Our History
6 A Visita
Notas iniciais
Anestesiado. Anestesiado por novocaína. Anestesiado por gelo. Não de uma maneira positiva – era mais o tipo de dormência que se sente quando suas extremidades ficam enregeladas e queimadas, um pouco antes de você começar a perder os dedos.
Sentados em total silêncio pelo que pareceram horas, Kurt e eu tentávamos assimilar o que era tão torturante e horrível que estava quase além da aceitação. Tina, a pessoa mais vibrante e cheia de vida que eu já conhecera, levara a cabo sua filosofia de viver cada dia como se fosse o último.
A notícia abalou até mesmo a equipe médica, pois eu juro que passamos a ser tratados de modo diferente. Quando a enfermeira que veio aferir minha pressão ficou segurando minha mão depois de tirar o aparelho do meu braço. Até o funcionário administrativo que levou a minha alta deu tapinhas no meu ombro, de uma forma desajeitada e constrangida, com uma expressão de simpatia e condolência no rosto. Tive a impressão de que veria bastante disso nos dias por vir.
Depois que a equipe médica deixou meu quarto, Kurt me ajudou a trocar a “camisola” hospitalar que tinham me colocado por meu jeans e uma polo azul que tinha usado na festa. Encolhi-me quando senti o tecido raspar no sangue coagulado em minha pele. Eu só não sabia de quem seria o sangue.
Meu? De Sam? Ou seria de Tina? Que diferença fazia? O vestido iria direto para o lixo.
Para poupar tempo, Kurt se ofereceu para ir buscar na farmácia do hospital os analgésicos que me receitaram.
— Não vou demorar – prometeu e me deu um beijo rápido logo abaixo da grande atadura branca colocada em minha testa. – Você vai ficar bem enquanto vou lá?
Balancei a cabeça com tristeza, e tudo o que ele pôde fazer, em resposta, foi assentir. A sensação era de que nada nem nenhum de nós jamais ficaria bem de novo, ambos sabíamos disso. E eu tinha a forte suspeita de que no momento em que deixássemos os limites do hospital, a situação ainda pioraria bastante, em vez de melhorar.
Houve uma leve batida na porta, e uma jovem enfermeira a abriu o suficiente apenas para passar a cabeça pela abertura. Imaginei que ela estivesse ali para me dizer que o táxi que tínhamos pedido havia chegado, mas, em vez disso, ela me surpreendeu com as palavras:
— Tem uma visita, Sr. Anderson. Não estamos no nosso horário de visitas, mas… dadas as circunstâncias especiais…
Ali estava novamente: o tratamento VIP reservado a quem passava por uma tragédia. Não havia nenhuma honra em ser membro desse clube.
A enfermeira se afastou a fim de permitir que minha visita entrasse no quarto. Sam ficou um breve momento sem dizer nada, então suas primeiras palavras me fizeram desmoronar.
— Blaine, eu sinto muito, muito mesmo.
Eu me esforcei para não perder o controle. Assenti com a cabeça, reconhecendo as palavras de solidariedade, mas, como se fosse um cantor de ópera que estivesse prestes a interpretar uma ária, já podia sentir meus lábios começarem a tremer. Com um ruído que se iniciou como um soluço e terminou como o latido de um cão, novamente me vi nos braços de Sam, enquanto as lágrimas, que não tinham caído na presença de Kurt, finalmente encontraram a rachadura na represa. Na verdade, não sou de chorar, nunca fui. Portanto, era ainda mais impressionante aquele americano, que eu conhecia havia menos de doze horas, ter me consolado enquanto eu chorava como uma criança, mais vezes do que meu noivo nos últimos doze anos.
Não ouvi Kurt entrar no quarto, embora eu já começasse a recuperar o controle no momento em que percebi que Sam e eu não estávamos sozinhos. O primeiro sinal disso foi a voz suave de Kurt:
—Blaine?
