Our History
9 Memórias
Notas iniciais
Levei dez minutos para sair do carro e mais cinco para reunir a coragem de enfiar na fechadura a chave que os pais de Tina tinham me dado e entrar no apartamento. Para poupar a mãe de Tina, eu me oferecera para a tarefa, mas me esquecera de considerar quanto seria difícil ser a primeira pessoa a cruzar aquela porta depois da morte de minha amiga.
Dei um passo, pisando em um pequeno punhado de correspondências que já havia começado a se acumular. Abaixei-me para apanhá-las, notando que a maior parte parecia ser de extratos de cartões de crédito ou de cartões de lojas. Apesar da situação, sorri. Tina sempre tivera a seguinte filosofia quanto a cartões de crédito: se as operadoras não quisessem que ela tivesse crédito, que não lhe enviassem cartões. Coloquei a pilha de contas na bancada da cozinha, perto de uma mancha de café deixada por uma xícara. Por alguma razão, aquilo me pareceu incrivelmente triste, de modo que limpei o fantasma circular marrom que a bebida deixara, esfregando-o com o dedo. A cozinha americana e a área de estar estavam silenciosas, exceto pelo zumbido constante da geladeira. E era aquilo que parecia errado: o silêncio. Nunca havia silêncio quando Tina estava por perto. Sempre havia música tocando, ou uma televisão ligada em altíssimo volume, ou frequentemente as duas coisas. Ela era extrovertida, com confiança suficiente para ser distribuída para dez pessoas, no entanto sempre odiara ficar sozinha, odiara o silêncio da solidão. Esses pensamentos me levaram a outro: imaginei minha amiga deitada em uma mesa fria de alumínio, em algum lugar escuro e silencioso. Foi quando me senti sacudido por um soco de pesar.
Com olhos que tinham começado a lacrimejar antes do que eu esperava, olhei à minha volta, pelo apartamento de um quarto que era a própria essência de Tina. Ela estava ali: na parede de cartazes de filme emoldurados; nas almofadas descasadas de cores brilhantes espalhadas pelo sofá e, óbvio, muito claramente nos pratos sujos e na roupa suja amontoada ao lado da máquina de lavar. Olhei com tristeza para as roupas que nunca precisariam ser lavadas, e aquilo fez com que eu me lembrasse do propósito da minha visita. Peguei uma toalha de papel e enxuguei os olhos.
À procura de um pretexto para adiar a busca no armário de Tina, comecei a arrumar a cozinha, lavando a louça e limpando as bancadas com uma meticulosidade que suspeitei que elas raramente houvessem visto. Essa área era expertise de Rachel, muito mais que minha, mas eu sabia que a terceira integrante de nosso trio estava mal e que não havia ninguém além de mim que pudesse tirar esse peso dos ombros dos pais de Tina.
— Ah, Tina!
Chorei no apartamento vazio, amando-a e odiando-a em igual medida por ter nos deixado.
Encontrei um rolo de sacos de lixo pretos debaixo da pia e destaquei um. Tina não era de comer em casa, mas até mesmo eu me surpreendi com a escassez de comida na geladeira. Afora uma embalagem de uvas, um queijo de nome sofisticado que eu não conseguia pronunciar e uma caixa de leite, não havia nada que eu precisasse jogar fora. Naturalmente, as seis garrafas de vinho resfriando nas prateleiras, prontas para serem consumidas, não lhe deixavam muito espaço para comida de verdade. Eu sabia, sem nem precisar olhar, que o freezer estaria cheio de refeições prontas e que a gaveta superior do armário da cozinha estaria abarrotada de cardápios para entrega. Rachel teria lançado os braços no ar, desesperada.
Por fim, acabaram-se as tarefas que me mantinham na cozinha, e eu caminhei devagar na direção do quarto de Tina. Mas, ao passar pela minúscula sala, parei de repente e meus olhos buscaram o canto vazio no qual, três meses antes, estivera uma pequena árvore de Natal. Era uma daquelas pré-decoradas, e eu estava com Tina quando ela a comprou e a ajudara a levá-la para casa no meu carro.
Fizemos o trajeto do supermercado até a casa de Tina com a enorme caixa pressionando o apoio de cabeça dos bancos, e mesmo assim eu não conseguira fechar o porta-malas. Tínhamos ficado parados no estacionamento lotado, imaginando como prender a tampa traseira do carro, quando Tina de repente tirou as botas e a meia-calça estampada que estava usando.
