Notas iniciais
Yey, finalmente o grand finale... (talvez seja por isso que é tão longo)

Capítulo 17

Minha natureza... é sobreviver!

Dia 23 de junho.

Horário local, 08:28.

Foi uma longa caminhada, por lama, por arvores e arbustos, mas nosso objetivo estava logo a frente... naquele dia, naquela manhã, eu estava de frente para o esconderijo dos nossos inimigos os corsários, naquele dia, eles seriam derrotados...

A qualquer custo.

De cima duma enorme arvore, nós observávamos o esconderijo, agora havia apenas um rio nos separando do campo de batalha...

Com meus binóculos, pendurado em galhos e me escondendo em meio as folhas, eu tentava notar qualquer movimento anormal vindo dos corsários.

—Achou algo?

Roi me perguntou, ela estava num galho logo acima, atentamente observando, sua ajuda era realmente apreciada.

—Nada... tudo conforme o plano ainda...

Éramos os únicos naquele fronte, podíamos lutar, tínhamos como nos defender, a Roi era veloz e ágil, até podia derrubar os corsários com sua arma, eu não planejava fazer nada disso, tomar o sangue dos corsários era efetivo, mas...

No caminho, antes de nos separarmos, quando estava sozinho com a Une, eu perguntei o que ela pensava de usar isso:

—Eles são os inimigos, nem pense em se segurar, caso morra pelos corsários...! Eu vou te trazer de volta! Aí você vai ser um vampiro de verdade!

Foi um pouco demais ouvir isso, porém me impressionei com quão direta ela foi em não ter receio ao usar essa habilidade, no entanto...

Assim a Roi respondeu, quando subimos na arvore, minutos depois que perguntei o que ela pensava sobre isso:

—Não o faça. Se fizer derrotaremos os corsários, então meu próximo inimigo será você.

Foi declarada a condição e consequência, as opiniões de todos não batiam e eu não quis trazer isso à tona com tão pouco tempo para a operação começar.

—A decisão... só eu posso fazê-la.

E por isso, até decidir usar aquilo, eu seria apenas uma distração, uma distração que podia aguentar tudo o que os corsários deviam guardar naquele esconderijo deles, mas não muito mais.

“Servo, estais de pronto para teu último confronto? Sinto algo... um certo...”

—O que...? É agora que você vai recuperar todo o seu poder?

“Pois... talvez seja! Use tudo o que tens! Não perca a chance!... Se falhar agora... temo que jamais poderei retomar meu real poder, portanto... vosmecê ficara comigo até o fim, demore o quanto for... irá aceitar esse destino?”

—Você não deve gostar disso, não é? Ser preso a um humano e... você quer buscar outros como você, sim? Foi no que pensava ontem...?

“Está cada vez mais perceptivo... não? E ainda assim, está julgando-me errado. Não há sociedade que liga os mortos, nunca ouviu que não há palavras vindo dos mortos? Eu apenas... é difícil acreditar como poderiam ter tantos desaparecidos em apenas um século. Talvez seja apenas esse o destino que nos aguardava desde o início. Deve ser, não há espaço para nós entre os vivos”

—...

“Não mova suas mãos, enquanto estiver com olhares firmes, você só terá olhos para o objetivo, essa é a convicção necessária para vencer”

Pressionei minhas mãos um pouco mais, então continuei observando o esconderijo, a próxima fase não deveria demorar muito mais.

—Cheque* nós já estamos em posição, não precisa mais espera, comece o reconhecimento.

Assim o Ritte me falou, ele se comunicar pelo minúsculo “botão” no meu ouvido significava que ele não estaria a mais que mil e quinhentos metros daqui, assim disse a Une, ela mesma construiu esses botões, com ajuda do instituto.

Lembro de ouvir aquela garotinha ruiva se gabar que essa comunicação era impossível de interceptar, ou algo parecido, mas com quão abafada a voz dos outros estavam, assim como a ocasional estática e alcance curto... eu temia isso não ser verdade.

—Não posso pensar nisso. O trabalho deles foi construir isso, o meu...

E a primeira parte da missão nos envolvia, tínhamos que fazer um reconhecimento.

Usamos ganchos e fomos dos altos galhos de volta para o chão em um segundo, logo começamos a silenciosamente caminhar por entre a densa folhagem, em direção da base dos corsários.

Pela estrutura do esconderijo, o Ritte disse que se fossemos pela água, pelo rio que conecta aquele local ao mar, poderíamos entrar no esconderijo com quase nenhum alarme, passando por baixo da barreira claramente construída negligentemente.

Quando cheguei na beira do rio, no entanto... ao olhar para a água, não me vi, quase me assustei ao ver a Alice do outro lado.

E isso me fez pensar...

—Alice, nós não vamos ter problema ao atravessar esse rio...? Vampiros tem fraqueza a água corrente, não?

—Para você, tem uma chance de a fraqueza estar contigo, mesmo assim, talvez possa a suprir, semelhante à como suprimo tua falta de sombra e reflexo.

O reflexo movia-se sozinho, como se ela realmente estivesse do outro lado, mas a voz ainda não vinha do rio.

—Mas esses dois não são só ilusões?

—Só estou dizendo que não é certeza, confie em tua sorte e cruze o rio, é o que estou ordenando.

Olhei para frente, nenhum corsário estava observando a nossa direção, olhei para cima, o sol estava brilhando, havia esquecido qual estação seria por lá... parecia o verão de tão brilhante que estava a estrela, porém...

Ignorei a questão se ainda estava ou não no hemisfério norte, olhei para o lado e a Roi estava esperando algo, avisei que pularia primeiro, por segurança.

Dei um segundo, olhei para a vampira uma última vez e...

Fui engolfado pela água, naquele instante pensei estar bem, meu corpo não queimava, podia ver bem, aquela água não era suja como parecia da superfície, pelo contrário.

Ainda assim...

Quando tentei voltar a superfície, puxei meus braços pela água, mas...

Eu mal me movi.

Com mais força, com braços e pernas.

Ainda não conseguia.

—...!

