Our History

14 Cuidado Blaine, Cuidado!


Notas iniciais
Enjoy ;)

A doença de mamãe começara sem alarde, vários anos antes. Fora um incidente tão pequeno e tolo que eu não percebera seu significado sinistro. Tinha acabado de voltar de minha temporada em Washington e chegara de Londres para um fim de semana em casa. Esperava ansiosamente por uma refeição tranquila em família, mas o que me aguardava, na verdade, era uma armação em grande escala, disfarçada de almoço de domingo.

— O quê? Não mataram o bezerro gordo? – Lembro-me de ter brincado, quando abri a porta do forno e vi o enorme pedaço de carne que assava no tabuleiro. – Meu Deus, mãe! Somos só nós três para o almoço! Você e papai vão comer sobras por dias!

Ela parecia um pouco desconcertada, mas prosseguira em sua ação de apanhar um monte de talheres na gaveta. Aquilo deveria ter me alertado de que não seria só a nossa família no almoço.

— Na verdade, convidei os Hummels para celebrarmos sua volta.

Tendo dito aquilo, ela se retirou rapidamente para a sala de jantar, e com boa razão, pois era certo que meu rosto tinha espelhado de forma muito eloquente o que eu sentira. Teria sido demais esperar que minha mãe não tivesse incluído Kurt no convite. Era óbvio que o incluíra! Eu fiquei imaginando se Elizabeth, a mãe de Kurt, também não estaria envolvida naquilo. Nenhuma das duas se mostrara discreta em expressar seu pesar sobre nosso rompimento, mas aquele nível de interferência, em que estavam bancando o cupido, elevava tudo a um novo patamar. Lembro de ter me questionado sobre a possibilidade de Kurt estar tão no escuro quanto eu. Ah! Aquele seria um almoço encantador, eu pensei.

Foi quando ouvi, vindo da sala de jantar, o grito agudo e angustiado da minha mãe. Larguei as luvas protetoras e corri até ela, toda a raiva desaparecendo enquanto eu ia em seu socorro. Em minha disparada pelo corredor, imagens horríveis de ferimentos e ataques cardíacos me acompanhavam. Mas o que eu encontrei não foi minha mãe fisicamente debilitada. Em vez disso, ela estava de pé à cabeceira da mesa de jantar de madeira polida, tendo os talheres jogados diante de si, na forma de uma brilhante montanha de prata.

— Mãe, o que foi? Qual o problema? – perguntei, vencendo rapidamente a distância até ela. Lembro-me de ter ficado apavorado, porque sua expressão era de agonia e atordoamento, e lágrimas desciam como velozes riachos por seu rosto cuidadosamente maquiado.

— Não consigo fazer isto – gemeu ela, transparecendo medo e desespero. Olhei ao nosso redor, confusa.

— Fazer o quê? O que a senhora não consegue fazer?

Eu não podia ver naquela sala de jantar tão conhecida nada que pudesse ser a causa de tamanha aflição. Tudo parecia absolutamente normal – exceto, claro, minha mãe. Nela, nada estava normal. Nada mesmo.

— Não consigo fazer isto— repetiu ela, aos soluços, enquanto agitava a mão à sua frente, indicando os talheres que aguardavam. – Não consigo pôr a mesa. Sumiu… simplesmente sumiu.

Claro que depois déramos risada daquilo. Tínhamos de dar. Eu a acalmei e também arrumei a mesa eu mesmo, e tão logo a tarefa fora concluída, ela estava controlada e parecia quase normal novamente. Acho até que fizemos uma piada boba sobre o incidente – inacreditavelmente— quando Kurt e os pais chegaram para o almoço. Suponho que, se tivéssemos agido de outra forma, teríamos aberto a porta para o demônio mais cedo do que precisávamos. Mas ele estava a caminho, e não demorou muito para que se tornasse um visitante indesejado e frequente em nossa casa. Tinha começado.

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Como acontecia com frequência após tais episódios, nos dias seguintes à peregrinação a seu antigo local de trabalho, minha mãe parecia muito mais sossegada e conectada com o presente. Ela até exprimiu vontade de pintar e, enquanto meu pai montava o cavalete, a tela e os pincéis, ferramentas do antigo trabalho da esposa, o olhar que dirigiu a mim dizia de forma eloquente: “Está vendo? Tudo está bem agora.” Eu me perguntava se ele acreditava mesmo naquilo.

Kurt, ao menos, pôde me oferecer seu apoio, ainda que apenas por meio de uma demorada conversa tarde da noite ao celular, que ambos provavelmente lamentaríamos quando recebêssemos a conta, no mês seguinte.