— Pronto! – proclamou ela, jogando a peça (ainda quente) em mim.
Eu sorria sem parar enquanto enrolava a meia-calça na tranca do porta-malas, puxando-a e forçando, até ter certeza de que não abriria.
Só fui ver a árvore novamente uma semana depois, no dia 26 de dezembro, para ser precisa, e a lembrança daquele dia voltou com tanta força que senti minhas pernas bambas e me afundei no sofá macio de Tina. Eu tinha telefonado para ela e para Rachel mais cedo, no dia 26, e perguntado se poderíamos nos encontrar à noite. Eu sugerira o apartamento de Tina porque não queria Quinn nem meus pais por perto naquele momento especial. Queria que fôssemos apenas nós, minhas duas melhores amigas e eu.
Tina tinha chegado apenas vinte minutos antes de nós, porque passara o Natal com os pais. Ela nem se incomodara de tirar a pequena bolsa de viagem de onde a tinha deixado, ao lado da porta de entrada, e tanto Rachel quanto eu tínhamos praticamente tropeçado na mala ao entrar no apartamento. Da sala vinha uma música natalina, e a iluminação do ambiente era aconchegante, proveniente apenas de um par de abajures e do pisca-pisca da árvore de Natal. O laptop de Tina estava aberto na mesa de centro baixa, e quando a seguimos até a sala, ela o empurrou para o lado.
— Estava tentando descobrir como fazer uma gemada para nós – explicou ela com um sorriso, depois de nos receber com um abraço caloroso. – Aí lembrei que não tenho ovos, e todas essas receitas fazem parecer que se trata do “perigoso ato de cozinhar”, o que todas nós sabemos que eu não faço.
Rachel rira e balançara a cabeça.
— Quer que eu faça? Acho que aquele mercadinho da esquina está aberto…
Eu a interrompera, sabendo que não conseguiria adiar o momento muito mais, e queria muito que ambas estivessem juntas para ouvir a notícia.
— Vamos deixar isso pra lá. Eu trouxe uma bebida, de qualquer forma.
Com a mão livre, exibi a garrafa de champanhe que comprara mais cedo. As duas ergueram as sobrancelhas, surpresas.
— Muito chique! – exclamou Tina. – Estamos celebrando alguma coisa?
Acho que seu sorriso talvez tenha se congelado por um momento, e então ao meu lado, vindo de Rachel, ouvi um som que mais parecia ser o de um cachorrinho latindo de excitação. Muito lentamente, retirei a outra mão de seu esconderijo, no bolso fundo de meu cardigã largo e macio.
— Ai meu deus, Ai meu deus, Ai meu deus! – gritou Rachel, parecendo perigosamente prestes a hiperventilar. – Ele não pediu, pediu? Pediu?
Virei-me para ela e assenti, e meu sorriso espelhava o dela.
— Você está noivo – disse Tina lentamente, e suas palavras não perguntavam nem afirmavam, mas, algo indefinível, estavam a meio caminho das duas ações.
— Estou – declarei, enquanto Rachel agarrava minha mão estendida e examinava o anel.
— Ah, Blaine, é lindíssimo!
Eu concordei, mexendo meu dedo sob o peso ainda pouco familiar do anel. Rachel, que não poderia ter se mostrado mais extasiada se tivesse ganhado na loteria, me puxou de repente para um abraço tão apertado que quase me sufocou. Poucos segundos depois, Tina se juntou a nós, e nos balançamos unidos em um círculo de risos e empolgação.
Quando nos afastamos, Rachel mais uma vez segurou minha mão.
— Deixe-me ver novamente esta coisa. Nossa, é enorme!
Dei de ombros, ligeiramente constrangido.
— Eu sei. Ele deve ter pagado uma fortuna.
— Então como foi que ele fez? Conte tudo – exigiu Rachel, jogando-se no sofá e dobrando as pernas sob o corpo. – Palavra por palavra – instruiu.
Antes que eu pudesse ao menos começar, ela me interrompeu:
— Não posso acreditar que você tenha passado a nossa frente! Quinn vai ouvir tanto quando eu voltar para casa.
Eu rira e então olhara para Tina, que se sentara no outro sofá. Ela estava estranhamente calada e, quando olhei para ela, fiquei chocado ao ver a emoção estampada em seu rosto.
— Estou muito feliz por você… por vocês dois. Você merece isso. É exatamente assim que deve ser.