Tentei gritar, algo havia acontecido, tinha algum erro, porém não podia ser ouvido, não dentro da água. Continuava jogando o rio para baixo, mas meu corpo não subia, eu devia conseguir, sabia nadar, sem dúvidas, mas naquele momento... apenas não conseguia.

Até, eu ver algo agarrando meu braço.

Roi, ela me puxou de volta a superfície.

Com essa ajuda, me arrestei de volta para dentro da folhagem, por onde não seriamos vistos.

Minha garganta doía um pouco, respirar ficou difícil, por mais que precisasse mais do que nunca de ar, então tentava puxar tudo pela boca, então minha garganta continuava a doer, mal fazia diferença ainda.

Em menos de um minuto depois me livrei de toda água que tinha engolido, olhei para a Roi...

—Isso não vai funcionar... eu não consigo nadar. Deve ser outra fraqueza...

“Parece que não estás com tanta sorte hoje, deverias tomar cuidado daqui para frente, esse ambiente não vai lhe favorecer”

Ela repetiu o que pensava.

Olhei para a Roi, que estava olhando para baixo, para cima, então para os lados, pensando e pensando...

—Se segure, pode fazer isso?

—...?

Foi a solução que achamos, não era como se meu corpo tivesse sido paralisado na água, eu não havia morrido, talvez a vampira discordasse, mas eu entendi como se minha transformação tivesse tirado meu conhecimento de nadar, era isso apenas.

Tive de segurar minha respiração por bastante tempo, imagino que a Roi não tenha achado isso fácil também, mas quando ela pulou e enrolei meus braços ao redor dela, nós conseguimos atravessar o rio.

Podendo apenas observar nossa aproximação passivamente, eu não pude notar nada de especial ao redor, imaginei que a capitã teria feito algo, ela parecia o tipo de pessoa a fazer extravagância, talvez armadilhas até, entretanto, não parecia esse ser o caso.

Atravessamos pela brecha de pouco menos de dez pés, para dentro da base.

Era escuro, realmente escuro, podia ver formas, mas não muito mais...

“Deixe-me tentar isso, sua visão precisa se adaptar a escuridão, teu inimigo vive nas sombras, porém agora tu és verdadeiramente da raça que teve domínio da noite e das sombras desde o início dos tempos...”

Foi quando minha visão ficou nítida novamente, a escuridão sumiu, aquele lugar parecia claro como o dia. Enquanto a Roi tentava observar antes de ir a superfície, pude fazer um mapa superficial do lugar.

A nossa frente, cobrindo mais da metade do terreno do esconderijo, era o navio, o mesmo que tinha feito o ataque ao cruzeiro, ele era tão grande quanto lembrava e parecia imitar um navio pirata.

Nos arredores havia algum chão por qual não via ou ouvia corsário algum passando, talvez só não houvesse nada lá.

E como visto antes, havia várias aberturas bem no alto daquele galpão, era por lá que a única fonte de luz do local vinha, nem imaginava como seria a noite...

De onde estávamos, só havia mais uma coisa, uma forma de escalar, o navio, nosso real objetivo.

Uma corrente que se estendia até o chão, mas também até o deque do navio. Uma ancora, claro.

Apesar da limitação que eu estava colocando nela, foi por lá que subimos.

Ela nadou até a corrente, assim que pôs minhas mãos entre o metal, Roi começou a subir, eu a segui logo depois, finalmente livre da água.

Com minha visão melhorada, eu podia ver claramente que não havia ninguém para nos ver do chão, talvez por sorte, ou pelo plano do Ritte, nós tínhamos que subir o mais rápido possível antes de perder aquela chance.

A corrente fazia algum barulho se nos movêssemos abruptamente, fora de ritmo, por isso eu dependia de seguir o ritmo da Roi, senão...

Se havia uma hora ruim para aquilo acontecer, era naquele momento...

Naquele momento, meus dedos ficaram fracos, eu senti o mundo ao meu redor girar sem parar, sendo jogado para todos os lados, a força que colocava no meu corpo parecia ser fútil, o quão pesado me sentia...

Mesmo tentando resistir, eu soltei minhas mãos das correntes, aquilo... era meu fim.

Eu pensei, quando caísse na água, não poderia nadar, não poderia ser resgatado, pois a Roi iria apenas me perder na escuridão, talvez o barulho da água a fizesse ter de fugir.

Por fim, eu morreria.

Se estivesse sozinho, isso é.

Quando recobrei os sentidos, não estava engolfado em água, nem caindo.

Minhas pernas firmemente seguravam na corrente, apenas elas, eu estava pendurado de cabeça para baixo.

“Se salve! Rápido!”

Comecei a forçar o meu corpo, tinha de, duma única vez, jogar todo meu corpo de volta para o lado das correntes.

Pensei por um instante que músculos eu ia usar, quanta força...

—Minhas pernas... meu abdômen e... já!...

Cortando o ar, fazendo meu coração bater forte uma única vez, eu consegui recuperar minha postura e segurar meus braços ao redor das correntes.

—Essa foi por pouco...

Novamente, eu subi as correntes tentando seguir o ritmo da Roi, mais um erro poderia chamar atenção, por isso eu diligentemente me agarrei ao metal e subi, subi, até...

—Segure.

A Roi estendeu a mão e me ajudou a pular para o deque.

E olhando ao redor, com a nitidez que tinha graças à ajuda da vampira...

—Que estranho...

—O que?

—É exatamente como imaginava, não parece um navio moderno imitando um navio de piratas... parece genuinamente velho... Alice, o que você acha...?

“Se tratar-se duma réplica apenas, parabenize quem a fez. Não sou capaz de discernir algo para separar essa embarcação, definitivamente, de um produto do teu passado, ou mera imitação”

A Roi estava olhando ao redor, imaginei que ela ainda não tinha se acostumado com a falta de luz. Enquanto eu...

—Roi, a vampira está me ajudando a enxergar, deixe que eu vou na frente.

—Hum... cuidado.

—Cuidado?...

Algo soava atípico na forma dela falar isso, não era só um aviso para não fazer barulho demais.

—Seus olhos, estão diferentes... brilhando em vermelho...

—Entendi...

Devia ser algum efeito colateral.

