Our History

11 E Os Sentimentos Começam a Surgir...


Notas iniciais
E como prometido, aqui está o segundo capítulo da semana. Espero que gostem. Enjoy! ;)

O trabalho em uma livraria dificilmente pode ser chamado de árduo, mas, ao que parece, a simples tarefa de ficar atrás do balcão e interagir com o público ainda estava além das minhas capacidades atuais – isto é, segundo minha empregadora.

April, minha chefe, estava no segundo degrau de uma escadinha arrumando alguns livros quando entrei na livraria no meu primeiro dia depois do acidente. Instintivamente, corri até ela ao vê-la oscilar de modo um tanto alarmante na escada, mas April afastou a mão que eu lhe estendera, descendo para me dar um abraço apertado. Ela me envolveu nos braços curtos e finos. Seus brincos de concha ficaram presos em meu suéter pela sua baixa estatura, e me senti grato pelo fato de que as lágrimas motivadas por sua recepção tinham quase desaparecido quando consegui me soltar.

— Que merda é essa? Por que você voltou assim tão cedo?

Eu amava duas coisas em April: uma era que, apesar de viver no Reino Unido havia mais de quarenta anos, ela ainda conservava um forte sotaque francês; a outra era que ela não tinha modos nem papas na língua. Fora o seu hábito de beber a qualquer horário.

— Preciso me manter ocupado. Ficar em casa me dá mais tempo para pensar do que eu gostaria – confessei.

Ofereci um sorriso triste à mulher à minha frente. Ela era mais que apenas minha empregadora: era minha amiga e confidente. April concordou com um aceno de cabeça e, com o movimento, os brincos de concha tilintaram como mini-instrumentos de percussão.

— Seu noivo me telefonou antes de viajar. Ele lhe contou?

— Kurt telefonou? Por quê?

Fiquei surpreso ao ouvir aquilo, pois não era segredo que April e Kurt não gostavam muito um do outro. Ela fora a única pessoa que não parecera encantada ao saber que eu ia me casar.

— Arrá! Ele não contou; eu sabia! – declarou minha chefe, feito um detetive criado por Agatha Christie. – Ele disse que eu deveria ficar de olho em você e não deixar que se cansasse muito. Ah! Como se eu fosse uma imbecil.

— Acho que talvez Kurt não tenha se expressado bem – sugeri, instintivamente saltando em defesa de meu noivo.

April me dirigiu um olhar duro e demorado, e mais uma vez me dei conta da quantidade de pessoas que subestimavam aquela mulher, com seu inglês aparentemente macarrônico e o forte sotaque. Eu sabia que ela dominava meu idioma tão bem quanto o dela. Eu a vira ler e compreender literatura inglesa altamente complexa, e sabia que muito tempo atrás, por razões que ela escolhera não revelar, decidira dissimular isso.

April suavizou o olhar, deixando a compaixão transparecer em seus olhos.

— Leve o tempo que precisar para melhorar, meu Blaine. Tudo ficará bem, mas vai levar tempo. Assenti, sem conseguir falar, e impulsivamente desabei em seus braços abertos, enquanto ela me segurava de encontro ao peito macio, da maneira como minha mãe havia muito tempo não podia fazer.

— -

Era meio-dia de uma quinta-feira e eu já havia bebido a quarta xícara de café e começava a subir pelas paredes, por causa do tédio e da overdose de cafeína, quando, com ar misterioso e fechando a porta atrás de si, April entrou no cômodo que ficava nos fundos da livraria.

— Fale a verdade, Blaine: você está com problemas com a lei? Olhei para ela, sem entender, por vários segundos.

— O quê? Não, claro que não – respondi, enfim, tentando lembrar se nos últimos anos tinha recebido ao menos uma multa de trânsito que fosse. – Por que está perguntando isso?

— Porque tem um homem na loja perguntando se você trabalha aqui. Ele parrece muito sério e é bem bonito. Mas ele é amerricano, e está usando óculos de sol em um dia nublado, então imagino que seja do FBI. E cá entre nós, o FBI tá escolhendo bem seus policiais. Se ele quiser, deixo ele me prender. – deu uma gargalhada alta enquanto se abanava com a mão.

