Our History

20 À Luz do Anoitecer


Notas iniciais
I'M BACK, BITCHES! Aproveitem!

Abri as cortinas do meu quarto na manhã de sábado, realmente grato por ser meu dia de folga. Até mesmo o tempo melhorara, e o sol tinha aparecido depois de vários dias. Vesti uma calça jeans e um suéter vermelho.

Covardemente, adiei a descida ao primeiro andar até que o motor do carro anunciou a saída de meus pais. A vida dos dois seguia, na maior parte do tempo, uma rotina muito fixa – o que dava um grande conforto à minha mãe e, por sua vez, tranquilizava meu pai. Aquela era uma parte de seu ritual de sábado: eles iam ao hipermercado da cidade próxima. Lá, minha mãe empurrava o carrinho e escolhia nas prateleiras os itens aleatórios e bizarros que, em sua maioria, meu pai conseguia recolocar no lugar – sem que ela visse e antes que chegassem à caixa. Ainda assim, ele deixava escapar um ou outro item, o que explicava o ocasional pote de ovos de codorna em conserva, ou um condimento exótico que às vezes aparecia na despensa. Depois das compras, eles almoçavam sempre no mesmo restaurante, e minha mãe passava uns bons quinze minutos estudando o cardápio, até que pedia exatamente o mesmo prato que havia escolhido na semana anterior e na anterior àquela.

O dia se estendia à minha frente como uma ondulante estrada no deserto, mas eu não conseguia me concentrar em nenhuma tarefa. Tentei mergulhar no livro que estava lendo, procurando uma fuga nas páginas de mistério e intriga que criavam um mundo muito mais fácil, no qual bastava matar a pessoa que tivesse feito algo de que não se gostasse. Simples. Várias horas mais tarde, finalmente admiti a derrota e fechei o livro, suspirando. O enredo era complexo, e nada dele entrava na minha cabeça. Virei o volume e estudei o retrato do autor na quarta capa. Era diferente dessa vez, uma foto tirada em um estúdio. Contornei a imagem do cabelo escuro e espesso que ela mostrava e então me senti chocado comigo mesmo ao me perguntar, muito à toa, como seria de fato correr os dedos por entre aqueles fios. Havia um brilho nos olhos azuis que me fitavam da foto, como se soubessem exatamente o que se passava pela minha cabeça.

— Ah, que droga! – praguejei, levantando-me num pulo.

Não parei para considerar meus motivos, temendo o que aquele tipo de análise poderia revelar, e fui em busca do meu casaco e das chaves do carro.

Escrevi um bilhete para os meus pais. Rachel telefonou. Vou sair. Talvez volte tarde. Bem, aquilo não era mentira, mas sem dúvida era uma interessante versão da verdade. No entanto, havia uma mentira da qual eu definitivamente era culpado: de ter dito a Rachel que eu não precisava falar sobre o que tinha acontecido. Porque eu precisava, muito, e isso era visível. Mas tinha que ser com alguém imparcial e solidário, alguém que compreendesse com exatidão o que eu estava sentindo, porque também sofrera a mesma traição capaz de abalar a fé nas pessoas.

Tinha um discurso perfeitamente ensaiado quando parei diante da casa de Sam, pouco tempo depois. Olá, Sam, espero que você não se importe de eu ter aparecido assim sem aviso, mas, se não tiver outros planos para hoje à noite, eu gostaria de levá-lo para jantar, para agradecer tudo o que você fez. Achei que soaria perfeitamente aceitável. Convidar para um jantar alguém que salvara sua vida era simplesmente um gesto simpático.

Cheguei à casa de Sam no momento em que ele voltava de uma corrida ao longo da enseada em formato de lua crescente, vizinha à sua casa. Eu o vi deixar a praia e seguir em direção à íngreme escadinha de pedra que levava ao quintal dos fundos da propriedade. Comecei a descer os degraus irregulares esculpidos rusticamente na face da rocha. Ele abriu um largo sorriso, um pouco ofegante, quando me viu. Vestia um short de corrida e uma camiseta de Harvard, o que indicava que ele já fora membro da equipe de corrida da universidade. Eu estava impressionado, mas não surpreso.

— Blaine – cumprimentou, e havia um prazer genuíno revelado no tom de sua voz.

Sorri um pouco timidamente em resposta, forçando meus olhos a focar seu rosto, não a brilhante camada de suor que cobria os braços e o corpo musculosos e fazia grudar a camiseta. O homem tinha corrido, pelo amor de Deus! Ele tinha o direito de suar. Eu mesmo me senti um pouco desconfortável com o calor enquanto tentava lembrar o que estava fazendo ali.

