Our History
15 A Tempestade
Notas iniciais
Eu dirigia com cuidado ao longo da estrada costeira sinuosa. Mesmo trabalhando na velocidade máxima, os limpadores de para-brisa tinham dificuldade para enfrentar a chuva torrencial que começara a cair assim que alcancei a vila de Trentwell. E eu não tinha absolutamente nenhuma ideia de para onde estava indo, exceto pelo que Sam mencionara: que o chalé que ele tinha alugado dava para uma pequena enseada. Havia apenas algumas estradinhas nas quais as casas se encaixavam àquela descrição, então eu tivera esperança de que não seria muito difícil. Mas naquele momento, com toda aquela chuva, meu plano de encontrar a casa sem o endereço parecia extremamente idiota.
Relâmpagos cintilavam cortando o céu, tão dramáticos e deslumbrantes quanto uma faca que ceifasse o crepúsculo vespertino. Reduzi a velocidade e quase parei enquanto o estrondo de um trovão ecoava. Em uma rajada de ferozes projéteis líquidos, a chuva parecia atacar o teto e o capô do meu carro como uma metralhadora e, associada ao anoitecer sob as nuvens pesadas, reduzia minha visibilidade a poucos metros.
— Isso é ridículo – murmurei, percebendo que teria de abandonar minha missão.
Assim que houvesse condições, eu retornaria na próxima entrada para carros e tomaria o rumo de casa. De repente, vislumbrei um intervalo na cerca viva e peguei o acostamento para fazer a volta. Bem à minha frente, iluminado pelas luzes gêmeas dos meus faróis, estava o carro de Sam, estacionado no fim de um longo caminho que levava a um pequeno chalé de pedra. Desliguei o motor e os faróis e fitei o chalé através do aguaceiro. Era o tipo de lugar que fotografavam e transformavam em quebra-cabeças. Janelas de sacada ladeavam a porta de entrada, e havia um charme rústico e aconchegante nas paredes de pedra áspera. Não se via nenhuma luz no interior, mas, com aquele tempo, era improvável que Sam estivesse fora de casa, embora ele tivesse mencionado que a praia deserta era boa para corridas. Talvez eu pudesse deixar a jaqueta sem ter que vê-lo… Saí do carro e corri até a porta e, embora eu tivesse percorrido uma distância de menos de cinco metros, tinha ficado completamente molhado. Ao lado da porta de carvalho havia uma sineta de metal antiga, e eu a puxei, mas, se algum som se fez presente dentro da casa, ele decerto se confundiu com o barulho da chuva e dos trovões. Eu não levara um casaco, e a camisa fina que tinha usado no trabalho colava no meu corpo como uma segunda pele à medida que a chuva, ao cair sobre mim como um jato, literalmente me lavava. E eu permanecia tremendo diante da porta de Sam.
— Por favor, não esteja em casa. Por favor, não esteja em casa – murmurei.
Eu já estava procurando do lado de fora da casa por um lugar seco no qual pudesse deixar a jaqueta e o bilhete, quando, de repente, a porta se abriu e Sam apareceu à minha frente.
Peço desculpas a Kurt. Mesmo sendo noivo, comprometido com outra pessoa, eu não era cego, nem tampouco imune ao que, tenho certeza, foi apenas puro reflexo dos hormônios. Sam estava nu da cintura para cima, e o jeans velho e desbotado, que ele devia ter vestido rapidamente sobre o corpo ainda úmido, colava em lugares que eu não deveria olhar. Mas olhei, mesmo assim.
— Blaine – disse ele, dando um sorriso que indicava surpresa e abrindo ainda mais a porta, em um gesto de boas-vindas. – Entre.
Gotas voaram ao meu redor quando sacudi a cabeça como um cachorro molhado.
— Não, está tudo bem. Não posso ficar. Só vim trazer uma coisa para você. Espere aí, que está no carro.
