Our Curse
13 Capítulo 13
Notas iniciais
PDV NARRADOR
Abigail Dalton observava as criadas correndo desesperadas pela casa, carregavam água morna, água fria, toalhas, lençóis, mas esqueciam-se do principal. Abigail fez questão de pegar.
Ajoelhou-se ao lado do machado, do lado de fora da casa, no quintal de trás, e acertou-o na lenha, até obter algo semelhante a dois cubos. Então ela voltou para dentro, com o rosto amargurado, parecia estar desfigurado, como se a senhora houvesse chupado limão.
Seu coração latejava, porque uma parte dele ainda tinha consciência de que a garota que sofria as dores de um parto prematuro era sua filha. O resto passava a doer de raiva, pela desonra, pela falta de respeito, pela vergonha. Abigail possuía uma parte sua doente, essa parte dela desejava a morte da filha, para lhe poupar rumores, ou coisas que pudessem sair da boca dela. Outra parte queria o bebê para si, a parte de uma mulher que foi mãe jovem demais e não soube cuidar de suas filhas e nem soube dar um filho homem para o marido, essa parte tinha esperança de reparar o erro.
Abigail de queixo erguido e com o vestido arrastando no chão subiu os degraus para o segundo andar, ostentando os dois cubos, o marido tentou para-la.
—O que vai fazer Abigail?! – ele exclama se pondo a frente da mulher.
—Saia da minha frente – ela o encara frívola, os olhos claros ardendo em algo que parecia chamas de ódio – Você sabe que ela merecia muito mais do que isso, eu sou generosa.
Ela empurrou o marido, e ele segurou seu braço.
—És doente Abigail, és doente. A garota é sua filha!
Abigail olhou para baixo e grunhiu, com um puxão se soltou do aperto do marido.
—Mas eu não sou mais sua mãe. Mantenha Agatha longe. Agora! – a voz de Abigail nunca esteve tão ameaçadora.
O marido se afastou, tornando-se sombrio e assustado pelo o que a esposa havia virado. Ele levou a filha para longe.
Abigail entra no quarto batendo a porta, que volta a se fechar automaticamente, ela não se dá ao trabalho de transmitir um olhar de pena a filha, que na cama grita coberta de dores.
A parteira estava a frente dela, dando instruções, gritando sobre os gritos, não apenas para Lucinda, mas para todas as serviçais.
—Parem – Abigail diz em um tom de voz normal, sem elevar nenhum oitavo, e mesmo assim a atenção de todos é virada para ela, até Lucinda, que agora não gritava mais, apenas dava gemidos frustrados e se empurrava para frente.
Abigail dá um sorriso e ergue os cubos.
—Oh, não! – grita Madalena – Lady...
—Quieta! – brande.
A parteira se levanta e caminha de cabeça baixa até Lady Abigail, então murmura para que só ela ouça.
—Isso é um risco, minha Lady, é um parto prematuro, a garota está fraca, poderá morrer ou perder o bebê.
Lucinda olha desesperada para a mãe, tentando transmitir por um olhar o pedido de socorro, a mãe nem encara algo próximo dela, e ela volta a gritar.
—Eu não me importo. Você apenas tem que tirar aquilo de dentro dela, seja qual forem as consequências – Abigail joga os cubos para a parteira e apanha um lençol ao lado rasgando duas tiras – Fará do jeito que deve ser feito.
Não possuíam autoridade, classe, ou alguma coisa para discutir com a Lady Abigail, não havia o que ser feito, além acatar as suas ordens. Com as mãos tremendo a parteira sinalizou para que trouxessem Lucinda a sua frente. Ela foi tirada da cama a força, contorcendo-se como se fosse quebrar.
Madalena e Maria a seguraram, enquanto temerosa a parteira prendia os pés da suposta pecadora nos cubos de madeira e amarrava com as duas tiras que Abigail havia feito.
Abigail sentou-se na cama e observou.
—Continuem – pediu – Não quis interromper.
Lucinda não acreditava na maldade da mãe. Não acreditava que havia sido criada por aquilo e preferiu jurar que era uma doença. Que a mãe havia perdido a lucidez. Mesmo naquele momento Lucinda rezou por alguém que não ela, pelo seu pai e pela sua irmã.
Apoiada em cima dos dois cubos de madeira com felpas que cravavam em seu pé, Lucinda permaneceu uma hora em agonia até conseguir dar a luz.
A mãe de Lucinda olha com desgosto quando anunciam que é uma garota. Lucinda desmaia, por poucos segundos e é levada para cama pelas criadas.
—O que... – Madalena começa com o bebê no colo.
—Lave-o. Enrole-o. Decido depois. Agora, Maria – com um sorriso doentio Abigail a chamou – Traga o vestido, o vestido que eu usei em meu noivado.
—Posso perguntar...
—Não! Vá.