Sam pegou uma toalhinha que tinha deixado na base da escada e a passou pelo rosto e pela parte posterior do pescoço. Um cacho de cabelo loiro ficou fora do lugar, e fiquei espantado com a intensa vontade que tive de estender o braço e ajeitá-lo.

— Desculpe, não devia ter vindo sem avisar. Estou interrompendo seu treino… sua corrida… ou seja lá o que for.

Os olhos dele brilharam.

— Você não costuma correr, não é?

— Não, a menos que eu esteja sendo perseguido ou tenha que escapar de um prédio em chamas. Mas, eu fazia academia antes... antes de tudo o que aconteceu.

Ele viu que eu fiquei meio desconfortável em lembrar de tudo, e senti o nó apertado da tensão dentro de mim.

— Quer caminhar um pouco? – perguntou ele, tentando mudar o rumo que aquela conversa estava tomando e inclinando a cabeça na direção da praia vazia atrás de nós.

— Sim, contanto que você tenha certeza de que não estou me intrometendo.

— Claro que não está. Eu queria mesmo vê-lo de novo – confidenciou, começando a andar ao meu lado. – Estou preocupado com você desde aquele episódio na livraria.

Senti um calor no rosto que poderia ser em razão do esforço de emparelhar meu passo com o dele. Ou talvez se devesse à constatação de que estivera nos pensamentos de Sam. Aquilo era bom ou ruim?

Caminhamos em um silêncio cômodo e amigável ao longo da praia deserta, seguindo o rastro das pegadas que ele deixara na areia. Algo naquele lugar silencioso e isolado transmitia uma paz e uma tranquilidade maravilhosas. Eu quase podia sentir a tensão escoar-se de mim, como se fosse a vazante da maré.

Por fim, chegamos ao ponto mais distante da enseada, e de mútuo acordo nos sentamos na praia, perto da linha em que as ondas mudavam a cor da areia de ouro para caramelo. Meu cabelo, sob a ação do vento já um pouco mais forte, açoitava minha cabeça, e as mechas esvoaçantes saíam do lugar descontroladamente. Fiquei tentando, sem sucesso, ajeitá-las, e certa vez, ao erguer o olhar, vi que Sam me observava com uma expressão curiosa. Sem nenhuma razão aparente, meu pulso acelerou e senti os lábios subitamente ressecados. Sam mudou ligeiramente de posição e se virou para olhar o mar.

— Semana difícil? – arriscou ele, com os olhos fixos no horizonte.

— Já tive melhores – respondi.

Ele se virou e olhou para mim.

— Quer falar sobre isso?

— Pensei que quisesse, ou mesmo que precisasse. Mas sabe de uma coisa? Agora que estou aqui, só quero deixar isso tudo para trás, como se fosse uma mala pesada que eu pudesse pegar mais tarde. Neste momento, não quero nem pensar nisso, muito menos falar.

Ele assentiu, provavelmente compreendendo meus sentimentos melhor que eu mesmo.

— Rachel acha que estou errado, que eu deveria falar. Mas ela sempre foi assim. Ela analisa um problema de todos os ângulos possíveis, até encontrar uma solução.

— Não acho que seja uma estratégia ruim. Você já conversou sobre esse assunto com ela?

Eu me senti um pouco envergonhado ao responder.

— Não. Na verdade, não. Não estamos exatamente no melhor momento da nossa amizade. Eu a culpei, em parte. Porque ela não me disse que suspeitava do que estava acontecendo.

Quando ouviu minhas palavras, Sam franziu a testa, e pude ver que a minha resposta o tinha preocupado.

— Vocês dois passaram por algo tão terrível e trágico, algo que somente os dois podem de fato compreender. Talvez esta não seja uma boa hora para excluí-la da sua vida. E, quanto a não lhe contar, bem, ela provavelmente pensou que estivesse protegendo você.

— Eu sei, você tem razão. É só que agora a ferida está exposta. Acho que as minhas emoções ainda estão espalhadas por aí, por todo lugar.

Baixei o tom de voz, como se quisesse evitar que as gaivotas que circulavam acima das nossas cabeças ouvissem minha admissão de culpa.

