Osvaldo | Companheiros Sagrados I
9 Capitulo 9
Notas iniciais
Acir passou por cima do medo e do sentimento de fracasso total para a coragem, ele ia provar a seu mestre e seu alfa que ele conseguia proteger o companheiro do alfa, ou qualquer companheiro que aparecesse.
Ele sabia que uma das regras antigas da aldeia era proteger qualquer companheiro que os shifters lobos do bando viessem a ter, então ele caminhou até a frente do ônibus, que estranhamente, ainda estava parado no encostamento da estrada.
Ele não sabia porque o ônibus ainda se encontrava parado no meio do nada, seria mais justificado se fosse numa daquelas paradas rodoviárias onde se obteriam água e suprimentos.
Pode ter parecido uma eternidade o tempo do telefonema até o momento que ele ficou paralisado tentando colocar sua cabeça em ordem, mas na verdade, só durou 10 minutos, ele ouviu o barulho no ônibus e apressou-se para a entrada do mesmo, afim de averiguar o problema, até que ele ouviu:
— Você, seu merdinha arrogante filhinho do papai, pode chama-lo e dizer que o dono da companhia de ônibus de viagens, que por acaso sou eu, estou prestes a chutar sua bunda covarde para fora desse ônibus junto com um desses professores inuteis e malditamente silenciosos do caralho para conseguir seu próprio jeito de chegar até em casa.
— Se quiser posso até reembolsar o dinheiro do aluguel do ônibus só pra não ouvir sua voz irritante. Era a voz de Elaine que ele estava ouvindo, tendo uma explosão de raiva com algum dos jovens dentro do ônibus. Com certeza, o jovem era o companheiro do alfa, aquele moleque medroso tinha dado nos nervos dele quando jogou aquelas coisas em cima dele, como se Acir fosse um maldito agressor o que já dizia o quanto de um arrogante o cara era.
— E ai, meu jovem! Faça a porra da ligação , vou dirigir meu ônibus até a próxima estação de descanso para motoristas e você junto com um professor responsável podem se virar a partir dali. E diga a verdade menino covarde, ou minhas cameras dirão por você. Humm... Estranho... pensou Acir. Como Elaine vai cumprir o desejo do Alfa de proteger o merdinha se ele acaba de enxota-lo do ônibus, talvez seja um ardil para Piatã vir buscar seu cunhado e leva-lo de vez para a aldeia.
— Por que vocês índios se importam tanto com bichinha de merda ali, pensei que vocês índios fossem durões como nos filmes. Disse uma jovem que parecia que se encontrava no fundo do veiculo. Ele odiava os homofóbicos e racistas de forma geral, tudo bem que em sua opinião , alguns se faziam de vitimas vulneráveis desse tipo de pessoa. Mas ainda não o fazia parar de odiá-los.
— O menininha, nós somos durões, oohh se somos! Disse Elaine.
—Precisamos ser para proteger os jovens, as mulheres e os velhacos da nossa aldeia de qualquer mal, e quando digo qualquer mal me refiro a violência física e verbal causadas sobre as mais diversas circunstancias! Então Elaine também acreditava nessa coisa de violência ou agressão verbal, desde de quando as pessoas se tornaram moles para ouvir algumas palavras duras que poderiam fazer amadurecer um homem.
Tudo bem que Elaine era um dos melhores guerreiros da matilha ao lado dele, sem falar que Elaine era um maldito bom rastreador de bundas errantes, enquanto ele, Acir era um especialista letal em armas brancas. Ele ainda não entendia como um cara durão como Elaine ia acreditar nessa baboseira de não -sei-oque verbal.
Saindo de seus pensamentos Acir ouviu Elaine respirar fundo, o que era uma grande merda, pois o guerreiro era conhecido por sua falta de paciência. Como ele conseguia gerir uma empresa de transporte rodoviário com essa paciência estava alem dele, saber como.