Olhei todo o deque, havia uma porta para o interior do navio não muito longe, enquanto andávamos até lá, me focava em ouvir tudo o que podia e...

A palpitação de um coração, o ar se deslocando com a respiração humana, tudo isso eu podia apenas ouvir de fora do navio, pela minha visão aprimorada, ninguém estava no deque.

Quando me aproximei da porta, antes de entrar, também tentei ouvir por dentro, algum sinal de vida, nesse caso...

—...!

Estava tinindo de vida, eu nem podia dizer quantas, mas passava de uma dúzia pelo menos.

Olhando pela fechadura... ninguém no corredor pelo menos.

A porta estava aberta, ela rangeu, mas pareceu não atrair atenção de ninguém ainda.

—Roi, ouço pessoas dentro do navio, tomaremos cuidado quando estivermos passando pelos corredores, devem haver vários corsários.

—Certo, vamos logo.

Usei o rádio, disse tudo o que sabia até agora, o Ritte me lembrou outra vez, acima de fazer um mapa do local, nossa missão era:

—Achem os reféns e achem um jeito de fazer esse navio se mover, nós vamos leva-lo conosco, piratas não são nada sem um navio, não é isso?

Eu gostei do espirito dele, a ideia parecia muito boa, por mais que fosse dar tanto trabalho para executa-la.

Dentro do navio, já havia alguns sinais de iluminação, muito longes umas das outras, eu via lâmpadas que machucavam meus olhos, parecia ser uma fraqueza daquela visão vampírica.

“É uma forma de ver a noite, tome cuidado com essas lamparinas, mais ainda com fogo, isso poderia atordoa-lo, tendo nunca treinado com essa visão antes”

Poderia ter sido bom treinar antes, mas naquele ponto arrependimentos só poderiam servir para me carregar a cova, eu tinha que ignorar tudo não feito, se houve falhas, elas ficariam no passado...

Durante essa caminhada, nos momentos que focava em olhar o navio, ele realmente parecia um daqueles navios-fantasmas.

Tudo estava sujo, escuro, as lâmpadas antiquadas e velas no fim de sua vida eram tudo o que havia para guiar quem atravessasse os corredores do navio.

Não só isso... havia buracos nas paredes, tabuas quebradas em padrões familiares, como se tiros de canhões tivesses atravessado algumas daquelas paredes.

Mesmo no chão, havia pequenos buracos pelos quais podia um pé cair se não fossemos cuidadosos, o chão inteiro era assim, me fazia pensar que se respirasse de maneira errada ele fosse desmoronar logo após.

Pelo menos por essas cavidades nós conseguíamos observar o que nos esperava conforme descíamos, e descemos cada vez mais...

Sem encontrar janelas, ou se as encontramos, não pude as diferenciar de outras paredes, considerando que a total escuridão fazia parte do lado de fora também.

E quão massivo aquilo era... quanto mais andássemos, maior o navio parecia, num ponto pensei se tínhamos entrado em uma outra construção, porém, não era o caso, aquilo era um genuíno navio e nós dois sem sombra de dúvidas estávamos o invadindo.

Por fim, havia vozes, ouvia pelas paredes e pelo chão, algo como chamados em sussurros, parecia que o navio tinha uma noção da nossa presença... o próprio navio e ele estava nos convidando a ser explorado até o fim.

Foram alguns minutos caminhando até a parte mais baixa do navio, no meio a Roi parou diversas vezes para abrir portas e checar o que havia dentro.

Ela achou algumas salas, eu vi algumas armas no caminho, elas também eram genuinamente arcaicas, pareciam não poder atirar mais que uma vez em sequência, perguntei se ela não acharia útil, a Roi recusou, ainda assim, por alguma razão, eu havia levado uma comigo...

Temendo o pior, peguei uma das duas pílulas da doutora e as coloquei entre meus dentes, quando fosse necessário eu podia toma-las num instante.

Não chegamos perto de achar nenhum corsário em nosso caminho, imaginei ser por causa de o quão grande aquele navio era, duvido que a capitã fosse colocar um batalhão inteiro para proteger o lugar.

Ao mesmo tempo... os homens naquele lugar iriam dar trabalho, percebi a sorte que tínhamos de não sermos encontrados até agora.

E quando ia checar uma porta... nem precisei me aproximar.

—Roi, é daqui, estou sentindo muitas pessoas do outro lado, nem consigo diferenciar tantos batimentos assim.

—Mais algo?

—Ainda não...

Me aproximei da fechadura e olhei...

—...! Conseguimos, Roi, são os reféns, tem vários deles aqui, estão presos com cordas, mas nenhum parece ferido.

—Quantos?

—Err... são muitos para contar, eu não queria abrir a sala também e chamar atenção. Devem ser pelo menos uma centena de passageiros, não mais que duas centenas, eles estão muito imprensados nisso, mal vejo movimento...

—O instituto contou mais de dois mil passageiros.

—...! Havia tantas pessoas assim...? Então...

—Ouve mais algo nesse andar?

Com essa pergunta, eu notei...

—Sem dúvidas, tem ainda mais vida, por todos os lados.

A Roi ligou o comunicador, enquanto mexia em algo no seu bolso e o preparava.

—Une, procure nesse andar quantos reféns tem nas várias salas, vamos voltar e tentar tomar controle do navio.

Ela jogou o mesmo aparelho que usamos para infiltrar o hotel e enfrentar o trapaceiro, apesar da Une dizer que o fez mais silencioso.

Mal podia ver aquele ponto minúsculo voando pelo teto, imaginei o que outras pessoas estariam passando para o encontrar.

Não esperaríamos, no entanto, pois ao longe, havia alguns passos... não era dificil de adivinhar quem poderia causar esses sons...

—Rápido, tem um corsário nesse andar.

Nós voltamos as escadas e fizemos o caminho de volta para o deque, o navio parecia mais agitado, como se ele mesmo estivesse começando a perceber nossa presença, ouvia passos dos corsários várias vezes, tínhamos mais pressa naquele ponto.

Ainda assim, nós voltamos sem subir mais o alerta, o deque ainda estava vazio também.

