Notas iniciais
BOA LEITURA! :3

Osvaldo ainda esperava que aquele pesadelo acabasse, ele havia voltado para o acampamento e foi a mesma coisa de mudar sua realidade da água para o vinho, mas claro que do vinho mais sujo e de baixa categoria. Os jovens da excursão olhavam para ele como se ele fosse um alien que eles queriam que voltasse para seu planeta, os olhares se repetiam constantemente e ele ficava com mais e mais medo daquela situação.

Ele sabia que aquele dia tinha altas possibilidades de acontecer novamente. Quando o medo que ele sentia se emana em ondas, os meninos que o tinham agredido o olhavam como uma piada pronta para eles rirem à vontade, logico até um dos professores monitores me ver por perto e tentar acabar com a algazarra de risos.

— Pensei que você cortaria seu cabelo depois do ocorrido de ontem. Disse uma voz que Valdim se fazia conhecer, era um dos professores, ele nunca mais gostaria de nenhum professor na vida, depois do abandono que ele sofrera durante as agressões violentas, ele ainda mancava e sua cabeça ainda doía e continha uma vermelhidão estranha que ainda não se desvanecia.

— Eu não sou de dar troféu para ninguém que me fez mal!! Disse Valdin com uma raiva contida na voz.

— Você não ia dar troféu para ninguém... você só ia se resguardar mais de outros incidentes acontecerem. Disse o professor com uma falsa voz de cordialidade. A raiva que ele sentia subia degraus rapidamente pelo seu corpo, ele mal se continha a querer gritar tudo o que passara...

— INCIDENTE??!!! Você consegue se ouvir? Ou melhor você consegue enxergar as contusões e mancar pronunciado na perna?? Você consegue??!! Eu vi você no dia, você fugiu junto com os outros professores e deixaram ele para morrer lá!! Gritou Rudá entrando de repente na área de piquenique do acampamento, aparentando ter ouvido o início da conversa.

— Eu vi tudo! Eu vi a educação e respeito que vocês ensinam aos seus alunos. Se houvesse esse tipo de coisa aqui na aldeia, os agressores seriam punidos severamente, mas como não são membros e sim pessoas civilizadas... Rudá dizia tudo com muito sarcasmo, o veneno na voz e a raiva eram notáveis, mas Valdim não conseguia entender alguém que quisesse se levantar por ele, se é que essa comoção toda do índio fosse realmente por ele e não pela reserva que receberia má fama.

— Desculpe, senhor! Nós não sabíamos que as crianças agiriam daquele jeito. Nós estávamos com pressa e não nos demos conta do alvoroço que estava acontecendo atrás de nós! Os jovens envolvidos estão sendo punidos corretamente...err... em sua ... er... ficha escolar!! Valdim percebeu a mentira no mesmo momento que a ouviu, ninguém estava sendo punido, se estivessem, ele já teria levado outra surra, e os olhares seriam piores que os que recebeu hoje se é que era possível existir mais ódio em adolescentes assim.

— Sim. Sim. Eles serão punidos. Continuou Rudá, que pelo seu tom de voz não apareceu acreditar em nada do que disse o professor.

— Eu como dono da reserva e da pousada, vi que durante a passeata pelos trechos cerimoniais perto do rio, vocês quebraram o espirito de paz e ordem que gerava em torno daquele lugar, sendo que do lado de fora da reserva colocamos avisos sobre os cuidados que deviam ter e por isso serão penalizados a pagarem uma indenização por danos morais, mas quero dirigido de cada pais dos estudantes presentes naquele lugar imaculado no qual a paz foi quebrada.

— Mas é impossível.... Os pais dos alunos não aceitarão isso...

— O que eles não deviam aceitar é o comportamento violento agressivo e imoral! E ainda por cima desonrar o templo sagrado.

— Nós aqui somos todos cristãos, meu senhor! Vish, Valdim viu quando o pajé começou a ficar vermelho de raiva, a tensão num espaço aberto era impressionante, mas antes que ele dissesse alguma coisa ...

