes mesmo de ser minha sogra: havia anos que ela e minha mãe eram amigas, e tinha sido graças a isso que Kurt e eu havíamos nos conhecido. Mas como na época tínhamos apenas 2 anos, era natural que não lembrássemos de muita coisa.

— Eu não perderia por nada – replicou Elizabeth, puxando-me para junto de si em um abraço maternal.

Senti lágrimas em meus olhos quando ela sussurrou o que nós estivéramos pensando o dia todo:

— É uma pena que sua mãe não esteja aqui conosco.

Assenti com a cabeça em seu ombro, envolta em uma nuvem perfumada de Chanel N° 5 e não inteiramente seguro de que pudesse confiar em minha voz para dizer algo em resposta. Ela permitiu que eu recuasse um passo, apertando minhas mãos com força enquanto dizia:

— Vai ficar tudo bem, Blaine, você vai ver.

Eu a observei andar até o táxi e acenei quando ela estava dentro dele, mas o sorriso foi lentamente desaparecendo de meu rosto enquanto o veículo se afastava. Suas palavras ecoavam em minha mente. Mamãe deveria estar ali conosco, deliciando-se com os luxuosos tratamentos do spa e depois se fingindo de chocada com os nomes obscenos dos coquetéis. Meus olhos voltaram a lacrimejar, mas dessa vez a culpa não era da iluminação.

Naquele momento, a porta do banheiro se abriu. Rachel, a terceira mosqueteira de nosso grupo de amigos, saía de lá de dentro e me viu. Enquanto atravessava o saguão com passadas rápidas, trazia no rosto o retrato da preocupação.

— Blaine, o que aconteceu?

— Nada. Eu só estava me despedindo de Elizabeth.

Ofereci a Rachel, um sorriso vacilante e quase perdi de vez o controle quando, em um gesto consolador, o braço de minha amiga envolveu meus ombros. Não era necessário explicar por que de repente eu me via tomado pela emoção. Sem precisar perguntar, ela compreendia – como apenas os melhores amigos de toda uma vida conseguem.

Gentilmente, ela me afastou da porta e foi me guiando para o lugar de onde acabara de sair. Rachel parou por um momento à entrada do bar do hotel e esperou até que Tina olhasse em nossa direção. Então, com um aceno vigoroso de cabeça, seguido de um olhar relanceado para mim, enviou sua mensagem. Para olhos não treinados, talvez parecesse que Rachel tinha algum tipo de tique nervoso, mas para nossa amiga a informação foi tão clara quanto se fosse gritada em um megafone. Tina saltou de seu banco e abandonou o barman sem nem olhar para trás.

Enquanto me ouviam explicar por que eu ficara abalada com as palavras de Elizabeth, as duas me olhavam com uma expressão de empatia e compreensão. Então me permitiram umas poucas lágrimas de autopiedade, antes de entrarem em ação como se fossem mecânicos em um pit-stop de Fórmula 1.

Rachel puxou um punhado de toalhas de papel do dispensador cromado na parede.

Elas me esperaram reparar o estrago e, enquanto isso, foram fazendo piada de tudo para afastar minha tristeza.

— Está se sentindo melhor agora? – perguntou Tina, dando-me um abraço breve mas apertado. Fiz que sim com a cabeça e me virei para olhar nosso reflexo na parede de espelhos.

Na superfície vítrea, minhas amigas sorriam para mim, abraçando minha cintura. Eu conhecia Rachel desde o ensino fundamental e Tina, quase da mesma época. Houve um período de separação, mas tínhamos apanhado as pontas soltas de nossa amizade e tornado a atá-las quando eu voltara para Hallingford e fora quase como se esse tempo longe não tivesse existido.

Nosso vínculo era real e tangível, uma ligação indestrutível tão forte quanto fora na infância. Eu não tivera nem um só segundo de dúvida na hora de escolher minhas madrinhas de casamento. Ambas vinham treinando para o papel havia mais de vinte anos e ninguém me apoiava e defendia mais que elas.

— E então, vamos? – apressou Tina, claramente ansiosa para retornar ao bar.

Eu sabia que Rachel não resistiria.

— Você está muito afobada. Isso não teria nenhuma relação com aquele gato que está servindo as bebidas, teria?

