Our Hands Tied - Brittana
22 The One With The Psychologist And Fire
Notas iniciais
As digitais de Brittany alcançam o rosto de Santana, mais uma vez, ao passo em que ela observa a outra mulher dormindo serenamente sob seus lençóis. Olhos azuis acompanham todo o trajeto delicado que as pontas dos dedos finos fazem pela face da Lopez, e o respirar da Pierce torna-se tão sereno quanto o da adormecida.
É estranho pensar na falta que ela sentia disso.
É estranho pensar no medo que ela tem de perder tal feito, outra vez.
Mais estranho ainda é pensar na calma e anseio que seu coração revela a cada batida, simultaneamente. Natural do amor. Com mansos toques, a fotógrafa desenha e redesenha as sobrancelhas da morena, dando um largo sorriso ao notar que a mesma está prestes a acordar. E aí, repousa um polegar sobre a bochecha da Lopez acarinhando-a, e o restante da mão entre sua mandíbula e nuca.
— Bom dia, Sannie. — Ela aplica um selinho na testa da mais velha. — Ou melhor, boa tarde.
— Boa tarde... — Santana responde, ainda de olhos fechados.
— Como tá sentindo?
— Bem... Eu acho. E você?
— Que bom, também. Então... — A canadense ri de forma travessa, escorregando os dedos finos por todo o braço abrigado da latina. — Tô curiosa. Lembra das ocorrências da noite de ontem?
— Depende. — Santana se espreguiça ligeiramente na cama e, quando volta a se virar para o lado da loira, apoia a cabeça em sua própria mão, abrindo os olhos para poder enfim fitá-la. O quarto é semi-iluminado por uma frestinha de luz que entra pela janela mal-aberta. — Qual parte?
— Essa daqui... — Brittany aponta para a sua camisa xadrez no corpo moreno, e Santana se surpreende ao enxergá-la, fazendo com que a Pierce solte uma risada e chegue mais, lhe dando um beijo sossegado nos lábios, para completar rapidamente depois: — Só pra constar, a gente não transou.
— Ah, não?
— Não. — Ela nega, esclarecendo: — Não por falta de vontade sua ou minha, claro. Mas, levando em consideração tudo o que aconteceu da última vez, eu nem me atrevi a beber nada com você doidinha como tava, senão a gente já sabe como seria o final dessa história. E eu, realmente, não tô a fim de levar outra surra de travesseiradas...
A cozinheira intercala sua atenção entre a boca e os olhos da mais alta e sorri durante todo o processo. É como costumava ser. Mesmo não sendo.
— A verdade é que você quis a camisa de volta, e quem sou eu para negar uma coisa dessas pra minha namorada, né? — A dos olhos azuis faz uma breve pausa, quando olhos castanhos sustentam-se nos seus. — E sim, eu disse: namorada. Fique você sabendo que não aceito contestações quanto ao meu posto de atual namorada fixa, Santana. Nem adianta tentar voltar atrás em suas palavras, falou tá falado.
— Certo... — A Lopez se diverte, afundando o rosto no ombro da outra. — Não pretendia contestar nada mesmo.
Brittany dá risada, abraçando-a.
— Quem vê, pensa.
— É sério... — Ela transcorre a ponta do nariz pela clavícula da Pierce e sobe, dando-a beijinhos, até sua boca ficar na altura do ouvido dela. — E pra sua informação, não teria problema nenhum se a gente tivesse transado, Britt-Britt.
— Aham... — Brittany ri, mergulhando os dedos na nuca de Santana, e a conduzindo um pouquinho para trás pelos cabelos. — Tá achando que me engana, é Dona Santana?
A morena leva uma mão até as bochechas da outra e as aperta com os dedos, fazendo a loira ficar com a boca de peixinho, gargalha horrores com a deliciosa cena.
— Eu te amo...
— Você tá me provocando, Sant. — Ela fala com uma voz engraçada, por causa do biquinho. — Feio isso.
Santana balança a cabeça em negação e Brittany assente contrapondo-a, várias e várias vezes. As duas riem muito. Não tinha como ser diferente.
— Mesmo assim... — A fotógrafa continua: — Também amo você.
— Acho bom.
