Our History
7 Fotografias e Lágrimas
Notas iniciais
Dessa vez, porém, quando rompi o silêncio, eu sinceramente não tinha a menor ideia de como ele iria reagir.
— Temos que adiar o casamento, Kurt.
Por um longo momento, ele nada disse, e, em seu abraço, me virei ligeiramente, buscando analisar seu perfil impassível. Uma brisa suave despenteava-lhe o cabelo, e os cílios quase alcançavam as sobrancelhas, enquanto ele fitava o quintal com uma expressão que eu simplesmente não sabia nomear. Quaisquer que fossem as imagens que estivessem passando pela mente de Kurt, sem dúvida não era a visão do gramado aparado com capricho, nem tampouco a dos arbustos e das plantas que o ornavam. O silêncio se estendia como elástico e, justamente quando comecei a pensar que um doloroso e ruidoso protesto romperia, Kurt soltou um suspiro profundo e pesaroso e deu sua resposta:
— Concordo.
Essa única palavra perfurou e esvaziou os argumentos que eu tinha prontos, à minha disposição.
Estivera tão certo de que ele iria discordar que acabara sendo surpreendido. De modo irracional, por um breve momento fiquei desapontado com o fato de ele não ter se esforçado para me dissuadir – ou melhor, de ele nem ter tentado fazê-lo.
— É o certo a fazer – disse eu, repetindo de modo automático o roteiro que havia preparado em minha cabeça.
— Sim, é.
Ele pegou minha mão e com delicadeza tocou o anel em meu dedo anular. Estava ali havia apenas três meses, e eu ainda me sentia, quase o tempo todo, consciente de seu peso e de sua presença.
— Por pouco tempo – concordou ele, erguendo minha mão até seus lábios e roçando de leve os nós de meus dedos. – Estamos adiando, não cancelando.
Seus olhos estavam presos nos meus.
Assenti em resposta, incapaz de confiar em minha voz.
—-
Apesar da claridade que se ia apagando e da brisa que se intensificava, permanecemos do lado de fora até que o frio acabasse por anestesiar nosso corpo, obrigando-nos a entrar.
— Sabe que, se não fosse por Tina, você e eu talvez nunca tivéssemos ficado juntos? – confidenciei, enterrando a cabeça na concavidade do ombro de Kurt.
Ele se remexeu ligeiramente e olhou para mim, e uma expressão curiosa substituía a anterior, sombria.
Acho que nunca lhe contei isso, mas, quando estávamos no ensino médio, eu era muito apaixonado por um garoto da escola, Sebastian Smythe. Todas as garotas gostavam dele, não era só eu, embora eu fosse o menos sutil nesse aspecto, imagino. Todos nós achávamos o Sebastian maravilhoso, porque ele cantava em um coral e era muito bonito.
As sobrancelhas de Kurt se ergueram eloquentemente, mas ele não disse nada.
— Eu estava desesperado para que ele me convidasse para o baile de fim de ano – continuei, sorrindo um pouco porque, mesmo doze anos depois, eu ainda me lembrava do que sentira com aquela obsessão adolescente.
— Mas você foi àquele baile…
— Mas ele não me convidou; ele convidou a Tina – interrompi, remexendo minhas lembranças e revivendo quanto ficara arrasado quando ele foi até onde Tina e eu estávamos no corredor lotado e convidou minha melhor amiga para ir com ele.
— Aquele cara sempre foi um idiota – interveio Kurt.
— Sabe que ela não hesitou, nem por um só segundo, embora ele fosse o garoto mais bonito da escola? Sabe por que ela disse não?
— Porque tinha um gosto para homens melhor que o seu?
Acertei-o nas costelas antes de responder à minha própria pergunta.
— Porque ela sabia que eu gostava dele e que se ela dissesse “sim” aquilo me magoaria.
— Ela tem um bom coração – disse Kurt, e então as lágrimas afloraram nos meus olhos quando ele corrigiu: –… tinha um bom coração.
Precisei de vários minutos antes de conseguir continuar.
— Então Sebastian Smythe, sendo o sedutor que era, virou-se para mim e disse algo como: “Acho que posso levar você, então. Todo mundo diz que você está louco para sair comigo.”
— Espero que você tenha dito a ele onde enfiar o convite.
Sorri, lembrando-me da dor que aquela humilhação pública me fizera sentir. Emiti um ruído breve, algo entre uma risada e um soluço.