Só poderia ser uma doença mental, Abigail mandou pegar seu vestido de noivado e limpar a filha desmaiada para então vesti-la. Quando Lucinda acordou a mãe a olhava sorrindo, se o sorriso não lhe parecesse tão demoníaco, talvez ela tivesse se sentindo bem.
—Veja isso Lucinda – Abigail passa a mão pelo vestido— Podia ter sido todo seu, em um casamento com o Conde, ah, ah, ah, quanta desgraça na minha vida.
Lucinda torce o nariz para a mãe, fraca demais para responder, por enquanto.
—Agora quem vai casar contigo? Ninguém minha filha, ninguém.
Lucinda negou com a cabeça e deixou as lágrimas escorrerem, as suas mãos tatearam o vestido, no local do ventre, e ela se assustou.
—Cadê? – fala tão alto quanto pode.
—No quarto das criadas, resolvi criá-la como serviçal.
Lucinda nega com força e procura alguma das criadas para ajudá-la, apiedar-se. Mas não há ninguém, apenas alguém que um dia foi sua mãe. Lucinda chora enquanto olha pela janela a espera de Daniel, ele precisava salvá-la.
Abigail levanta e alisa o vestido de noivado na filha, então se distancia e abre a janela, para depois, sair do quarto, sem nada mais a falar.
Lucinda chora sozinha por longas horas, mal tendo forças para se mexer. Lucinda apenas pega no sono por dez minutos, e tinha certeza que já havia passado da madrugada, estava tão escuro lá fora que parecia que até a lua estava se escondendo.
—Lucinda – finalmente Luce ouve a voz de Daniel, abre os olhos, cansada, mas suspira, com alivio. – Lucinda...
Ele chama de baixo da janela dela, e por mais fraca que se sentisse, por mais que sentisse cada osso de si parecer se esfarelar, ela levantou, apoiando-se no chão, engatinhando como um bebê, e tropeçando no vestido. Ela se apoia na janela e olha o que pode, as trepadeiras foram cortadas, e Daniel está logo ali.
—Lucinda...
—Daniel – ela tenta sussurrar a voz sai junto com uma tosse e ela desaba no chão, ficando apenas sentada.
—Luce! – ele fala um pouco alto demais, e se repreende, Luce volta a surgir na janela – Estás ferida?
—Suba – pede em apelo.
—Como?
—Daniel... Suba.
Lucinda não arranja mais forças para ficar de pé, nem que esteja apoiada na janela. Daniel, desesperado, não vê outra solução. Abre as asas e seu segredo não importa mais. Lucinda estava lá em cima, fragilizada, sabe-se lá o por quê, mas ela havia sumido da janela e Daniel sentia a fraqueza e a dor dela, apenas pela sua respiração.
Com um impulso plana até em cima e pela janela vê Lucinda, ela está deitada no chão e quando o vê, sorri, como se estivesse acostumada as asas dele.
—Daniel...
Daniel recolhe as asas e entra no quarto, pegando Lucinda em braços.
—Lucinda...
—Você é um anjo – de repente ela parece voltar ao mesmo mundo que ele.
Em um impulso ele a leva para cama e a deita em seu colo, logo percebe a confusão que está o quarto o sangue pelo chão, as tiras ensanguentadas e panos, a cama desorganizada e Lucinda fraca, seu filho havia nascido.
Daniel queria sorrir e procurar pela criança, amar aquele fruto de Daniel e Lucinda.
—Sou – ele confirma, olhando para ela, os olhos dela nos dele, ela desconfiada, mas não teme, não se afasta – Eu ia te contar, mas não havia hora certa, eu tive que enfrentar uma briga com meu irmão e... Isso é tão complicado, minha Luce, haverá tanto tempo para discutir isso, mas sim, Luce, sou um anjo, e sou seu.
Lucinda sorri, não se importa com o que Daniel é ou deixa de ser. Ele se abaixa, quando ela estende a mão para o rosto dele, ela implora pelo seu beijo e ele cede.
—O que aconteceu aqui?
—Mamãe – ela responde em um sussurro, não por ter que manter silêncio, mas por não conseguir nada mais que isso – Ela me puniu como uma desonra devia ser punida.
Daniel balança a cabeça.
—Eu não entendo. Que punição? E por que hoje? Está... Prematuro.
Luce confirmou.
—Não por muito. Ela me puniu – fez uma pausa para respirar, Daniel soprou um lufada de ar para ela e ela se sentiu melhor – Do jeito que mulheres desfloradas antes de um matrimonio devem ser punidas ao conceber um filho. Apoiou-me em cubos de madeira e foi assim.
—Destes a luz em pé? Equilibrada em cubos?! – ele grunhiu.
Luce confirma, mas balança a cabeça para ele esquecer, não que ele vá fazer isso, ela faz ele se concentrar nela.
—Eu não pude ver... Eu apenas sei que é ela e eu a quero, Daniel, leve-nos daqui.
Por um segundo Daniel esquece da crueldade feita e sorri ao saber que tem uma filha.