— Na maior parte do tempo eu simplesmente sinto uma raiva imensa – falei, com a sensação de estar confessando um crime terrível. – Raiva de Rachel, por fazer segredo de suas suspeitas; raiva de Kurt, por me trair, e de Tina também, pelo mesmo motivo…

A expressão no rosto de Sam era de preocupação enquanto eu continuava:

— …mas principalmente raiva… ou melhor, ódio… por ela ter morrido e nos deixado.

— Queria muito não ter que voltar para os Estados Unidos daqui a três semanas – disse ele. – Tenho a sensação de que estou abandonando você exatamente quando as coisas estão ficando difíceis.

Ele se aproximou de mim e passou o braço pelo meu ombro, parecendo entender que, embora eu não quisesse falar sobre o assunto, eu precisava, sim, de algum conforto.

Tive que apertar os lábios para que a resposta “Então não vá” não escapasse acidentalmente. Fora um pensamento ridículo meu, e teria sido bem constrangedor se eu o tivesse externado. Era óbvio que Sam iria embora: ele tinha dito, na noite em que nos conhecemos, que sua estada ali era breve. Sua casa e sua carreira eram nos Estados Unidos, e o que o mantinha na Inglaterra era somente a pesquisa que precisava fazer para seu livro.

— Não é responsabilidade sua cuidar de mim – argumentei, sentindo que meu lado independente, aquele que Kurt sempre considerara tão desafiador, vinha mais uma vez à tona. Era bom senti-lo de novo. Depois de tanto tempo.

Sam sorriu, e eu compreendi que não tinha havido nenhum traço de machismo em seu comentário.

— Ah, mas em algumas culturas você sempre será minha responsabilidade. Faz parte do pacote, quando se salva a vida de alguém. Algumas filosofias acreditam que estou eternamente obrigado a cuidar de você agora.

— Andou pesquisando no Google, não foi?

— Sim. Você também?

— Sim.

Havia muitas informações na internet sobre as relações entre vítima e salvador: o vínculo, a proximidade, o compromisso e a obrigação inexplicáveis. Algumas esclareciam a estranha conexão que eu sentia com Sam desde a noite em que nos conhecemos.

— De qualquer forma, não sei ao certo se o que eu preciso é de falar – continuei, retomando o tema da conversa. – Você teve alguém com quem conversar depois que você e Sheridan… você sabe …?

Por um momento me perguntei se eu não havia ultrapassado o limite. Era provável que eu não estivesse nem perto de conhecê-lo bem o bastante para justificar uma pergunta tão pessoal quanto aquela. Eu devia me esforçar mais para ter isso sempre em mente. Não sabia nem mesmo se ele me daria alguma resposta, quando um sorriso torto surgiu em seu rosto.

— Ah, eu conversei! Nós dois conversamos. Com dois advogados muito caros… e agora extremamente ricos. Você tem razão, às vezes falar não é a resposta.

Ao menos Kurt e eu não tínhamos que nos preocupar em vender propriedades ou nos desfazer de bens comuns. Tivemos apenas um bem em conjunto, e eu o lançara pelo ar até o fundo de um despenhadeiro.

— Sabe, o mais estranho é que, quando tento entender meus sentimentos quanto a tudo o que aconteceu com Kurt, eu me sinto mais humilhado e furioso que magoado.

Ele assentiu, demonstrando compreender o que eu estava dizendo.

— Acho que sinto cerca de setenta por cento de raiva e vinte por cento de mágoa.

Passado um segundo, Sam perguntou:

— Sei que lido mais com palavras que com números, mas você sabe que essa conta não fecha, não é?

Ergui os olhos para ele, enquanto ouvia sua observação gentilmente provocativa.

— O que são os últimos dez por cento, então?

Quando respondi, minha voz soou baixinho e suavemente, e foi quase como se as palavras estivessem sendo arrancadas dos meus lábios pela brisa revigorante do mar.

— Alívio.

—-

Quando caminhávamos de volta para a casa, finalmente lembrei de perguntar a Sam se ele me deixaria levá-lo para jantar, mas ele inverteu o convite e me pediu que ficasse e compartilhasse sua refeição.

— Tenho cozinhado naquele seu fogão – disse ele, destrancando a porta dos fundos.

Entramos na cozinha, onde o ar estava tomado pelo cheiro de um ensopado picante à moda mexicana. Havia uma panela enorme, que na realidade estava mais para um caldeirão, sobre a chapa de fogo brando do fogão Aga, e ela continha o suficiente para alimentar ao menos uma dúzia de mexicanos que passassem por ali.