— Temos que apoiar o que o seu pai acha que é o melhor – disse ele, de modo sensato.

— Eu sei – concordei, com um suspiro. – Mas e se eu não a tivesse encontrado? E se na próxima vez ela se perder, se machucar… ou acontecer algo pior? Ele nunca se perdoaria se alguma coisa assim acontecesse.

Fez-se silêncio na linha e por um momento me perguntei se a ligação tinha sido cortada. Então, quando Kurt falou, havia tristeza em sua voz.

— Você não pode viver assim, com medo dos “e ses”. Não pode prever o futuro, só fazer o melhor com o que tem, enquanto tem. Tudo pode mudar com tanta rapidez…

Sua voz falhou, e fiquei imaginando se ele de repente se arrependera do rumo que a conversa tomara. Era inevitável que suas palavras nos fizessem pensar em Tina. Mas ele estava certo. Tina abraçara a filosofia do “viva o hoje, porque o amanhã não depende de nós”.

Conversar com Kurt me deixou mais calmo e equilibrado. Ele tinha razão sobre muitas coisas: sobre meus pais, sobre não nos preocuparmos com o futuro e também sobre nós dois.

— Não quero esperar muito para reagendarmos o casamento – disse ele.

— Mas as pessoas não pensarão que é errado ou desrespeitoso, se nos casarmos cedo demais?

— Dane-se o que os outros pensam! Isso é sobre mim e você. E, vamos ser francos, você acha que isso teria preocupado Tina? Teria?

Balancei a cabeça negando, o que era uma coisa idiota a fazer ao telefone. Mas, de repente, senti um aperto na garganta, porque eu quase podia ouvir a voz de minha amiga dizendo o que Kurt acabara de dizer, só que de uma forma ainda mais expressiva.

— Está bem. Vamos falar sobre isso quando você voltar – concordei.

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Sentei-me à mesa da cozinha na manhã seguinte, virando e revirando em minhas mãos o pequeno pacote marrom, com cautela, como se ele contivesse uma bomba prestes a explodir. Bufei, impaciente, diante de meu disparate. Era um livro. Apenas um livro. Eu lidava com centenas deles todos os dias. Eu estava sendo ridícula.

Se não tivesse conseguido descobrir nada mais durante o fim de semana da Páscoa, ao menos uma coisa teria ficado clara: por algum motivo – e eu tenho certeza de que tinha relação com a forma como nos conhecemos –, eu achava que Sam era estranhamente fascinante, e essa conexão funcionava como os polos de um ímã: me atraía e me repelia. Portanto, a última coisa que eu precisava fazer era permitir que ele entrasse mais fundo em minha cabeça quando eu lesse aquele livro. Eu deveria jogar o pacote ainda fechado na lixeira da cozinha, não ter mais nenhum contato com ele e deixar que meus sentimentos confusos desaparecessem. Simples assim. Então, por que foi que ouvi um leve ruído de papel sendo rasgado e percebi que meus dedos – seguindo seus próprios planos – haviam aberto o pacote?

Era uma edição de capa dura, preta e reluzente, com aplicação de verniz e um belo trabalho de arte. Eu a abri e li o elogio na capa, que não me revelou nada que eu já não tivesse descoberto na internet, quando a encomendei. Passei à quarta capa. Minha respiração ficou presa na garganta enquanto eu olhava a foto do homem que me salvara. Fora tirada ao ar livre, e ele estava sorridente e descontraído, encostado em uma árvore. Atrás dele, era possível ver uma cerca de madeira. A calça jeans, a camisa de colarinho aberto e as botas completavam a imagem de caubói que eu imaginava que o fotógrafo tivesse buscado. Sam parecia mais jovem no retrato, e o cabelo estava um pouco mais comprido. Também era possível que, naquela imagem, os pequenos sulcos que se irradiavam de seus olhos quando ele sorria não estivessem tão pronunciados quanto no outro dia, enquanto ele me olhava, mas, fora isso… Fechei o livro de modo estrepitoso, como se uma serpente tivesse acabado de aparecer em meio às suas páginas. E é por isso que eu deveria simplesmente ter jogado o livro na lixeira, pensei, desconsolado. Porque, por alguma razão, estar perto de Sam – ou mesmo olhar sua foto, ao que parecia – exercia em mim um efeito tão intoxicante quanto o de uma droga – e quase tão perigoso quanto. Antes que aquele vício irracional se tornasse ainda mais forte, eu precisava me livrar dele e me concentrar nas coisas que de fato importavam para mim: minha família, meu noivo, meus amigos e a volta a algum tipo de normalidade depois da perda de Tina.