— Vou explicar em palavras didáticas pra vocês sobre o respeito ao s seus semelhantes. Acir realmente se surpreendeu com a voz suave fingida.
— As minhas frotas de ônibus são uma extensão da minha aldeia, qualquer um que entre nele esta sob minha proteção. A fundação do índio, tem um parceria comigo em nível estadual, ou seja todo estado, ao inserir programas anti-bullying e diversidade de gênero, etnia e sexual para permitir a entrada de minorias em programas sociais e eventos culturais. Entendido alunos?
— Então , só porque o cara é viado, ele tem mais direitos que a gente?
— Ohhh espirito da terra dai-me paciência para esses alunos idiotas! Com sua audição paranormal ouviu Elaine murmurar, ele sentia que o cara já estava no fim de sua curta paciência.
— O que o motorista quer dizer... Acir ouviu um dos professores interromper Elaine de explodir.
— E que Osvaldo Cairo teve que se submeter a cursos, provas de admissão e trabalho voluntario para ser aceito num programa de bolsas dado a pessoas sem pouco recursos e com algum fator de minoria em seu currículo para receber amparo do governo pra ter educação nas melhores escolas, participar de eventos e excursões. Eles estavam falando do merdinha o tempo todo, então o cara que Elaine enxotou era um outro jovem do ônibus, pensou Acir.
— Ou seja, enquanto vocês, filhinhos de papai tiveram o dinheiro para pagar por tudo isso, Osvaldo teve que ralar a bunda dele o bastante para entrar num colégio cheio de idiotas intolerantes e professores inuteis. Sendo um dos únicos méritos, conseguir visitar minha aldeia, com algum de vocês estragando tudo com o maldito preconceito.
Então Osvaldo era pobre, Acir nunca imaginou que um cara gordo podia se mover ao redor de muito trabalho para conseguir uma bolsa nessa escola pomposa. Ele conhecia alguns guerreiros que fizeram faculdade e tiveram que trabalhar dobrado para prestar o vestibular na universidades federais ou para conseguir uma bolsa integral nas particulares.
Isso tudo conciliando com seu dever de guerreiros, apesar da resistência superior que um shifter tem, Acir nunca deixou de notar a fadiga e a falta de sono deles. Ele se enchia de orgulho pelos seus irmãos de matilha progredirem tão bem em suas vidas. Agora o cara gordo era uma surpresa pra ele saber que o Osvaldo chegou a passar por coisa semelhante.
Perdido novamente em seus pensamentos, ele não notou a movimentou para perto da entrada do ônibus, ele desviou rapidamente para canto esquerdo da porta automática, e tratou de ouvir o que mais eles falavam.
— Chegou a hora de partir, meu amiguinho! Sem falar, que eu vou ter que parar num ponto de descanso para deixar o merdinha covarde a sua própria sorte. Elaine disse num tom conspirador e amigável, como se ele e o Osvaldo fossem amigos de longa data.
— Você falou serio quando disse sobre expulsa-lo? Acir ouviu Osvaldo com o tom de surpresa e um ofegar de dor suave em sua voz.
— Você ainda tem duvidas sobre isso, Sr. Cairo?
— Sei la! Eu so não queria o senhor metido em problemas por minha causa.
— Primeiro, por favor me chame de Elaine, pois se você é amigo de Piatã , então você também é meu amigo. E segundo, se uma merda dessa acontece na minha frente, eu lido com ele de forma direta sem rodeios, simples e fácil. Disse Elaine de forma confiante e honesta.
Acir ouviu as palavras de Piatã batendo na sua cabeça " A pessoa que você deve proteger precisa saber que você é confiável e que vai protege-la "
— Eu não sei o que faria sem você e Piatã ! Muito obrigado, muito obrigado mesmo!
— Você é muito bem vindo menino doce. Elaine flertou de leve com Osvaldo.
— Você é um maldito brincalhão igual Piatã né? Osvaldo disse gaguejando e provavelmente corando pelo leve flerte de Elaine. O cara grande so fez foi rir grosso e profundo.