— Tem certeza de que tem o bastante?

Eu ri, tirando os sapatos cheios de areia e me aproximando do fogão onde Sam misturava o ensopado, que borbulhava suavemente.

— Tem muito – observou ele. – Não vá me dizer que é o tipo de garoto que só come alface!

— Eu pareço alguém que só coma isso?

Minha resposta foi acompanhada por uma espécie de risada autodepreciativa, que soltei antes de perceber que aquilo soaria como se eu estivesse em busca de elogios. Senti meu rosto ficar mais quente que a mais ardida das pimentas, enquanto os olhos de Sam percorriam brevemente o meu corpo. De repente desejei ter vestido algo muito menos justo que o suéter fino que ficava bem apertada no meu tórax e a calça jeans justa que se colava aos quadris e às coxas como uma segunda pele.

— Para mim, parece tudo certo – afirmou Sam, afastando-se de repente de mim. – Preciso de um banho rápido. Você ficará bem sozinho aqui embaixo por alguns minutos?

— Claro, vou ficar de olho no ensopado.

Ele balançou um dedo no ar ao advertir:

— Não toque no meu ensopado. Trata-se de um trabalho de gênio culinário, além de ser a única coisa que eu sei cozinhar.

Ele então sorriu, de uma forma que fez seus olhos franzirem nos cantos.

— Sente-se e relaxe. Fique à vontade. Não vou demorar.

Não podia me sentar nem conseguia relaxar. E isso se devia, em parte, à necessidade de ignorar a pergunta que insistia em voar como um abutre ao redor da minha cabeça: Que diabo você veio fazer aqui? A outra razão era um pouco mais fácil de compreender, e tinha relação com não permitir que meus pensamentos vagassem para imagens de Sam tomando banho sob jatos de água quente, logo ali, no andar de cima.

Passei da cozinha para o corredor, e me admirei da quantidade de quartos do lugar. A primeira porta que tentei dava para um quarto que era nítido que Sam usava como escritório. Um documento aberto na tela do computador me atraiu como um ímã, mas relutantemente fechei a porta. Afinal, não acreditava que o convite para “ficar à vontade” incluísse ler trechos do livro em que ele estava trabalhando.

Do outro lado do corredor havia uma sala acolhedora. Nela, notei algo cuja presença ali era tão surpreendente que, espantado, cheguei a arquejar. Caminhei até ele, e ainda estava ali, de pé, olhando-o, quando Sam desceu, uns dez minutos depois.

Como eu, Sam também estava descalço, por isso não ouvi quando ele se aproximou. Então dei um pulo quando ele, postado atrás de mim, pôs as mãos com suavidade em meus ombros. Precisei de um minuto ou dois para que meu coração voltasse ao ritmo normal, embora eu suspeitasse de que isso poderia ter acontecido muito mais rapidamente se ele tivesse tirado as mãos dos meus braços e não estivesse recendendo a sabonete, xampu e loção pós-barba. Cada vez que eu respirava, era invadida pelo cheiro perturbador dele.

— Desculpe, assustei você – disse ele. – Você devia estar a quilômetros daqui.

Era verdade. A cerca de mil quilômetros, na realidade. Voltei a encarar o quadro, e Sam me acompanhou.

— Gosto de ficar olhando para ele – confidenciou.

Seus olhos varreram a imagem, que mostrava uma casa em ruínas ao lado de um lago. Em primeiro plano, via-se um salgueiro, cuja sombra fora habilmente recriada pela artista na superfície ondulante da água.

— Pode-se olhar para ele uma centena de vezes, e mesmo assim perceber algo diferente, toda vez. Meneei a cabeça, concordando com ele. Muitas das obras dela exerciam exatamente aquele efeito sobre mim, e era gratificante ouvir que ele gostava daquela pintura para a qual estávamos olhando.

— Eu me pergunto que lugar é esse.

— É um vilarejo rural na Dordonha – falei, com meus olhos ainda colados no quadro.

Ele deu as costas para a parede e me olhou com espanto, então se aproximou da lareira para examinar a assinatura no canto do quadro.

— F. Anderson – disse ele, e a admiração em sua voz era claramente perceptível. – Sua mãe? Confirmei com a cabeça, emocionada demais para falar. Fazia anos que eu não via aquele quadro.

— Passamos férias lá, há uns dez anos. Ficamos em uma pequena casa descendo a estradinha que levava a esse local – contei, apontando a pintura com a cabeça. – Mamãe acordava ao amanhecer, todos os dias, esperando a luz certa para capturar o cenário do jeito que ela queria.

