Osvaldo | Companheiros Sagrados I
6 Capitulo 6
Notas iniciais
No outro dia, quase final da tarde, Rudá estava sentado no salão principal, onde um dia a oca principal do líder da aldeia ficava, agora tinha uma grande sala oval com 5 metros de diâmetro o teto era uma abobada, onde o encontro da abobada com as paredes circulares tinha um aro de madeira de lei, onde o lustre artesanal de plástico e vidro reciclado se alinhavam com perfeição , podendo iluminar igualmente todo o espaço do escritório e as subdivisões feitas com divisórias pouco solidas.
As paredes tinham uma textura real de tijolo e madeira deixando o ambiente aquecido, claro que a madeira era de caules de arvores mortas, na reserva não era permitido a derrubada de nenhuma das arvores nativas, somente a poda de algumas arvores que circundavam as aldeias para não impedir a fiação elétrica colocada 50 anos atrás, sua aldeia era urbanizada e moderna mais sem colocar a fauna e a flora que se encontrava em extinção .
Sem prestar atenção ao seu redor, Rudá só se mantinha sentado no velho tapete cerimonial de sua família olhando para o fogo que continha cinzas de seu avô, buscando orientação de seus antepassados. Até que um movimento a frente perto da entrada do grande salão o chamou atenção, seus guardas que antes se viam ao redor dele afim de proteger seu líder durante a meditação agora estavam saindo para fora do lugar, só que seus sentidos o viram se posicionar fora do templo ainda o protegendo.
— Mas o que é isso? Até que era tarde demais, ele sentiu uma dor pulsante atrás da sua cabeça, quando fez menção de se virar para encarar seu atacante no que seria questão de segundos.
— Vejo que a meditação não está lhe fazendo nenhum bem, se não aguça seus sentidos para sentir a energia exterior!
— O que você está fazendo, idiota? Rudá mal continha sua raiva.
— Estou aqui para tentar colocar alguma lógica nessa sua cabeça de merda! Disse ele mal contendo sua raiva enquanto cuspia as palavras para seu líder e irmão.
— Piatã, quantas vezes eu terei que lhe pedir para ter algum respeito comigo como seu alfa! Além do mais, aqui é um lugar sagrado. Disse Rudá, pela primeira vez usando o termo lobo para repreender seu irmão mais novo.
— Corta essa palhaçada de querer se impor para mim como Alfa ou Pajé, eu sou seu irmão, eu sou o segundo no comando e praticamente o conselheiro da aldeia... Rudá deu uma risada seca e sem calor para seu irmão que ele julgava arrogante.
— Você não é nem metade do conselheiro que Ubira é, pirralho! Disse com veneno e frieza.
— Ohh meu deus! Você me machucou tão ruim agora! Disse Piatã num tom fingido e com o sarcasmo pingando de sua voz.
— Ubira não deve estar fazendo um bom trabalho, irmãozinho, se você está aqui olhando perdido para o vazio e fazendo um ritual poderoso que você nem conhece e nem está dando o devido respeito a ele.
— Mas... Começou Rudá.
— Não! Agora você vai escutar, Rudá! O que você fez com o Valdin?! Porque ele estava chorando e com dor quando fui visitar ele para me despedir?! O que porra você fez dessa vez, irmão?! Piatã praticamente gritou desesperado com seu irmão. O rosto de Rudá se amargou de dor e resignação quando soltou um suspiro pesado que ele percebia que segurava e quando Piatã pensou que ele iria falar algo que valesse a pena, o rosto dele virou-se em raiva contida.
— Isso não é da sua maldita conta, Piatã! Eu não te devo explicações e nem você é alguém perto de me dizer o que fazer!
— Seu filho da puta! Rudá se levantou na hora ao ouvir o insulto, tentando mostrar quem mandava na aldeia numa demonstração de poder sobre o lobo impertinente, mas Piatã não respondeu a sua autoridade como Alfa dos lobos rubros ou como chefe máximo da aldeia.
— EU SOU O SEU MALDITO IRMÃO, RUDÁ! Será que se esqueceu disso?! Engula esse orgulho irmão, me mostre sua força interior e não essa merda de alfa mijando nos cantos em busca de superioridade, você está tão cego de dor e tão cheio de um orgulho vazio que não percebe as coisas ao seu redor ou dentro de si mesmo.
— Eu não quero falar, irmão. Piatã viu as barreiras quebrarem sob seu protesto, mas a situação não ficou melhor. O comportamento do homem lobo ficou retido, tenso e ansioso, como se alguma dor física o assolasse.
— Rudá, meu maninho lindo, eu te amo! E assim como preciso proteger e aconselhar nosso líder, preciso também cuidar do meu irmão!