E como se fosse prejudicial até mesmo tocar o livro, eu o carreguei pela cozinha segurando-o por um dos cantos apenas; portanto, não foi nenhuma surpresa que ele escorregasse de meus dedos e caísse no chão. Abaixei-me para apanhá-lo, então notei que caíra aberto na página da dedicatória. Devo ter ficado agachado por um tempo considerável, ao menos o suficiente para que minha panturrilha começasse a protestar. No entanto, ainda assim, meus olhos continuaram fixos nas três linhas de texto da página aberta à minha frente. “Para Mercedes, minha amiga, minha amante, minha inspiração e minha esposa. Para sempre, Sam.”

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Passei o feriado com Rachel e Quinn, e a primeira coisa que notei quando parei na entrada da casa foi o automóvel moderno e reluzente, novo em folha, estacionado ao lado do de Quinn. Não sei muito sobre carros, mas supus que aquele upgrade tivesse custado muito mais que o valor pago pelo seguro do antigo modelo de Rachel. A caminho da porta de entrada, ao passar pelo veículo, inclinei-me e espiei seu interior: contei ao menos cinco airbags. Eu conhecia Quinn bem o bastante para saber que aquele item de alta segurança tinha sido insistência dela – o que era compreensível. E isso deixava no ar uma pergunta dolorosamente triste: se fosse aquele o carro de Rachel na noite do acidente, será que as coisas, mesmo assim, teriam terminado como terminaram? Eu ainda estava olhando para trás, para o novo veículo, quando Quinn abriu a porta e me beijou afetuosamente no rosto após nós nos abraçarmos.

— Muito bacana – comentei, antes de ele fechar a porta e o carro desaparecer do nosso campo de visão.

— Sim, é – concordou Quinn com certa amargura. – Uma pena que eu não consiga fazer com que ela o dirija, não é?

Uma preocupação genuína se revelava em suas palavras, e eu baixei automaticamente o tom de minha voz para um sussurro que eu sabia que não poderia ser ouvido da cozinha, onde Rachel certamente nos esperava.

— Então ela ainda não está dirigindo?

Ele balançou a cabeça, e uma expressão preocupada franzia seu rosto amável.

— Não. Ela mal consegue ir no carona em uma viagem curta. Mas, sinceramente, Blaine, não sei se algum dia vou conseguir fazer com que ela se sente ao volante de um carro de novo.

Quinn estava preocupada e frustrada, o que eu podia entender. Mas o medo incapacitante de Rachel era ainda mais compreensível, a meu ver. Nos primeiros e aterrorizantes percursos na estrada após o acidente, eu tivera uma amostra dele – o que não devia ser nada, em comparação com o que Rachel estava sentindo.

— Dê tempo a ela.

O único conselho que eu podia dar. “É preciso dar tempo ao tempo” era o chavão que as pessoas sempre me ofereciam. Tratava-se, sem dúvida, do conselho mais bem-intencionado e inútil que se podia dar a alguém.

À medida que nos aproximávamos da cozinha, era possível sentir, vindo do forno, um cheiro delicioso de alguma coisa que cozinhava no vinho. Rachel se virou para me receber com um largo sorriso, e parecia serena e controlada como sempre, até que, ao me entregar a seus braços estendidos, senti que ela se agarrava a mim por um segundo ou dois além do habitual. Mas não era apenas ela: eu estava fazendo o mesmo.

Como éramos só nós três, comemos no ambiente mais descontraído, a cozinha, mas, ainda assim, a ausência de dois dos integrantes de nosso grupo era perceptível nas cadeiras vazias em um dos lados da mesa rústica de pinho. Rearrumei os pratos ao pôr a mesa, tentando preencher os espaços que seriam ocupados pelos pratos de Kurt e de Tina.

— Então, como está a divertida Páscoa de Kurt, cuidando de oitenta garotos de 15 anos enquanto esquiam?

A leve ironia de Quinn não passou despercebida. Pensar na responsabilidade extra que Kurt havia voluntariamente assumido me fez perceber ainda mais quanto ele precisara se afastar. Eu só esperava que fosse da situação que ele estivesse precisando escapar, não de mim.

— Parece que bem – respondi, recolhendo do meu prato a última e deliciosa colherada de alguma coisa carregada de creme, massa e cerca de mil calorias. – Em nossas últimas conversas, estava muito mais parecido com o antigo Kurt. Bem menos perturbado.

— É uma ótima notícia – disse Rachel, sorrindo.