Rachel e eu trocamos um olhar intrigado e divertido. Aquele não era um comentário típico de Tina – tampouco a reação.
— Tina – dissera Rachel, examinando mais de perto nossa amiga na iluminação suave –, você está… chorando mesmo?
Tina riu e esfregou as costas da mão na extremidade dos olhos, que de fato pareciam suspeitosamente lacrimosos.
— E daí se eu estiver, Senhorita Aposto-Que-Me-Caso-Primeiro? – desafiou ela, soando dessa vez como ela mesma, mas ainda parecendo ligeiramente atordoada com a minha novidade. – Só porque eu não quero me casar e sossegar, não significa que não possa ficar feliz quando as pessoas com quem me importo resolvem fazer isso.
Era estranho ouvi-la dizendo coisas tão sentimentais. Fui pego desprevenido.
— Esperem só até eu colocar vocês duas em um esvoaçante vestido de madrinha! Aí, sim, vocês verão quanto vão ficar felizes – avisei.
— Madrinhas! – gritou Rachel, saltando de seu lugar e mais uma vez me envolvendo em um abraço apertado.
— Vocês não acharam que eu passaria por isso sem ter as duas ao meu lado, acharam? – eu disse, das profundezas do ombro de Rachel.
Olhei para Tina, que sorria suavemente para nós dois. Mas dessa vez ela não se juntou ao abraço. Seus olhos estavam fixos no meu rosto e cintilavam com as lágrimas que se derramariam a qualquer momento. Eu não esperava que minhas amigas – nenhuma das duas – reagisse de forma tão emotiva à minha notícia.
Rachel estava virada para o outro lado, e não viu quando os lábios de Tina articularam silenciosamente uma mensagem só para mim. “Eu te amo.”
Sei que devo ter parecido um pouco espantado com sua declaração silenciosa. Era o que sentíamos, claro que era. O amor entre nós três era antigo e confiável e inabalável. Era o que nos mantinha tão unidos. Mas, na verdade, nunca dávamos voz a esse sentimento. Era uma verdade tácita.
Deixei que meus olhos encontrassem e sustentassem seu olhar, antes de silenciosamente dizer as palavras: “Eu também te amo.” Porque amava.
—-
Detectei o cheiro de seu perfume favorito assim que abri a porta. Fechei os olhos e o saboreei; por um instante, foi quase como se ela estivesse ali, ao meu lado. Mas, quando entrei no quarto, a única imagem refletida nas portas do armário espelhado era a minha.
Apesar dos lugares próprios para guardá-los, os sapatos e os acessórios de Tina caíam do armário, e cada canto do quarto exibia minipilhas de caixas de sapato e caixotes de plástico cheios de echarpes, cintos e bolsas. Olhei à minha volta e experimentei um momento de desânimo. Como eu conseguiria fazer aquilo? Examinar as gavetas e os armários de minha amiga pareceria uma violação de sua privacidade. Outra lembrança me veio e me fez retornar à cozinha para pegar outro saco de lixo. Eu estava ali para escolher uma roupa para o funeral, mas a mãe e o pai de Tina acabariam tendo de examinar os pertences da filha, e havia uma coisa que eu precisava fazer antes que aquilo acontecesse. Havia coisas que nenhum pai ou mãe deveria ver.
Fui direto para a gaveta inferior da mesa de cabeceira de Tina e a puxei, tirando-a dos trilhos.
Mantendo os olhos deliberadamente focados em outro ponto, virei o conteúdo da gaveta no saco, ouvindo os itens caírem um em cima do outro em uma cascata abafada. Lembrei-me da noite em que ela me mostrara sua última aquisição, tirando-a da mesma gaveta que eu acabara de esvaziar. Tina tinha esperado até que Rachel estivesse fora do alcance de nossas vozes para me mostrar o objeto, mas ambos ainda estávamos rindo como duas crianças quando Rachel voltou ao quarto com outra garrafa de vinho, para reabastecer as taças que havíamos esgotado.
— Qual é a piada? – perguntou ela, mas, em vez de responder, Tina e eu tínhamos tido outro ataque de risadinhas adolescentes.
Ela nos olhara, pacientemente, esperando que o ataque de risos passasse – ou que nós duas crescêssemos, o que acontecesse primeiro.
— Bem, Rach, vamos dizer assim: você sabe como a última gaveta de seu armário é cheia de roupas de cama e de banho de grife… – respondi.
Rachel fez que sim com a cabeça.