— Ainda bem, que não fui idiota o suficiente para acompanhar o índio que apareceu na cabana até o carro dele. Ele falou que era amigo de Piatã e que o mesmo tinha mandado ele, mas acho que Piatã tava falando de você.
— Na verdade, Osvaldo... não fala pra ele! não fala pra ele! Pensou Acir ainda ouvindo tudo.
— O veiculo que Piatã tinha reservado pra você era realmente com Acir...
— Acir era o nome do cara... Eu nunca entendi esse tipo de pessoa, se ele era realmente um amigo de Piatã , então porque ele não me ajudou? Eu tinha acabado de ser machucado pelo Manuel e companhia dentro da cabana, e quando eu pensei que o cara estava lá pra me ajudar, ele so derramou a mesma merda que eu ouço todos esses anos de todo mundo.
— Eu vi que ele tava querendo me intimidar. O guerreiro só não sabe que eu já vi o pior do pior, ai quando eu joguei umas palavras pra ele ver o idiota real que ele era, ele começou a me dizer coisas ainda mais odiosas como se ele tivesse ofendido, hipócrita ao extremo, eu acho que ele é. Ele chegou me ofendeu ai depois que eu rebati, ele ficou ofendido. Osvaldo soltou tudo de uma vez, cada palavra transbordava raiva e decepção .
— Sim, Osvaldo, existem alguns colegas guerreiros que são realmente uns idiotas. Acir é arrogante e fechado, ele passou por duras provações como você e o resto do guerreiros, mas ao invés de ver a conquista dos seus atos com o conhecimento de tornar mais fácil o caminho de outros que estão passando pelo mesmo que ele passou, ele apenas julga as pessoas que ainda não conseguiram o mesmo exito que ele.
— No fundo, bem no fundo, ele é um cara bom e decente. Rudá a anos vem tentado ensinar a ele sobre a diversidade de pessoas lá fora no mundo. Piatã treinou o corpo, a alma e a mente dos guerreiros com seu conhecimento, com palestras na cidade promovidos. Com o apoio da Funai sobre criminalidade, preconceito contra minorias, violência sexual, abuso físico e moral e todo esse tipo de merda, mas o cara acha que só a vida pode ensinar essas coisas pra ele...
— Como se o idiota fosse conhecer todo o tipo de situação no mundo, e como se ele soubesse exatamente como agir diante de cada coisa, nem que ele vivesse mil anos, ele poderia conseguir isso.
— As pessoas adquirem muito através da experiência, sim isso é certo, mas conhecer e absorver um pouco da vida de outras pessoas fora do seu circulo social também é uma ideia genial, ficar preso no mundinho dele mesmo só o vai fazer piorar.
— Você é doce com as palavras Osvaldo. Eu quase fico com tesão dessa sua boca esperta.
— Você é igual o Piatã , o tempo inteiro tentando me envergonhar hahaha!
— Agora é hora de partir senão o horário de chegada se atrasa, mesmo tendo uma hora e meia de vantagem...
— Elaine, eu quase esqueci! Eu não queria te pedir isso, mas eu preciso que você não vá ainda se for possível, eu prometo fazer isso rápido. Acir ouviu Piatã falar envergonhado e tímido.
— Mas o que. Que porra é essa Osvaldo? Gritou Elaine furioso, Acir não conseguia ver nada de onde estava, então ele não sabia o que acontecia.
— Me dá 15 minutinhos Elaine, me desculpe.
— Desculpe eu por gritar com você, mas eu não vou deixar de ficar irritado por ver alguém assim! Quem foi que fez isso Osvaldo? Elaine falou numa voz suave, mas carregada de preocupação e raiva contida.
— Elaine, espere um minuto... Eu preciso cuidar disso antes que infeccione.