— O que você quer de mim, Piatã? Rudá sussurrou dando um sorriso triste, seus olhos molhados; olhando diretamente nos olhos de Piatã, agora percebendo a preocupação e o desespero contido em sua face, ele se sentiu culpado por suas palavras duras anteriores.
— Eu quero Valdin em sua vida, pois ele também é meu irmão e também me preocupo com ele igualmente como você! Eu quero os dois felizes e juntos para enfrentar o que há por vir! E principalmente, eu não quero que você cometa os mesmos erros que cometeu com Mizane. Rudá gemeu frustrado, seu rosto se enrugou mais ainda com a dor velha relembrada pelo seu irmão.
— Por que falar de Mizane agora, Piatã! Você gosta de me ver afogando na culpa! Pois agora eu não vou para essa posição de novo! Ela nem era minha companheira para início de conversa, então não me julgue pelo que eu fiz!
— Ahh, você não vai sair disso assim! Não se atreva a diminuir o que Mizane sentia por você, e nem o que você sentia por ela só porque ela não era sua companheira! E não, eu não quero ver você se lambuzando em culpa! Depois de 3 séculos, eu pensava que você tinha se perdoado por causa disso.... Mas pelo que estou vendo,o Valdin que vai me ajudar com isso também!
— Não, eu não vou contar para ele! Nunca vou contar para ele sobre Mizane e nem você tem o direito de fazer isso! Gritou Rudá em plenos pulmões desesperado por algum controle sobre sua vida.
— Eventualmente, você vai busca-lo para te ajudar com isso. Viver culpado o resto da vida só vai te destruir, e como você não sabe nem ao menos fazer um ritual de ligação com seus antepassados, imagina um ritual poderoso de purificação de almas para te livrar de toda essa culpa! Então sim, eu estou botando toda a minha fé no Valdin te ajudar com isso.
— Se estou fazendo isso errado, como é que você só está me dizendo isso agora, depois do ritual quase concluído! Eu posso ser amaldiçoado se eu não tiver conseguido realizar uma ligação com o vovô!
— Como eu disse você não está prestando atenção ao seu redor e nem dando atenção a si mesmo no momento...
— O que você quer dizer com isso... Rudá se interrompeu agora percebendo que a terra negra tinha uma rubrica rúnica indígena sobre ela que antes não estava lá. Seus conhecimentos em runas indígenas muito antigas estava enferrujado assim como o português eventualmente... Então a única coisa que conseguiu identificar foi a runa da cobra e do furão, que representavam família e proteção respectivamente, que estavam rubricados ao redor da runa principal que ele jurava nunca ter visto devido ao fato de que essas runas tinham padrões curvilíneos que não se lembrava de ter estudado em nenhum momento em seus quase 400 anos de existência.
— Nossos guerreiros tem conhecimentos rúnicos melhores que o seu irmão, pelo que eu estou vendo, eles reconheceram as runas e entraram em uma formação defensiva externa ao ver as runas.
— Ahhh Piatã, não me faça de tolo maninho! Eu sei que você passa a maior parte do tempo ensinando os guerreiros de tudo um pouco, nem pregando atenção ao seu líder e ao que pode lhe ajudar...
— Bem, senhor Pajé, como o senhor disse anteriormente, eu não sou o conselheiro oficial da aldeia, e só o conselheiro oficial da aldeia pode lhe dar orientações e ensinamentos sobre qualquer coisa. Disse Piatã numa falsa formalidade irônica. Rudá deu um suspiro alto e profundo, ele sabia que seu irmão estava certo, ele disse algumas palavras duras anteriormente, mas em sua defesa, Piatã estava apertando lhe todos os botões para obter-se com raiva por ser tão transparente diante de seu irmão mais novo.
— Me desculpe, irmão. Disse quase sussurrando, e esperando que Piatã tenha ouvido, porque ele não iria repetir novamente, seu orgulho já estava ferido demais.
— As runas centrais que escrevi na terra preta do Deus Elefante da Terra, são runas de anulação formal de encontro espiritual, interrompi o ritual e depois como forma de mostrar que eu não estava rejeitando a ajuda dos espíritos antepassados, coloquei as runas sobre-espirituais da cobra e da fuinha, para dizer aos antepassados que eu estaria aqui para você no lugar deles, e como eu já havia ensinada ao s guerreiros sobre os significados secundários das runas, eles sabem que a runa da cobra e da fuinha juntos querem dizer encontro familiar, e que automaticamente eles devem obter espaço devido a privacidade exigida e dar proteção externa para que não sejamos incomodados enquanto as runas não desaparecerem. Disse Piatã com um tom compassivo e esclarecedor, como se estivesse explicando a um aluno.
— Runas sobre-espirituais? Disse Rudá.
— De toda a explicação que te dei, a única coisa que você pegou foi runas sobre-espirituais! Disse Piatã exasperado.
