Our History

10 O Funeral


Notas iniciais
Começo me desculpando pela demora. Foram quase três semanas sem capítulos novos, mas, essas semanas foram intensas pra mim. Mas, vou voltar a postar semanalmente. Essa semana, vou postar dois capítulos pra compensar a demora. Então, sem mais delongas, o novo capítulo. Enjoy! ;)

A igreja estava lotada, como eu sabia que estaria. Ocupávamos um banco em uma das primeiras fileiras, e para mim era extremamente difícil tentar olhar para outro lugar que não os suportes que esperavam posicionados junto ao altar. Não era muito melhor olhar para o retrato ampliado de Tina, que estava exposto em um cavalete ao lado desses suportes. Não sabia quando a foto tinha sido tirada, mas era um lindo retrato: Tina estava levemente bronzeada, e os cabelos, esvoaçantes em torno do rosto, mais pareciam uma nuvem dourada. Ela ria para a câmera com olhos cintilantes, e quem quer que a tenha fotografado tinha conseguido captá-la de uma forma tão dolorosamente familiar que olhar para a imagem causava uma dor física.

Era inevitável, eu sabia, que a família dela escolhesse aquela igreja para o funeral de Tina. Era a capela local, a mais próxima de onde eles haviam morado, e fora nela que, ainda bebê, Tina tinha sido batizada. Era também, lamentavelmente, a igreja em que Kurt e eu tínhamos planejado nos casar, dali a três dias. Eu só esperava que minha mãe, que nos olhava – a mim e a meu noivo – com insistência e grande melancolia, tivesse controle suficiente para não dar voz a seu pesar por termos adiado nosso casamento. Eu sabia muito bem quanto ela vinha esperando por ele, mas não éramos o foco no momento, de modo que eu torcia muito para que parte da mulher que ela já fora resistisse e pudesse perceber aquilo.

Eu me virei e examinei, nas fileiras atrás de nós, o mar de pessoas com seus trajes escuros. Muitos dos presentes estavam também na nossa lista de casamento. Quantos estariam pensando na cerimônia tão diferente a que tinham planejado comparecer? Roupas de cores vibrantes e chapéus chamativos, em vez de ternos pretos e gravatas; um coro cantando em celebração, em vez de em lamento; um serviço religioso que inspirasse sorrisos cheios de alegria, em vez de corações repletos de dor. Quantos deles culpariam a mim e a Kurt indiretamente pela morte de Tina? Não era uma equação difícil: sem casamento, não haveria despedida de solteiro, nem acidente e nem funeral.

Engoli o nó na garganta e fitei com atenção a fila de retardatários que serpenteava através das grandes portas de carvalho. Os bancos estavam cheios, então imaginei que a maioria deles teria de assistir à cerimônia nos fundos da igreja. De uma ponta a outra, observei os que já estavam de pé junto à parede dos fundos. O choque que tomei ao vê-lo foi tão grande que cheguei a ouvir os ossos de meu pescoço estalarem quando voltei a cabeça velozmente em sua direção, procurando me certificar de que não era imaginação minha. Alto e impecavelmente vestido, junto à parede dos fundos da igreja estava Sam Evans.

Sabia que ele tinha me visto. Era provável, até, que tivesse notado meus olhos se arregalarem de surpresa. Mas o único sinal de reconhecimento que deu foi uma discretíssima inclinação de cabeça. Após um momento de hesitação, retribuí o gesto. Tornei a me virar e já ia comentar com Kurt, mas então vi em seu rosto uma expressão que fez com que eu ficasse calado. Ele não estava bem. Eu soube, no momento em que ele chegara para me buscar naquela manhã, que ele mal podia se segurar. Havia em sua boca uma rigidez que era como se todos os músculos faciais estivessem paralisados para não darem lugar a nenhum traço de emoção. Assim que ficamos sozinhos no carro, eu perguntei, ansioso:

— Você está bem?

Ele me dirigiu um olhar de desolação.

— Não muito. E você?

Balancei a cabeça, mas ainda assim estava surpreso com a reação dele.

— Não lido bem com funerais.