Um braço de músculos definidos se estendeu na chuva e segurou meu pulso.
— Bem, a menos que seja um bote, pode esperar a tempestade aplacar. Agora entre, antes que você se afogue.
A não ser que eu arrancasse meu braço de sua mão, não havia muito que eu pudesse fazer, exceto deixar-me gentilmente conduzir para dentro da casa. O corredor era escuro e estreito e era quase impossível não se deixar dominar pelo intoxicante coquetel de nossa pele úmida e qualquer que tenha sido o sabonete que ele usara no banho.
— Por aqui – disse ele, enquanto sua mão deslizava dos ossos delicados do meu pulso e se unia confortavelmente à minha.
Eu o segui em silêncio, perguntando-me quão mais espetacularmente eu falharia em meu plano de me manter distante daquele homem. Até aquele momento, poucos minutos tinham transcorrido, e Sam já me conduzia pela mão para o interior de sua casa isolada, seminu, enquanto minhas roupas se colavam de maneira tão reveladora ao meu corpo que daria no mesmo se eu estivesse sem elas.
A cozinha era uma caverna quente e confortável, com vigas aparentes e paredes de pedra, além de um fogão de ferro fundido Aga que era uma verdadeira antiguidade e emitia acolhedoras ondas de calor. Instintivamente, segui em sua direção. A única fonte de luz eram os últimos e cinzentos cacos do dia, estilhaçados pelos relâmpagos e visíveis através das portas duplas de vidro que davam para um pequeno jardim e o mar mais adiante.
— Uau! – exclamei, com um arquejo, quando todo o céu foi iluminado por um imenso raio que pareceu sumir nas ondas do mar. – Que vista incrível!
— É, sim.
Ao ouvir a voz de Sam, senti os minúsculos pelos de minha nuca se eriçarem e involuntariamente estremeci.
— Você está com frio – observou ele.
Vi que seus olhos desceram para minha camisa encharcada. Ele puxou uma toalha que estava dobrada sobre o fogão, mas, em vez de passá-la para mim, parou à minha frente e a desdobrou, colocando-a em torno dos meus ombros, como um toureiro que manejasse uma capa. Ele deveria ter largado as bordas da toalha, ou eu deveria ter recuado um passo, mas não nos movemos. Ouvi que minha respiração soara ligeiramente áspera e senti uma vontade louca e quase irresistível de pousar minha mão na parede musculosa de seu peito. Os olhos de Sam estavam cravados nos meus e vi suas pupilas se dilatarem. A advertência de Rachel não encontrou eco em minha mente. Eu não devia estar fazendo aquilo. Nem ele. Encontrei forças para me afastar e, quando o fiz, o encanto se quebrou. Esfreguei a toalha energicamente em minhas roupas encharcadas, enquanto ele apanhava uma camisa que estava pendurada no encosto de uma cadeira. Tentei não prestar atenção na interação dos músculos enquanto ele se esticava para vestir a camisa de mangas curtas, mas era difícil não olhar.
— Desculpe não poder lhe oferecer uma bebida quente ou algo assim – disse ele. – A luz acabou durante a tempestade.
Aquilo explicava a casa às escuras.
— Isso acontece bastante por aqui – comentei, feliz por poder conversar sobre cabos de energia, a rede elétrica nacional, loucas condições climáticas, qualquer coisa que não aquele momento de intimidade que ambos nos esforçávamos por fingir que não acabara de acontecer. – Ao menos você tem o Aga para cozinhar e ferver água.
— Vou parecer estúpido se eu disser “hein”?
Daquele jeito estava melhor: era muito mais como as brincadeiras que tínhamos feito durante o almoço, no outro dia. Aquilo era inofensivo e trivial. Com aquilo eu podia lidar. Corri os olhos pela cozinha que ia mergulhando no escuro. Eu buscava uma chaleira, mas só consegui avistar uma elétrica, então peguei uma panela de ferro fundido em um suporte próximo.