—Qual... Qual seu nome? – ele pergunta.
Lucinda nem havia tido tempo para pensar, mas já sabia o nome.
—Eu a chamo de Jeanne.
—Onde ela está?
Lucinda deixa uma lágrima escorrer.
—No quarto das criadas.
Daniel pega Lucinda no colo, ela não pesa mais do que uma pena para ele, e desce as escadas com a amada em seu pescoço, ela lhe guia até o quarto das empregadas, que dormem um sono pesado, cobertas por mais camadas de cobertor do que Lucinda era.
Com um olhar pede para Daniel a botar no chão, incerto, ele a larga, mas forma um campo de proteção com os braços ao redor dela, pronto para apanhá-la.
Lucinda se aproxima do que parece um Moisés de palha e espia dentro. Escondido em um monte de panos brancos há um rostinho, com os olhos bem abertos e violetas, peculiarmente curiosos como os de Daniel, os cabelos negros já pareciam grossos. Ela estava quieta como nenhum bebê do tempo dela ficaria, ela sorriu ao ver Lucinda que com o coração transbordando apanhou a filha nos braços, ela se encaixou imediatamente, como se fosse feita para aqueles braços, e era.
Daniel aproximou-se de Lucinda e espiou o embrulho, a menina também sorriu para ele, os pais não contiveram o sorriso.
—Vamos Daniel. – pede Lucinda, sentindo-se mais forte.
Ele olha para o rosto da filha e então para o rosto da mulher que ama a cima de qualquer coisa, a toma no colo novamente.
—Vamos.
Daniel parte com Lucinda e a filha em um cavalo branco, segurando Lucinda em seus braços enquanto a mesma embalava a criança que parecia se divertir com o passeio, parecia uma criança prodígio e não uma criança prematura, seria por ser filha de um anjo?
Daniel não pensa em parar, atravessa o campo de peônias e Lucinda percebe ele ir cada vez mais longe.
Daniel não se cansa, e tem força o suficiente, e habilidade o suficiente para segurar Lucinda e o bebê enquanto ambas adormecem. O sol já os saudava quando chegaram em Domrémy-la-Pucelle, uma pequena cidade da França.
Eles cavalgam para dentro do mato e subiram uma montanha, Lucinda já havia acordado e se sentia mais forte do que no dia anterior.
A neve cobria tudo e Lucinda tremeu, puxou a calda do vestido de noiva de sua mãe e se enrolou como podia nele e o enrolou no bebê adormecido.
Daniel finalmente parou, em uma floresta de galhos tapados pela neve, ele desceu e levou Lucinda no cavalo até a porta de uma cabana quase invisível.
—O que é isso? – Ela pergunta enquanto ele a desce.
—Precisava resolver muitos assuntos pendentes antes de poder fugir contigo, meu amor, e esse era um deles. Isso vai ser nosso lar.
Lucinda não contém o sorriso, com um braço segura sua filha e com a outra abraça Daniel com toda sua força. Finalmente ela se sentia feliz, finalmente sentia que tudo estaria bem.
Daniel abre a porta e mostra um lugar simples, com apenas um cômodo, e Lucinda acha perfeito. Havia um pequeno sofá, esculpido a madeira em frente a uma lareira, que por enquanto não estava acesa, perto do que era a ‘sala’ havia um fogão a lenha, e algo parecido com uma cozinha, Lucinda deu graças a Deus, por saber cozinhar. Ao canto havia uma cama de casal que era tapada por cobertores grossos do que parecia ser lã, a sua frente havia um armário. Ao lado da cama havia um berço, não um berço qualquer, ele havia sido habilidosamente, e com segurança, pendurado no teto, parecia uma pequena rede, em forma de berço, onde Jeanne coube perfeitamente.
—Daniel... – Lucinda se emociona e permanece abraçada a ele, com o rosto em seu peito, respirando profundamente, custando para acreditar que estava tudo bem – Obrigada, Daniel... Obrigada... Você nos salvou.
Daniel sorri para Lucinda e puxa seu queixo para poder desfrutar de um beijo, ah, ele não se importaria de fazer outro filho logo ali com ela, agora.
—Ainda não acabou – ele diz e puxa das vestimentas dois anéis, simples, que como tudo naquela casa ele havia... Pegado, Mas esse anel era especial, Daniel não o pegou de uma cidade mortal, ele pegou lá de seu antigo lar, antes de o deixar para sempre. Era um anel com um azul, um cintilo azul, era um pedaço do céu – Aceita ser minha esposa, Lady Lucinda?
O anel escorrega pelo dedo anelar de Lucinda, que agora a um braço de distancia de Daniel soluçava, com as emoções a flor da pele.
—Ah, eu aceito, Daniel — ela o puxa para um beijo demorado, enquanto bota o anel no anelar dele – Eu te amo.
—Eu te amo Lucinda, e agora tudo vai funcionar bem.
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