— Não, estava mortificado demais, mas Tina fez isso por mim. Bem ali, no corredor, na frente de todo mundo, ela disse a ele que eu já tinha um encontro com alguém mil vezes melhor que ele e que, se ele tirasse a cabeça do próprio traseiro por tempo suficiente, perceberia que não era tão maravilhoso quanto acreditava ser.
— Bem típico da Tina – disse Kurt, com aprovação.
— Naturalmente, ela estava blefando. Eu não tinha nenhum par para o baile, mas a Tina não ia deixar aquele idiota convencido pensar que eu aceitaria as migalhas que ele estava me jogando. Mais tarde, ela me disse que eu merecia alguém bem melhor que ele, e que, se fosse preciso, iríamos ao baile juntos e mandaríamos para o inferno todos os garotos estúpidos que não nos convidaram.
— Mas…
Sorri e enrosquei os dedos em torno dos dele.
— Então naquela noite você me telefonou e estava tão nervoso que levou uns dez minutos para conseguir fazer o convite.
— E você disse sim – recordou Kurt, sorrindo para si mesmo com a lembrança.
— Foi o nosso primeiro encontro, mas, se não fosse pela Tina, talvez eu acabasse indo com o Sebastian mesmo.
Ficamos os dois calados por um longo momento. A luz do dia fora quase toda encoberta pela cortina do crepúsculo que descia.
— Vi o Sebastian Smythe não faz muito tempo – disse Kurt. – Estávamos abastecendo o carro em um posto. Não acho que ele tenha me reconhecido. Ele agora tem uma barriga de chope considerável e perdeu quase todo o cabelo.
Eu me aconcheguei ainda mais ao corpo de Kurt, sabendo quanto Tina teria amado ouvir aquilo.
— Que vergonha!
—-
Apesar dos protestos tanto de Kurt quanto do meu pai, insisti em ver Rachel ainda naquela noite. Eu telefonara várias vezes durante o dia, mas só falara com Quinn, pois Rachel havia se recusado a atender, o que era preocupante. A cada telefonema, eu podia perceber o desespero crescer na voz de Quinn.
— Se você não quiser ir, não tem problema: eu mesmo dirijo – falei, teimoso, pondo Kurt em uma situação desconfortável.
Sabia que ele concordava com meu pai, que achava que o único lugar a que eu deveria ir era de volta para a cama, mas havia uma determinação férrea no olhar que dirigi ao meu noivo.
— Rachel precisa de mim. Eu tenho que ir. E, na verdade, Kurt, seu apoio provavelmente também não faria nenhum mal a Quinn.
Era um argumento imbatível, e o leve muxoxo de desaprovação de meu pai não foi suficiente para abalar minha determinação. Mamãe observava o embate triplo como se estivesse sentada na primeira fila de uma peça estrangeira muito interessante.
— Vocês vão sair? – perguntou ela com a voz branda, enquanto Kurt segurava meu casaco para que eu o vestisse.
— Não vamos demorar, mãe.
—-
Rachel e Quinn moravam em um condomínio novo do outro lado da cidade. Elas eram as primeiras de nosso círculo de amigos a ter casa própria – provável consequência de Quinn trabalhar em um banco e Rachel, em uma imobiliária. As ruas eram planejadas e tudo era muito limpo e organizado, habitado por jovens casais com estilos de vida semelhantes. Rachel, que preparava seu enxoval cerca de um século depois de esse conceito ter desaparecido por completo, era uma dona de casa nata e não conseguia entender por que nem Tina nem eu partilhávamos de seu entusiasmo por catálogos de decoração e de lojas de construção.
Eu percebera um vislumbre de esperança em seus olhos depois que eu ficara noivo, no último Natal. Ela tentara me seduzir com amostras de tecido e revistas de decoração que ela espalhava por lugares estratégicos, como se buscasse atrair um animal selvagem com petiscos irresistíveis. Mas todos os seus esforços tinham sido em vão. Kurt já alugava um apartamento legal, e eu estava muito feliz com a decisão de me mudar para lá depois que nos casássemos. Já havia decisões suficientes a tomar na organização de um casamento, sem que fosse preciso procurar uma casa ideal.
Eu era uma grande decepção para Rachel – e sabia disso.
—-
Ao chegarmos à casa de nossos amigos, Kurt estacionou com cuidado atrás do carro de Quinn.
Na vaga que o carro de Rachel costumava ocupar. Antes de sairmos do veículo, trocamos um olhar longo e consternado. Caminhamos de mãos dadas até a entrada da casa.