— Vou lhe mostrar – prometi, enchendo a panela de água. – Aí, todos os clichês que você já ouviu sobre os britânicos e o seu hábito de beber chá passarão a ser verdade.
Ele riu e me trouxe saquinhos de chá, canecas e leite, que pegou na geladeira.
— Como você é especialista nesse tal Aga, poderia me ajudar com isto mais tarde? – perguntou ele, tirando da geladeira uma bandeja com dois bifes enormes. – Não posso deixar que estraguem… E quem sabe quanto tempo ficaremos sem energia elétrica?
Enquanto aguardava a água ferver, estendi as mãos frias ao calor que irradiava do fogão. Minha camisa ainda estava desconfortavelmente molhada.
— Deixe-me buscar algo seco que você possa vestir – ofereceu Sam, desaparecendo no corredor escuro.
Alguns minutos depois, voltou trazendo um moletom cinza-claro que exibia a logomarca da Universidade de Harvard e o entregou a mim. Corri o dedo sobre a insígnia e ergui as sobrancelhas, com admiração.
— O garoto do Texas fez bonito – falei com um sorriso.
— Tive pais que me apoiaram e ótimos professores – respondeu ele com humildade, e gostei da maneira como ele não reivindicou o crédito de seu sucesso acadêmico, embora eu tivesse certeza de que o merecera.
Sacudi levemente o moletom, abrindo-o, e o deslizei por minha cabeça, tentando ignorar o perfume entranhado no tecido.
— Precisa de ajuda? – disse de modo cavalheiresco quando comecei a desabotoar a blusa molhada passando a mão sob o moletom largo.
— Não, está tudo bem – garanti, puxando botões relutantes por buracos que não queriam que eles saíssem.
Ele observava com um leve ar de diversão enquanto eu prosseguia na tentativa de me livrar da blusa, em uma série deselegante de movimentos, que incluíram tirar a cabeça da gola e quase enfiá-la pelas imensas mangas do moletom dele. Eu estava começando a sentir calor e a ficar agitado, e era grande a chance de que estivesse preso dentro da porcaria do casaco.
— Precisa de ajuda? – ofereceu ele novamente, educadamente, e soltando um leve sorriso como se estivesse divertindo com a minha dificuldade de vestir o moletom.
— Não, estou bem – garanti.
Então fiz uma careta quando um músculo estirou dolorosamente em meu pescoço. Cerrei os dentes com determinação.
— Vi fazerem isso uma vez em um filme… pareceu muito mais fácil do que é. – Também não me lembrava de a atriz ter grunhido tanto quanto eu.
— Flashdance, creio eu – disse ele, com tranquilidade.
Interrompi meu contorcionismo por um segundo e olhei para ele.
— Estou impressionado.
— É que gosto de cinema.
Gostava mesmo. Dava para perceber.
Por fim, consegui me livrar de minha peça de roupa problemática. Dei um imenso suspiro de alívio ao puxar a camisa molhada de baixo do moletom de Harvard.
— Mas, se eu lembro corretamente, a garota do filme estava na verdade tirando o sutiã – afirmou Sam.
E rimos.
—-
Ficamos sentados à pequena mesa da cozinha, bebericando chá à luz que se extinguia e olhando a tempestade que desabava lá fora. Era como se estivéssemos abrigados em uma ilha tranquila ou em um porto, protegidos não só dos fenômenos atmosféricos, como também de todos os outros perigos e preocupações do mundo além daquelas paredes. Sam fazia com que eu me sentisse seguro. Isso tinha de estar ligado ao fato de ele ter salvado a minha vida, não tinha? No entanto, não explicava a curiosa sensação que eu experimentava: como se tivesse acabado de encontrar o caminho para casa, após uma jornada muito longa.
