Our History
8 O Buquê de Flores Exóticas
Notas iniciais
Assim que disse os nomes dos pais de Tina na recepção do casarão histórico que abrigava o hotel em que estavam hospedados, percebi a mudança de atitude. A postura profissional da recepcionista de terninho preto se amenizou e uma expressão de empatia substituiu o brilho impessoal em seus olhos.
— Eles estão em nossa Suíte Jardim – explicou, e notei que até o tom de sua voz se suavizou quando ela se deu conta de que eu era uma personagem daquela tragédia. – Estão à sua espera?
Ela correu uma unha perfeitamente pintada por uma lista de nomes. O meu estava registrado abaixo do nome de uma das empresas funerárias da cidade e acima do de um florista local.
— Sim, obrigada. Blaine Anderson. É o meu nome.
A suíte era no térreo, em uma ala que se abria para a área externa muitíssimo bem-cuidada. Mas eu não acreditava que os pais de Tina tivessem nem mesmo relanceado o olhar para fora da janela desde que tinham chegado. Embora eu os conhecesse desde pequeno, Rachel era mais próxima da família de Tina que eu, portanto foi surpreendente ser envolvido pelo largo abraço do pai de Tina no momento em que a porta se abriu. Ele sempre parecera uma figura distante e indiferente, e Tina nunca explicara direito em que ele trabalhava. Dizia apenas que era “alguma coisa no centro financeiro de Londres”. Obviamente era algo que lhe exigia muito tempo e dedicação, pois eram frequentes suas ausências nas comemorações escolares e até mesmo em algumas festas de aniversário. Por isso eu sempre o vira como um indivíduo frio e distante. Foi um choque ver as lágrimas correrem pelo rosto de Donald quando ele por fim me libertou de seus braços. Foi o que bastou. Ver sua dor franca e escancarada e saber que não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer para aliviar aquele sofrimento foi como uma facada em meu peito. Ele apertou minhas mãos com tanta força que doeu, e suas lágrimas continuaram a cair, e ele nada fez para enxugá-las. Uma torrente como aquela teria de seguir seu curso, que ainda não estava nem perto de se esgotar. Eu me vi pensando em todas aquelas ocasiões em que a adolescente Tina censurara o pai ausente, que, segundo ela, sempre priorizava o trabalho, em vez da família. Será que onde está você consegue vê-lo agora, Tina? Pode ver quanto ele está sofrendo? Eu torcia muito, muito para que ela pudesse.
Linda estava destruída. Ela era uma dessas mulheres que sempre aparentavam ter acabado de sair do salão de beleza. No portão da escola, entre as mães que vestiam calça jeans e tênis, ela se destacava como se fosse um diamante em um bazar, com as roupas imaculadas e os sapatos de salto alto de grife. Tina era a criança que sempre parecera ter tudo: a casa grande, os carros luxuosos e os pais glamorosos. E sob a pele da mãe perfeita de comercial de TV, havia uma mulher que adorava a filha única. Era difícil reconhecê-la na pessoa desgrenhada encolhida no sofá estampado da suíte.
Para começar, ela aparentava ser uns trinta anos mais velha do que se imaginaria para a “mãe de Amy” e parecia arrasada de uma forma que era difícil de acreditar que um dia se recuperasse. Fui até ela, mas não consegui encontrar palavras que pudessem oferecer um único instante de consolo. Então eu só peguei sua mão e a segurei, quase como tinha feito com sua filha duas noites antes.
Quando ligara naquela manhã para combinar a visita, estava insegura em relação à maneira como me receberiam. Afinal, eles tinham tentado entrar em contato com Rachel, não comigo. Seria possível que me culpassem de alguma forma pela morte da Tina?
— Se houver algo que eu possa fazer para ajudar… com as providências…
Eu me senti tão inepto com as palavras quanto meu noivo. Felizmente, organização era o forte de Donald, e pressenti que o fato de ter um funeral a providenciar o ajudaria a atravessar os próximos dez dias, até que chegasse a hora de enterrar a filha.
— Tem só uma coisa… – começou Linda, hesitante.
— Qualquer coisa. Por favor, diga.
Ela me dirigiu o que pareceu ser a sombra de um sorriso.
— A funerária nos pediu que escolhêssemos uma roupa. Acho que não consigo…
As palavras se perderam em uma avalanche de lágrimas. Tina precisava vestir algo para o enterro, e Linda, que acompanhara a filha em inúmeras idas a shoppings em busca do vestido perfeito, não suportava a ideia de escolher esse último traje. Que mãe suportaria?