Não creio que já tenha visto alguém mais grato por receber visitas do que Quinn, que quase atendera à porta antes mesmo de a campainha terminar de ecoar no corredor com assoalho de carvalho. Ela me deu um cuidadoso abraço de boas-vindas, esforçando-se para não olhar para o curativo branco em minha testa enquanto falava.
— Ela está no quarto.
Assenti e sorri de uma forma que, esperava, dissesse “A partir daqui, eu assumo”. Então tirei o casaco e o pendurei no corrimão.
— Rach, sou eu. Estou subindo.
Eu teria encontrado o quarto deles mesmo se não soubesse perfeitamente onde ficava. Só precisava seguir os acordes abafados que chegavam à escada. Quando me aproximei, pude identificar o som de uma banda pela qual nós três havíamos sido obcecadas, uma década atrás.
Intercalados à trilha sonora de nossa juventude, ouviam-se ruidosos soluços, que faziam doer o coração só de ouvir. Bati suavemente à porta de madeira decorada e entrei.
Rachel estava arrasada e, o que era ainda mais impressionante: seu quarto estava uma bagunça – o que, para quem conhecia Rachel só um pouquinho, era um sinal de que a situação estava muito longe de bem. Seu longo cabelo castanho estava embolado e o rosto, vermelho e manchado de tanto chorar. Ela estava ajoelhada no meio da cama, sobre seu edredom branco lindamente bordado, só que não dava para ver o tecido, já que toda a superfície fora coberta por um mar de fotografias. Vestida apenas com o short do pijama e um top de alças, minha amiga era uma ilha no edredom, cercada praticamente por todas as nossas fotografias já tiradas.
— Não posso acreditar que ela não esteja mais aqui – disse Rachel, que parecia engasgar-se com a dor.
Ela correu as mãos pelo colchão e as deslizou sobre as inúmeras fotos, pedaços de Tina que agora eram tudo o que nos restava.
Deixei escapar um grito que soou estranho e agoniado.
— Eu sei.
— Por que Tina? Com tantas pessoas ruins no mundo, por que ela?
Mesmo através das minhas lágrimas, eu podia ver a pergunta nos olhos de Rachel, porque era a mesma que eu me fizera o dia todo: Por que a Tina, e não eu? Eu já tinha ouvido a expressão “síndrome do sobrevivente”, mas não tinha a menor ideia de quão devastadoramente ingrata eu me sentiria por ter saído quase ilesa daquela experiência, enquanto Tina perdera a vida, o futuro… tudo.
Abri caminho e engatinhei na cama para alcançar Rachel, passando os braços em torno dela, os dela em torno de mim, como João e Maria perdidos na floresta.
— Fico pensando que ela vai entrar neste quarto a qualquer minuto e nos dizer que tudo não passou de um terrível engano.
Rachel assentiu com veemência e pegou as minhas mãos, apertando-as tanto que foi como se temesse que eu também pudesse ser tirada dela. Olhei para as imagens de nossa amiga, espalhadas à nossa volta:
— Eu quero saber por quê. Quero saber por que a vida dela acabou. Ela era tão jovem, tinha tanta coisa a fazer, tantos planos!
Respirei fundo e ruidosamente antes de prosseguir, porque eu tinha a sensação de que estava me afogando na dor.
— Meu Deus, Rachel, eu simplesmente não entendo! Não devia acontecer daquela maneira.
Deveríamos as três envelhecer juntas. Você não lembra que combinamos tudo quando éramos crianças? Casaríamos e teríamos filhos, e eles seriam amigos, e nós os levaríamos ao parque juntos…
Minha voz falhou, transformando-se em soluços, e Rachel continuou a história que havíamos aperfeiçoado e refinado ao longo dos anos.
— Então, quando ficássemos velhas, encontraríamos uma boa casa de repouso, em algum lugar à beira-mar, com uma varanda grande e antiga na qual pudéssemos nos sentar o dia todo em nossas cadeiras de balanço. E nunca nos separaríamos, nem uma só vez, jamais.
Havia anos que não falávamos sobre nossa fantasia infantil, mas naquela noite a sensação foi de que tais planos tinham estado tão próximos que até daria para tocá-los, mas então eles foram cruelmente arrancados de nós.
— Não sei como vamos prosseguir agora. Sem ela – emendei, com a voz embargada. – Tudo machuca tanto! É como se ela tivesse morrido, mas nós é que estivéssemos sangrando. Dói respirar, dói pensar, simplesmente… dói.
Eu soluçava em meio às palavras, soando praticamente incoerente, mas Rachel parecia compreender e assentia com a cabeça, concordando, infeliz.