Tina abriu um sorriso travesso. – Talvez. Acho que o turno dele termina logo.

Rachel olhou para o relógio em seu pulso e me deu uma piscadela.

— Faz sentido. Ele não vai querer ficar acordado até tarde… tendo escola amanhã.

— Não, não tem aula. É sábado – corrigiu Tina automaticamente, antes que a ficha caísse e seu rosto se contorcesse em um sorriso irônico. – Rá, rá, muito engraçado!

Logo depois da meia-noite, as pessoas decidiram dar a comemoração por encerrada. Alguns dos meus amigos tinham uma longa jornada de volta para casa, e eu os veria de novo dali a duas semanas, no dia do casamento. Ao me dar conta disso, senti um calafrio familiar percorrer meu corpo, parte nervosismo, parte entusiasmo, parte… algo mais.

Quando saímos para o estacionamento do hotel, o ar frio da noite de março me fez estremecer novamente. Passei os braços em volta do corpo na tentativa de me proteger do vento cortante que atravessava o tecido fino do meu vestido sem mangas. Rachel entrou logo no carro e deu a partida, enquanto eu abraçava com um entusiasmo exagerado as amigas que tinham partilhado o dia comigo.

O grupo era formado por uma mistura eclética dos longínquos tempos da escola, da época da universidade e também do trabalho e, embora

a maioria delas tenha iniciado o dia como absolutas desconhecidas, agora pareciam grandes amigas.

Seria efeito dos coquetéis?

Depois que todas foram embora em táxis ou apanhadas por maridos generosos, corri para onde Rachel me aguardava com o carro ligado. Vi que Tina já estava lá, ocupando o assento do carona. Ela se virou para me olhar quando abri a porta traseira e deslizei, agradecido, para o interior quente e aconchegante do veículo.

— Você não faz questão de se sentar aqui, faz? – perguntou, jogando seu charme de sempre.

Olhei para o espaço minúsculo que restava para as minhas pernas atrás da motorista. Não sou muito grande, mas certamente era ao menos 15 centímetros mais alto que Amy.

— É que eu posso ficar enjoada se me sentar aí atrás – continuou ela.

— É mais provável que fique enjoada por ter se sentado com o bartender e os daiquiris, Tina – corrigiu Rachel e, enquanto apagava a luz interna do carro e colocava o cinto de segurança, continuou, com um sorriso tolerante: – Vou cobrar taxa extra se vocês vomitarem no meu carro.

— Vamos embora – ordenou Amy, e então se voltou dramaticamente para mim e sussurrou: – Ela fica tão rabugenta quando não bebe!

Era uma viagem de 45 minutos até a pequena cidade rural em que eu crescera, da qual havia alegremente escapado para ir à universidade, à qual eu pensara que jamais voltaria depois de ter conseguido meu primeiro emprego em Londres e para a qual eu não tivera nenhuma opção senão retornar fazia apenas doze meses.

Viajávamos por estradinhas quase desertas, mas, como estava mesmo ficando tarde, isso não era de surpreender. Eu ainda achava aquilo muito diferente do trânsito intenso, barulhento e quase ininterrupto que passava por meu pequeno apartamento de Londres a qualquer hora do dia ou da noite. Para umao garoto nascido e criado no campo, eu de fato era um apaixonado pela cidade.

Uma chuva fina caíra mais cedo naquela noite e, à luz dos faróis, era possível ver um reflexo reluzente no asfalto à medida que as estradas começavam a congelar. Estávamos no começo de março, mas ainda parecia o auge do inverno. Eu realmente esperava que a temperatura subisse até a data do casamento, ou precisaria usar roupa térmica por baixo do terno.

Nos bancos da frente, Tina e Rachel debatiam sobre se Tina se precipitara ou não ao dar o número de seu telefone ao barman. Não era preciso muito para saber qual das duas achava que tinha sido uma má ideia. Rachel estava feliz e sossegada com sua namorada, Quinn, desde… bem, desde sempre, parecia, e eu sabia que ela às vezes desaprovava a vida amorosa de Tina. Ela fazia muito mais gosto do meu relacionamento com Kurt: casal perfeito, ela dizia.