Ele estudou o quadro com o que parecia ser a medida certa de concentração e disse:

— Ela acertou na mosca.

Sorri com sua crítica muito pouco profissional.

— Sim, acertou.

Um de seus braços estava em torno dos meus ombros enquanto conversávamos, e pareceu perfeitamente natural que eu me apoiasse em Sam. Mas não havia em seu abraço nada que eu pudesse detectar que não fosse o apoio reconfortante de um amigo.

— Ela ainda pinta?

Deixei escapar um suspiro triste e pesaroso.

— O tempo todo. Mas nada nesse nível, não mais.

Havia uma simpatia genuína refletida no olhar de Sam, e a mão que segurava meu ombro o apertou suavemente.

— Acabamos ficando sem espaço nas paredes de casa, então ela começou a vender algumas telas em uma galeria da cidade. Na verdade, ela se saiu muito bem.

Tornei a suspirar, e olhei novamente para a pintura.

— Mas eu sempre gostei desta; torci para que ela ficasse com ela.

O sol estava começando em sua lenta descida em direção ao horizonte, e quando voltamos para a cozinha Sam abriu as portas de vidro, permitindo a entrada refrescante da brisa do mar e de preguiçosos e oblíquos raios de luz. Ele recusou minha oferta de ajuda enquanto pegava montes de verduras na geladeira e mergulhava um pouco mais em seus confins para extrair algumas cervejas e uma garrafa de vinho. Sorriu com aprovação quando optei pela cerveja, e abriu ainda mais o sorriso quando recusei o copo.

— Decididamente, o meu tipo de garoto – disse ele, abrindo duas garrafas e me entregando uma. Era apenas um modo de dizer, eu sabia, mas levei logo a garrafa aos lábios, tentando esconder o meu sorriso.

Enquanto ele lavava e picava os ingredientes da salada, pensei em colocar nossos pratos, e comecei a abrir espaço entre os papéis acumulados em pilhas sobre a mesa. Um grande envelope escorregou das minhas mãos, de forma que o conteúdo se espalhou sobre a mesa: uma coleção de fotografias coloridas caiu como cartas de tarô na superfície de madeira. Logo reconheci o lago que tínhamos visitado; as fotos eram parte da pesquisa de Sam. Comecei a reuni-las novamente em uma pilha. As imagens eram tão semelhantes que ficava difícil ver o que ele estava tentando capturar ali, mas então meus dedos se imobilizaram quando chegaram às quatro últimas, que estiveram escondidas sob as demais. Eu estava retratado em todas. Abri a boca para dizer alguma coisa, para perguntar por que ele as tinha tirado… Mas tornei a fechá-la, confuso.

—-

Naquela noite, aprendi mais sobre Sam com as coisas que ele não disse que com as que disse. Ele falou do pai, já falecido – e a proximidade dos dois e a falta que sentia dele estavam ali, em sua voz, o que achei realmente comovente. Sempre acreditei que se pode dizer muito sobre uma pessoa com base no relacionamento que ela tem com a família, principalmente com os pais, o que era uma das coisas que eu sempre amara em Kurt. Balancei a cabeça, como se quisesse me livrar de um inseto irritante. Precisava aprender a parar de fazer aquilo: ficar relacionando tudo com Kurt.

Sam era uma boa companhia, divertido e inteligente – e também muito hábil em desviar a conversa para longe de qualquer questão muito pessoal. Claro que ele tinha todo o direito de proteger sua privacidade, assim como, tenho certeza, muitas pessoas de vida pública faziam, mas ainda assim era frustrante. No fim da refeição, eu havia comido demais, estava um pouco tonto por causa das duas cervejas que tomara e provavelmente tinha contado muito mais do que deveria sobre meu relacionamento com Kurt. Em troca, não obtivera quase nada.

Quando Sam foi até a geladeira e, com um olhar interrogativo, ergueu mais uma cerveja, fiz que não com a cabeça. Eu teria que dirigir mais tarde, e duas cervejas definitivamente eram o meu limite. Ele pegou uma, tirou a tampa e levou a garrafa à boca. Enquanto bebia um gole demorado, meus olhos foram atraídos para seu pescoço: fiquei olhando com fixação, estranhamente fascinado com os músculos que se moviam sob a pele um pouco bronzeada. Ele notou que eu o observava, e senti um rubor quente em minhas bochechas.