— Peguei o nome de todos os que você me mostrou, irmão! E o telefone também! Agora poderemos ligar para os seus pais e avisá-los da penalidade. Oi Valdim!! Gritou Piatã animado após se dirigir a seu irmão e vendo que Valdim estava ali por perto.

— Oi, Piatã ... Disse Valdim de forma tímida.

— Ei você, seu índio bicha! Você falou que o telefone era para ganhar um prêmio! Você me enganou seu viado fudido! Disse um dos meninos que estava por perto e ouvira Piatã falar com seu irmão. O professor que conversava com o pajé deu um suspiro alto e amargurado por ter ouvido alguém insultar tão grosseiramente um membro da aldeia.

— Ops! Disse Piatã, brincalhão para o cara irritado.

— Esqueci de dizer que o prêmio é você pagar as consequências dos seus atos. O que aconteceu foi um pouco rápido demais para Valdim, mas ainda assim não o deixou de surpreender. O rapaz irritado correu para perto de Piatã para dar-lhe um soco, quando o que eu pensava ser impossível aconteceu. Piatã pulou quase chegando ao teto e quando se aproximara do chão, suas pernas bateram no peito do jovem irritado o nocauteando nas costelas.

— Um dia eu te ensino como faz, Valdim! Disse Piatã piscando para Valdin como se fosse lhe contar um segredo. Quem dera ele pudesse lutar assim, por que aí não teria que passar pelo que passou e ainda sofrer essa tensão maldita.

— Os alunos aqui são violentos irmão. Acho que o ancião devia vir fazer uma visita...

— Se o ancião aparecesse aqui, ia despeja-los para fora em dois minutos, se bem que hoje é o último dia, mas mesmo assim não vamos nos dar ao trabalho de fazer o que pais responsáveis e professores devem fazer, educar esses jovens em valores. Tudo estava ficando descontrolado demais aqui. Osvaldo não sabia como agir diante de uma situação tensa como aquela.

— Para fechar de uma vez essa conversa, pegamos os números de telefone para que seus pais sejam avisados que haverá uma cobrança a mais a ser cobrada pela estadia de vocês aqui, pelo fato de transgredirem uma de nossas leis num espaço sagrado. Disse Rudá num tom formal e profissional bem alto para que se fizesse ouvir a todos os estudantes que estavam no acampamento.

Mas que Osvaldo não deixava se enganar, ele sabia que o pajé estava tomando suas dores, ainda que ele não soubesse o porquê, ele sabia que era isso, mas ao mesmo tempo que ele estava tomando suas dores, ele estava colocando um alvo no peito de Osvaldo, que quando eles saíssem seria atingido em cheio por parte daquelas pessoas que agora dirigiam um olhar com raiva para ele.

— E não! A culpa não é de Osvaldo! A culpa é do comportamento de vocês diante de um lugar sagrado e diante do seu próximo, eu sou testemunha da violência de vocês e aqui nessa excursão não será autorizado qualquer tipo de abuso físico ou moral contra os que frequentam e nem tão pouco vocês sujarão a imagem e o espirito de paz da reserva por um comportamento desumano desses acontecidos anteriormente. Continuou Rudá, sabendo que metade daqueles alunos não estavam ouvindo-lhe e sim olhando para Osvaldo com raiva, sim, é assim que os covardes e desonestos agiam quando repreendidos por suas ações, colocavam a culpa em suas vítimas, para não assumirem as consequências de seus atos.

— Graças aos bons espíritos, esses porcos já não estarão mais aqui amanhã. Desabafou propositalmente alto Piatã para ele.

— E o que mais me envergonha, irmão, é ver mulheres nessa lista de merda de agressores, estou falando de que as mulheres hoje ainda lutando por espaço igualitário na sociedade deviam ter empatia para outras minorias! Mas eu não sou inocente demais para saber que existe mulheres longe dessa definição boa e sim aquelas que aplaudem a sociedade machista e homofóbica em que estão inseridas. Continuou desabafando propositalmente alto para que além de Rudá, os outros também ouvisse, sim seu irmão era mais inteligente e diplomata do que ele se deixava mostrar, um dos lemas de seu irmão, era enganar os outros com sua aparência, para sempre ter o elemento surpresa na hora de se defender.