Ela solta o rosto da Pierce que, se aproxima para beijá-la. E, sem pressa, Santana começa a se virar ainda mais em direção à namorada para ficar por cima dela. Nisso, as mãos de Brittany contornam as coxas enlaçadas ao seu quadril. Então... Elas começam a rir, novamente. Sem conseguir parar dessa vez. As cenas aceleradas da falecida e desastrada sex tape que elas gravaram bêbadas – no dia do karaokê – começam a lhes passar pela cabeça, repetidamente.
D
E
U
S
Santana joga seu corpo de volta ao vazio da cama, sentindo o abdômen doer do tanto que se deixou rir. Brittany passa as mãos no rosto, tentando respirar fundo. Pelo jeito, não era pra ser. Antes que elas consigam dizer qualquer coisa, começam a ouvir Dino uivar vigorosamente doutro lado da porta do quarto da Lopez. Ah, é... A canadense havia a encostado inconscientemente quando voltou para o quarto, após tomar seu banho e dar comida e acesso ao quintal para o peludinho.
— Coitada da criança, B... — A cozinheira comenta risonha, pondo-se de pé. — O que ele fez pra você, hum?
A fotógrafa senta no colchão e levanta as mãos como se não soubesse, aos risos também. Santana então continua seu caminho e abre a porta, observando o cão dar um latido eufórico e sair correndo para o andar debaixo. Aparentemente algo no visual do serzinho estava um tanto quanto heterogêneo... A Lopez não tem certeza absoluta do que viu, tendo em mente que Dino sumira num piscar de olhos. Além de que, a cabeça dela não está lá essas coisas, levantar da cama abruptamente como fez e dar de cara com o clarão porta afora não foi uma boa ideia. Está com uma leve tontura agora e tal ocasião a faz se desequilibrar.
Por um segundo, tudo é turvo.
Brittany ergue-se apressada, envolvendo as mãos nos ombros de Santana.
— Tudo bem?
— Tudo... — A morena assente, piscando forte. Depois respira fundo, estabilizando-se, e se vira para a namorada. — Eu só fiquei um pouco tonta, levantei rápido demais. Mas obrigada, Britt.
— Não sei, não. Acho que não te dei água o bastante. — A dos olhos azuis contradiz apreensiva e pega na mão da mais baixa, levando-a de volta para cama. — Fica aqui quietinha que eu já volto, San.
— Você sabe que eu não vou ficar, né? — Ela ri.
— É sério.
— Tá. — Santana revira os olhos. — Você pelo menos sabe me dizer onde tá o meu celular?
— Não faço a menor ideia.
— Óbvio. Nem sei o porquê perguntei.
A loira ignora-a e passa a se distanciar, encostando a porta.
— Fica aí...
— Já entendi, B.
Quando a cozinheira deixa de ouvir os passos de Brittany, ela se põe de pé novamente, e começa a procurar seu smartphone. E, como já era de se esperar, não o acha em parte alguma do quarto. Então, abre a porta e espia o corredor, certificando-se de que a Pierce ainda não voltou, segue até os aposentos da canadense, investigando-o também. Acha suas roupas de ontem dentro do armário da namorada, bem como seu celular.
— Te achei.
Ela sorri para o aparelho e fecha o guarda-roupa, apossando-se de suas vestes também, olha em volta. Geralmente, o quarto de alguém tem o cheiro desse alguém. É como estar envolto nos braços da pessoa... Talvez, fosse por isso que Santana evitara tanto entrar neste cômodo. Conforme sua memória olfativa se faz presente, ela se recorda do quanto de Brittany tinha em seu próprio quarto anos atrás, quando ainda faziam faculdade em Pasadena.
E depois...
Em Nova York, quando já não tinha mais. Engraçado, esse não é o tipo de coisa que se perceba toda hora, ainda mais à medida que se torna rotineiro, banal. Mas, definitivamente, é algo que se nota – e muito – em começos e fins de relacionamento. Em começos, porque é o momento em que você explora a outra pessoa e descobre o seu gostar pelo aroma natural que ela exala, pelos shampoos que usa, pelos perfumes e sabonetes e cremes que combinam tanto com sua pele. E em fins, porque é o instante em que você perde tudo isso e a falta pesa o peito, e a mente é oficina do diabo, e não existe mais chão que sustente seu pranto.