— Que foi? – perguntou ele, baixando lentamente a garrafa e recostando-se na bancada.

Abri a boca para falar, mas não saiu nada. Diga alguma coisa, meu cérebro gritava para mim.

Qualquer coisa. Mas não fique aí sentado, boquiaberto.

— Eu só estava me perguntando…

Minha voz sumiu. Eu não tinha ideia do que dizer, de como terminar a frase.

— Que foi, Blaine? Se você quer saber alguma coisa, pergunte.

Engoli em seco ruidosamente, como se fosse eu que tivesse acabado de beber metade de uma garrafa de cerveja. Será que todos os escritores de romances policiais eram daquela forma, tão diretos e intuitivos, ou será que aquilo era uma característica particular de Sam?

— Bem… você falou sobre seu trabalho e sobre sua vida nos Estados Unidos, mas não disse se havia alguém especial nela… alguém à espera de que você volte para casa…

Estremeci por dentro. Deveria ter perguntado sobre o livro que ele estava escrevendo, seu prato favorito ou quanto ele ganhara no último ano! Qualquer coisa teria sido preferível a xeretar sua vida pessoal. Sam sorriu diante de meu desconforto, e em seus olhos havia um brilho malicioso.

— Bem, tem o Fletch, meu labrador, que é um pouco especial, agora que está ficando com as patas traseiras instáveis. Mas ele já tem 12 anos, então isso é de esperar. E, é claro, tenho dois cavalos que…

Embolei um guardanapo e joguei nele.

— Certo, certo, já entendi. Estou sendo intrometido e invasivo. Desculpe. Esqueça que perguntei. Ele se abaixou para pegar o guardanapo, mas não havia censura em seus olhos quando encontraram os meus.

— Tive algumas mulheres no meu passado, e homens – admitiu ele. – Mas ninguém que eu me arrependa de ter deixado escapar.

Havia uma honestidade clara em suas palavras e em seu rosto, e eu estava totalmente despreparada para aquilo e para a fugaz pontada de inveja que senti das mulheres e homens sem nome que passaram pela vida dele.

— Você nunca pensou em se casar novamente?

— Não, nunca. Não acredito mais no casamento – respondeu Sam, com firmeza, e havia uma tensão tão perceptível em sua voz que me arrependi de ter provocado.

— Não? Nem em Papai Noel e na Fada dos Dentes? – brinquei.

A tensão se dissolveu à medida que o som de sua risada encheu a cozinha.

— Você é engraçado – comentou, em tom de elogio, o que fez algo dentro de mim inflar.

— Farei apresentações aqui a semana inteira, pode comprar o ingresso.

Ele tomou outro gole antes de continuar:

— Já percorri a estrada do casamento uma vez, e não me vejo fazendo isso de novo.

— Já viu esse filme…

— E comprei a camiseta – completou ele, com uma expressão pesarosa no rosto. – Mas ela não serviu.

Muito bem. Não havia espaço para ambiguidade no que ele revelara. Recolhi nossos pratos sujos e fui lavá-los na pia, sem saber por que suas palavras tinham me afetado. Não cabia a mim curar ou salvar aquele homem, com seu passado machucado. Seria a responsabilidade de outra pessoa. Por algum motivo, aquela constatação me deixou triste.

— Bem, eu também tenho uma pergunta para você. Por que alívio?

Levei um momento para perceber que ele estava retomando o fio da nossa conversa anterior.

— Você esperou três horas para perguntar isso?

— Sou um homem paciente. Não acredito em apressar as coisas. Gosto de fazer tudo com calma. Meu pulso acelerou um pouco ante o duplo sentido involuntário de suas palavras e a maneira ridícula como eu as interpretara. Quando o olhei para responder, vi um brilho divertido em seus olhos, e de repente percebi: as palavras eram suas ferramentas, e ele sabia exatamente o que estava fazendo com elas.

— Alívio?— lembrou ele.

— As coisas aconteceram de modo mundo rápido entre mim e Kurt. E isso não foi culpa dele só, foi de nós dois.

Pelo menos fui honesto o bastante para admitir.

— Quando voltei para casa, retomamos imediatamente o nosso relacionamento, como se os anos de afastamento nunca tivessem existido. E isso foi errado, porque não éramos mais as mesmas pessoas. Nós fomos de zero a cem em questão de semanas.

Olhei para ele, para ver se o estava entediando com aquele assunto, mas Sam simplesmente assentiu, encorajando-me a continuar.