Sheridan. O nome soou em minha cabeça como o dobrar de um sino. A casa de Sam era com ela, não comigo. Descansei a caneca na mesa com um pouco mais de força que o necessário, fazendo com que ele, que observava os relâmpagos lá fora, se voltasse e olhasse para mim.
— Tem tempestades assim no Texas? – perguntei, desajeitadamente forçando que a conversa nos fizesse lembrar a nós dois da casa e da vida de Sam em outro lugar.
— Eu não moro mais no Texas. Nós nos mudamos para Nova York quando eu era criança.
— E é lá que você mora agora? – perguntei, sem habilidade, lançando janela afora, para juntar-se a tempestade, toda a minha pretensão de sutileza.
Ele me estudou demoradamente antes de responder, e imaginei que, já tendo sido entrevistado por um número suficiente de jornalistas, era fácil para Sam reconhecer uma pergunta com segundas intenções. E era preciso reconhecer que a minha não tinha sido nada engenhosa.
— Cresci em Nova York e morei lá a maior parte da minha vida adulta. Então, alguns anos atrás, quando os livros começaram a fazer sucesso, comprei um pequeno rancho no interior do estado, e é lá que eu moro agora.
Estava escurecendo rapidamente, e não víamos mais nada na cozinha, então Sam pegou uma caixa de velas em um armário ao lado da pia. Ouvi o riscar de um fósforo antes que ele retomasse nossa conversa.
— E vocês? Você e Kurt planejam continuar por aqui depois que se casarem?
Engoli em seco, sentindo-me um pouco desconfortável com a pergunta. Será que havia nela uma crítica implícita ou eu só estava sendo excessivamente sensível?
— Sim, bem, é onde nossas famílias e amigos vivem, é onde trabalhamos.
Ele assentiu, porém mais uma vez pude perceber que minha resposta causara certo desapontamento, o que me deixou com raiva. Ele não tinha o direito de me julgar, de nos julgar, por sermos provincianos. Não havia nada de errado nisso.
— Então, há quanto tempo vocês estão noivos?
— Desde o Natal.
Ele pegou uma vela e a colocou no parapeito da janela ao lado da pia, e a iluminação conseguida foi suficiente para que eu visse sua expressão de surpresa.
— Tão recente assim? Não sei por quê, mas tive a impressão de que vocês estivessem juntos há muito mais tempo.
— Começamos a namorar ainda adolescentes, mas rompemos por um tempo. Eu fiquei fora.
Ele prosseguiu na tarefa de colocar velas em pontos estratégicos da cozinha. As chamas bruxuleantes lançavam sombras nas rústicas paredes de pedra, dando ao ambiente um aspecto de gruta encantada.
— Então, aonde você foi quando esteve “fora”? – perguntou Sam, e ficou claro que ele não estava mais interessado em discutir meu relacionamento.
— Londres, para começar, e então, por causa do trabalho, morei um ano e meio em Washington. Ele se virou para me encarar, com uma expressão de surpresa.
— Presumo que você não esteja falando do seu trabalho na livraria…
A observação me fez sorrir.
— Não. Eu era da área de marketing. Eu sou da área de marketing – corrigi, odiando a maneira como, havia algum tempo, eu tinha começado a me referir à profissão da minha escolha: no passado.
Ele me olhou com curiosidade, esperando que eu continuasse.
— Tive de fazer um pequeno… intervalo na carreira… um ano sabático, suponho que você fosse chamar assim.
Fiz uma pausa, porque sempre me sentia desconfortável quando precisava dar aquela explicação.
— Minha mãe não anda bem de saúde, então voltei para casa por um tempo, para ajudar meu pai nos cuidados com ela.
Vi admiração e compreensão nos olhos de Sam.
— Até que ela melhore?
Fiz outra pausa diante daquele questionamento.
— Na verdade, não. Até que ela piore. Ou, ao menos, até que fique tão mal que meu pai finalmente seja capaz de aceitar o que está acontecendo e deixar que ela vá.