Inexplicavelmente, meu coração começou a bater mais rápido, e não era porque eu temesse ser preso, acusado de um crime internacional.

— O que foi que ele disse, exatamente? – perguntei, enquanto me levantava e saía de trás da mesa.

— Eu já disse: ele perguntou se você trabalhava aqui. Eu disse que sim. Ele perguntou se podia falar com você. Não ficamos de papo. Infelizmente.

Encaminhei-me para a porta que me levaria à loja, fazendo uma pausa diante do pequeno espelho pendurado na parede, perto dos cabides para casacos. Ajeitei o cabelo e as sombrancelhas. April me observava com claro interesse e fascínio.

— O que foi? – perguntei, provocando-a, enquanto seu escrutínio se transformava em um sorriso de cumplicidade.

— Nada. Eu não disse nada – respondeu ela, dando de ombros.

Ele estava de costas para mim quando entrei na loja, e April vinha logo atrás, em meus calcanhares. Não seria próprio dela nos deixar sozinhos para um minuto ou dois de privacidade. Além disso, estava curiosa demais para ver quem era o meu visitante. Ah, se ele tivesse mesmo vindo me prender, ela também estaria enrascada por dar abrigo a uma criminosa!

— Sam – cumprimentei-o, satisfeito por soar relativamente normal.

Ele sorria quando se virou, e foi fácil perceber por que Sam havia conseguido a classificação “bem bonito” de April. Usava uma roupa casual: calça jeans e camisa branca simples, cujas mangas enroladas revelavam braços que eu tinha boas razões para saber que eram tão fortes quanto pareciam.

Durante a ausência de April, Sam deve ter guardado os óculos escuros, pois seus olhos cordiais estavam aparentes quando ele se afastou da estante que estivera examinando e se aproximou do balcão.

— Lembrei que você disse que trabalhava em uma livraria e, como preciso fazer algumas pesquisas para o meu romance, pensei em tentar descobrir um livro sobre o assunto.

Eu poderia ter perguntado por que ele não usara a internet, que certamente ofereceria as respostas de que ele precisava, mas isso teria feito parecer que eu não estava feliz em vê-lo. E eu estava. Talvez mais do que deveria.

— Decididamente, você veio ao lugar certo – garanti, sorrindo. – Bem, para encontrar livros, quero dizer… temos livros aqui.

Meu Deus, eu estava gaguejando! Pigarreei e tentei soar um pouco mais profissional quando perguntei:

— Está à procura de algum livro em particular?

— O quê? Ah, sim. Algo sobre os lagos da região, se você tiver.

Saí de trás do balcão e, parei ao lado dele.

— Está escrevendo um livro sobre barcos a vela? – perguntei, educado, indo até a parte em que ficavam nossos títulos sobre a geografia regional.

— Não. Na verdade, é um assassinato. Preciso de um lago que seja profundo o bastante para esconder um corpo.

— Ah, sim! – disse, procurando soar tranquilo e disparando um olhar furioso na direção de April, que deixou escapar uma risada.

Ela nem mesmo tentava fingir que estava ocupada: acomodada em um banco que ficava atrás do balcão, observava-nos como se estivesse assistindo a um capítulo de sua novela preferida.

— Você escreve thrillers? – perguntei.

Porque essa seria a pergunta que eu faria se já não tivesse buscado tudo o que havia sobre ele no Google e verificado os títulos que ele lançara e caso não estivesse à espera de um exemplar de seu primeiro livro, que eu já encomendara. Eu culpava April por esse fato, por me deixar sozinho com a internet e sem trabalho suficiente para me manter ocupado.

— Geralmente, sim – confirmou, postando-se ao meu lado diante da estante de livros.

Senti novamente o cheiro da sua loção pós-barba. Ele chegava não como uma onda opressiva, mas como as notas suaves de um perfume que, imaginei, seria descrito como “másculo” caso estivéssemos em um romance meloso. Tal pensamento me trouxe de volta à realidade. Eu não era um personagem de romance. E na verdade não importava quão bonito ou misterioso Sam parecesse para mim, para April ou para quem quer que fosse. Eu estava noivo de outro homem, e não tinha direito de ter os pensamentos que insistiam em me vir à mente sempre que ele estava por perto.