— Bem, Tina tem uma também… Caroline começou, esperançosa, a abrir um sorriso encorajador, até que concluí:
—… só que a maior parte do que tem na gaveta dela não funciona sem pilhas!
Tínhamos nos desmanchado no tipo de riso desproporcional ao humor da situação, e até mesmo Rachel se juntou a nós quando tombamos para trás na cama de casal, chorando de rir.
— Vocês são impossíveis! – Rachel censurou Tina, em um tom que era apenas parcialmente de brincadeira. – Para quem são essas coisas? Você nem tem um namorado fixo.
— Dã! É por isso que tenho todas essas coisas – brincou Tina, sabendo que Rachel ficaria corada até a raiz dos cabelos.
E Rachel não a desapontou. Então Tina prosseguiu:
— Quando eu estiver amarrada, como vocês duas, vou doar tudo para a caridade!
— Ah, tenho certeza de que a “Ajude os Idosos” vai ficar encantada! – declarei, o que fez com que ríssemos descontroladamente outra vez.
Olhei o quarto vazio ao meu redor enquanto os ecos da lembrança começavam a silenciar e adverti a mim mesmo: daquele jeito eu não conseguiria fazer o trabalho.
O armário de Tina estava tão abarrotado de cabides que cada roupa tinha de ser puxada com força para se soltar de suas vizinhas. Não havia nenhuma divisão de estilo nem de categoria, de forma que macaquinhos estavam pendurados entre trajes de noite brilhantes e roupas de trabalho. Isso explicava por que ela sempre demorava tanto para se arrumar: primeiro precisava encontrar a roupa que planejava vestir!
À medida que examinava as roupas penduradas, comecei a pensar que talvez não encontrasse nada nem remotamente adequado. Havia muitos vestidos e blusas com decotes profundos ou saias tão curtas que todas as vezes que Tina se curvava, devia correr o risco de revelar a cor de sua calcinha.
Só que, qualquer que fosse a peça que eu escolhesse naquele dia, não haveria nenhum movimento para ela. Seria quase impossível conciliar a ideia da Tina vibrante e cheia de vida em seus trajes sexy com aquela mulher que estaria imóvel e silenciosa dentro de um caixão.
Acabei encontrando o vestido e o casaquinho perfeitos espremidos no final do cabideiro. Era uma roupa que eu não me lembrava de tê-la visto usar. Tirei-a do armário para examiná-la melhor e, mesmo antes de remover a capa protetora, soube que ela seria a escolhida. Reconheci o nome na etiqueta elegantemente costurada. Era uma daquelas marcas que aparecem em revistas de moda sofisticadas e que não estão à venda em lojas comuns. Qualquer que fosse o cartão de crédito usado, devia ter sofrido uma baixa considerável com aquela compra. O vestido tinha classe e elegância, mas ainda assim era sensual. Seu tecido era azul-escuro, e eu não precisava verificar a etiqueta para saber que era seda de verdade. Era justo, e o decote, embora baixo, não era exagerado. Um casaco curto tipo bolero, de corte elegante, completava o traje. Era o tipo de roupa que se comprava para uma festa de casamento incrivelmente sofisticada ou uma ocasião especial. Eu me perguntei se Tina tinha chegado a usá-lo.
Não levei tanto tempo quanto temera para localizar um par de sapatos que combinasse. Sem saber exatamente o que eu precisava levar, também peguei um conjunto de roupa íntima de grife e um colar.
Por alguma razão, parecia muitíssimo importante que Tina fizesse sua entrada no outro mundo tão bonita quanto fosse possível. Com esse pensamento em mente, eu me perguntei se deveria mandar lavar o vestido a seco antes de entregá-lo na casa funerária. Levei-o no cabide até a janela, em busca de marcas e manchas que precisassem ser limpas. Será que eu poderia apenas enviá-lo à passadeira, e então conseguiria buscá-lo mais tarde naquele mesmo dia para entregá-lo na casa funerária, conforme combinado?
Corri a mão pelo casaco, enfiando-a nos dois bolsos rasos, para me certificar de que estavam vazios. O primeiro estava, mas, quando meus dedos deslizaram para o interior do segundo, encontrei um minúsculo quadrado de papel dobrado, do tamanho aproximado de um selo postal. Peguei-o, e estava prestes a jogá-lo no cesto de lixo quando uma curiosidade instintiva me deteve. Então peguei o papel muito bem dobrado e o abri. Era um pedaço que parecia ter sido rasgado da folha de um bloco, pois as bordas eram irregulares e desiguais. Havia ali um número de telefone escrito à mão.