— Kurt me pediu em casamento no Natal, diante de nossas famílias, ajoelhado… essa coisa toda. Foi completamente inesperado e romântico, e eu me deixei levar por aquilo.

Minha voz estava tão carregada de arrependimento, tão tensa, que se tornou quase um sussurro.

— Eu o amava. Do contrário, jamais teria dito sim, mas será… eu não sei… será que eu o amava o bastante?

Era uma pergunta a que nem eu mesmo sabia a resposta, e contraí os lábios, como se tivesse dito algo vergonhoso. Era a primeira vez que expressava aquele pensamento em voz alta. A primeira vez que ousava fazê-lo. Na ocasião do pedido, eu fora arrastado pelo entusiasmo de amigos e parentes, que ficaram todos tão encantados com o fato de estarmos noivos que acabaram por me deixar sem espaço, sem nenhuma chance de dizer: “Não podemos ir mais devagar e pensar nisso um pouco mais?”

— Não se pode casar para agradar à família ou aos amigos – declarou Sam, e de alguma forma eu podia perceber que mais uma vez as nossas histórias passadas se cruzavam e se fundiam.

— Sei disso.

Ficamos ambos em silêncio por um momento.

— Já chega disso – anunciou Sam. – Eu devia animá-lo, não fazer com que enchêssemos de lágrimas a nossa cerveja. Que tal um filme?

— O cinema mais próximo fica a uns 50 quilômetros daqui – comentei, olhando para o relógio em meu pulso. – Duvido que chegássemos lá antes de o filme começar.

— Não estou falando de cinema – corrigiu ele. – Tem uma pilha de DVDs na outra sala. Enquanto eu acendo a lareira, por que você não escolhe algo para assistirmos?

Ele não estava brincando quando disse que era fã de filmes. Devia haver mais de duzentos estojos de DVD na caixa que ele me entregou. Eu poderia passar o resto da noite só tentando escolher algum. Ajoelhei-me no chão com a caixa à minha frente, enquanto Sam arrumava gravetos e achas no cesto da lareira.

— Não consigo escolher. O que você gostaria de ver? – perguntei, feliz por ele estar de costas para mim, agachado diante da lareira preparando o fogo, porque minha atenção estava dividida entre a caixa de filmes e a maneira interessante como seus músculos se moviam sob o tecido fino da camiseta.

— Qualquer coisa. Você decide. Ou apenas escolha um por acaso.

Fiz como ele tinha dito.

— Charada— anunciei, erguendo o estojo plástico para sua aprovação.

— Uma europeia que se apaixona por um americano misterioso. Escolha interessante.

Levantei-me e entreguei a ele o estojo com a imagem de Audrey Hepburn e Cary Grant na capa, dizendo:

— Não vejo este há séculos, e adoro a voz dela.

Ele inseriu o disco no aparelho, antes de se voltar e me encarar.

— Prefiro a sua.

Não sabia o que dizer, então resolvi que o melhor era não dizer nada. Sam se sentou no sofá de dois lugares, esticando as longas pernas à sua frente. O sofá era grande o suficiente para acomodar nós dois, mas hesitei e me virei na direção de uma poltrona solitária ao lado da lareira crepitante.

Ele deu um tapinha na almofada vaga ao seu lado no sofá, como um convite.

— Venha sentar-se aqui.

Normalmente não respondo bem quando me dizem o que fazer. Tenho um veio de teimosia em mim com mais de um quilômetro de largura. Gosto de estar no comando, de tomar as minhas decisões. Sam me olhou do sofá confortável, e sua expressão revelava que ele sabia exatamente o que eu estava pensando.

Eu me sentei ao lado dele.

—-

Há coisas piores do que adormecer na casa de alguém quando você foi convidado para o jantar, e uma delas é adormecer com a cabeça apoiada na virilha de seu anfitrião. Infelizmente, eu fiz as duas coisas.

Estava sonhando. Estávamos na França, na casinha próxima à antiga casa de fazenda retratada no quadro de minha mãe. Ela estava ansiosa para ir pintar, mas eu insistia em que, antes, ela penteasse meu cabelo, para que eu pudesse ir à escola. Era um sonho maluco, do tipo que não fazia nenhum sentido.