Fui na direção que imaginei ficar o leme, era minha única ideia de como tomar o controle do navio. O Ritte insistiu que déssemos certeza se aquele navio era controlado como um navio qualquer, apesar das enormes velas, cordas nas bordas que pareciam fazer um caminho para o topo do navio, além de ele parecer quase totalmente feito de madeira. Ainda soava estranho um navio que dependesse do vento nos tempos modernos.

Mas ao chegar no leme, eu vi uma corda, graças a minha visão ainda, notei os detalhes, ela não parecia tão diferente das usadas nas bordas do navio, ela se ligava ao leme e descia por uma cavidade no deque para... nem podia imaginar.

“É genuíno, é daqui que tu terás controle do navio”

A vampira me respondeu, logo quando segurei a corda e notei o quão fixa ela era, devia estar presa muito bem, e o diâmetro dela parecia bem mais como... talvez dez centímetros até, nem pude pensar em outro uso para uma corda daquele tamanho.

“Isso se conecta à o que move esse navio, não há tempo para entrar em detalhes, tu podes imaginar, sim?”

Havia uma roda logo depois do leme pela qual a corda se prendia... eu podia formular uma vaga ideia de como aquilo poderia funcionar.

E novamente, após tentar ouvir algo e não notar nada perigoso, avisei ao Ritte:

Ridicule... eles estão usando uma engenharia de Pré-Revolução Industrial, como...?

—Eu não faço ideia, a vampira diz não ter certeza se isso é realmente um navio da época ou uma imitação, mas já conseguimos isso, e a Une?

—Ouvi que ela xá* encontrou metade dos passageiros no andar de baixo, ainda está tentando achar outros.

—Certo, parece que temos tudo. Eu acho que temos como abrir as velas também, um mapa decente do navio, qual a próxima etapa?

—Vocês mencionaram uma ancora, não foi...? Portanto...

“Se escondam e esperem. Vamos ter que pôr o instituto em ação”

Enquanto nós pulamos em barris e pacientemente esperamos nossa hora de agir novamente, com apenas o leve balançar do navio sobre a água para fazer sentir que o tempo passava, havia algumas poucas centenas dos passageiros fora do navio, em silêncio em suas gaiolas, era lá que alguns desses com necessidades únicas estavam.

Idosos, doentes, crianças. Eles tomaram todo o cuidado para que nenhum deles morresse, naquele ponto eu ainda me perguntava o porquê, o que os corsários queriam alcançar com isso? Causando esse sofrimento por tanto tempo?

A cabeça de um arqui-inimigo parecia não poder mais ser o caso. Seria mesmo apenas isso?

O Ritte tinha um plano, mas ele não contava com essa estrutura genuinamente arcaica, melhor dizendo, ele tinha um plano para caso fosse o caso, mas não esperava o pôr em uso de fato.

Isso pois, uma ancora é genuinamente pesada, com a estrutura do navio sendo como é, seria absolutamente impossível levanta-la, mesmo se todos nós, incluindo os membros do instituto o fizéssemos, ainda levaria horas, tempo que não tínhamos.

Portanto, a ideia dele era simples, deixar os corsários fazerem isso por nós.

Foi por isso que chamamos o instituto, agora teríamos de fazer uma falsa rendição. Isso faria eles se prepararem para uma fuga, eles com certeza considerariam isso poder ser um truque do instituto, entretanto, era isso que nós precisávamos...

A ordem dos corsários... era que o instituto aparecesse em algumas horas...

Ouvi as gaiolas se movendo, todas sendo jogadas no deque do navio, talvez algumas levadas para dentro dele, ao mesmo tempo, depois, uma canção, a voz de dezenas de corsários, os sotaques diferentes, as vozes que vinham de todos os cantos do mundo se uniam para cantar, marcando a longa tarefa que seria levantar a ancora.

Now we are ready to head for the Horn,

Way, ay, roll an' go!

Our boots an' our clothes boys are all in the pawn,

Timme rollickin' randy dandy O!

—Impressionante, é exatamente como as celeumas que ouvia a alguns séculos.

Em algum momento, minha visão especial havia sumido e a vampira apareceu no mesmo barril que estava, era um pouco apertado, mas essa era a menor das preocupações.

—Celeuma?...

—Essa canção que estás ouvindo, é exatamente como a que ouvi quando assistia os marinheiros levantando a âncora antes de zarparem. Imagino que era para se distraírem de o quão repetitivo, o quão cansativo esse trabalho é, cheguei a considerar usar minha força para levantar e os ajudar, felizmente, eu gostei da forma que a tripulação cantava...

Nos pensamentos vagos que ainda ouvia enquanto ela estava separada, sabia que esse feito não seria possível, mesmo se nós dois tentássemos juntos, claro, imagino que não sejamos muito mais fortes que dois homens. E havia dezenas de corsários tomando horas para o conseguir fazer.

—É, imagino, eu posso ter esquecido algumas palavras em inglês, mas tenho certeza que essa canção soa como se usasse um inglês bem arcaico.

—Não apenas isso, as silabas, o destaque nelas é perfeito. Era uma música que também servia para coordenar o trabalho, afinal. Imagino como eles conseguiram uma imitação tão precisa...

—Só espero que não demore mais tanto tempo... eles pediram umas horas... isso não é o bastante para o sol se pôr, né?

—Creio que não, por quê?

—Err... nada, eu só estava pensando se...

—Mesmo nessa escuridão, eu posso ver seu rosto muito bem... tu não tentarias me enganar, imagino. Também não há ninguém mais aqui, portanto, quem vosmecê tentas enganar com isso?

Podia sentir ela me encarando intensamente, mesmo sem luz alguma, mesmo sem sequer poder identificar uma silhueta.

—Ah... eu pensei que poderíamos fazer esse resgate sem enfrentar a capitã diretamente. É só isso. E ainda mais quando estamos num local tão obscurecido.

—Por favor... não deixe tua convicção perde-se, é inevitável que um dia terá de a enfrentar, vosmecê fizeste-te como inimigo dela, portanto, é teu dever de acabar com a vida dela.

—Hum... eu realmente tenho, se ela quer me eliminar a todo custo, não há outra forma de contra-atacar...