Ergui os olhos, lutando para não chorar. Minhas palavras talvez soassem duras, mas eu certamente não era, e ainda menos depois do acidente.
— É Alzheimer – contei, por fim.
Só que as palavras saíram um pouco abafadas, porque, de alguma forma que eu não lembro como aconteceu, quando as pronunciei eu estava sendo confortado nos braços de Sam, com a boca de encontro à parede de seu peito.
Ele não me ofereceu palavras, e eu fiquei feliz por ele não recitar alguma banalidade bem-intencionada porém ineficaz. Para um homem que ganhava a vida com palavras, ele certamente sabia quando elas não eram necessárias. Eu gostava daquilo, de verdade. Por fim, sentindo-me muito constrangido, eu me afastei.
— Então – comecei a perguntar, exibindo um sorriso de falsa alegria e bochechas manchadas de lágrimas –, você ainda quer que eu tente cozinhar aqueles bifes?
Enquanto ele começava a preparar uma salada, vasculhei as gavetas do fogão, em busca de uma frigideira. Trabalhamos juntos em um silêncio amistoso, como se aquela fosse apenas uma de muitas refeições que houvéssemos preparado juntos. E o mais supreendente era que nada daquilo, por mais desconhecido que fosse, parecia absolutamente estranho. Ergui os olhos algumas vezes e o peguei olhando para mim com uma expressão que era difícil de definir. Talvez se tratasse – e isso era o mais perto que eu podia chegar de uma definição – de uma espécie de incompreensão que ao mesmo tempo surpreendia e agradava. Eu me sentia como ele.
Quis perguntar se ele costumava cozinhar em casa com a esposa, não porque estivesse interessado, mas só porque pensei que um de nós devia ao menos reconhecer a existência de nossos pares ausentes. No entanto, por algum motivo, o momento certo não se apresentou. Comemos à mesa da cozinha, à luz de velas. Eu queimara um pouco os bifes, mas Sam era educado demais para dizer outra coisa senão que era exatamente daquele jeito que ele gostava da carne. Ele abriu uma garrafa de vinho, mas eu só tomei uma taça pequena, dizendo que logo teria de voltar para casa dirigindo.
— Não acho que você deva ir até que a tempestade passe – disse Sam, solenemente. – A estrada costeira não é iluminada e fica muito perigosa na chuva.
Veio à minha mente a imagem de outra estrada escura que ambos tínhamos razão para recordar bem. Sobrevivente e salvador, trocamos um olhar longo e expressivo.
— Não posso chegar tarde – expliquei. – Nos últimos tempos, meus pais ficam em pânico permanente quando dirijo.
— É compreensível. Você não pode ligar?
— Bem, Kurt vai telefonar da Áustria, mais tarde, e não acho que vá ficar muito satisfeito se souber que ainda não estou em casa.
O que eu de fato queria dizer era “se souber que estou com você”, e acho que Sam percebeu aquilo.
— Mas ele não ia querer que você dirigisse quando as estradas não estão seguras…
— É claro que não – confirmei, em defesa do meu noivo.
Não havia uma forma educada de dizer que Kurt provavelmente pensaria que minha segurança estava mais em risco na companhia de Sam que nas estradas. De repente, me senti esmagado por uma imensa onda de culpa.
Sam deve ter percebido meu desconforto, pois estendeu o braço sobre a mesa e deu tapinhas nas costas da minha mão, como fazemos quando queremos acalmar uma criança assustada.
— Não se preocupe. Vamos levá-lo para casa, de uma forma ou de outra. – E lembrou, de repente:
— Mais cedo, quando chegou aqui, você disse que tinha trazido algo para mim. O que era? Rapidamente retirei minha mão de baixo da dele, quando aquelas palavras fizeram que eu recordasse o propósito de minha visita. Tive a sensação de que haviam jogado um balde de água gelada em mim.
— Deixei no carro. Vou lá buscar – disse, afastando-me da mesa e seguindo para a porta da frente, antes que ele pudesse me deter.