Foi a explicação que ele me deu. Como eu nunca tinha ido a um funeral em sua companhia – e esperava que tal situação não se repetisse por muito tempo –, tive que aceitar sua resposta.

Por mais que você pense que está pronto, nada o prepara para aquele momento em que um silêncio quebrado apenas pelo arrastar de pés toma conta da igreja, o órgão toca suas primeiras notas e o caixão começa a ser carregado em uma lenta procissão pela nave central. Procurei a mão de Kurt e a agarrei com uma ferocidade intensa, tentando concentrar toda a minha atenção nos nossos dedos entrelaçados, em vez de no lustroso caixão preto com alças de prata reluzentes que passava pelos amigos e pela família de Tina sobre os ombros de seis homens. Algo me surpreendeu Donald, o pai de Tina, não quis carregar o caixão. Ao olhar para ele ali, naquele momento, e sentir a tensão que agitava seu corpo enquanto ele observava o caixão ao longo do lento trajeto, tive a certeza de que foi a decisão certa. Se ele mal podia se manter ereto, como seria capaz de carregar algo tão precioso? Seu comentário sobre não lidar bem com funerais fora um eufemismo.

Depois que o caixão foi cuidadosamente apoiado nos suportes, tornou-se impossível olhar para qualquer outro lugar. Sei que orações foram feitas, que hinos foram entoados, e imagino que deva ter me levantado e sentado nos momentos apropriados, mas toda a cerimônia pareceu desconexa e irreal, como se tivéssemos todos sido apanhados no pesadelo coletivo mais vívido do mundo. Precisei me esforçar para não me levantar e gritar, dizer que tinha havido um erro terrível e que Tina não poderia estar deitada, rígida e fria, dentro daquele caixão. Mas só em casamentos existe a chance de se apresentar uma objeção; nos funerais, espera-se que a pessoa fique quieta e aceite tudo, por mais terrível que seja.

O discurso de Donald em louvor à filha foi de cortar o coração. Mas foi também amoroso e corajoso, e o fato de ele ter conseguido chegar ao fim comprovou uma força interior que poucos teriam. Não precisei olhar ao redor para saber que praticamente todas as mulheres choravam: foi possível perceber pelo ruído causado pelos lenços de papel e pelas discretas fungadas. Nem mesmo os homens presentes ficaram imunes às suas palavras, no fundo da capela olhei para Sam e embora ele não tivesse erguido a cabeça em nenhum momento durante a homenagem paterna, o tremor ocasional de seus ombros o denunciara. Fiquei profundamente tocado por percebê-lo tão comovido.

Finalmente o serviço religioso se concluiu. Como se sofresse de um torpor coletivo, toda a congregação se pôs de pé quando o caixão foi erguido e Tina foi levada para sua jornada final. Kurt e eu nos juntamos à fila de pessoas que se preparavam para deixar a igreja. Os pais de Tina aguardavam diante das portas de entrada e atendiam quem quisesse oferecer algumas palavras de condolência ou conforto, nenhuma das quais, era quase certo, poderia atravessar o ruído constante e desnorteador provocado pelo sofrimento e a dor que sentiam. Pela extensão da fila, levaríamos uns bons dez minutos para chegar até eles.

— Vou ali falar rapidamente com uma pessoa – disse a Kurt, apertando de leve seu braço.

Ele assentiu distraidamente, nem mesmo olhando à sua volta quando escapuli e comecei a ziguezaguear entre os bancos até os fundos da igreja.

Alguns dos presentes já haviam deixado a capela por uma pequena saída lateral, e inicialmente não pude vê-lo. Será que já tinha ido embora? Murmurei “Com licença” repetidas vezes, enquanto me espremia entre os grupos reunidos perto da saída.

— Blaine.

Quando me virei, vi que ele estava parado atrás de mim. Era bem mais alto que em minhas lembranças.

— Oi – falei, sentindo uma inesperada palpitação nervosa. Engoli em seco e tentei de novo.

— Olá, Sam. Que surpresa! Não esperava vê-lo aqui hoje.

Esse não era exatamente o mais acolhedor dos cumprimentos, mas ele não pareceu ofendido.