— As pessoas ligaram para cá o dia todo, mas eu não consegui falar. Eu só tenho vontade de gritar: “Não percebem o que tínhamos? O que perdemos? Ninguém entende que as coisas jamais serão as mesmas outra vez?”
— Eu entendo – afirmei com tristeza.
Abraçados, choramos por muito tempo, agarrando-nos uma à outra até que a maré de dor nos levasse como sobreviventes de um naufrágio. Por fim, tateei as fotografias em busca da caixa de lenços de papel que despontava na pilha em meio às nossas fotos do ensino fundamental. Peguei uma delas e a olhei com nostalgia. Fora tirada após a apresentação de uma peça natalina na escola. Fazia quase vinte anos que eu não a via. Tina estava no centro do retrato, linda com um longo vestido azul, a perfeita Virgem Maria – até que nosso olhar encontrasse suas mãos, que seguravam o boneco do
Menino Jesus pelo tornozelo, de cabeça para baixo. À sua esquerda estava Rachel, que, com grandes orelhas de burro fixadas em um arco na cabeça, exibia um sorriso bobo. Eu estava à direita de Tina e usava uma estranha engenhoca de papel-alumínio na cabeça. Se a memória não me falhava, eu tinha sido escalada como “O Alienígena do Natal”.
Senti o queixo de Rachel descansar em meu ombro enquanto ela também considerava a fotografia em minhas mãos. Três rostos, os três tão diferentes, exceto pela indisfarçada expressão de felicidade e amizade. Eu não precisava examinar as centenas de outras fotos que nos cercavam para saber que encontraria a mesma expressão em praticamente todas elas. Assim como nas que havíamos tirado na noite anterior, em minha despedida de solteira. Três cabeças coladas, enquanto Rachel esticava o braço com a câmera e batia a foto. Podia até haver maquiagem encobrindo as sardas e penteados modernos no lugar de marias-chiquinhas, mas a mesma amizade cintilava em nossos olhos.
E agora aquelas últimas fotografias, que registrariam apenas mais um marco em nossas vidas, na verdade tinham sido o marco final na de Tina. Procurei novamente os lenços de papel.
Ao lado do meu joelho esquerdo, uma foto que eu não reconhecia chamou minha atenção.
Apanhei-a e a aproximei da luz. Calculei que tivesse sido tirada três ou quatro anos atrás, pois, embora Tina e Rachel estivessem praticamente iguais, o cabelo de Rachel ainda estava na altura dos ombros, e já fazia um tempo que ele cresceu bastante. A foto obviamente fora tirada no verão, pois todos usavam short e camiseta e estavam sentados no que parecia ser a área externa de um pub.
Em uma árvore ao lado deles, havia quatro bicicletas apoiadas. Quinn e Kurt estavam em um lado da mesa e tinham diante de si longos copos de cerveja. Do outro lado, Tina e Rachel riam loucamente para quem quer que estivesse tirando a foto. Eu não estava lá.
— Onde esta foi tirada,Rachel?
Ela pegou a foto da minha mão e um leve e lacrimoso sorriso curvou seus lábios diante da lembrança.
— Ah, sim! Esse foi o dia em que Tina nos convenceu de que seria divertido ir de bicicleta até Brownleigh, a uns 25 quilômetros daqui, no domingo mais quente de todo o verão. Juro que quase morremos de insolação. Deve ter sido há uns três, não, talvez quatro anos.
Uma estranha sensação se contorceu dentro de mim enquanto eu pegava a foto novamente. Aquilo tinha acontecido no período em que eu havia me afastado das meninas. Para começar, meu trabalho em Londres consumia tanto do meu tempo, inclusive dos fins de semana, que eu mal podia voltar à minha cidade, exceto para rápidas visitas à família. Então, depois de dois anos trabalhando na capital, eu tivera a fantástica oportunidade de me transferir para o escritório da empresa em Washington, nos Estados Unidos, por dezoito meses, experiência que eu havia adorado. Na verdade, nunca pensara muito a respeito do que acontecera com o grupo de amigos do qual eu me afastara. Era inquietante, agora, perceber que eles tinham uma história passada e que partilhavam lembranças sobre as quais eu não sabia absolutamente nada. Isso não deveria ter me incomodado, mas incomodou. Eu havia perdido tanto tempo com elas, com Tina, um tempo que eu nunca mais recuperaria.
— Aposto que você nunca viu esta do Kurt – disse Rachel com um quase sorriso, enquanto remexia as fotos e pegava uma delas.