Ainda estava chovendo, mas nem de perto tão violentamente quanto antes. Em segundos, voltei e entreguei a ele, agora molhado de chuva, o pacote de papel pardo que eu novamente embalara, de modo um tanto frouxo. Havia um sorriso de curiosidade em seu rosto bonito, que lentamente congelou quando ele viu a jaqueta. Em silêncio, Sam voltou à cozinha e, à luz das velas, leu o bilhete que a mãe de Tina escrevera.
— Pode me dar o endereço deles? – perguntou, circunspecto. – Gostaria de responder ao bilhete.
— É claro.
Ele olhou a jaqueta de couro dobrada e eu me perguntei se, como as roupas que eu usara naquela noite fatídica, a jaqueta também seria descartada. Alguns objetos permanecem eternamente maculados, por mais que se consiga remover suas manchas superficiais.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Quando Sam voltou a falar, foi para fazer uma pergunta. Uma pergunta que, em retrospectiva, deveria ter sido precedida por uma buzina de advertência.
— Tem uma coisa que vem me intrigando em relação àquela noite, uma coisa que Tina disse. De que ela estava falando quando lhe agradeceu por tê-la perdoado?
Franzi a testa, genuinamente confuso com as palavras de Sam.
— Do que você está falando?
— Você não lembra… – começou ele, em tom alentador –… momentos antes de as ambulâncias chegarem… Tina agradeceu o fato de você ter sido uma boa amiga e ter perdoado alguma coisa… Parecia tão importante para ela que me deixou curioso.
— Eu… eu não sei – respondi, balançando a cabeça lentamente de um lado para outro.
Eu havia esquecido as palavras de Tina até aquele momento, e alguma coisa dentro de mim se contraiu e retesou com aquela lembrança. Eu estava ciente de que Sam ainda me observava.
— Não acho que ela soubesse o que estava dizendo – continuei, com a voz não muito estável. – Mas isso não chega a surpreender, não é? Ela mal estava consciente, nada do que disse fazia sentido.
— Desculpe – disse Sam ao ver minha expressão de angústia.
De repente eu estava lá de volta, ajoelhado naquele asfalto molhado, olhando para minha amiga horrivelmente machucada, segurando sua mão… e nunca, nem por um só momento, imaginando que aquela seria a última conversa que teríamos.
Pela segunda vez naquela noite, os braços de Sam me envolveram, consolando-me. O soluço pareceu vir de algum lugar bem fundo dentro de mim, de um poço que eu havia tentado selar – não com muito êxito, como era possível ver. Sam me manteve abraçado a ele gentilmente enquanto eu chorava, e havia uma libertação em poder ser assim com Sam, porque, diferentemente do que acontecia quando eu estava com Kurt ou Rachel, eu não precisava me preocupar com a dor dele, a perda dele ou com os sentimentos dele: podia apenas permitir que a onda de dor me erguesse e me lançasse a terra, quando finalmente morresse na praia. Minhas mãos estavam presas entre nós, pousadas em seu peito, e eu podia sentir as batidas fortes e regulares de seu coração. Sam ainda me segurava junto ao seu corpo quando uma de suas mãos seguiu para o meu cabelo, alisando-o suavemente. Gradualmente a torrente de lágrimas diminuiu, tornando-se um fio. Afastei a cabeça de seu peito e da grande mancha molhada que eu deixara em sua camisa.
— Desculpe – sussurrei, e até minha voz soava alquebrada e magoada.
— Shhh.
Ele procurou me acalmar, e então, sem nenhum aviso, nenhum sinal ou indício de que aquilo estaria prestes a acontecer, sua cabeça baixou e seus lábios delicadamente roçaram os meus.