Antes de conhecer Brittany, Santana nunca entendera a “noia” das pessoas em usar as roupas de seus namorados. Mesmo. Para ela era bobagem, por mais que já tivesse feito previamente a saber da existência da outra. E aí, foi só a Pierce aparecer que as coisas fizeram sentido. Pois bem, certas coisas não dá para compreender de fato até passar por.
Santana escuta passos se aproximando, e se vira para a entrada do quarto.
— Você ignora tudo o que eu peço, né... — A loira sorri para ela desaprovando tal ação, enquanto traz consigo uma bandeja de café da manhã. — Tsc, Tsc.
— O que eu posso fazer se a senhorita escondeu meu celular de mim, Britt?
— Eu? — Ela ri. — Tá bom...
Olhos azuis se direcionam a cama, como uma ordem para a outra se sentar. E assim a Lopez o faz, tendo a companhia da fotógrafa logo em seguida. Ela repousa o celular e as roupas que pegara de lado, durante o tempo em que Brittany põe a bandeja sobre o colchão, e ri, puxando uma mexa dos cabelos negros para trás da orelha.
— Pra mim? Quanta gentileza.
— Ah, sabe como é... Importante mimar nossos amores de ressaca. — Ela pega o copo d’água que trouxera e entrega a outra. — Bebe.
— Sim, senhora. — Santana esvazia o copo e olha para a mesinha com o café da manhã de novo, sorrindo. — Isso aqui não é coisa sua, te conheço.
— Claro que não. Passei na padaria mais cedo. Mas, me dê o mérito de ter selecionado os melhores pãezinhos e a melhor salada de frutas do lugar só pra você e ainda ter montado tudo isso e não ter tropeçado no meio do caminho até aqui.
— Todo o mérito pra você, Britt-Britt. — Ela ri e começa a comer, lembrando-se do saco de pano cheio de cartões de visita que viu na estante da canadense. — Mudando de assunto... Qual é a do saquinho cheio de cartões de visita ali?
— Ah, é que a Quinnie me deu uma ótima ideia de como escolher o psicólogo ontem. Aí eu juntei todos os cartões que tinha pegado e coloquei lá. Vou sortear.
— Entendi... E por que não fez ainda?
— É uma boa pergunta. — A Pierce sorri, pondo-se de pé. — Eu não sei. Mas, já que tocou no assunto, vou agora mesmo.
A loira se apossa do pano preenchido por cartões e o chacoalha, voltando a se acomodar na cama.
— Vamos lá... — Ela enfia a mão na trouxa, agarrando um papel fosco. Logo o traz para o campo de visão, lendo-o. — É isso. Segunda eu agendo uma consulta e seja o que deus quiser.
— Orgulhosa de você. — As covinhas da cozinheira aparecem e ela vira o garfo (com um pedaço de fruta espetado nele) para a dona de lábios rosados. — Aceita?
Brittany assente, e Santana a serve na boca. Elas riem, e a latina apanha seu smartphone, percebendo que o mesmo está descarregado. Suspira.
— Você pode me trazer um carregador, por favor?
— O que você quiser. — A loira a dá um beijo na bochecha e vai até sua gaveta, tirando um carregador dali. Volta ao seu lugar, passando o objeto à namorada. — Toma.
A dos olhos castanhos conecta o celular na tomada grudada a cama. E, à medida que termina de se alimentar, Santana liga o aparelho. Rapidamente, vê no mínimo umas quinze chamadas de vídeo perdidas de um número desconhecido, possivelmente dois. Então, mais uma chamada se faz presente, insistentemente. Ela atende.
— [Ei, Rosa! Vem, vem! Eu consegui, ela atendeu!] — Grita um menino, gravando o próprio queixo. Juan, se a morena se lembra bem.
— [Sério?!] — A voz de Rosa aumenta gradualmente, e logo o celular é tomado das mãos do mais novo. — [Oi, Santana! Esqueci de te perguntar se você trabalhava de sábado...]
— De vez em quando, sim.
— [E domingo?]
— Raramente. — Ela ri e Brittany a fita, admirada com a paz no rosto da mesma. — Você esqueceu o que eu falei sobre o seu pai não gostar dessa história de você ficar me ligando, praguinha?
— [É Rosa, e eu não ligo. O papai não gosta de nada, até a abuela sabe disso.] — A pequena puxa o irmão para a câmera. — [Fala oi pra nossa hermana mayor, Juan.]