— Qualquer homem, ou melhor, garoto que passa a noite toda tentando olhar dentro do seu decote não merece o seu telefone – declarou Rachel, com severidade.

Eu dei uma risadinha, mas tinha de admitir que o barman passara mesmo grande parte do tempo falando com os seios de Tina, não com o rosto.

— Estou enjoada – disse Tina, com uma vozinha envergonhada.

— Com o vexame? – perguntei, de brincadeira.

Em resposta, ela deixou escapar um leve arquejo. Rachel desviou os olhos da estrada para olhar sua passageira. Mesmo no carro escuro, em uma estrada sem postes de iluminação, estava óbvio que a previsão que Rachel fizera de brincadeira estava prestes a se realizar.

— Meu Deus, Tina! Aguente aí, que vou parar em um segundo. A estrada é muito estreita aqui.

— Não dá para esperar – gorgolejou Tina em resposta, de forma um tanto desagradável.

— Tem uma sacola no chão, aos seus pés – avisou Rachel.

Este foi o último momento normal que nos três partilharíamos.

Depois daquilo, tudo aconteceu rápido demais e ao mesmo tempo muito devagar. Antes que eu tivesse a chance de dizer a ela que não fizesse aquilo, Tina soltou o cinto de segurança para pegar a sacola. Com a atenção dividida entre a estrada e uma amiga prestes a vomitar, Rachel fez uma curva fechada. E ali, bem à nossa frente, iluminado pelos dois penetrantes feixes de luz, um imenso cervo surgiu.

Alguém soltou um palavrão – acho que eu –, mas o som se perdeu no guincho estridente da borracha no asfalto quando Rachel pisou com força o freio e virou bruscamente o volante, tentando evitar o animal, que se manteve sobre a faixa divisória da pista, como se tivesse todo o tempo do mundo para fugir.

Talvez seja assim também para os animais, aqueles últimos segundos que precedem um acidente: os momentos em que você parece ter um tempo infinito para ver exatamente o que vai acontecer, pensar, fazer alguma coisa, não fazer nada e ainda esperar pelo impacto.

Foi dessa forma para mim. Vi Tina endireitar-se no assento, uma expressão de terror no rosto; vi o cervo ficar cada vez maior na nossa frente, e então o animal de repente foi substituído pela visão do barranco íngreme e coberto de grama que corria ao longo de uma das margens da estrada. Um barranco para o qual seguíamos rápido demais.

No momento em que o atingimos, tudo voltou a acelerar. Com o impacto, o carro deu um solavanco violento, e embora Rachel houvesse freneticamente tentado nos fazer retornar à estrada, não havia nada que pudesse ser feito para evitar a colisão. Senti o cinto de segurança me ferir quando fui lançada para a frente e em seguida para trás no assento. Ouvi a explosão de acionamento do air-bag, que de repente cobriu metade do para-brisa. O carro de Rachel só tinha proteção no lado do motorista e, em algum momento da colisão, quando meus olhos estavam fechados, apertados de terror, aconteceu: quando tornei a abri-los, Tina havia sumido.

Mas ainda não tinha acabado. Como um pesadelo do qual não se consegue acordar, senti o carro girar. A estrada, antes debaixo dos nossos pneus, agora apoiava o teto do carro, que girava descontrolado, produzindo uma chuva de faíscas. O ruído de metal arranhando no asfalto era ensurdecedor e não cessou até o último instante, quando o carro deixou a superfície gelada e, batendo primeiro a traseira, caiu em uma grande vala no lado oposto da estrada.

Eu não perdi a consciência, e até hoje não sei se isso foi uma bênção ou não.

Senti uma dor lancinante quando a lateral da minha cabeça bateu em um pedaço pontiagudo de metal que antes fazia parte do teto do carro. O veículo estava todo amassado, como uma lata de bebida que um gigante houvesse acabado de descartar. Estávamos presas de tal forma na vala que tudo o que eu podia ver de ambos os lados eram espessas paredes de lama e raízes retorcidas. Na verdade, não era fácil ver absolutamente nada, pois a única luz vinha de um farol que restara e que – sabe lá Deus porquê – ainda funcionava, só que agora apontando para o breu do céu. A luz forte cortava a escuridão.