— Esbarrei com Rachel na cidade no outro dia, e ela mencionou a data do funeral. Eu queria vir, pareceu que seria a coisa certa a fazer. Espero que não haja problema…

Não cabia a mim dizer que sim nem que não, e ainda que algumas pessoas pudessem perguntar por que ele sentia necessidade de estar ali, eu compreendia totalmente. À nossa volta havia gente de todas as áreas da vida de Tina, gente que sem dúvida nenhuma a tinha conhecido melhor e por mais tempo do que Sam a conhecera. Mas na beira da estrada naquela noite uma conexão havia sido forjada, e o ligava a mim, a Rachel e a Tina. De um jeito estranho, ele tinha até mais direito de estar ali do que muitos que havia anos não viam Tina. Só me surpreendeu o fato de Rachel não ter mencionado que tinha tornado a vê-lo.

Havia uma expressão de genuíno pesar marcada em suas belas feições:

— Eu só queria ter encontrado vocês todas antes ou ter podido fazer algo mais…

Sua voz falhou, e sem parar para pensar se aquilo seria ou não adequado, estendi meu braço e segurei a mão dele.

— Você fez tudo o que pôde. Mais do que a maior parte das pessoas teria feito. Se não fosse por você, era provável que eu também não estivesse aqui hoje.

A dívida que eu tinha com ele jamais poderia ser paga, e simplesmente dizer “obrigado” não chegaria nem perto de ser agradecimento suficiente.

— Como você está? – perguntou ele, de modo gentil.

Seu tom de voz era o mesmo da noite do acidente e, enquanto fazia a pergunta, seus olhos examinaram meu rosto, e eu sabia que ele não estava procurando as cicatrizes visíveis, já bem menos evidentes, mas as mais profundas, aquelas que levariam muito mais tempo para ficar curadas.

— Estou bem, é, estou… – disse, de forma estupidamente automática.

Foi como a resposta que damos aos médicos quando estamos passando muito mal e eles nos perguntam como estamos nos sentindo. Olhei ao redor, e então voltei aos olhos de Sam, que ainda me examinavam com atenção. Há algo intrinsecamente errado em mentir quando se está dentro de uma igreja.

— Bem, não é verdade. Não estou nada bem. Para ser sincero, parece que estou no inferno. Provavelmente também não se deve blasfemar na igreja, mas, por sorte, tanto Deus quanto Sam pareciam preparados para ignorar tal fato.

— Vai melhorar – assegurou ele, dando um leve aperto na mão que eu nem havia percebido que ele ainda segurava. – Sei que não é o que parece agora, mas, confie em mim: vai, sim.

Por mais louco que parecesse, eu já confiava em Sam, embora não soubesse quase nada sobre ele. E, por causa disso, queria acreditar no que ele me dizia, quase tanto quanto queria continuar a segurar sua mão, que parecia muitíssimo reconfortante em torno da minha. Mas aquilo era errado em tantos aspectos que Deus jamais fecharia os olhos àquele fato. Cuidadosamente, retirei meus dedos dos dele, que me liberou de imediato.

— O dia de hoje foi como uma montanha muito difícil e dolorosa que todos tivemos que escalar. Tenho certeza de que na próxima semana, quando eu voltar ao trabalho, as coisas ficarão melhores.

Ele assentiu, demonstrando compreensão.

— Onde você trabalha?

— É só uma livraria na cidade – respondi.

E então me senti assaltada por uma dose dupla de culpa: por parecer desdenhar do emprego que minha chefe, April, tinha tão generosamente me dado, e por falar sobre um assunto tão trivial no enterro de Tina. Que diabo eu estava pensando?

— Apenas continue a se concentrar no futuro – aconselhou-me Sam, seus olhos suaves e afetuosos.

— Seu casamento deve ser logo e…

— Foi cancelado – falei, ouvindo minha escolha de palavras e me perguntando o que Freud diria desse ato falho. – Quero dizer, adiado. Foi adiado.

Olhei à minha volta, triste.

— Na verdade, seria nesta igreja. Daqui a três dias.