— Temos uns dois títulos que acho que podem servir – continuei, puxando da estante dois grandes volumes coloridos e de capa dura e entregando-os a Sam.

Ele examinou as capas por um breve momento e mal olhou para os textos na quarta capa.

— Este está ótimo – disse, entregando-me o mais caro dos dois livros de referência.

Na verdade, era muito provável que se tratasse da melhor escolha para o que ele buscava, mas Sam não poderia ter concluído isso com um exame tão superficial das duas obras. Ele me seguiu de volta até o balcão, e deve ter visto o olhar expressivo que lancei a April quando ela continuou imóvel, empoleirada em seu posto de sentinela, de modo que fui forçado a me espremer entre seu banco e a parede para chegar à caixa registradora. Minha chefe dirigiu a Sam e depois a mim um sorriso de beata. Registrei a compra, peguei o dinheiro que ele me entregou e tomei muito cuidado para não tocar nele enquanto contava o troco na palma de sua mão. Entreguei-lhe o livro envolto em papel de seda e cuidadosamente acomodado em uma das bolsas coloridas da livraria. Esperava que April não tivesse percebido que eu me demorara na tarefa um ou dois minutos a mais que o necessário.

— Foi muito bom revê-lo – falei com sinceridade.

— A você também – respondeu, dando um sorriso que provocou uma reação em meu estômago. – Na verdade, eu estava me perguntando se você teria tempo para comer alguma coisa comigo – comentou, olhando o relógio de aspecto caro em seu pulso. – A que horas é o seu intervalo?

— Em geral, não paramos para o almoço. Como somos só nós dois, costumamos trabalhar direto – expliquei, demonstrando tristeza.

— Não, não costumamos, não – disse April, corrigindo-me e decidindo que era o momento de juntar-se à conversa.

Eu na verdade poderia chamá-la de mentirosa com todas as letras, mas meu rosto já expressava meu pensamento, como se eu o tivesse gritado em um megafone. Ela piscou para mim.

— Agora todos os empregados devem fazer um intervalo de uma hora para o almoço… o sindicato exige.

Ah! Meu! Deus! Será que ela não poderia ser só um pouquinho menos óbvia?

— É mesmo? – perguntei. – Estranho que eu não soubesse disso, considerando que os únicos empregados aqui somos você e eu, e nenhum de nós é filiado a nenhum sindicato.

April emitiu um ruído típico dos franceses, um meio-termo entre um muxoxo de desdém e uma tossida.

— Não se pode discutir com os sindicatos.

Balancei a cabeça diante de sua interferência descarada. Sempre soube que April tinha reservas a respeito de meu relacionamento com Kurt. Ela nunca se preocupou com a possibilidade de me ofender quando me dizia, de modo ostensivo, como se estivesse preenchendo um boletim sobre minha vida amorosa, que eu “podia conseguir coisa melhor”. No entanto, encorajar-me daquela forma, tão abertamente e sem rodeios, a sair para almoçar com outro homem era algo novo. E assim ela me deixou sem opção que não fosse aceitar o convite de Sam.

— Vou só pegar o casaco – eu disse, desaparecendo nos fundos da loja.

Quando voltei, April estava ocupada atendendo outro cliente, portanto, felizmente, não pôde mais se intrometer.

Sam manteve a porta aberta para mim. Assim que saímos da livraria, virei-me para ele com um pedido de desculpas.

— Desculpe, Sam, de verdade. April pode ser muito invasiva, às vezes.

— Ela parece mesmo ser uma pessoa bastante excêntrica – admitiu Sam, sorrindo. – Você trabalha ali há muito tempo?

— Desde os 16 anos, com intervalos – respondi.

Ele pareceu intrigado.

— É uma longa história – acrescentei.

— Então você terá de falar depressa, porque ouvi dizer que o sindicato só garante uma hora de almoço – advertiu ele.

Passamos por uma série de lojas antes que Sam perguntasse ao acaso:

— Então, como estão as coisas com você, Blaine?