Sam ergueu os olhos, mas manteve os braços firmes em volta de mim. Seu abraço era inocente e tinha a única intenção de consolar, mas vi uma luz desafiadora acender-se em seus olhos azuis diante de Kurt. Isso definitivamente era algo de que eu não precisava naquele momento. Tentei me desvencilhar dos braços de Sam, que no mesmo instante me soltaram.
Ele estendeu a mão para Kurt.
— Sam Evans – apresentou-se. – Peço desculpas, não tivemos a chance de ser formalmente apresentados ontem à noite.
Kurt demorou um pouco para erguer a mão e apertar a de Sam. Então, quando a situação estava prestes a passar de ligeiramente descortês a abertamente rude, ele cedeu. O cumprimento não foi nada caloroso, nem tampouco a expressão no rosto dos dois.
— Kurt Hummel – replicou Richard, sem rodeios –, o noivo de Blaine.
Um pequeno músculo se contraiu no rosto de Sam.
— Você não ficou a noite toda aqui também, ficou? – perguntei, sem notar que Jack estava com uma roupa diferente, limpo e barbeado.
— Não. Fui atendido e depois voltei para casa.
Notei um curativo bem menor em seu braço, que mal dava para ver debaixo da manga enrolada da camisa escura.
— Então o que o traz ao hospital? — Fuzilei Kurt com o olhar, porque não havia como disfarçar uma grosseria tão flagrante. O olhar que ele me devolveu dizia “O quê?”, mas ele sabia qual era o problema.
— Liguei hoje de manhã para saber como Blaine estava e para perguntar sobre Tina. Eles me deram a notícia e eu… bem, achei que deveria vir.
— É muita gentileza sua – disse Kurt, embora sua voz deixasse claro que, na verdade, ele queria dizer o oposto.
— Sim, é mesmo – acrescentei com muito mais sinceridade.
— No entanto, como você pode ver, estou prestes a levar Blaine para casa e ele precisa muito descansar. Portanto, muito obrigado por vir, mas agora já temos tudo sob controle.
Sob controle? Nada jamais parecera estar menos sob o nosso controle. Mas lidar com Sam, estar em dívida com ele por ter salvado o homem que ele amava, era pressão demais para Kurt naquele momento, e eu tinha consciência que, certo ou errado – e eu sinceramente sabia que era errado —, devia tomar o partido dele.
— Obrigada por vir. Foi muito importante.
E por mais que minhas palavras não o fizessem, minha voz dizia: Por favor, vá agora. Adeus.
— Só queria que não fosse nessas circunstâncias, queria que houvesse mais que eu pudesse fazer. Por Tina.
Senti que essas duas últimas palavras de Sam foram acrescentadas para evitar que Kurt se saísse com alguma resposta sobre ele já ter feito o suficiente. Por mais ridículo que parecesse, era quase como se meu noivo se ressentisse de eu ter sido salvo por Sam, como se o fato de não ter sido ele a me resgatar o diminuísse ou ferisse sua masculinidade de alguma forma. Isso não fazia o menor sentido. Ele deveria estar agradecido, mas tudo o que conseguia demonstrar era mediocridade e ciúme.
— Você recebeu alta agora? – continuou Sam. – Posso oferecer uma carona a vocês?
— Não, obrigado. Temos um táxi à nossa espera lá embaixo.
A intervenção de Kurt foi tão instantânea que acho que ele temia que eu fosse aceitar. Então, como se pegasse a deixa, a mesma jovem enfermeira bateu à porta para informar que nosso táxi nos aguardava.
Kurt passou o braço por minha cintura e me conduziu em direção à porta. Virei-me e olhei para Sam. Ele agora transparecia tão pouca emoção que eu não soube dizer o que pensava. Dirigi um breve e triste sorriso de adeus ao homem que arriscara a vida para me salvar. Deixá-lo ali me dava a sensação de uma questão não resolvida, de uma dívida não paga. Quando se deve a alguém a própria vida, talvez seja assim para sempre.