— Como você não falou nada sobre isso... ta tudo bem, eu vou esperar! Acir ficou curioso como o inferno pra saber do que eles falavam, parecia que algo grave tinha acontecido, mas antes de sair da cabana, ele só viu alguns cortes no rosto e no braço, nada demais.
— Os ferimentos do braço e do meu rosto já estão cicatrizados, eles não foram profundos... Começou a dizer Piatã com um assovio de dor.
— Mas o ferimento no estomago apesar de não ter sido muito profundo, precisou de limpeza e de pontos, mas Manuel me socou justamente sobre o ferimento e pelo sangramento na faixa, acho que os pontos abriram. Acir gemeu de frustração , o cara tinha um ferimento que levou pontos, mostrando que ele não chegou nem perto de proteger o cara.
Ele nem teve a decência de prestar primeiros socorros ao cara, ao invés disso deixou sua boca grande tomar conta, ele só sabia o quanto ferrado ele estava depois disso.
— Eu não sabia que a excursão tinha um professor responsável por primeiros socorros e que sabia fazer pontos de sutura num ferimento grave...
— Eles não tem... Disse Osvaldo quase murmurando.
— Então você já tinha esse machucado antes da merda que aconteceu nas trilhas...
— Não , antes de subir no ônibus, Roberto e seus amigos me cercaram na minha cama na cabana enquanto eu arrumava minhas coisas. Roberto tentaram me esfaquear e me cortar como vingança por Rudá e Piatã terem me defendido, enquanto seus amigos me assistiam, Manuel conseguiu me ferir no estomago com aquela maldita faca, mesmo eu tentando proteger me embolando no canto da cama. Apesar do Acir ser um cara estranho, ele pelo menos afugentou os caras antes que eles fizessem algo pior. Osvaldo disse tudo em meio a alguns gemido de dor.
— Acir não fez nem metade do que era a obrigação dele. Elaine bufou alto de indignação e com um pouco de tristeza . Continuou Elaine, assustado com os cortes sangrando e com a destreza de Osvaldo em conter o sangue tão rapidamente.
— Apesar de que ele continua sendo um irresponsável por não ter te ajudado, e nem oferecido primeiros socorros, mesmo que você seja tão hábil agora mesmo em fazer isso em si próprio. Sua voz pingava sarcasmo, pois Osvaldo não devia ser aquele que cuidava de si próprio, ele devia estar rodeado de pessoas que o pudessem cuidar.
— O que não responde minha pergunta: Quem fez os pontos de sutura?
— Ahhh sim! Fui eu.
— O que?! Elaine gritou assustado. Elaine ainda se encontrava incrivelmente chocado, mesmo vendo que Osvaldo cuidava dos ferimentos com a habilidade que ele só tinha visto um curandeiro da aldeia fazer.
Acir estava do lado de fora com a queixou caído surpreso por isso. Primeiro, ele ficou queimando de raiva de alguém ter tentando matar o cara, debaixo dos seus olhos. Agora ele tava lá parado surpreendido com o cara ter feito pontos no próprio estomago, isso deve ter doido pra caralho.
— Eu fiz os pontos, mas agora que o Roberto abriu os pontos, vou ter cortar o resto dos pontos e refazer de novo. Merda, o cara tava falando sobre ter que suturar os pontos como se tivesse falando do tempo na Tv, apesar do suave tom de dor na sua voz.
— Caralho, Osvaldo! Isso deve doer como uma cadela. Ouviu o tom exasperado de Elaine com obvia preocupação e dor.
— É claro que doí, mas eu já me acostumei a isso, um cara lá na favela onde eu moro estava fazendo curso de enfermagem e é amigo do meu irmão. Osvaldo tomou uma pausa longa, Elaine e Acir, ainda escondido, imaginavam a dor de ter que falar e mexer num ferimento grave ao mesmo tempo.