Milagrosamente algumas mulheres do grupo de agressores abaixaram seus rostos em vergonha de terem participado daquele ato horrendo, mas não era suficiente para Rudá, ele ainda puniria a todos, arrependidos ou não.

Rudá viu quando Valdim começou a lentamente se afastar da roda de conversa discretamente. Será que Valdim achou que ele deixaria ele ali diante daquele monte de agressores com aquele olhar de raiva, Rudá tentou procurar o dia inteiro um motivo para convidar Osvaldo a conhecer sua aldeia, numa desculpa para que ele pudesse ficar perto dele e finalmente conhecer seu companheiro. Mas aqueles jovens vagabundos haviam dado um motivo para usar, ainda que ele preferiria tirar esses cínicos olhares de ódio para alguém que não merecia, seu lobo queria rasga-los por estarem querendo prejudicar seu companheiro.

Não havia julgamento, seu lobo não era obrigado a ter senso de moralidade, o único que devia ter era sua parte humana, ou quer dizer, ele, então ele se conteve e seus olhos sempre atentos ao comportamento e caminhar evasivo do seu companheiro, Valdim.

Osvaldo se aproximou discretamente de Piatã, saindo lentamente daquele momento de tensão do qual ele não se via culpado de qualquer forma...

— Me leva para aldeia, Piatã, por favor! Pelo menos até amanhã quando eu for embora...

— Claro, Valdim, vamos sair daqui! Piatã caminhou discretamente por um caminho e Valdim o seguiu piamente.

— Apesar de te conhecer pouco, Piatã, você é meu melhor amigo, espero que possamos manter contato mesmo com eu voltando para a casa. Valdim viu o misto de emoções rodando no olhar de Piatã, apesar de Piatã não parecer mais tão inocente e fofo depois da postura de um soldado que pusera quando pulou e abateu aquele colega de classe, ele sabia que Piatã ainda tinha inocência e ingenuidade para dar e vender, apesar da inteligência e diplomacia que ele mostrou mais cedo.

— Uau, eu pensei que nunca ouviria isso de você, eu estou meio que emocionado, e sim eu já te considerava meu melhor amigo!!

— Hei, por que você nunca imaginou isso de mim? Eu não sou tão ruim assim, sou?

— Eu nunca falei que você é ruim, na verdade você é uma das pessoas mais boas que conheço, os da aldeia ainda tem um passado sombrio demais para serem considerados suficientemente bons ao meu ver. Osvaldo viu que Piatã começara a conversar demais novamente, e ele gostava disso no cara, essa coisa de não manter nada escondido, ser transparente e honesto com ele. Era bom sentir isso de outra pessoa, além de seu irmão.

— Você ainda não respondeu minha primeira pergunta, Piatã!

— Seu olhar cheio de dor, eu sei que você sofreu muito mais outras vezes do que nessa vez no acampamento, e pessoas assim não costumam confiar em alguém facilmente, por isso eu pensei ser impossível.

Osvaldo ficou surpreendido com a sabedoria do jovem, mas ao mesmo tempo desconfortável com o fato de ser tão fácil de ler sua vida, o fato de ser tão transparente, diante de Piatã.

— Mas fico agradecido, de você me dar essa confiança tão grande de deixar eu lhe guiar até nossa aldeia e de me considerar um melhor amigo. Continuou Piatã com o olhar ainda molhado e emocionado e Valdim também começara a se sentir emotivo com a situação.

— Não vamos chorar,hahahaha. Disse Piatã mudando de assunto.

— Não, por favor, as feridas ainda doem. Concordou Valdim.

— Falando nisso, fiquei puto de raiva quando ouvi o professor sugeriu você cortar seu cabelo, acho ele tão lindo e poderoso. Disse Piatã, olhando para ele de forma suave e amigável.