E pensei que tivesse visto algo em seus olhos enquanto ela pegava o prato que Quinn lhe estendera. Talvez tivesse mesmo, pois alguns minutos depois ela pediu licença e foi para a sala, murmurando algo sobre atender uma ligação importantíssima.

Rachel aguardou o momento em que colocaríamos a louça suja na lava-louças para sua tentativa de fazer casualmente o comentário que devia estar ansiando por fazer havia dias.

— Então, ouvi dizer que você e Sam Evans almoçaram juntos na semana passada… Parei de enxaguar a travessa e me virei para ela.

— Esta cidade é simplesmente inacreditável. Onde você ouviu isso?

Ela deu de ombros e optou por não comentar minha irritação instantânea diante de suas palavras.

— Hallingford é um lugar pequeno. As pessoas falam. Você sabe disso.

Eu podia sentir meus lábios se contraírem.

— São coisas desse tipo que me fazem sentir saudades de morar em Londres, onde não temos de explicar tudo o que fazemos a pessoas que nada têm que ver com a nossa vida.

Rachel continuou a me observar. Meu desejo de sair de nossa cidade natal fora para ela um mistério tão grande quanto a física quântica. Ela tinha tudo o que sempre quisera no lugar em que sempre vivera. Para ela, mudar-se dali era uma interrupção desnecessária na sucessão harmoniosa de um plano de vida perfeita. Nossas visões eram quase diametralmente opostas, exceto que ela morou em NY por 2 anos, antes de realmente se “ajuntar” com Quinn. Foi bem difícil pra ela, quanto ao fato dos pais não aceitarem a sua orientação sexual. Mas, depois que os pais dela conheceram Quinn, pelo menos ficaram felizes por ser uma boa garota ao lado da filha deles.

— Você ainda sente falta de Londres? Mesmo sendo aqui o lugar onde todos os que você ama vivem?

Olhei para ela com tristeza. Nem todos os que eu amava. Não mais.

— Só não gosto que as pessoas se intrometam naquilo que não diz respeito a elas.

Rachel arqueou uma sobrancelha, o que me forçou a intervir e a explicar.

— Não você. Eu me refiro aos fuxiqueiros da cidade, que espalham fofocas. E entendem tudo errado.

Rachel arqueou a outra sobrancelha. Ela havia aperfeiçoado o gesto, transformando-o em uma arte.

— Aquilo não foi um encontro, nada desse tipo – emendei.

— Mas vocês realmente foram almoçar juntos?

Ela estava começando a parecer uma promotora em um julgamento. E embora eu soubesse que não havia feito nada de errado, senti-me imediatamente culpado.

— Sam apareceu na livraria procurando um livro e, como era hora do almoço, ele sugeriu que saíssemos e comêssemos alguma coisa. Só isso. Fim da história.

Deliberadamente omiti o interessante fato de que ele havia me procurado em cada uma das livrarias da cidade, pois nem mesmo eu sabia por que ele tinha feito aquilo. Rachel me olhou com atenção, e seus olhos pareciam arrancar-me as palavras, então continuei:

— De qualquer forma, ele é casado e feliz, e eu estou quase lá. Mas não creio que a “fábrica de fofocas” tenha decidido divulgar esse detalhe, não é mesmo?

Em geral, o ataque é a melhor defesa, exceto quando a outra pessoa a conhece tão bem quanto Rachel me conhecia.

— E o que foi que Kurt disse quando você lhe contou sobre isso?

— Como não era importante, nem disse nada a ele.

Ela ficou me olhando por muito tempo, e então estendeu os braços e segurou a minha mão, antes de recomendar, com gentileza:

— Tenha cuidado, Blaine. Tenha muito cuidado.

Em se tratando de conselhos, este era quase tão inútil quanto aquele: “É preciso dar tempo ao tempo.” E talvez já fosse tarde demais.

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Por que será que assim que a pessoa toma uma resolução, uma de fato sensata, madura e bem-pensada – como a de evitar todo e qualquer contato com Sam Evans –, o destino se intromete e atrapalha todos os seus planos? Para mim, o destino chegou em uma manhã de terça-feira, quando eu saía para o trabalho. Veio na forma de um mensageiro de uma renomada empresa especializada em serviços de entrega. Não tive escolha senão descer do carro e cumprimentá-lo, porque ele estacionara logo atrás de mim, impedindo minha saída.

— Blaine Anderson? – perguntou ele, consultando o pequeno dispositivo eletrônico que trazia consigo.

— Sou eu – confirmei.

— Encomenda para o senhor. Pode assinar aqui, por favor?

Ele me estendeu um aparelho e eu assinei na pequena tela.