— Logico que meu irmão não sabe, mas Rodrigo cuidou algumas vezes de mim, e depois de um tempo me ensinou algumas coisas e até me deu algum material de primeiros socorros e de sutura para o caso de ferimentos graves. Falando nisso, preciso falar com ele, a linha que ele me deu já acabou e eu não posso ficar usando linha de pesca pra sempre e também...
— Que merda é essa Osvaldo? Elaine gritou interrompendo Osvaldo em sua divagação, e Acir também queria saber, sua irritação estava no limite, ele estava quase explodindo de raiva. O cara tava deixando implícito, que ele já tinha tido vários ferimentos profundos durante algum tempo em sua vida. Mas a sua voz era suave, calma e honesta como se ele tivesse falando de algo trivial e não que tivesse confessado anos de ser agredido gravemente.
— Um cara não devia estar acostumado a dar pontos em si mesmo, Osvaldo. Elaine disse com a voz embargada de dor.
Acir tentou se aproximar da porta pra ver alguma coisa do que estava acontecendo lá dentro até que ele viu o retrovisor do lado de fora refletindo a imagem de Osvaldo que tinha um trapo manchado de sangue enfiado na boca, ele mordendo suavemente o pano, enquanto suas mãos se mexiam para baixo do seu estomago, ele não conseguia ver o corte, mas ele viu a agulha enorme e linha fina se movendo ao redor.
Tinha gotas de suor pigando em seu rosto, e sua expressão ainda que com dor era suave como se a dor não fosse tanta. O cara nem chorou, ou estremeceu. Merda, ele mordeu a lingua por ter falado do cara e palavras do seu mestre martelando em sua cabeça.
" Ele estava com dor e você apenas criticou o cara sem nem saber nada sobre ele"
— Piatã sabe desse histórico seu de ferimentos? E o mais recomendado depois de tudo isso é ter algumas aulas de defesa pessoal, se bem que você sendo um cara de poucos recursos, deve ser difícil de conseguir isso. Elaine continuou a falar e perguntar para o cara, mas Acir, escondido, só ouviu alguns gemidos suaves interrompendo Elaine em sua divagação .
— Ohh certo, desculpe, eu vou deixar você terminar. Elaine parou por um momento com seu questionamento mórbido. Acir olhou novamente para ver a imagem desfocada de Osvaldo, que ainda que não estava olhando em seus olhos diretamente, ele podia seu rosto franzindo numa carranca de raiva e seu olhar brilhava de forma selvagem, enquanto parecia para Acir que ele terminava de costurar seu estomago.
— Pronto, Elaine... Ufa! Terminei o curativo. Disse Osvaldo, minutos depois, enquanto enrolava um faixa limpa em torno dos pontos suturados.
— Respondendo suas perguntas rapidamente. Não , Piatã não sabe muito sobre meu histórico de agressões, se bem que eu sei que ele pode ter uma pista, apesar de eu não ter dito nada. E sim, eu já pensei em ter aulas de auto-defesa, e foi fácil pra mim, porque meu tio era um professor formado em 3 tipos de lutas marciais. Na verdade eu sou faixa amarela em carate.
Acir ficou mais surpreendido ainda, um cara gordo e fracote ser estudante de karate, então porque o cara não se defendia, ele queria correr e perguntar diretamente, mas ele ouviu Elaine dizer:
— Então , o que acontece sobre os caras que te agridem todo tempo? Elaine perguntou sutilmente a mesma coisa que Acir queria perguntar, mas de uma forma educada e sem realmente criticar o cara diretamente. Pelo visto, Elaine sabia tratar melhor os outros do que ele, talvez ele devia ter assistido aquelas palestras que seu alfa e mestre aconselhou ele a ir. Talvez, apenas talvez, ele teria aprendido alguma coisa com elas.
— Você é muito educado, Elaine, em não perguntar diretamente porque eu não consigo proteger minha bunda fraca, já que eu sei um pouco de auto-defesa. Mas primeiro, não é porque algumas pessoas sabem alguma luta marcial ou alguns movimentos de auto-defesa, que elas vão saber usar na pratica em algum momento que se precise, é muito difícil deixar extravazar seus instintos em equilíbrio ao movimentos de luta que você pode ter aprendido.