Duas expressões surgiram no rosto de Sam quando ele ouviu minhas palavras: uma foi de compaixão; a outra eu simplesmente não pude identificar.

— Sinto muito – disse ele, por fim. – Isso deve tornar o dia de hoje ainda mais duro, para vocês dois.

Sua ênfase deliberada não me passou despercebida.

— Bem, é melhor eu voltar – falei, olhando para trás e percebendo que Kurt, Rachel e Quinn já haviam quase chegado às imensas portas de carvalho. – Mais uma vez, obrigada por ter vindo. Você é mesmo uma boa pessoa.

Ele me dirigiu um sorriso torto, mas não disse nada. Eu me virei para ir, e já tinha dado dois passos quando lembrei que ainda não terminara o assunto com aquele homem.

— Desculpe, eu quase esqueci. Obrigada pelas lindas flores, Sam. Foi mesmo muito atencioso. Eu teria entrado em contato e agradecido quando chegaram, mas não sabia como encontrá-lo.

— Fico feliz que as tenha recebido – comentou ele, olhando de relance para onde Kurt estava.

— Espero que mandá-las para sua casa não tenha sido ruim. Não queria lhe causar nenhum problema. Ele se referia, era claro, à atitude não muito receptiva de Kurt no último encontro dos dois.

— Não, não, não. – refutei, ciente de que tinha usado ao menos dois nãos a mais que o necessário, na tentativa de soar convincente. – Nós dois achamos que foi um gesto realmente bonito.

Acho que vi os lábios de Sam se contraírem levemente diante de minha mentira, mas ele não fez nada para contestá-la. Pela primeira vez, comecei a me sentir constrangido.

— Bem, tchau então – despedi-me.

E porque simplesmente dar as costas e ir embora parecia errado, voltei e beijei seu rosto, tentando ignorar o aroma de sua loção pós-barba e a leve aspereza de sua pele em contato com meus lábios.

Retornei rapidamente para meu noivo e meus amigos. Quando me aproximei, Rachel, a única que estava virada para onde ocorrera meu breve encontro, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas lancei um olhar expressivo na direção de Kurt e balancei a cabeça de forma quase imperceptível, antes de retomar minha posição na fila, ao lado dele. Obediente, Rachel fechou a boca, calando o que quer que estivesse prestes a dizer, enquanto um olhar de compreensão iluminava seus olhos. Amigas são assim.

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A perda é uma coisa curiosa. Foi uma palavra que ouvi bastante naqueles primeiros dias, de praticamente todos com quem falei. “Lamento sua perda” parecia ser a frase a que todas as pessoas recorriam, seguida por uma boa dose de tapinhas no braço e certo desconforto e insegurança quanto ao que fazer ou dizer depois daquilo. Este é o problema com a morte: não existe um guia de etiqueta sobre o que fazer em momentos dolorosos como a hora de dar condolências a alguém. Na verdade, ninguém sabe como reagir nem tampouco quer se aproximar demais da ferida aberta que é visível nos que ficam, como se aquilo pudesse ser contagioso.

Uma das definições de “perda” no dicionário é: “Privação da presença de alguém; ausência, falta, desaparecimento”. Acho que é bastante precisa. Exceto pelo fato de que, na verdade, a morte de Tina não causara sua ausência: minha amiga continuava por toda parte.

Estava na pulseira de prata que eu usava todos os dias e que ela me dera em meu aniversário de 18 anos. Estava na embalagem de hambúrguer descuidadamente jogada no chão do meu carro, desde o dia em que, depois de termos comprado os sapatos do casamento, ela insistira para que parássemos no drive-in da lanchonete. Estava no primeiro nome da lista de contatos do meu celular, e eu jamais seria capaz de deletá-lo.

Tina não tinha ido embora de forma nenhuma. Ela estava onipresente, o que às vezes era reconfortante e até me fazia sorrir. Porém, com mais frequência, vinha a dor da perda daquela pessoa tão linda e iluminada, algo pior do que qualquer tragédia que eu poderia imaginar.