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No táxi, não questionei Kurt sobre seu comportamento em relação a Sam. Havia coisas mais importantes e devastadoras com que lidar, e à medida que nos aproximávamos de casa a enormidade desse fato pareceu nos atingir como uma bola de demolição. Assim que o táxi parou na frente da casa dos meus pais, pousei a mão no braço de Kurt enquanto ele pegava a carteira para pagar ao motorista.
— Por que você não vai para o seu apartamento primeiro, toma um banho, descansa e vem para cá mais tarde? – sugeri.
— Seria mais fácil se eu entrasse com você agora…
Balancei a cabeça com tristeza e me inclinei para beijá-lo suavemente, esperando que ele compreendesse meu raciocínio.
— Não vai ficar mais fácil, qualquer que seja a maneira como façamos isso. Volte um pouco mais tarde, está certo? Até daqui a pouco – despedi-me, descendo do táxi e me dirigindo à porta da frente com uma confiança que era tão falsa quanto a gratidão de Kurt por Sam.
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Os dois me aguardavam à mesa da cozinha. Meu pai se levantou assim que entrei e me deu um abraço apertado cheio de alívio, preocupação e amor. Eu telefonara do hospital, portanto ele sabia sobre Tina. Vi seus olhos vermelhos e soube que fora um golpe duro para ele. Tina e Rachel eram presenças frequentes em nossa casa havia mais de vinte anos. Eram praticamente da família.
— Você quer um chá? Não creio que aquela coisa no hospital fosse bebível.
A emoção fizera sua voz soar áspera, rouca, e embora eu não estivesse interessado na bebida, sabia que ele precisava de um tempo para se recompor.
— Obrigada, pai.
Puxei uma das cadeiras de pinho e a coloquei ao lado da de minha mãe. Olhei para o lenço de papel embolado que ela segurava com força na mão fechada… e, quando se virou em minha direção, havia uma expressão de tristeza em suas feições – que se pareciam tanto com as minhas. Essa semelhança costumava me confortar e dar um senso de continuidade, mas agora isso me deixava simplesmente morto de medo.
Meu olhar buscou meu pai, que acenou quase imperceptivelmente. Senti uma pequena onda de alívio. Por ironia, aquele era um dos melhores dias de minha mãe, embora fosse, muito possivelmente, o meu pior.
— Seu pai me contou – confirmou ela, triste. – Eu mal posso acreditar. Pobrezinha da Tina!
Assenti em silêncio, sentindo a ferroada quente das lágrimas que escapavam e desciam por meu rosto. Os olhos de minha mãe pousaram na atadura em minha testa.
— Sua cabeça… O que aconteceu?
— É um corte pequeno, do acidente. Não é nada, na verdade. O curativo faz parecer pior do que é.
Não se preocupe com isso, mãe. Ela fez que sim com a cabeça, e aquela pronta aceitação de algo que deveria tê-la preocupado bastaria para mostrar a qualquer um que a tivesse conhecido antes que aquela não era mais a mesma Frances Anderson.
— Não posso imaginar como Linda e Donald estão se sentindo – continuou ela, e meu pai e eu trocamos um olhar de surpresa.
Até mesmo eu poderia ter tido certa dificuldade para lembrar os nomes dos pais de Tina; no entanto, apesar de não os ver havia anos, mamãe se recordou imediatamente. De fato, não tínhamos como explicar o que a doença decidia roubar ao doente e o que permitia que retivesse.
Ficamos ali sentados, bebendo nosso chá em silêncio. Minha cabeça começava a parecer pesada demais para o pescoço, e por diversas vezes esfreguei os olhos, o que dava a sensação de estarem cheios de areia quente.
— Por que você não sobe e tenta dormir um pouquinho, filho? – sugeriu papai finalmente.
Balancei a cabeça.
— Não posso, pai, tenho muito o que fazer, muito sobre o que pensar… Preciso saber da Rachel: não tenho a menor ideia de como ela está. E depois quero ver os pais da Tina. E tem também o casamento. Será preciso adiá-lo…
— O quê? – perguntou mamãe rispidamente. – Vocês vão adiar o casamento? Por quê? Você e Kurt brigaram?