Mordi os lábios e reprimi o “está tudo bem” automático que eu dava a todos que me faziam aquela pergunta ultimamente. Os olhos azuis de Sam me mantinham prisioneiro, e meus instintos me disseram que ele perceberia no ato se eu tentasse mentir.

— As coisas estão complicadas. Está sendo muito difícil. E doloroso. Alguns dias são melhores que outros…

Minha voz falhou, e ele sorriu com gentileza, procurando minha mão e apertando-a brevemente. Eu soube então que Sam via através do meu escudo protetor, como se ele nem existisse.

— Vamos fazer com que este dia seja um dos melhores, certo? – sugeriu ele, com delicadeza, e meu coração ridiculamente falhou uma batida e, de modo estranho, disparou em meu peito. – Então, que lugar você sugere para o almoço?

Voltar a falar do trivial foi um bem-vindo alívio.

— Algum lugar aqui na cidade? – sugeriu ele. – Se não, meu carro está logo depois da esquina. Corri os olhos para cima e para baixo na rua principal. Havia vários lugares nos quais poderíamos almoçar. Mas era uma cidade pequena, e as pessoas adoram uma fofoca, e embora eu não tivesse nada a esconder, ainda assim não queria ser assunto de especulações. Até porque elas poderiam chegar até Kurt e magoá-lo.

— Há um pub bem agradável a uns cinco minutos de carro daqui. Tem um prato que chamam de “prato do lavrador” que é delicioso – sugeri.

— Não faço ideia do que sirvam no tal prato, mas se o lavrador não se importar de dividir conosco, eu topo.

— -

— Então, seu thriller será ambientado em Hallingford? – perguntei enquanto percorríamos as ruas estreitas que levavam ao restaurante.

Sam era um bom motorista, e naquele momento, acabara de parar o carro para dar passagem a um trator.

— Não especificamente, mas me familiarizar com a área decerto vai ajudar.

— Bem, morei aqui a maior parte da minha vida, portanto, se quiser saber de algo, pode perguntar. Sobre a área, eu quero dizer, não sobre a minha vida.

Eu já estava gaguejando de novo, e podia perceber o nervosismo em minha voz, mesmo que Sam não notasse. Por que eu tinha concordado em almoçar com ele, se aquilo estava fazendo com que eu me sentisse tão culpado? Acho que eu sabia a resposta a essa pergunta, e ela estava em grande parte ligada ao modo como Kurt reagiria se soubesse onde eu estava naquele momento. Talvez uma pergunta melhor fosse por que Sam estava ali? Qual era a razão para que ele me procurasse?

Sam tirou a mão do volante por alguns segundos e segurou a minha, que nervosamente procurava arrancar algum pelinho invisível do meu suéter. Eu saltei ao sentir seu toque. O que havia de errado comigo?

— Relaxe, Blaine. Não estamos fazendo nada de errado aqui – disse ele, surpreendendo-me, como sempre, com sua capacidade de ler meus pensamentos. – Somos apenas bons amigos almoçando juntos, só isso.

Suas palavras pareciam dizer que havia alguém especial em sua vida, uma pessoa importante. Bem, isso era bom, porque eu tinha alguém assim.

— Ah, sei disso – afirmei com convicção, pois realmente não queria que ele pensasse que eu tivesse visto nada de mais naquele seu convite. – Acho que a intromissão de April só me deixou um pouco agitado. Acho que ela é mais contra Kurt do que já deixou transparecer.

— Interessante – refletiu Sam, estacionando com habilidade o grande carro alugado em uma minúscula vaga diante do pub. – Você vai ter que falar rápido hoje, para poder me contar tudo.

No fim, mal tocamos em qualquer tópico que cruzasse a fronteira do território pessoal ou da trágica noite em que nos conhecemos. Talvez eu até pudesse contar a Kurt sobre aquele encontro, sabendo que não disse e nem fiz nada que pudesse vir a ser motivo de preocupação para ele. Ao menos era o que parecia. Em um nível mais profundo, porém, eu experimentava algumas sensações bastante inquietantes, que não poderia partilhar com meu noivo. Como a maneira como a pele das minhas costas queimou quando Sam me conduzira na direção do bar lotado. Ou como meu coração começara a bater mais rápido quando ele observou meu rosto enquanto eu falava. Ou como algo tépido pareceu avivar-se dentro de mim quando ele riu de um pequeno gracejo ou de uma piada que eu fizera.