Quem estava perdido, porém, era Kurt. Bem, não no sentido real e físico, mas, decididamente, ele estava perdido. Nos dias que antecederam o funeral, quando eu ainda estava de licença no trabalho, ele viera da escola direta para minha casa todas as tardes, e então, como se eu visse se esquematizar o gráfico mais deprimente do mundo, pude acompanhar a mudança que ocorria nele. Era como se outro Kurt – uma cópia do antigo – tivesse invadido nossas vidas. A pessoa que se sentava à nossa mesa todas as noites, ou ao meu lado no sofá enquanto olhávamos a televisão sem vê-la, não era o mesmo homem que colocara o anel em meu dedo no dia de Natal.

Embora eu tivesse aliviado minha dor nos braços de Kurt muitas vezes desde a morte de Tina, tinha a sensação de que ele escondia alguma coisa de mim. Pela primeira vez em nosso relacionamento, considerando tanto o passado como a fase atual, eu não conseguia identificar a origem do problema. Era como se houvesse um rio tóxico correndo muito abaixo da superfície, corroendo algo que havia pouco tempo era saudável e forte.

Eu visitava Rachel todos os dias enquanto estávamos as duas de licença, e ela se mostrava igualmente intrigada com o estranho comportamento recente de Kurt.

— O que ele diz quando você pergunta qual é o problema? – indagou ela, pousando duas canecas de café na mesa de sua cozinha, além de um prato de biscoitos em que nenhum de nós tocaria.

Apetite era algo que parecíamos ter perdido desde a morte de Tina – e, por consequência, uma quantidade considerável de peso. Lembro-me de pensar que meu terno do provavelmente estaria largo, e então me preparei para o ataque violento da dor quando me recordei dos dois vestidos de madrinha que estavam pendurados em suas capas de plástico no quarto de hóspedes de minha casa.

— Blaine?

Balancei a cabeça na tentativa de livrar-me daqueles pensamentos e voltar à pergunta de Rachel. Falta de atenção. Outra perda.

— Desculpe. Minha concentração está péssima ultimamente. Acho que deve ser a falta de sono. – Perda do sono, a lista continuava a crescer… – Kurt diz que não há nada de errado, que é apenas a maneira como ele lida com tudo o que aconteceu – respondi, por fim.

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A solução para o problema veio de uma fonte inesperada, quando um professor da escola em que Kurt trabalhava ficou doente. O professor lideraria a viagem dos alunos a uma estação de esqui.

— É claro que eu disse “não” quando me perguntaram se eu poderia substituí-lo – explicou Kurt.

Ele era o substituto óbvio. Assim como todos de sua família, Kurt esquiava desde sempre.

— Diga a eles que você mudou de ideia, que poderá ir.

Ele pareceu chocado com a minha sugestão.

— Mas eu não posso ir. Não posso deixar você agora. Você precisa de mim aqui – disse ele.

Mas, por trás dos protestos, percebi em seus olhos a expressão de um prisioneiro que vira uma porta aberta na prisão, uma porta que se fechava lentamente.

Peguei sua mão, enroscando meus dedos nos dele.

— Vá. Acho que você precisa sair um pouco daqui. Eu vou ficar bem. Vou voltar para o trabalho na próxima semana, e tenho Rachel e Quinn e mamãe e papai. Serão apenas dez dias.

Ele me puxou para junto de si e me beijou com mais entusiasmo do que vinha mostrando havia semanas. Isso bastou para me certificar de que eu tinha feito a coisa certa.

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Na noite anterior à viagem, saímos para jantar pela primeira vez desde o acidente.

— Tem certeza de que vai ficar bem enquanto eu estiver fora?

Pousei cuidadosamente o copo de água com gás antes de responder. Kurt me observava com atenção do outro lado da mesa, no pequeno reservado de um de nossos restaurantes favoritos.

— Ficarei muitíssimo bem – afirmei com absoluta segurança.

Ele sorriu para mim e levou o copo de cerveja à boca. Estava claramente mais leve desde que concordara com a viagem. A nuvem sobre ele já começava a se erguer, e ele ainda nem viajara.