Ela estava certa. Eu nunca vira aquela. Fora tirada no Natal, e uma olhada rápida explicava por que Kurt definitivamente não ia querer que ninguém a visse. Ele parecia estar em uma festa, pois havia decorações em papel brilhoso pendentes do teto e piscas-piscas em torno de um grande arco.
Kurt olhava para a câmera, com uma bebida na mão e os cabelos cheios de…
— Ah, meu Deus! Kurt fez luzes?
Rachel fez que sim, alegremente, como se partilhasse um segredo.
— Ele ficou simplesmente ridículo, como um remanescente dos anos 80! Mas achava que estava lindo.
Examinei meu noivo, mas dessa vez meu olhar não foi para seu cabelo, que – Rachel estava certa – fazia com que ele parecesse artificial. O que notei foi que Kurt parecia relaxado e feliz, e obviamente estivera rindo quando sua atenção foi atraída para a câmera. Rachel estava de pé em um canto da foto, ao lado de várias pessoas que eu não conhecia, e, perto de Kurt, debaixo do arco, estava Tina, com um vestido vermelho extremamente curto, e – via-se com clareza – em pleno modo festivo. Logo acima de sua cabeça pendia um pequeno galho de azevinho, e eu conhecia Amy bem o bastante para saber que sua posição debaixo do galho não era mero acaso. Eu me perguntei quem, do grupo de rapazes que eu não reconhecia na foto, fora seu alvo na tradição natalina do beijo sob o azevinho.
Uma tímida batida fez com que erguêssemos o olhar, e uma Quinn tensa enfiou a cabeça pela porta.
— Vocês duas estão bem?
Ela tinha aquele clássico olhar de que se sentia desconfortável diante de lágrimas.
Olhei para Rachel e estendi a mão para apertar a dela.
— Não. Mas de alguma forma vamos ficar. Por Tina.
Acabei convencendo Rachel a descer comigo e a comer algo, o que, segundo Quinn, eram coisas que ela não tinha feito nas últimas 24 horas. Se eu não conseguisse mais progressos, só aquilo já justificaria a visita.
Quinn e Kurt tinham aberto uma garrafa de vinho e, quando nos juntamos a eles na cozinha, Quinn pegou mais duas taças no armário. Eu ainda estava sob analgésicos, de forma que não deveria tomar nenhuma bebida alcoólica. E havia reparado em um pequeno frasco marrom ao lado da cama de Rachel, então imaginei que ela também não devesse. Mas, ambos aceitamos o vinho.
Inevitavelmente, a conversa não conseguiu se afastar do acontecimento que havia estilhaçado nosso mundo.
— Alguém já falou com a família de Tina? Eles sabem quando o…?
Kurt estava em um claro embate com a palavra funeral, e com razão. Era um termo ligado a pessoas doentes ou idosas, depois que já haviam conseguido tudo o que queriam fazer e ver na vida.
Não a uma mulher bonita, engraçada e amorosa de 27 anos, cuja vida mal tinha começado.
— Eles ligaram para falar com a Rachel hoje à tarde – informou Quinn.
— Ligaram? — perguntou Rachel, girando na cadeira para olhar a namorada, surpresa. – Por que você não me contou?
O rosto de Quinn assumiu uma expressão de cautela, enquanto ele tentava encontrar uma resposta que não soasse acusatória.
— Eu contei, querida. Mas você não quis atender ao telefone. Na verdade, você usou uma linguagem bastante expressiva quando me mandou embora.
Rachel se levantou de sua cadeira e subiu no colo de Quinn, que a abraçou.
— Desculpe – sussurrou ela em seu pescoço, e de repente me pareceu que Kurt e eu fôssemos intrusos.
Eu talvez tivesse resgatado Rachel da beira do abismo, mas era de Quinn que ela precisava agora para encontrar forças para se pôr novamente de pé.
— Devo ligar para eles amanhã? – ofereci, e Rachel fez um breve aceno de agradecimento com a cabeça, ao ver uma tarefa para a qual não estava forte o suficiente ser tirada de seus ombros. – Onde eles estão hospedados?
Quinn me deu o nome de um hotel na cidade, junto com um sorriso extremamente agradecido.
Saímos pouco tempo depois, e eu me senti grata pelo apoio do braço de Kurt em minha cintura enquanto caminhávamos até o carro. Aparentemente, existe uma boa razão para a advertência de que não se deve beber quando se está fazendo uso de medicação.
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