Eu tinha acabado de contar uma história maluca e embaraçosa sobre April. Sam ainda ria, quando, ao inclinar-se sobre a mesa para pegar o copo, sua mão roçou a minha. Aquele foi o momento em que o pub lotado e o ruído de seus frequentadores desapareceram, e por um segundo pareceu que o próprio ar fora sugado do salão, do mesmo modo como um incêndio pode esgotar o oxigênio de um espaço. Seus olhos encontraram os meus, e de repente não havia mais nenhum riso. Ele parecia tão chocado quanto eu. Uma boa analogia poderia ser estabelecida entre aquele momento e o fogo – ou o calor. Ambos estavam presentes em abundância, e brincar com eles seria perigoso, somente um tolo não saberia disso.

Fui o primeiro a falar.

— Bem, está ficando tarde. Preciso mesmo voltar ou me expulsarão desse sindicato… ou o que seja.

Sam me dirigiu um sorriso de compreensão, e vi que ele também sentiu algo e que sabia que eu estava correndo dali antes de ser queimado.

— Vamos levá-lo de volta, então.

No espelho do banheiro, vi o rubor em meu rosto e minhas pupilas dilatadas. Não fazia sentido negar a inesperada e poderosa conexão que eu sentia com Sam, mas tinha certeza de que era apenas uma consequência natural da situação em que nos conhecêramos e de ele ter salvado a minha vida. Era uma sensação única e extrema, e de fato seria perigoso e estúpido confundi-la com outro tipo de atração. Provavelmente havia livros publicados sobre o assunto, sobre como toda a vida e a perspectiva de uma pessoa mudam após escapar da morte. E quando um completo estranho arrisca a própria vida para salvar a sua, isso obrigatoriamente forja uma intensa conexão entre os dois, não é? Resolvi que pesquisaria o assunto na internet assim que voltasse para a loja.

Sam parou bem em frente à livraria e não provocou nenhuma situação constrangedora ou ambígua para o momento de nos despedirmos. Quando me virei para soltar o cinto de segurança, vi duas grandes sacolas no banco de trás, que exibiam a logo dos concorrentes de April na cidade. Sem pedir permissão, estendi a mão e puxei ambas para a frente. Sam não falou nada que pudesse me deter, mas seu rosto exibiu uma leve careta, como se ele estivesse se preparando para um golpe. Tirei um livro da primeira sacola e instantaneamente reconheci o mesmo título que eu lhe havia vendido fazia pouco mais de uma hora. Peguei a segunda sacola e tirei seu conteúdo: o mesmo livro. Eu não disse nada, deixei que a inclinação de minha cabeça e a sobrancelha levantada falassem por mim.

— Bem, quem poderia saber que haveria três livrarias em uma cidade tão pequena? – falou por fim.

Senti um sorriso começar a se abrir e mordi o lábio, procurando contê-lo.

— E os livros?

— Ah! Bem, eu queria mesmo esse livro sobre lagos. Assim, quando me disseram, na primeira livraria, que você não trabalhava lá, pensei que o mínimo que eu poderia fazer seria comprar o livro.

— E quanto à segunda loja?

— Foi a mesma coisa – confessou ele, dando um sorrisinho culpado.

Não adiantava. Não havia como eu reprimir aquele sorriso.

— E não lhe ocorreu perguntar sobre um livro diferente nas lojas número dois e três? Ele pareceu ainda mais constrangido com aquela.

— Teria feito mais sentido – concedeu. – Só que não me ocorreu na hora. Falta de imaginação, eu acho.

— Essa deve ser uma grande desvantagem em sua profissão – lamentei, destravando o cinto e saltando do carro.

E ele foi embora rindo.

Notas finais
Até o próximo! 0/ Espero que comentem e me digam se gostaram ou não.