—-
Planejar nosso casamento tinha sido divertido e estimulante, portanto não era surpresa que a necessidade de ter de desmontá-lo item a item fosse tão triste. É claro que eu poderia ter feito os cancelamentos por telefone ou e-mail, mas havia alguma coisa sombriamente adequada em refazer os passos que eu dera poucos meses antes, quando reservara o local da festa, a igreja, a florista e o serviço de bufê. Além disso, eu me sentia movido por uma necessidade aflitiva de me manter ocupado e ativo, como se, ao me mover com velocidade suficiente, pudesse de alguma forma superar a dor.
Também não foi surpresa o fato de que muitos dos estabelecimentos que visitei já estivessem esperando meu telefonema. É um fenômeno curioso que as más notícias pareçam correr muito mais rápido que as boas, mas ao menos isso me poupou de explicar repetidamente as razões do cancelamento.
No carro, enquanto seguia para casa depois do último compromisso, ocorreu-me que desfazer nossos planos de casamento era apenas mais um exemplo de como minha vida estava retrocedendo, em vez de avançar. Nove anos antes, eu deixara minha cidade natal, a família e o namorado, primeiro para cursar a universidade e depois para seguir uma carreira em Londres. No entanto, ali estava eu, aos 27 anos, morando novamente com meus pais e trabalhando no mesmo lugar em que trabalhara aos sábados quando ainda era adolescente. Até mesmo retomar o relacionamento com Kurt poderia ser visto como um passo retrógrado. Eu sinceramente acreditava que nosso relacionamento já tivesse se esgotado quando rompi com ele, muitos anos atrás. Entretanto, agora estávamos nos casando, ou ao menos estivéramos prestes a nos casar, muito embora eu tivesse passado a maior parte do dia desfazendo nossos planos.
Quando entrei em casa, estava cansado e, como era de esperar, infeliz. Senti o cheiro das flores mesmo antes de a porta da frente estar totalmente aberta. A fragrância se espalhava pela entrada e, quando fechei a porta atrás de mim, minha boca se abriu de surpresa ao ver o arranjo apoiado na mesa. As flores exóticas estavam artisticamente reunidas no celofane transparente, formando um buquê deslumbrante.
— Kurt – disse com um sorriso, enquanto me aproximava do arranjo e pegava o pequeno envelope branco com meu nome no canto da embalagem.
Ele só me mandara flores duas vezes, e em ambas as ocasiões foram pequenos buquês de frésias.
Fiquei comovida com seu gesto inesperado. Tirei o cartãozinho branco do envelope e senti meu sorriso congelar, em seguida derreter e depois se abrir ainda mais. No cartão, havia apenas dez palavras escritas à mão em tinta preta grossa: “Com o mais profundo sentimento por sua perda. Sam Evans.”
Eu ainda estava transferindo o arranjo para o vaso mais alto que pude encontrar quando Kurt chegou.
— São suas? – perguntou, dando-me um beijo rápido, com a atenção voltada para o arranjo.
Por um breve momento, pensei em mentir, mas optei pela sinceridade. Devia ter seguido meu primeiro instinto.
— Sim. São lindas, não são?
— Humm. São – replicou ele, distraído, procurando alguma coisa, que não era preciso ser nenhum Sherlock Holmes para saber que era o cartão. – Quem mandou?
Respirei fundo antes de responder.
— Sam Evans.
— Quem?
— Sam Evans. O americano da outra noite… o que me tirou do carro.
A expressão vaga em seu rosto clareou, e em seguida foi substituída por uma leve carranca de desprazer.
— Por que ele está mandando flores para você?
— Não sei. Como um gesto de condolências? Porque é uma atitude simpática? Quem sabe?
Talvez tenha sido a expressão de irritação indisfarçada de Kurt que me fez acrescentar:
— Na verdade, pensei que fossem presente seu.
Ele teve a decência de parecer um pouco constrangido e desconfortável, mas lhe faltou o bom senso necessário para saber quando desistir de um assunto.
— Por que deu o endereço da sua casa a ele?
— Eu não dei.
A atitude de Kurt estava começando a me irritar e a arruinar a pequena elevação de ânimo que as flores tinham me proporcionado depois de um dia tão triste.
— Então como ele sabia para onde enviá-las?
Parei de arranjar as flores no jarro e me virei para ele.
— Não tenho a menor ideia – repliquei com a voz firme, o que deveria de fato tê-lo advertido contra insistir no assunto. – Ele é escritor, então talvez seja bom com pesquisas… Certamente você não vê nenhum problema nisso…
Kurt pareceu aturdido com o tom desafiador, e eu podia perceber que ele já devia estar se arrependendo de tudo quanto tinha dito desde que chegara. Infelizmente, seu comentário seguinte não foi muito melhor.