Eu passei as próximas horas tentando conversar, me distrair e não pensar no meu destino, pois a verdade é que, naquele momento, eu tinha medo do que ia enfrentar, das consequências que minhas ações trariam.

A de pôr um ser como aquele contra nós, uma pessoa que podia matar sem hesitação, ferir sem razão e incapaz de entender outro ponto de vista senão o próprio.

Para a capitã, a vida não era valiosa apenas por existir, caso uma pessoa não a servisse, não importava o que ela fez no seu passado, qual poderia ser seu futuro, essa pessoa poderia morrer pelo menor deslize, ou até apenas por estar no local errado, na hora errada.

Não só isso, ela tinha pessoas que a seguiam, até essas pessoas podiam morrer por apenas pensar em quebrar uma regra proferida por ela, independente das suas intenções e ainda assim, haviam pessoas leais e as quais ouviriam cada palavra dela, fariam exatamente como dito com o máximo de suas capacidades.

E nós estávamos no coração disso tudo, na fonte de todo aquele mau.

Não tive dúvidas disso, quando senti meus dedos tremerem, entrando em forma de garras, meus músculos tencionarem, um sinal de que ela havia chegado. A capitã estava na base.

A canção continuou, agora com mais uma voz que gritava as ordens, porém ainda seguindo o ritmo, quase como se incorporasse as palavras na música.

E quando eles pararam, senti outro balanço, sutil, mas menos que os anteriores, a âncora foi levantada, muitas horas já tinham se passado e o instituto...

À présent, digo, é agora. Eles vão entrar. Há vários corsários no deque, também há no andar onde a maioria dos reféns ficaram. Vocês têm que esperar a confirmação de que todos os passageiros estão no navio, então irão descer, derrotar todos os corsários dentro do navio e subir para tomar controle do navio. Isso é pedir demais, mas confiamos em você, certo, Jack?

A Franziska deu suas palavras de encorajamento, as ordens foram reinteradas, eu sabia exatamente como prosseguir...

“No cruzeiro eu consegui... imagino que não seja impossível, com o elemento surpresa... é certamente possível”

...

Mais alguns minutos passaram lentamente, como se fossem horas e quando meus olhos já começavam a perder o foco...

—Não tem mais ninguém do lado de fora. Podem ir.

Esse não era o Ritte, nem a Franziska falando... era o... Otsuka? Sim, em retrospecto, só podia ter sido ele a dizer isso. Por mais que naquele instante eu não tivesse certeza da minha própria conclusão.

—Alice, já sabe.

Ela voltou a minha sombra, espiando por um furo no barril, focando em ouvir o que estava do lado de fora, eu decidi ser seguro de sairmos.

—Roi, é nossa hora.

Eu sussurrei e passei isso pelo comunicador em meu ouvido.

Nós dois pulamos dos barris que tínhamos escolhido como esconderijo.

Havia alguns corsários observando algo lá em baixo, devia ser a capitã falando com os membros do instituto, isso deixou o resto do deque bem vazio, diria que chamar a atenção deles naquele momento iria pedir por um esforço consciente já. Portanto disparamos para a porta e começamos a descer antes da nossa oportunidade ser perdida.

Enquanto isso... pelo comunicador, eu ouvia o confronto sendo feito entre o instituto e a capitã.

...

—Finalmente... finalmente... Hahaha... hahaha... eu esperei tanto por essa chance, consegue imaginar o quanto tive de esperar?

Essa só podia ser a vilã falando, o Otsuka respondeu em um tom que não imaginei poder vir dele:

—Imagino que muito... você... odeia...

—Não consegue falar?! Sim! Eu odeio você, você é meu inimigo e eu esperei todo esse tempo para poder te matar, sabe o que senti quando soube que tinha sobrevivido ao meu ataque naquele dia? Fiz um corte atravessando seu corpo, poderia ter o partido em dois, mas de alguma forma...

—Vivo, sim, esse é o caso. Talvez você ainda tenha dúvidas, mas sim. Não é um truque, não é uma ilusão, é exatamente como você observa.

—Como você fez isso? Eu não pretendia lhe fazer tantas perguntas logo antes de sua morte, porém, não posso esconder meu interesse, normalmente, eu tenho certeza que você morreria, no entanto... o que houve? Está ainda escondendo algo? Foi assim que você derrotou Ben Verrat?

—Por que não pergunta como ele perdeu ao próprio? E não é como se soubesse também, desculpe decepcionar. Não faço ideia de como aquele corte não foi um ferimento letal.

—Hum, então é assim. Hahaha... é horrível como sei que não está mentindo, vocês dois herdaram isso de algum antepassado de séculos atrás? Ou ele te ensinou a ser estupido dessa maneira também?

—...

Ouvi silêncio por vários segundos, então...

—Corsários! Prendam os três e os levem para o navio! Vamos zarpar!

E o som das correntes e cordas foram ouvidos, senti que ela havia cumprido com o prometido, em não muito mais tempo, estaríamos no mar.

...

“O que?”

Eu pedi um tempo e me escondi com a Roi em uma sala vazia, eu fiquei atento ao corredor, enquanto ela se comunicava com o Ritte:

—O que houve?

—Ah... exatamente isso, parece que eles vão partir com o navio ao mar... os planos vão ter que mudar um pouco... continuem na sua parte, só tomem mais cuidado ainda, não sejam vistos de jeito algum.

Ele parou de falar, olhei para a Roi, não havia mais ninguém no corredor...

—Acho que só podemos esperar que o plano dele funcione...

—Sim. É o que nos falta.

Ouvi naquilo, ela havia perdido o ritmo de respiração por um instante, não mais que isso.

Sem escolha devíamos continuar descendo o navio, então deveríamos dar um jeito em todos os corsários. Os prender numa sala, derruba-los, qualquer coisa que os fizessem deixar de serem uma ameaça podia funcionar.

Nós chegamos no ponto mais baixo do navio, eu olhei para ambos os lados, tentei sentir quantos corsários se escondiam em meio aos corredores confusos daquele lugar.

—Roi, são bastante, mas eles não parecem estar em grandes grupos, vamos nessa.