Em um minuto estávamos assistindo a Cary e Audrey correndo por Paris, tentando evitar que se apaixonassem ou fossem assassinados, quando então o calor do fogo, as cervejas do jantar ou apenas o fato de eu não estar dormindo bem desde não sei quando me venceram. E não acordei com um susto, muito pelo contrário. Meus olhos se abriram aos poucos, focando uma curiosa forma de metal diretamente diante do meu rosto. Pisquei devagar, tentando entender o que era aquilo e o que estava fazendo no meu travesseiro. O travesseiro, que, aliás, parecia ter estranhos contornos não muito confortáveis. A forma de metal me confundiu: era como um daqueles enigmas de revista, apresentando um objeto cotidiano fotografado de um ângulo estranho. De onde eu estava, ali deitada, parecia o puxador de um zíper.

O sono me deixou em um instante, quando me ergui abruptamente de seu colo, acertando-o dolorosamente no maxilar com a parte posterior da minha cabeça. Vários palavrões encheram o ar (não tenho certeza de quem eles vieram), e ainda estávamos ambos esfregando as áreas atingidas no choque quando me apoiei nos joelhos.

— Ah, meu Deus, Sam, desculpe! – falei, verdadeiramente mortificada.

— Por quê? Por usar meu colo como travesseiro ou por tentar quebrar meu maxilar?

Ele parou de esfregar a área machucada, e havia de fato uma grande marca vermelha no ponto onde minha cabeça se chocara com seu rosto.

— Devo ter cochilado – comentei, digno de um Einstein.

Olhei para a televisão e vi apenas a tempestade branca e granulada.

— O filme já acabou?

— Há quase duas horas.

— Por que você não me acordou?

— Bem, para começar, de início achei que você só estivesse… encontrando uma posição confortável…

Tenho certeza de que meu rosto inteiro estava vermelho.

— Então, quando percebi que você tinha mesmo dormido, fiquei com pena de perturbá-lo. Você parecia estar precisando do descanso.

— Desculpe mesmo – repeti.

Ele estendeu a mão e deu tapinhas de camaradagem em meu ombro – não da maneira como se esperaria que alguém fizesse com outro que, poucos minutos antes, estava com o rosto enterrado em sua virilha.

— Não se preocupe com isso.

Olhei para o relógio e vi que já passava da meia-noite.

— Já é muito tarde. Preciso ir.

— Não sem um café – disse Sam. – Quero ter certeza de que você estará bem acordado antes de se sentar ao volante do carro.

Ele me deixou ali e foi preparar a dose de cafeína, e eu afundei de volta no sofá, ainda me encolhendo por dentro ao pensar em como tinha me aconchegado tão intimamente com ele enquanto dormia. Corri os dedos pela bochecha que se aninhara no corpo de Sam, e pude sentir os sulcos e as marcas deixados pela costura da braguilha do jeans. Esfregando furiosamente os vincos, fui verificar o dano em um espelho com moldura de carvalho pendurado na parede. No lado sobre o qual eu estivera deitado, meu rosto parecia de fato amassado e meu cabelo estava uma bagunça. Estranhamente, no outro lado da cabeça, os fios estavam lisos e arrumados, sem uma única mecha fora do lugar, preso atrás da orelha, quase como se tivessem sido alisados e acariciados.

O truque da cafeína funcionou, embora eu tenha engolido o café tão rápido que ele desceu queimando a garganta. Sam queria me seguir em seu carro e certificar-se de que eu voltaria para casa em segurança, mas insisti em que não era necessário.

— Você bebeu mais cerveja que eu. Não deve dirigir de jeito nenhum – falei, enquanto deslizava os braços pelas mangas do casaco que ele segurava para que eu vestisse.

Ele levou as mãos à minha nuca, para ajeitar a gola, e seus dedos roçaram a pele.

— Acho que um cara do meu tamanho pode aguentar três cervejas sem desmaiar bêbado em um sofá – provocou.

— Eu não estava bêbado, estava dormindo – protestei enquanto ele me acompanhava na curta caminhada até meu carro.

Peguei as chaves no bolso quando paramos ao lado do automóvel. A noite estava clara e estrelada e tão silenciosa que eu podia ouvir o som abafado do mar quebrando nas rochas da praia.

Ficamos diante um do outro na escuridão, ambos parecendo estranhamente desajeitados e inseguros quanto à maneira como a noite deveria terminar. Fiz o primeiro movimento, descansando as mãos em seus ombros e dando-lhe um beijo suave no rosto.

— Obrigada pela noite encantadora – agradeci, afastando-me. – Estou me sentindo muito melhor agora.

Notas finais
Obrigado, e por favor, deixem comentários e sugestões. XoXo.