— Eu ouvi o resto, maninho. Só estou expondo em palavras, uma dúvida.
— Primeira regra, querido Pajé... Continuou Piatã em um tom verdadeiramente formal e sem nenhuma malicia.
— Quando estou lhe ensinando algo, ou provendo a você algum conselho, você se dirige a mim como mestre, para significar que você se submete ao conhecimento que lhe for passado.
— Mas somente Ubira tem esse direito Piatã, como disse e sem querer te ofender, você não é o conselheiro oficial da aldeia.
— Acho que você precisa de mais instrução do que eu imaginava, Alfa Rudá. Piatã continuou no mesmo tom formal.
— Quem escreve as runas na terra preta, é o seu mestre durante o ritual de aconselhamento, é claro se as runas funcionarem, e elas funcionam agora mesmo.
— Mas... Rudá começou a protestar, gemendo interiormente quando seu lobo interior começou a rosnar para si mesmo, como se não quisesse ouvir sua própria voz, então ele parou de falar, e ele sentiu seu lobo se aconchegando dentro de si, mas suas orelhas levantadas em atenção, como se preparando para continuar a ouvir o que Piatã tinha a dizer. Resumindo, seu lobo o reconhecia como mestre, isso foi um golpe ao seu ego e ele se sentiu mil vezes burro ao chegar a esse reconhecimento.
— Como eu estava dizendo, respondendo a sua dúvida, runas sobreespirituais é um nome impertinente e moderno que foi lançado recentemente sobre runas conjuntas, mas é mais coerente dizer que são runas dos espíritos dos animais sagrados, para mostrar o que quero dizer, peço encarecidamente senhor Alfa que libere seu poder alfa.
— Mas eu já liberei o poder alfa quando me impus a você momentos atrás.
—Desculpe lhe dizer alfa, mas quando o senhor se impôs ao seu mestre, você não usou o poder alfa e sim seu ego e orgulho masculino como forma errada de demonstrar poder de sua posição. Agora canalize sua energia interna e libere-a para fora, mas somente o suficiente para eu demonstrar o que quero dizer sobre sua dúvida. Sua energia é naturalmente alfa, então não precisa colocar muito pensamento quanto a isso, sente-se no tapete cerimonial que ele lhe ajudara a equilibrar sua energia...
— Sim, ok Pia.... Seu lobo rosnou novamente. — ... Mestre! Rudá fez o que Piatã lhe orientou e então ouviu-o dizer.
— Isso mesmo, agora abra os olhos e olhe para terra preta. Rudá fez o que foi pedido, e viu uma cobra pequena mas bem assustadora, quase com a aparência de uma cascavel se movimentar no ar, seu cor era transparente, mas as cores de seu corpo era vividos como se fosse real, ela estava tranquila e relaxada, parecia que estava somente a se divertir perambulando no ar mas sempre dentro do espaço da terra preta, como se não houvesse uma preocupação no mundo para lhe abalar.
Então olhou para Piatã e viu nitidamente algo transparente e respirando em seu pescoço, foi ai que ele percebeu que era o furão, mas diferente da cobra, o furão enrolado no pescoço de Piatã estava tenso e preocupado, Rudá conseguia sentir isso vindo até ele, e quando focou no rosto do furão, viu o olhar atento e controlador da fuinha amazônica, seus olhos brilhavam de um amarelo intenso, diferente do seu corpo apagado e ele percebia que a fuinha olhava atentamente para a cobra despreocupada...
— Ele está a protegendo de qualquer perigo externo como se desse significado as runas família e proteção, você entende, Rudá? Explicou e perguntou Piatã.
— Sim, mestre.Respondeu Rudá, agora sem hesitar e com calma.
— Agora que temos tudo aconselhado e explicado.Para terminar, devo lhe dizer que retirei Acir do seu posto e coloquei ele para acompanhar e proteger Valdin.
— Você não pode fazer isso Piatã. Disse Rudá saindo fora de sua calma.
— Acir não tem um ponto sensível em sua alma, ele é grosseiro e idiota e pode machucar Valdo com suas palavras venenosas.
— Para o companheiro do alfa, é necessário o melhor guerreiro da aldeia para protege-lo, e Acir é esse guerreiro.
— Mas... Rudá interrompeu o mestre mais uma vez, mas ele parou quando viu o mestre suspirar alto e profundamente, fechando os olhos suavemente, e ao retorna-los a abrir, viu o olhar cheio de sabedoria e um num tom de onisciência disse:
— Acir precisa encontrar seu caminho, e o Valdin é o único que pode lhe ajudar com isso. Disse o mestre, depois que todo o ar ritualístico se foi e Piatã saiu para a fora pela entrada principal, a terra preta estava arada e limpa de runas...
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