— [Hola...] — Ele faz umas caretas ruborizando, tímido.
— Olá.
— [Não liga pra ele. O Juan fica assim perto de garotas bonitas.]
A Pierce não se aguenta e começa a rir, aquela interação era ótima.
— [Quem tá aqui?] — Rosa quer saber.
— A Brittany... — Santana rotaciona o corpo para o outro lado, com a finalidade de a mais alta ser enquadrada na chamada. — Lembra dela?
— [Claro! É sua ex-namorada que a abuela adora.]
— Na verdade, a gente voltou. Então, sou a namorada dela que abuela adora.
Santana ri, empurrando-a com o ombro.
— [Legal!]
— Vocês tão bem?
— [Sim e vocês?]
Elas se entreolham e balançam a cabeça simultaneamente, em afirmativa.
— Também.
Escuta-se um berro masculino doutro lado da linha, questionando: “Rosa, Juan, já fizeram a lição de casa?!”; e as crianças sorriem amarelo, afobadas.
— [Precisamos ir!] — Rosa avisa e Juan acena. — [Tchau, tchau!]
A dona dos olhos castanhos deixa o celular de lado e sorri, com a cara que Brittany a observa.
— Que foi?
— Eles são uma graça.
— Não acho não... — Ela ri. — Foram mais de quinze chamadas perdidas dos pirralhos. Tem noção?
— Reconheça o empenho deles em se aproximarem de você, Sannie. Caramba, já pensou que é a irmã mais velha mais da hora e mais linda que alguém pode ter? — Brittany faz um carinho em sua bochecha, maravilhada. E aí, Santana desvia o olhar, risonha. — Não, né?
A mais baixa se inclina para beijar a outra mulher e sorri ao fim, informando:
— Eu preciso de um banho.
— Ok...
Brittany a observa ir embora e se apossa do próprio celular, o qual não checava desde a noite anterior. Há novas mensagens no grupo delas. De Quinn, como sempre.
*Eterna Trindade Profana*
Quinn, Santana, Você
(Hoje)
[Quinn]
Nossa, só digo uma coisa [3:06 a.m]
Se eu soubesse que a Lopez ficava assim com ciúmes [3:07 a.m]
Teria eu mesma ido atrás dessa Marley pra vocês, muito antes :P [3:07 a.m]
Imaginem a quantidade de drama que isso as pouparia? [3:07 a.m]
Seria lindo... [3:08 a.m]
Mas, falando sério agora [3:08 a.m]
Que noite, minhas amigas [3:09 a.m]
Precisamos nos encontrar mais com esse pessoal, eu amei [3:09 a.m]
(...)
Mais tarde no dia, Santana vai até o quintal assistir Dino brincar, já que não é de seu feitio sumir por tanto tempo como hoje. Contudo, algo fora do normal nele chama sua atenção de imediato. Algo que não a agrada nem um pouco. E que desconfiara mais cedo, porém agora estava bem no meio de sua fuça, como um enorme elefante azul.
— PIERCE... Posso saber por que o focinho e as patinhas do Dino estão assim?
— Assim como? — A mulher vai ao encontro de Santana na porta, fixando os olhos no cachorro. — Ah...
Dino está sujinho de terra. Não como quando se banhou em lama, porém feliz na mesma proporção. Nitidamente.
“Aw, aw!”
— Por que, Dino? — Santana pergunta num suspiro, sorrindo invertido.
— Preciso te falar. Eu e a Quinnie trouxemos umas coisas pra ele ontem...
— Umas coisas? — Olhos castanhos direcionam-se a azuis. — Que coisas?
— Petiscos... Sachês... Um bifinho, dois brinquedos e um... Ossinho.
A latina cruza os braços.
— Só isso? — Ela pergunta, sarcasticamente. — Sério mesmo? Um ossinho, Brittany? Meus parabéns... Isso explica a arte no quintal.
— Foi mal. Eu esqueci dessa parte.
— Claro que esqueceu. E a Fabray também né, foi na onda de boa. Puta que pariu, sinceramente.
— Errar é humano... — Brittany ri chegando perto dela, para dar um selinho na namorada. — Fica emburradinha, não. Eu vou tirar a terra dele.