Por instinto, eu me virei para a direita primeiro. Lá, a uma longa distância, estavam alguns corsários, eu não podia dizer quantos, mas estavam próximos.

—Roi...

—Sim?

Eu chamei a atenção dela, mas não tinha certeza o que iria falar...

—Você não tem nada para falar...? Caso algo de ruim aconteça com a gente, não é melhor falar tudo logo para ter certeza que não vamos nos arrepender?

—Isso é uma boa hora?

—Err... ok, vamos só seguir em frente.

—...

—...

Voltamos a andar silenciosamente pelo corredor, ainda sem nenhum inimigo em nosso alcance, mas o som do coração deles batendo, da respiração pesada deles ficava cada vez menos vago para mim.

—Você é um bom companheiro.

—Hum?

A Roi voltou a falar, para mim, repentinamente, por isso acabei parando outra vez.

—Você se esforçou no seu treino. Está dando tudo para a nossa missão. Apesar de saber o que podíamos pensar, nos contou sobre o que é agora, um quase-vampiro.

—Roi? É você mesmo? Falando tanto assim?

—Perdão.

—Não!... Não... isso não é um problema.

—E mais, você tem orgulho de estar lutando. Mesmo que não cheguemos a vencer, eu vou sentir que minha própria vida não foi um desperdício.

—Hum, eu também. A algum tempo nós não éramos bem, muito... você sabe, mas agora eu também gosto da ideia de estar enfrentando piratas e vilões ao seu lado. Nisso, cadê seu bastão?

—Aqui.

Ela puxou o que parecia ser só uma base, algo incompleto, mas sabia que aquilo era potente suficiente para derrubar um homem forte em poucos segundos.

Foi, parcialmente, uma invenção da Une afinal.

Nós continuamos andando, até...

—...!

Eu vi um corsário, imediatamente olhei a porta mais próxima e a abri, puxei a Roi comigo e nós entramos em outra sala que não parecia ter nenhuma função em particular, eram apenas mesas e cadeiras muito velhas, papeis que não consegui ler, uma espada muito enferrujada jogada em um canto também...

—O que foi?

—Um corsário...! Ele está perto, precisamos pensar em como nocautear ele e... ouço algo, ele está acelerando, nessa direção!

—É apenas um?

A Roi se afastou de mim e mexeu em seus bolsos, um por um.

—Sim. Só ouço um par de passos.

Ela agora se levantou, ficou próxima da porta...

—O que você vai fazer...?

—Só uma ideia... pode amarrar isso na maçaneta? Eu não estou vendo muito bem.

Me levantei também, notei que ela segurava um fio branco em mãos, menos de um décimo de centímetro de diâmetro.

E mais, ouvia os passos do corsário ficarem mais pesados, rachando tábuas, ele atravessava aquele corredor de breu sem medo e sem temor, como? Como uma pessoa normal podia se acostumar com aquela escuridão?

Mas sem ter outra ideia, eu amarrei a corda, nessa chance, vi o corsário a correr. Ele estava longe e não tinha como sua visão me alcançar naquela escuridão, mas mesmo assim...

Então, eu passei a outra ponta do cordão para a Roi, fiquei logo próximo a entrada, para caso tivesse de intervir e parar o corsário em um instante...

Isso, felizmente, não foi necessário.

Quando o homem estava prestes a entrar em nossa sala, murmurando algo em uma língua para mim totalmente desconhecida, ele foi recebido com a Roi puxando o fio e batendo a cabeça dele contra a parede da sala.

A porta foi puxada, como se uma forte força do vento o a tivesse empurrada de volta a se fechar, batendo na cabeça do homem, que então foi jogado para o lado oposto, então ele se chocou com o canto do portal, tendo a cabeça imprensada entre ambos, deixando sua expressão de fúria e ansiedade, a que usava para nos caçar, e ganhando uma neutra, sem emoção, com os olhos desfocados.

Nem expressou dor, mas, logo após isso, quando ela soltou o fio, ele caiu ao chão imediatamente, eu nem acreditei que o corsário havia sido derrotado com um truque tão barato.

De qualquer maneira, nós tivemos de arrastar o corsário para dentro da sala, tiramos suas armas, passamos fita na boca para que ele não gritasse e por fim, amarramos uma corda em torno de seu torso.

—Esse aqui não vai para lugar nenhum...

Nós saímos da sala, a Roi pediu um tempo e ela parece ter feito algo com a tranca da porta, eu não prestei atenção, estava olhando o corredor e, portanto, não posso dizer o que ela fez especificamente.

Voltamos a andar, aqueles corredores ainda estavam tinindo de vida.

—Roi, será que aquele era um dos fracos? Não foi fácil demais?

—Sim. Melhor não esperar algo assim no futuro, fique atento.

Eu continuei a prestar toda a atenção em identificar corsários de o quão distante fosse possível para alertar a Roi.

Andando mais poucos minutos.

Eu parei, ela seguiu.

—São três dessa vez, eles parecem estar conversando algo.

—Vamos usar qual plano?

—Bem... pelo que vejo, todos só estão carregando espadas, talvez... metal conduz eletricidade, ou algo assim, né?

—Entendi.

Não sei como ela conseguiu decifrar a vaga ideia que estava se formando em minha mente, mas só posso ficar grato de ter funcionado.

Eu puxei a espada enferrujada que tinha pego de uma das salas, empunhei ela como fui treinado para fazer, como a Roi me ensinou.

Por sua vez, a Roi puxou seu bastão e o segurou quase como o fazia com a espada que ela empunhava nos treinos. Eles eram três, porém não havia como chamar ajuda, mais que isso, nós tínhamos uma vantagem que eles não poderiam imaginar...

—Ahoy! Ahoy yar!

No mesmo momento, os três corsários perceberam algo, eles claramente não viam como eu naquela escuridão, mas reconheceram que havia algo errado, trocaram alguns sussurros e partiram, eles correram em total velocidade em nossa direção, empunhando já suas espadas.

E ambos, nós dois continuamos parados e esperando, não havia uma fonte de luz próxima, isso trabalharia para nossa vantagem.

Ao mesmo tempo, o que não esperava... foi como havia um elemento a mais... um que não tinha percebido dentre os corsários.