— Sem falar que eu estou doido para ver os piercings que você tem! Continuou Piatã agora animado e curioso.

— Mas como você viu? Osvaldo estava surpreso com o quanto Piatã sabia sobre ele, sendo que as perfurações que tinha feito a um ano atrás estavam se fechando, outras já completamente fechadas, enquanto estava no acampamento, ele tentou reabrir algumas perfurações ele mesmo para aproveitar a liberdade e usar alguns piercings que ele tinha guardado até hoje, mas ele via que no acampamento assim como na favela, ele não teria privacidade o suficiente para fazer isso, então desistiu.

— Eu tenho o olhar afiado e sou muito observador, além de que, duuh, eu tenho piercings se você não percebeu, e eu mesmo que fiz minhas perfurações e eu mesmo fiz o design dos meus piercings. Logico que ele tinha visto os piercings do seu amigo, e ele desde que vira Piatã, ficara com inveja da liberdade que Piatã tinha para exibi-los por aí sem represálias.

— E o design deles são lindos e o tom de artesanato com traços modernos ficou muito show. Eu quero um igual ao da sua orelha só que da cor vermelha-sangue. Mas só vamos conseguir ver isso numa impossível próxima vez que eu puder aparecer aqui.

— Por que impossível?

— Porque depois que meu irmão souber o que aconteceu aqui comigo, ele nunca vai querer que eu vá numa excursão da escola novamente, além de que, ele vai se sentir culpado como o inferno por ter me forçado a vir nesse.

— Então além de falar dessa merda de incidente, fale para ele também da aldeia, fale que meu irmão te defendeu e que você quer muito voltar para ver a aldeia de novo e o meu irmão né... Disse Piatã, a última parte sussurrando de forma desnecessária, porque ninguém estava ali além dos dois, além de um sorriso maroto iniciado em seus lábios tentando supor algo sobre Osvaldo e seu irmão ...

— O que? Er... eu não ... eu não gosto err... do seu irmão, er, quem te falou uma coisa dessas!? Disse Osvaldo, nervoso pela suposição jogada ao ar pelo custoso Piatã, foi então que ao olhar para Piatã ele percebeu a brincadeira no olhar

— Ah Piatã, porque você gosta de me deixar nervoso, você não devia brincar sobre as coisas! Depois alguém ouve e conta para o seu irmão sobre essa brincadeira e pensa que é sério!

— O que tem de gostar do meu irmão?! Vai dizer que ele não é bonito? Ele pode ser o meu irmão, mas eu não sou cego, eu sei que ele é bom...

— Não que eu não ache ele lindo e quente Piatã, mas ele aceitar o fato de você ser gay tudo bem, né, ele é seu irmão, mas aí aceitar a mim sendo gay e o observando e tudo mais, já é outra coisa né, ele pode não gostar!

— Hahahaha você acha que o Rudá se deita com mulheres!!

— Você não devia estar falando assim do seu irmão, Piatã!

— Ele já me conhece e sabe que eu falo diretamente assim Valdin... E meu irmão Rudá não é hetero e sim gay.

— Aquela montanha de homem quente é gay!? Ohh meu deus! Que coisa hein!

— Sorte sua, hein, Valdin! Disse Piatã, animado.

— Anh? Sorte minha por...

— Então quer dizer que eu cheguei primeiro que vocês na aldeia! Disse interrompendo, uma voz grave, alta e familiar devido aos últimos dias... Rudá chegara primeiro que eles ao pé da aldeia em frente a parte da floresta que era mais rasa pois levava as áreas das cabanas.

— Sim, irmão. Acabou que conversamos mais que andamos mas chegamos e hoje e hoje é o último dia de Valdin aqui, então é melhor aproveitar bastante aqui na aldeia, né?! Vou pedir uma coisa para o Taiguara e já volto... até mais Valdin...

Notas finais
Justiça feita? Será? Piatã dando espaço pro casal se desenvolver. Piatã meu personagem lindinho e fofo... er... não tão fofo... segredos de Piatã!!