— E quanto ao estrago que ele fez no quintal, como fica?
— Vamos por partes. Uma coisa de cada vez, sem estresse. Tá bom?
— Uhum.
(...)
— Boa noite.
— Olá! — O recepcionista da clínica tem os olhos voltados à Brittany e sorri para ela. — Bem-vinda.
— Obrigada...
— Como posso ajudar?
— Eu tenho uma consulta.
— Ah, sim. Você pode me informar seu nome, por gentileza?
— Brittany Susan Pierce.
O homem passa o dedo na linha do caderno em mãos, acompanhando datas.
— Ok. Tudo certo. Você já pode entrar, a doutora está no aguardo. — Ele aponta para uma porta. — É bem ali.
— Obrigada, de novo.
A fotógrafa entra na sala pouco iluminada e se depara com uma loira sentada de pernas de índio num tatame azul no chão. No espaço há algumas prateleiras carregadas de livros, poucos quadros bem espalhados pelas paredes de cores suaves, além de uma poltrona e um divã – distantes pelo comprimento do tatame, que deve medir mais ou menos um metro. Sem demora, a mulher ao chão abre os olhos e se ergue para cumprimentar Brittany.
— Prazer, Holly Holliday.
— Brittany Pierce.
A psicóloga sorri, assentindo.
— Fica à vontade, Brittany. — Ela retorna ao tatame.
Meio sem jeito, a canadense olha para os lados, se perguntando se deve se sentar no divã ou se juntar a outra loira. E, no fim das contas, conclui que o tatame é a resposta certa.
— Alguma dúvida?
— Talvez... — A Pierce confessa. — Por que estamos sentadas no chão?
— Porque estamos no Japão. — Ela diz convicta, esperando pela surpresa nas feições da outra e ri, quando acontece. Como sempre acontece. Adora se passar por louca. — Eu tô brincando... Bem-vinda ao meu círculo de compartilhamento. Gosto da dinâmica cara a cara pra começar, é mais fácil para conhecer os pacientes. Por isso é importante eu saber, você está aqui por que quer estar aqui?
— Sim...?
— Você não sabe? Bom, vamos facilitar as coisas. — Holly sorri. — Como surgiu a ideia de fazer terapia? Você se lembra?
Brittany balança a cabeça, assentindo.
— Eu tava conversando com a minha namorada... No caso, a gente tava separada há três anos até pouco mais de uma semana atrás. Foi um término que foi bem ruim pra mim e pra ela na época e, enfim, não estávamos conseguindo nos acertar e tínhamos combinado de começar tudo do zero, com calma, mas outra pessoa com quem eu já me relacionei apareceu nesse meio tempo e ela ficou extremamente incomodada. E aí, nessa conversa, eu perguntei por que a gente não voltava logo e então ela me disse que queria ver eu tomando rumo. Que a minha vida não podia se resumir a ela, e que eu tinha que pensar no que eu queria a longo prazo.
— Entendi... E foi ela que sugeriu um psicólogo?
— Não. Eu que tive a ideia.
— Ah, partiu de você. Um ótimo começo. — A loira parece satisfeita. — Antes de continuarmos, quero agradecer a confiança. Sei que é difícil, Brittany. Agora... Voltando ao assunto em que tocou, sobre o término com a sua namorada há três anos, você se importa de me dizer o porquê você o descreveu como sendo bem ruim?
— É que um mês antes de acontecer, mais ou menos, nós estávamos super bem. Nunca me passou pela cabeça que algum dia a gente fosse se separar por nada, mesmo eu e ela tendo um ano de diferença nos nossos cursos, e possuindo consciência que uma hora ou outra a faculdade ia acabar. Então, um dia ela chegou com uma novidade incrível. Foi chamada para trabalhar num restaurante renomado do outro lado do país, o mesmo restaurante que ela vivia me contando sobre, porque admirava a chef e toda a sua história. O mesmo restaurante que ela tinha ido trabalhar no verão passado a aquele e voltou feliz da vida, dizendo o quanto o seu amor por ele só se multiplicou depois daquela oportunidade.
Ela sorriu fraco, os braços envolvendo os joelhos, a mão segurando o pulso.