Acir estava cada mais impressionado com o cara falando, ele deixava transparecer um conhecimento que poucas pessoas daquela idade deixava mostrar. As palavras de Piatã , sobre ele criticar o cara sem realmente o conhecer estavam se mostrando real, e ele dentro do carro havia reclamado do cara o criticar o comparando aos estudantes agressores, mas agora ele podia ver que os agressores faziam a mesma coisa que ele fez, eles agrediam pessoas que eles não conheciam, e os julgavam, pelo que ele deixava transparecer. O orgulho de Acir murchava quanto mais ele pensava nisso.
— Meu tio dava aulas num antigo clube de dança na favela para que os jovens ocupassem seu tempo ocioso, evitando que eles ficassem na rua desprotegidos e a merce do trafico de drogas e armas que sempre chama os jovens ao dinheiro fácil. Osvaldo continuava a falar.
— O que aconteceu depois? Sinto que a historia não para por ai... Falou Elaine, com curiosidade.
— Alguns traficantes de merda se sentiram incomodados de estarem ficando sem os jovens que pudessem fazer seu trabalho sujo de distribuição. Então , um dia um dos membros do trafico entrou no antigo imóvel e puxou de lado um dos jovens que estavam la. Na verdade, o jovem que ele puxou era o Marcinho, um dos jovens que com muito esforço, meu tio conseguiu tirar da rede de trafico, Marcinho se atraiu pelas artes marciais com o argumento inicial de que se ele aprendesse a lutar poderia ganhar a confiança do maior traficante da favela. Mesmo com os objetivos errados, o tio o acolheu e alimentou seu proposito, mas sempre dando alguns conselhos sábios sobre que devia continuar os estudos e tal...
— E então ? Acir ouviu o tom de voz impaciente e curioso de Elaine para com a historia que Osvaldo tava contando. Acir estaria mentindo se ele dissesse que não estava curioso sobre o resto da historia, ele continuava a observar o retrovisor atentamente enquanto ouvia, e ele viu o cara ferido abaixar a cabeça e os ombros tensos, e levantou a cabeça mais uma vez, mas ao olhar em seus olhos ele viu uma dor não física não anunciada brilhando solenemente.
— Desculpe, não falar diretamente sobre isso, mas é porque a historia não termina muito bem. Elaine olhou diretamente para Osvaldo, enquanto terminava de comer seu almoço, que ele usava como justificativa do ônibus ainda não se mover em direção a cidade.
Ele observou seu olhar perdido e os ombros baixos, e viu que aquela historia não terminava bem, ele não queria pressionar o cara, apesar de estar morbidamente mais curioso ainda sobre a historia, e não passou despercebido também a Elaine o cheiro de Acir escondido na lateral do ônibus ouvindo tudo o que eles falavam, ele deixara que o cara ficasse ali ouvindo, na esperança de que o cara ouvisse e percebesse o qual idiota ele era de ter tratado Osvaldo como merda, em sua atitude arrogante.
— Por mais que eu esteja curioso sobre o final desse história, se você ficara triste remoendo essa lembrança, então deixe pra lá e vamos falar sobre outra coisa.
— Não , tudo bem. Disse Osvaldo, recuperando sua compostura e falando com confiança.
— Marcinho depois foi se interessando por informatica, meu tio vendo seu interesse conseguiu dois computadores usados para que Marcinho pudesse aprender algo, uma das vizinhas que apoiava meu tio nesse ato comunitário, emprestou um modem de internet movel para que ele conseguisse cursos gratuitos online que o governo promovia, outros 3 jovens se interessaram também e em horários alternados faziam os cursos que lhes interessava e meu tio os levava para a cidade para fazer a prova de conclusão de curso que era presencial.