Um número que eu reconhecia.
Continuei a arrumar os itens para os agentes funerários, pegando até mesmo uma bolsinha de cosméticos, na qual coloquei o batom de sua cor preferida e o perfume que era sua assinatura. No entanto, o tempo todo eu não parava de me perguntar por que o número do telefone do trabalho do meu noivo estava no bolso da roupa de minha melhor amiga. Por que ela precisaria ligar para
Kurt na escola? Para começar, ele quase sempre estava dando aula, de modo que era praticamente impossível falar com ele. O número era uma linha direta para o escritório da Escola de Artes, e Kurt o compartilhava com os colegas. Assim, muito frequentemente, eu tinha que deixar uma mensagem com um deles e torcer para que alguém se lembrasse de transmiti-la.
Durante o trajeto até o carro eu podia sentir o pequeno pedaço de papel no bolso da minha calça, queimando através do tecido como algo corrosivo. Eu não estava preocupada pelo fato de Tina ter o número do trabalho de Kurt, mas estava intrigada. Foi enquanto eu dava a ré com todo o cuidado, ajeitando o carro em uma vaga diante da tinturaria, que a resposta me ocorreu: aquele número não era só de Kurt, mas de todos os funcionários da escola. Não fora com o meu noivo que Tina quisera entrar em contato.
Rachel e eu passáramos boa parte do último ano tentando encontrar um namorado para Tina. No caso de Rachel, essa missão havia se tornado pouco menos que uma obsessão, à medida que ela arranjava encontros para Tina com seus colegas da imobiliária e com amigos do trabalho de Quinn, no banco. Tina tinha ido a esses encontros com suficiente boa vontade, afirmando que qualquer homem que quisesse lhe pagar o jantar era companhia boa o bastante para uma noite. Não era a atitude que Rachel esperava, mas era típica de Tina. Enquanto Rachel e eu tínhamos o mesmo parceiro desde a adolescência (excluindo-se os cinco anos em que Kurt e eu havíamos ficado separados), Tina sempre assumira uma atitude muito singular em relação a namoros. Com sua aparência e personalidade, nunca lhe faltaram candidatos, mas não creio que ela houvesse tido um único relacionamento que tivesse durado mais que uns poucos meses. Ela afirmava que se entediava com facilidade, ou que se sentia presa demais, e na verdade havia um momento previsível em cada um de seus relacionamentos, quando o cara queria compromisso: este era o ponto em que em geral ela os descartava.
— Como um pescador que os lança de volta à água, para que sejam livres no oceano – descrevera ela em determinada ocasião, quando Rachel e eu perdemos as esperanças após o término de um relacionamento que parecia promissor.
— Ser extremamente exigente é uma descrição melhor – gemera Rachel, e Tina se limitara a dar de ombros daquela sua maneira charmosa.
— De qualquer forma, ele era um pouco estranho na cama – confidenciou ela, sabendo quanto Rachel detestaria ter aquele fato em sua mente sempre que encontrasse o cara, que era um dos colegas de Quinn.
Para não ficar atrás, eu tentara persuadir Kurt a arranjar um encontro para Tina com alguns dos professores solteiros da escola, mas ele relutara.
— É muito constrangedor ficar bancando o cafetão da sua amiga – fora a desculpa que ele dera.
— Isso não é bancar o cafetão, e sim bancar o cupido.
— Então é pior.
— Como? Por quê?
— Porque é.
E assim ele dera fim ao assunto, até que um professor muito bonito de uns 20 e muitos anos passou a fazer parte do quadro de funcionários da escola, no ano passado. O novo colega de Kurt cruzara com nosso grupo quando estávamos todos em um bar, e até mesmo Tina – que era difícil de impressionar – teve de admitir que ele era lindo, de fazer cair o queixo. Depois de muita insistência,
Kurt concordara em sondá-lo discretamente e verificar se ele estaria interessado em ser “tratado como um pedaço de carne”, como Kurt expressara, com desdém.
— O roto falando do esfarrapado – Rachel havia sucintamente dito em resposta.
Agora, tendo encontrado o número do departamento no bolso do elegante traje de Tina, imaginei que alguma coisa saíra dali, afinal. E me perguntei por que ela nunca tinha dito nada sobre o fato e o que teria acontecido. E logo percebi, com incrível tristeza, que eu nunca saberia.
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