Eu me esforcei para ignorar a voz incômoda e persistente que ficava me perguntando por que ele estava tão ansioso para sair dali. Do que estaria fugindo? De mim? Será que eu estava me apoiando demais nele, sem considerar que ter de ser forte por nós dois talvez o sobrecarregasse?

Quando deixamos o calor do restaurante, Kurt pôs a mão na base das minhas costas e me acompanhou até meu carro. Ele me deteve antes que eu abrisse a porta e gentilmente me virou para que eu ficasse de frente para ele. Havia em seus olhos uma expressão fácil de reconhecer quando ele me puxou para os seus braços e me beijou com uma intensidade em geral reservada a locais menos públicos. Podia sentir o gosto do álcool em sua língua, e me perguntei se seria ele o combustível a inflamar aquelas ações. Mas seu beijo era familiar e sedutor, e eu relaxei, colando meu corpo ao dele. Kurt se afastou apenas o suficiente para sussurrar a única pergunta que eu esperara que ele não fizesse.

— Você vai voltar comigo hoje?

Demorei muito tempo para responder, e a cada segundo que passava eu podia sentir a decepção crescer dentro dele. Não era a primeira vez que ele fazia aquela pergunta, tampouco era a primeira vez que eu dizia “não”. Mas eu sabia que minha resposta instintiva – de que era “Cedo demais depois de Tina” – não funcionaria daquela vez.

— Blaine?

Eu podia ouvir o tom de desapontamento em sua voz, e soube que ele não aceitaria minha recusa sem questionar.

— Vamos conversar sobre isso? – pediu ele.

— Sinto muito. Sinto mesmo. É só que parece… errado, como se fosse desrespeitoso, ou algo assim – tentei, pouco convincente. – Não posso explicar melhor porque eu mesmo não sei por que me sinto assim.

Ele pareceu tão magoado que deslizei os braços por suas costas, unindo as mãos. Mas o que eu pretendia que fosse uma demonstração de afeto, ele entendeu como uma mudança de ideia. Por um momento, deixei que ele me beijasse. Talvez eu devesse mesmo ir com ele para casa, afinal ele partiria pela manhã, e dez dias eram muito tempo para ficarmos longe. Durante o último ano, eu dormira em seu apartamento inúmeras vezes, então qual era o problema? Estávamos praticamente casados – estaríamos casados, se não fosse o acidente… e Tina. Sempre Tina. Não que ela fosse aprovar meu comportamento: Tina não era entusiasta do celibato.

— Desculpe, Kurt, não consigo – falei, empurrando-o pelos ombros com um pouco mais de força do que pretendera, o que fez com que ele se desequilibrasse. Quantas cervejas ele tinha bebido no jantar?

Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo, então. Ouvi um carro parar no cruzamento ao nosso lado, o zumbido suave de um vidro elétrico que era abaixado e o leve gemido de Kurt quando ele finalmente percebeu que eu de fato o estava empurrando. Era uma rua mal-iluminada, de modo que eu não podia ver o interior do carro que ainda se mantinha em ponto morto no cruzamento, apesar de o trânsito agora estar livre para ele. Kurt por fim pareceu se dar conta de que não era a hora nem o lugar de me pressionar quanto àquilo. A luz do desejo ainda estava bastante viva em seus olhos quando ele, com delicadeza, disse, erguendo meu queixo com os dedos:

— Desculpe, Blaine. Não estou sendo justo com você.

Seu polegar deslizou lentamente por meu lábio inferior, que ainda estava inchado por causa da força de seu beijo.

— É só que sinto muita saudade de você. Sinto saudade de nós dois.

— Eu sei – murmurei, virando a cabeça e beijando a palma de sua mão. – Eu também. Só me dê mais um tempo. Sei que as coisas vão mudar.

Estava certa. Mas, naquele momento, não tinha como saber que minha previsão se concretizaria de forma tão dramática.

Meio sem querer, notei que o carro que se demorara no cruzamento subira o vidro e agora se afastava na velocidade em geral reservada a fugas.

— Idiota – comentou Kurt, olhando as luzes traseiras vermelhas que desapareciam rapidamente.

Notas finais
Ps: Fiz Kurt um pouco mais masculino. Achei que seria interessante dessa forma.