Ou melhor, mais um homem, um que não tinha visto.

—Roi, tem mais um! Eu não sei como perdi!...

Eles continuavam se aproximando, nesse ponto já deviam conseguir ver vagas silhuetas não tão escuras, a Roi devia ter notado algo parecido, porém havia dois na frente e esses viriam primeiro.

Num segundo, tudo isso aconteceu.

Lembrando da minha arma secreta, eu engoli uma das pílulas, elas iriam me salvar naquele momento.

Os dois chegaram em nós primeiro, eu lancei minha espada contra o corsário que via, ele parecia acostumado a lutar na absoluta escuridão, não estava exatamente cego, porém, nada podia se comparar ao poder dos mestres da sombra, a entidade que me imbuia naquele momento.

E após lançar a espada, eu pulei para a parede, soltando a arma e fazendo ele tentar atacar alguém que estava lá a menos de um instante atrás.

Com a mão livre, eu ganhei apoio, então pulei na direção dele, com os efeitos ainda funcionando. Eu consegui o agarrar pelo pescoço com ambas as mãos, ele não tinha reação, pensava estar enfrentando um inimigo em sua frente, nenhum vindo da parede, seu ataque havia sido em vão.

Então, com a força tanto do meu próprio corpo, quanto da minha sombra, eu apertei de uma vez, com tanta força, ele caiu em quase um segundo.

Quase...

Ele demorou alguns instantes a mais do que precisava.

A Roi já havia vencido, ela fingiu empunhar uma espada e o corsário atacou de tal forma, no último instante ela apertou um botão e seu bastão emitiu um choque e forçou o corsário a deixar sua arma cair, num próximo segundo, ela encostou o bastão no queixo dele, o que foi suficiente para outro corsário cair.

Entretanto, ainda tinham dois deles, a só alguns metros de nós, apenas segundos faltavam para eles nos encontrarem.

No entanto, eu sabia que aquele plano funcionaria, de uma forma ou outra.

O que estava pouco a frente deu um passo para desviar de seu colega já derrotado, porém isso o fez cair exatamente em um dos buracos daquele velho navio em pedaços, o logo atrás, por sua vez, tropeçou naquele corsário e caiu de bruços.

Talvez por sorte, talvez pelo destino, nós não iriamos perder ainda.

O corsário com um pé em outro andar estava muito vulnerável, eu fiz algo parecido com antes, o apertando até suas forças acabarem.

A Roi notou o que havia acontecido, porém sem ver...

—Roi! Um passo para estibordo...

Ela entendeu o que planejei, seguiu o que falava.

—Mais dois para frente, já!

Ela deu dois pulos e chegou bem ao lado do último homem, então bateu o bastão em suas costas, ele tremeu por vários segundos até eu não ver mais reação a voltagem.

Nós vencemos, os amarramos e jogamos em outra sala vazia.

—O que eles acham que são?! Especiais!? Onde esses anacrônistas idiotas tiram tanta coragem para nos enfrentar!?

Eu acabei gritando isso, já correndo para o próximo grupo.

—Sua performance foi meramente suficiente. Espero mais.

Foi o que a Roi me respondeu.

E assim...

Nós continuamos, atravessámos cada corredor daquele andar, lentamente enfraquecendo a força que continha o navio, em meio aos balanços do navio conforme ele passava pelo rio e se aproximava do alto mar, nós continuamos em frente e enfim...

Enfim... depois de mais lutas do que eu podia contar, quando o efeito daquela pílula já estava se dissipando e meu corpo parecia pesar o dobro do que no inicio daquela jornada:

—Roi... não sinto mais nenhum sinal de outro corsário, acho que acabou.

—Ugh... finalmente...

E tantas lutas, claro, vieram a algum custo.

Para mim isso não era tanto, eu tinha um corte de quando metade de uma espada atravessou a minha perna, mais um buraco no meu ombro de uma perfuração que eu tive de aguentar para conseguir pôr as mãos em um corsário.

Entretanto, ambas estavam já algo como na metade do caminho para sumirem, a vampira contou que não iria se preocupar em projetar minha sombra, ou reflexo, assim eu estaria mais forte.

Infelizmente, a Roi não tinha essa vantagem, meus poderes apenas poderiam me salvar. Eles não fizeram nada depois que ela recebeu um golpe no rosto, um centímetro mais longe dos olhos, nem quando um corsário saiu das sombras e fez um corte que atravessou ambos de um braço a outro.

—Roi... tem certeza que ainda pode lutar?

—Sim. Isso não é nada.

Ela não havia mudado a postura, assim sempre dizia, dizia que não era nada, mas eu não poderia saber quanta verdade havia nessa sentença.

De qualquer maneira, ela chamou o Ritte novamente.

—Limpo. Como está o instituto?

—Err, nada bem, parece que agora eles foram amarrados ao mastro e estão ganhando tempo...

—Hum. Qual o plano?

—Bem... tem uma embuscade da policial logo depois que eles entrarem em alto mar, mas... vocês precisam tomar o navio, senão todos que ficaram no deque estão em perigo...

Não houve tempo algum, quando ele falou aquilo...:

—Tomar o navio?! Você que me matar, Ritte!? Se fossem só corsários ainda tentaria, mesmo sendo suicida, eu tentaria, mas eu estou sentindo, eu ouvi... a capitã está nesse navio. Nós dois não podemos fazer nada. Isso não é nem uma missão suicida, é... é só um suicídio!

—Calma Jack! Eu tenho um plano, claro. Foi uma ideia que tirei do Otsuka na verdade... mas ele não teve tempo de terminar... je ferai.

—Hum... qual o plano?

—Você sabe alguma forma de distrair a capitã? Não preciso de muito tempo.

—Distrair ela... você é maluc...

Eu iria insulta-lo novamente, mas o Ritte me interrompeu:

—Como você a distraiu antes? No dia que me resgatou.

E assim, eu lembrei, a fraqueza dela, a coisa mais próxima de uma fraqueza que ela tinha.