Em seguida, ele me entregou um volume grande e quadrado, embrulhado em papel pardo. Não era pesado, e parecia um tanto macio, como se contivesse algum tipo de tecido. Curioso, estudei a letra desconhecida na etiqueta de identificação do remetente. Além do livro de Sam, eu não havia encomendado nada nos últimos dias, mas, por mais intrigado que estivesse com seu conteúdo, aquele embrulho tinha sido feito com excessivo cuidado e, ao que parecia, quase um rolo inteiro de fita adesiva, e eu já estava atrasado. Então eu o pus debaixo do braço e o joguei no banco do carona, ao meu lado.

Cheguei atrasado ao trabalho, quando April já atendia dois clientes. Então deixei o pacote em uma prateleira do cômodo dos fundos e segui com pressa para a loja. Algumas horas se passaram até que eu precisasse ir aos fundos da livraria, e foi aquele volume ainda intocado a primeira coisa em que reparei ali. Enquanto aguardava que a água da chaleira fervesse, apanhei uma tesoura afiada e comecei a desfazer o embrulho que alguém se esmerara tanto em preparar para que chegasse intacto até mim. Esse alguém era a mãe de Tina. Estivera quase certa daquilo, mesmo antes de ler o bilhete destinado a mim, que fora colocado sobre uma jaqueta de couro caprichosamente dobrada dentro de um saco de lavanderia. Ao lado do meu, havia outro bilhete. Mas o envelope deste não trazia nenhum nome – creio que porque ela nunca o tenha sabido.

Abri o meu envelope com cuidado, sentando-me na borda da mesa enquanto lia o bilhete escrito à mão com muito capricho.

Querido Blaine, lamento incomodá-lo com isso, mas eu não sabia a quem mais recorrer. Entre os pertences de Tina que o hospital nos entregou estava esta jaqueta masculina que lhe enviei. Creio que deva pertencer ao americano que parou para ajudá-las depois do acidente, pelo fato dela ser muito grande, e você muito esguio. Mandei lavá-la, e acredito que as manchas tenham sido todas removidas. Alguém me disse que os viu conversando no funeral, então estou torcendo para que tenha o endereço dele, de modo que possamos devolver-lhe a jaqueta. Também incluí uma carta de agradecimento, e ficaria grata se pudesse entregá-la.

Obrigado, Blaine, por todo o apoio que você e Rachel deram a Donald e a mim nesse momento terrível. Vocês foram amigos maravilhosos para Tina, e ela teve muita sorte de tê-los na vida dela.

Por favor, mantenha contato.

Com amor e nossos mais sinceros agradecimentos, Linda e Donald (mãe e pai de Tina).

Chorei quando ela nos agradeceu o fato de termos sido amigos de Tina, como se nossa amizade alguma vez pudesse ter sido uma espécie de sacrifício. E então chorei ainda mais quando li as palavras entre parênteses após a assinatura, porque elas não tinham sido escritas com o intuito de identificá-los (obviamente, eu sabia quem eles eram), mas para reafirmar que, embora não estivesse mais com eles, Tina ainda era a garotinha dos dois.

— Você foi a outro país buscar esse café…? – começou April, porém viu a pequena pilha de lenços de papel usados e meu nariz excessivamente vermelho… e logo se colocou ao meu lado.

Entreguei-lhe o bilhete de Linda e April o leu rapidamente, voltando os olhos para mim após cada frase, para conferir como eu estava. Depois que me devolveu o papel, ela fungou, pegou um lenço e assoou o nariz ruidosamente.

— É melhor colocarmos conhaque no café – declarou.

Tentei um sorrisinho e descobri que quase me lembrava de como fazê-lo.

— Deve ser terrível para eles – comentou April. Olhei para ela, triste.

— É terrível para todos nós.

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Era simplesmente impossível ignorar a jaqueta sobre a mesa, naquela capa plástica da lavanderia: meus olhos eram atraídos para ela sempre que eu estava por perto. E, como uma bomba-relógio, ela era um lembrete físico de que, mais tarde naquele dia, eu seria forçada a quebrar a resolução que tomara havia menos de 24 horas, quando tinha decidido que evitaria qualquer contato com Sam Evans. Mas havia algo ainda pior: todas as vezes que eu olhava a jaqueta, no mesmo instante me lembrava das palavras do bilhete de Linda. Como devia ter sido difícil e inacreditavelmente doloroso para ela ter que se referir às manchas na roupa, o tempo todo sabendo o que elas eram e como tinham ido parar ali!

Notas finais
Até o Próximo!