— Eu sempre admirei isso nela, essa... Certeza do que gosta, do que quer e pra onde vai. Porque sabe, eu nunca fui assim... Quer dizer, eu sei do que gosto. Mas, pra onde vou e o que quero? Difícil saber. E na minha mente, ela sempre soube. Quando nos conhecemos, eu senti que era a primeira vez que alguém que curtia realmente o que fazia e o que estudava sem balela, cruzava o meu caminho, tendo planos tão concretos e bonitos na cabeça. Eu me apaixonei, claro. Só não imaginava que minha indecisão sobre o futuro fosse contagiante.
A Pierce respira fundo, sentindo uma leve ardência nos olhos.
— Quando ela me falou desse segundo convite, é lógico que eu fiquei muito feliz por ela. Tinha certeza que ela fosse aceitar, afinal de contas, ela tava esgotada do lugar em que trabalhava. Não imaginava ela mais um ano inteirinho passando por aquilo só pra esperar pela minha formatura também e, caramba, estávamos falando do restaurante que ela admirava desde que eu a conhecia por gente. Então, ela disse que não ia aceitar a oferta de emprego e aí eu não entendi foi nada. Pensei que ela estava brincando, mas não... E foi a partir desse ponto que as coisas começaram a ficar estranhas.
Holly balança a cabeça, compreensiva. Apenas ouvindo.
— Ela não quis me contar o motivo e passou a estar aérea demais, como nunca. Tentei tocar no assunto outras vezes e foi ficando cada vez pior, porque ela se irritava e não me revelava o motivo da desistência e eu me irritava por ela não se abrir comigo e pensar que talvez eu fosse o motivo dela estar tão receosa, já que nunca fui muito adepta a celulares ou contatos à distância no geral. Enfim, ela pediu pra eu não contar a novidade pra avó dela, que é uma mulher de uma opinião extremamente forte, e que não ia a deixar a neta desistir assim sem mais nem menos por nada nesse mundo... E como minha penúltima carta na manga naquele mar de confusão, eu contei.
Brittany engole a seco.
— Nós brigamos. Então, no meio da discussão eu a questionei sobre os motivos dela de não se abrir comigo, e ela disse que não me reconhecia mais e que eu não respeitava suas escolhas ou seus pedidos. Aí eu terminei com ela, porque eu não queria que ela abrisse mão do que sempre quis por causa do desastre que eu sou em manter contato a distância. Sem falar que eu não sabia se queria ir para o outro lado do país quando terminasse o curso, ou se queria voltar para o Canadá ou sei lá. Eu só queria o melhor pra ela. Então, depois daquela noite, eu bloqueei o celular dela, e todas as redes sociais que eu tinha e só usava por ela, eu desativei. Quando as férias chegaram, minha prima que é muito amiga dela chegou com uma caixa e nela tinham todas as coisas que tinha deixado no quarto dela. Todas.
Sua voz treme e ela funga, tentando segurar um choro.
— Desculpa...
— Tudo bem. Você está aqui pra isso. O que aconteceu depois?
— Eu fiquei numa tristeza tão ruim, que a única solução que encontrei foi ligar o automático. Nunca me encontrava presente 100% nos momentos e eu me sinto muito mal pelas pessoas com quem me relacionei nessa época, por que eu fui péssima. Os únicos momentos realmente bons pra mim era quando me fechava no quarto com as minhas coisas e pensava nela e na minha família, ao mesmo tempo em que era a pior parte, porque toda a dor vinha à tona em algum instante. E eu não tinha coragem de fazer nada a respeito. Mas, apesar de não saber o que quero para o futuro ainda... Quando reencontrei minha namorada pela primeira vez em tantos anos, por causa da minha prima, foi como se eu renascesse. Mesmo com a forma nada amigável que ela me recepcionou, o que eu entendo perfeitamente, porque eu merecia e tanto ela como eu fomos enganadas pela minha prima. Foi muito bom... Acho que é isso.
— Interessante. Assuntos mal resolvidos tem uma força avassaladora, não?
— Pois é. — Ela ri.
— Me conta mais sobre você, ainda temos alguns minutos.
— Ok... — Brittany fica pensativa e uma luz lhe vem do nada a mente. — Ah, antes disso, eu queria saber quanto é a sessão. Esqueci de perguntar e não lembro se tinha no site, acabei vendo tantos sites que sei lá. Se puder me dizer, eu agradeço.