— Ainda assim, é um tanto estranho, não é? Que ele o encontre assim e envie esse arranjo caro. Isso parece assédio, não acha?
Antes de responder, pousei com cuidado a tesoura que estivera usando para aparar as flores. Não era inteligente sentir raiva tendo um instrumento afiado à mão.
— Bem, eu não sei, Kurt. Deixe-me pensar. Primeiro ele vem e me resgata de um acidente, em seguida salva minha vida quando o carro explode, agora tem a ousadia de me enviar flores. Sabe de uma coisa? Acho que você está certo. O cara é claramente um desequilibrado. Talvez eu devesse pedir uma ordem de restrição…
— Eu só estava dizendo… – começou ele, mas eu o interrompi bruscamente.
— Bem, não diga – concluí, pegando a tesoura e cortando um caule e a conversa com um gesto decisivo.
Seis podadas depois, percebi que havia sido desnecessariamente rude com ele. Ergui os olhos e vi que Kurt me observava com atenção, incerto sobre se a briga havia acabado ou se aquela era apenas uma pausa.
— Desculpe – eu disse, quebrando o impasse. – Acho que exagerei.
— Você acha?
Senti a tensão se evaporar como gotas de chuva em uma vidraça.
— E eu acho que fui um idiota – admitiu ele, abrindo os braços.
— Você acha? – repliquei, encaixando-me no abraço e sentindo um pouco mais da tensão se desfazer. – Tive um dia horrível. Foi tão triste cancelar tudo do casamento, e visitar os pais de Tina e vê-los tão dilacerados partiu meu coração – confidenciei, recostado no tecido macio de sua camisa. –
Mas isso não era motivo para que eu descontasse em você. Desculpe.
— É por isso que estou aqui – falou ele junto ao meu pescoço, tentando me tranquilizar. – E eu sei exatamente o que você sentiu: ver os pais de Amy foi mesmo horrível.
Sua afirmação me surpreendeu, e inclinei a cabeça para trás, para ver seu rosto enquanto eu perguntava:
— O quê? Você também os viu hoje?
Ele assentiu, e uma expressão de angústia cruzou suas feições.
— Quando foi isso? Onde eles estavam? – indaguei, perguntando-me como fora possível que ele cruzasse com os pais da minha amiga; na verdade, como ele sabia quem eles eram.
— No hotel. Telefonei depois do trabalho, a caminho de casa, para apresentar minhas condolências.
— Ah! – disse, ainda tentando dar sentido ao que estava ouvindo.
Eu nem tinha conhecimento de que Kurt tivesse ao menos sido apresentado à família de Tina.
Sua conexão com ela era apenas por meu intermédio. Seu gesto fora cortês e respeitoso, e eu não deveria estranhar, porque aquele era o tipo de homem que ele era. Mas eu estranhara.
Quando levei o vaso com as flores de Jack para a mesa, ainda pude distinguir um olhar de desagrado no rosto de Kurt ao examinar o arranjo.
— Do que você não gosta: do fato de ele ter me mandado flores ou dele?
— Dele.
Sua resposta concisa não foi na verdade nenhuma novidade.
— Mas por quê? Você nem mesmo o conhece — argumentei.
Kurt se recostou no armário da cozinha e soltou um suspiro profundo. Percebi que ele não conseguiu me olhar nos olhos ao admitir:
— Não gosto do que ele me faz sentir.
O curioso era que eu sentia exatamente o oposto, mas sabiamente não compartilhei tal pensamento. Em vez disso, parei diante dele, forçando-o a olhar para mim quando tomei suas mãos nas minhas.
— Como assim?
Kurt então focalizou o olhar acima do topo da minha cabeça, de modo que parecia estar falando com a cafeteira quando respondeu, relutante:
— Ele faz com que eu me sinta culpado e inadequado. Deveria ter sido eu; deveria ter sido eu a cuidar de você, a resgatá-lo, consolá-lo, não um estranho. Mas, enquanto o homem que amo estava passando pela pior provação imaginável, onde eu estava? O que eu estava fazendo? Bebendo, rindo, me divertindo.
— Você não tinha como saber. Como poderia? Não pode apenas se sentir agradecido pelo fato de alguém ter aparecido? Tanto faz quem tenha sido…
A sombra de um sorriso apareceu em seu rosto.
— É, acho que você tem razão.
Então ele me puxou de volta para os seus braços, e sinceramente não sei se ele tinha a intenção de que eu ouvisse as palavras que ele murmurou suavemente em meu pescoço.
— Só queria que não tivesse sido ele.
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