E nos separamos como se tivéssemos sido eletrocutados. Meu arquejo de choque eliminou todas as outras emoções, como um incêndio que se espalhasse pela floresta. Meus olhos cintilavam, furiosos. Então tudo não passava daquilo? Ele só me consolara pensando em tirar vantagem de minha vulnerabilidade? Como eu pudera me enganar tanto?
Olhei para ele, que parecia tão chocado com o que fizera quanto eu – e quase tão horrorizado também. Ele estendeu uma das mãos em minha direção, como alguém que tentasse repelir alguma coisa maligna. Como se de alguma forma tudo aquilo fosse minha culpa.
— Que diabo…? – gritei.
— Desculpe. Eu não tinha a intenção de fazer aquilo. Não sei o que passou pela minha cabeça. Havia, provavelmente, algum tipo de significado insultante no que ele dissera, mas eu estava furioso demais para captar nuances.
— Não estava tentando me aproveitar de você. Por favor, acredite nisso, Blaine.
Encarei Sam como se nunca o tivesse visto, como se ele fosse um estranho – o que, na realidade, era exatamente o que ele era. Olhei à minha volta freneticamente, procurando minha bolsa, e a peguei.
— Blaine, por favor. – implorou Sam, com a mão ainda estendida e o rosto aflito. – Não sei nem como isso aconteceu. Eu não queria beijar você. Eu não quero beijar você.
Será que ele achava mesmo que alguma coisa do que estava dizendo poderia melhorar a situação?
— É bom saber – rebati, com amargura –, mas isso não muda absolutamente nada.
Dei meia-volta e segui para a porta.
— Blaine, espere – gritou Sam, fechando a mão em meu pulso e me fazendo virar para ele. – Me deixe explicar.
— Poupe sua explicação – disparei, com rispidez. – Não sei por que você fez aquilo, nem me importo. Mas o que quer que essa… essa amizade pudesse ser, você acabou de arruinar.
Havia uma bola compacta de dor em meu peito, e eu podia senti-la queimando como um cometa raivoso quando olhei para ele.
— Pensei que você me entendesse. Pensei que estivéssemos nos tornando amigos, que eu pudesse confiar em você.
— Eu entendo, estamos e você pode – disse ele.
Balancei a cabeça e vi que já estava na porta da casa sem me dar conta de como tinha chegado ali. Mas ele estava bem atrás de mim, de modo que, quando me virei para me despedir, quase colidi com ele.
— Devo muito a você, Sam. Jamais vou negar isso. Mas o que acaba de fazer… bem, isso passou dos limites.
Se minhas palavras tiveram algum significado para ele, Sam escondeu bem.
— Então, obrigada por salvar minha vida, aproveite o restante da sua e, se tiver alguma decência, faça um favor a nós dois e fique o mais distante possível de mim.
A essa altura, eu já estava do lado de fora. Podia ouvir, pelo barulho do cascalho sob nossos pés, que ele ainda estava me seguindo. Entrei no carro, e meu coração martelava loucamente quando arrisquei olhar para onde ele estava, observando-me com uma expressão agoniada no rosto. Minha mão tremia tanto que foram necessárias três tentativas até que eu finalmente conseguisse enfiar a chave na ignição.
Iluminadas pelo feixe de luz dos meus faróis, vi suas feições lançadas em um relevo de sombras. Seus olhos pareciam desolados quando ele correu a mão sobre a boca, e meus próprios lábios formigaram traiçoeiramente com a lembrança. A culpa subiu como bile em minha garganta, amarga e ácida. Pressionei com força o botão que abria minha janela e disse, por fim:
— Kurt estava certo sobre você.
Sam se encolheu como se eu o tivesse cortado.
— Que diabo você estava pensando? Você e sua mulher podem gostar desse lixo de relacionamento aberto, mas eu certamente não!
Dei marcha à ré e acelerei pela entrada de sua garagem, arrancando a grama que a ladeava, em minha pressa. Eu devia estar prestando mais atenção, mas meus olhos estavam fixos apenas na expressão aturdida no rosto de Sam.
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