Olhei para ela, confusa.
— Não, é claro que não. Mas não podemos seguir com o casamento agora. Não depois que Tina…
Minha voz falhou. Claro que ela não poderia entender… Olhei para o meu pai, que estudava a esposa com uma expressão intensa, como se tentasse fazer com que a mente dela voltasse a funcionar como antes. Era uma expressão que ele apresentava com frequência.
— Ah, sim! É claro. Ela é sua madrinha de casamento, não é?
Concordei com um aceno de cabeça, incapaz de confiar na minha voz para corrigir o tempo verbal. Ela deveria ter dito era, e não é. Tudo em relação a Tina era agora no passado. Não haveria futuro para ela. Esse pensamento me atravessou como se fosse um sabre.
— Haverá tempo para pensar em tudo, mais tarde – disse meu pai, voltando ao assunto após desviar sua atenção de minha mãe, que ignorava o fato de ter sido testada. – Você não vai conseguir ajudar ninguém se ficar doente. Vá e descanse um pouco agora.
Parecia errado permitir-me o luxo de dormir e de conseguir, com o sono, uma breve e bem-vinda fuga da realidade, porém eu sabia que meu pai estava certo. Havia muitas coisas a resolver, mas eu simplesmente não poderia agir nem pensar com clareza naquele momento. Levantei-me trêmulo.
Inclinei-me e beijei sua testa e a testa de mamãe. O rosto dela examinou o meu com ar preocupado.
— Só algumas horinhas. Não me deixe dormir mais que isso, tá? – preveni meu pai. – Kurt virá aqui mais tarde, e eu não quero estar na cama quando ele chegar.
—Kurt está vindo? – perguntou mamãe, e o prazer em sua voz deveria ter me alertado. – Que bom.
Então entrei no quarto e desabei na cama.
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A julgar pelas olheiras, parecia que Kurt tivera tanto insucesso em tentar dormir quanto eu.
Todas as vezes em que meus olhos se fecharam, eu vira outra vez, em detalhes horrendos, os acontecimentos da noite anterior, como o trailer de um filme que não se deseja ver.
Sentindo-me inquieto e nervoso por estar confinado em casa, saí para o quintal dos fundos enrolado em um antigo e confortável cardigã. Fazia frio naquele fim de tarde e me sentei em um banco de madeira sob uma árvore frondosa. Pelas portas de vidro do pátio, vi Kurt entrar na sala acolhedoramente iluminada. Eu o assisti dirigir-se até meu pai e senti um incipiente sorriso repuxar meus lábios quando seu aperto de mão se transformou em um abraço sem jeito e inesperado. Seu cumprimento à minha mãe pareceu consideravelmente mais natural. Ele seguiu direto para a poltrona dela, acocorando-se para conversarem. Não sei que palavras foram ditas, mas o vi assentir com paciência e pegar a mão dela enquanto ela falava. Ele era mais do que bom com ela, era sensacional, e de uma maneira natural e tolerante, nunca condescendente ou impaciente. Por mais que eu tentasse imitá-lo, não chegava nem perto de ser tão bom com ela. Talvez, como ele mesmo sugerira certa vez, eu fosse próximo demais, e perdê-la pouco a pouco daquele jeito era difícil.
Vi meu pai apontar na direção do jardim, e o aceno de cabeça de Kurt como resposta. Alguns instantes depois, ele estava ao meu lado no banco, deslizando um braço por meus ombros e me puxando para perto dele. Encaixei-me nos contornos familiares de seu corpo, como uma peça que completasse um quebra-cabeça. Podia sentir o cheiro forte do seu perfume e, pela primeira vez em quase 24 horas, senti um ligeiro afrouxamento da tensão que se atara em torno de mim como um garrote.
Por um longo tempo, não falamos nada. Não havia necessidade. Uma vida praticamente passada juntos significava que éramos bastante intuitivos em relação ao que o outro pensava.
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