— O tempo passou e os jovens conseguiram diplomas de três cursos técnicos, e Marcinho estava no seu quarto curso técnico na area de informatica. Voltando ao momento onde parei, o traficante levou para Marcinho para um canto tentando convence-lo a voltar a entregar as drogas na praia que temos lá perto. Eu estava perto ouvindo tudo, até que eu vi meu tio se aproximar e começar a discutir com o traficante. Foi tudo rápido demais pra mim, meu tio começou a lutar com o cara, e ele estava vencendo.
— Mas então o traficante sacou uma arma de trás, e ameaçou atirar em Marcinho se ele continuasse a lutar, vi o olhar do meu tio e percebi que ele estava observando e procurando uma maneira de desarmar o cara, sem que ele atirasse por acidente em Marcinho, mas tudo foi por água abaixo quando mais três caras armados entraram atirando em tudo, eu e os meninos que estávamos lá dentro, fomos pro chão , e meu tio começou a lutar com os caras que chegaram tentou desarmar-los para evitar que parassem de atirar, mas meu tio mesmo com suas habilidade loucas de luta não era páreo para três caras armados.
— Ele levou um tiro no ombro na perna, no peito e no braço. E os tiros não paravam ao redor da sala, atirou nos computadores, nos tatames, nas cadeiras, nas mesas em tudo. Eles destruíram o lugar, e meu tio morreu ali mesmo ate que eles sairam, levando Marcinho com eles.
— Porra! Elaine ouviu Acir xingar em um tom baixo de trás do ônibus. Elaine também não se sentira melhor ouvindo a tragedia que aconteceu. Ele viu as poucas lagrimas caindo dos olhos de Osvaldo ao lembrar da tragedia.
— Desculpa Osvaldo, por ter feito você se lembrar de algo tão terrível. Elaine sentiu seu peito se apertar de dor, pela sua curiosidade mórbida ter feito o cara relembrar algo tão doloroso.
— Não se preocupe, é bom desabafar com alguém alem de Rosimar. Disse Osvaldo suspirando alto.
— Rosimar?
— Sim, meu irmão mais velho. Ele depois desse incidente, me proibiu de praticar artes marciais, com medo de que eu bancasse o herói como meu tio fez e acabasse morto. Mas eu também já não tinha interesse em aprender auto-defesa, pelo fato ocorrido, eu já sabia que por mais que eu tentasse aprender a me defender como meu tio, jamais movimentos rápidos serão páreos para armas de fogo. Elaine duvidava disso, mas claro ele era shifter, com movimentos rápidos e sobrenaturais ele conseguia desarmar três caras com uma mão amarrada nas costas, mas um ser humano, nunca se sabe.
Ele agora entendeu como Osvaldo desistiu de se defender, e deixou a luta de lado sabendo que não poderia ajuda-lo em qualquer momento, o que era errado, mas Elaine sabia o que o peso de uma tragedia podia mexer com a cabeça de um cara.
— O que seus pais disseram sobre isso?
— Meus pais morreram de bala perdida antes desse ocorrido. Somos só eu e meu irmão . Disse Osvaldo de uma maneira derrotada.
— Ohh pelo mais sagrado, me desculpe por continuar falando Osvaldo, sinto muito pelas suas perdas. Elaine se afogava em angustia na pouca dor que Osvaldo emanava em sua voz vazia e triste. Osvaldo olhou diretamente pra ele, dando-lhe um sorriso suave.
— Acalme-se Elaine. As vezes é bom conversar com alguém sobre nossas dores passadas. Eu já não sinto tanto dor ao falar sobre essas coisas. então peco obrigado por me ouvir tão atentamente, e quando precisar conversar, também estarei aqui para você. Osvaldo disse de forma suave e sincera, olhando para Elaine de forma amigável e confiante. E Elaine agora sabia que um elo entre ele e Osvaldo havia se formado.
— Vamos embora, meu amigo. já perdemos tempo demais.
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