— A primeira é gratuita, porque estamos nos conhecendo e eu só estou ouvindo. Captando pontos chaves. Agora se você decidir voltar, aí é 69 dólares por hora.
A fotógrafa fita a psicóloga esperando ela dizer que está brincando, outra vez. Mas, isso não acontece. Ao invés disso, Holly sorri curiosa com a cara da menina.
— Foi alguma coisa que eu disse?
— É sério?
— O valor? — A loira mais nova assente e ela ri, afirmando: — Sim. É sim.
A dos olhos azuis ri, soltando-se.
— Engraçada a escolha de números... Porém, bem acessível.
— Gosto da energia dessa combinação. Sem falar que também atendo casais por 169 dólares, caso algum dia precisar. Mas, enfim, voltando ao que estávamos falando, me conte mais sobre você. Seus gostos, hobbies, rotina.
(...)
— Então, você gostou dela? — Santana indaga à namorada.
— Sim... — Brittany entrelaça sua mão a da morena, ao passo em que elas se encaixam em conchinha para dormir. — Bastante.
— Que bom.
— É... Única desvantagem é que o consultório dela fica meio longe daqui.
— Ah, isso é o de menos. O importante é ela prestar.
A loira concorda, balançando a cabeça e aplica um beijo nos cabelos da Lopez.
— Boa noite, Sant.
— Boa noite, Britt.
Elas adormecem e são acordadas pela campainha e pelos latidos de Dino umas duas ou três horas depois. Acordam num sobressalto e deixam a cama. Meio atordoadas, as mulheres encontram o caminho da escada, sala e enfim da porta de entrada. Quando Santana fita o olho mágico, vê a imagem de Quinn desconcertada doutro lado.
— Meu Deus...
“Aw, aw, aw!”
— Quem é?
— A Quinn. — Ela abre a porta, sendo abraçada forte pela dos olhos verdes em prantos. — Calma, Q. Tá tudo bem.
Brittany fecha a porta e põe a mão no ombro da prima, que funga nervosa. Dino corre de um lado para o outro, dando um chorinho agudo. A canadense agacha aquietando-o, preocupada com a Fabray.
— Shh, pequeno. — Ela o faz carinho, prestando atenção na outra loira.
— Você consegue falar? — Santana pergunta, dando um passo para fora do abraço quando Quinn assente. Ela então segura suas mãos, atenta. — Ok, o que aconteceu?
— Eu... Eu fodi tudo. Tudo.
— Como assim você fodeu tudo? O que você fez?
— Acabou a luz... E eu... Eu tava no meio do processo de criação de um novo projeto, e aí eu não podia parar, porque a criatividade não é a mesma coisa quando você para ela assim, vocês sabem... Acendi algumas velas e nisso, o Sam me mandou mensagem perguntando o que eu tava fazendo online numa hora daquelas e eu acabei contando pra ele o que aconteceu e rebati a pergunta dele, já que ele não deveria estar madrugando também. Então, ele me contou que estava fazendo uns trabalhos da faculdade e que eu poderia ir pra lá usar a luz da casa dele e nós poderíamos dar apoio emocional um para o outro. E é lógico que eu aceitei e fui, porque trabalhar a luz de velas e de celular é uma bosta e o Sam é a melhor companhia que alguém pode ter.
Ela começa a fungar com certa dificuldade em prosseguir com as palavras, outra vez. Brittany solta Dino, quando o percebe mais calmo e se levanta. Quinn está arrasada.
— E então?
— Há uns 40 minutos eu recebi mensagens no grupo dos moradores do meu prédio. Aconteceu um incêndio... Eu esqueci uma das velas acesa. Passei lá na frente agora e não consegui ficar um segundo, tem bombeiro pra todo lado.
— Ah, Quinnie... — A dos olhos azuis se entristece.
— Perdi tudo. TUDO. E eu poderia ter matado alguém!
— Eu sinto muito. — Santana a abraça, e Brittany também. — Não foi culpa sua, entendeu?
— Claro que foi! Imagina se eu tivesse um animal de estimação. Ou, se o vizinho não tivesse percebido o calor anormal! Eu sou... Eu... Ai, meu Deus... O que foi que eu fiz?!
A designer de interiores cai no choro, novamente.
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