—Sim... nós precisamos dar um jeito de tirar a espada que ela usa, acho que tinha um nome... So-u-ru Kan-ta, ou algo assim. Foi assim que consegui a distrair, lembra como ela encravou a espada no meu abdômen? Então depois consegui mantê-la comigo e... essa é a única coisa que posso pensar.

—Ótimo!...

Ele cortou a comunicação, mas agora... com aquela coragem que ele parecia ter, eu cheguei a pensar que podia haver uma chance, se o Ritte podia acreditar, também acreditaria, por isso nós caminhamos de volta ao deque...

Haviam poucos corsários fora do andar de prisioneiros, foi fácil passar por todos eles sem lutar, acima de tudo... talvez lutar naquele momento pudesse ter levado a um fim prematuro para nós...

E quando chegamos, ao abrir a porta e nos esgueirarmos para ver o que acontecia no deque...

O sol brilhava, meus olhos queimaram por um instante, então senti minha visão voltar ao normal, os abri lentamente para ver...

Um céu azul de verão sobre nós. Novamente parecia que ele estava prestes a pôr as tábuas do navio em brasas. E mais importante.

Espalhados por todo o navio, pendurados nas cordas, entre as velas, no chão e sentados pelas bordas do navio, homens e algumas mulheres, com armas de fogo arcaicas, roupas sujas e com rasgos, feitas todas a mão com técnicas obsoletas.

Claro, nem todos tinham os fuzis longos e enferrujados, mas cada um tinha uma espada, nas mãos, na cintura, alguns até tinham adagas coladas as roupas, como se fosse uma alternativa justa às armas de fogo.

E amarrados no mastro, três membros do instituto... lentamente os reconheci... Otsuka, o garoto de cabelo de duas cores, Annie, ou “Kiu” não tenho certeza e o Amun, o galego que me perturbou tanto.

Logo ao lado, os encarando intensamente...

O mais claro que a já havia visto, sem um sobretudo, ela tinha a pele clara, mas com vários sinais da ação do sol sobre ela. E o vestido que usava não passava dos joelhos, ele era vermelho como sangue, contrastando ao cabelo escuro como a noite sem estrelas.

Até pouco acima da cintura, ele se movia em ritmo com o vento.

Na sua mão, as unhas enormes e chamativas, pintadas de todas as cores e padrões que podia-se imaginar, essas já eram armas por si só, mas ela segurava algo ainda mais perigoso. Uma espada de um gume, uma lâmina a qual ela chamou de sourukattaa espada que brilhava como se fosse o próprio sol, ela se estendia até o chão, mesmo repousando na cintura da capitã.

—Tem algo diferente nela...

—Na capitã?

A Roi não havia interpretado muito bem minha meia-fala.

—Err... não, na...

—A katana? Essa é a arma favorita dela?

—Isso... hum, então é uma katana mesmo, igual um samurai...? É, faz sentido, ela é bem leve, eu mal sentia a espada nas minhas mãos...

—Fique atento, nossa chance vai vir a qualquer momento...

Eu respirei fundo, lembrei do que o Ritte nos falou, o plano mirabolante que ele inventou no último momento, porém que era a nossa melhor chance de ainda ter sucesso.

Até lá, só podia assistir o que ocorria com os membros do instituto, do outro lado do navio:

—Oh... vocês já estiveram em alto mar? Imagino que sim...

—Isso, você atacou nosso navio em alto mar uma vez, não foi? Nesse mesmo ponto ainda... o Triângulo Das Bermudas...

O Amun respondeu olhando para o lado, como se tivesse pensando em algo também...

—Sim, antes, no mar eu falhei em acabar com o instituto, hoje, vocês vão cair nesse mar, onde começou, irá acabar.

Enquanto falava, ela andava ao redor do mastro, como se ostentasse a liberdade que eles haviam perdido, enquanto fazia cortes velozes no ar, usando sua arma de escolha, com apenas uma mão e ainda assim ela parecia ter total controle onde os cortes começavam e terminavam.

—Capitã, a chamamos assim, se vamos morrer de qualquer forma... pode pelo menos nos dar seu nome? Eu não gostaria de morrer sem saber.

“Otsuka... isso é algum plano também? ”

—Oh... não ouviram? Bem, eu já sei o nome de cada um de vocês, isso não seria mais do que o justo. Charlotte é o meu nome. Meu nome de família já não significa nada, por isso apenas me chamo assim.

“Esse nome...”

Naquele dia, eu não fazia ideia de porque aquele nome soava tão familiar para mim.

Mas ao falar isso, ela mudou sua posição a capitã não estava mais ostentando sua liberdade e poder, ela entrou em algo como alerta, tal qual estivesse prestes a lutar.

Por instinto joguei eu mesmo e a Roi para um buraco na parede do navio, perto da entrada para o interior.

—Homens! Há mais alguém nesse navio! O maldito mocinho de presas está por perto! Olhem ao redor e fiquem atentos as outras embarcações!

—...!

“Servo, da mesma forma a qual tu podes sentir a presença dela, creio teres uma relação reciproca. Era questão de tempo”

—Roi... eu vou ter que distrai-los. Você não pode enfrenta-los diretamente. Vou ganhar tempo até o Ritte conseguir o que ele estava planejando.

Eu ia sair do esconderijo, o tempo corria e pensar demais podia ser uma sentença de morte, mas... ela me segurou, como quando ela fez no esconderijo, pôs a mão em meu rosto e me forçou a encara-la.

—Ainda não. Você quer morrer?

—Eu que pergunto...! Ela vai acabar percebendo onde estamos e nós dois vamos ser encurralados!... Precisamos chegar a um espaço mais aberto.

—...

A Roi continuou me encarando, ela não parecia ter um plano exatamente, mas algo... como se soubesse que havia um evento prestes a ocorrer.

—Fale algo... eu não faço ideia do que esse olhar quer dizer.

Os lábios dela tremiam um pouco, considerando o que iria dizer, então...:

—Isso. Você havia jogado fora.

Ela me entregou, foi a espada enferrujada e parcialmente quebrada que havia tomado de um corsário.

Me lembrava de uma cimitarra, era um pouco curvada e também só tinha um gume. Eu achei bem ruim de usa-la para qualquer coisa, senão uma distração...

—Há! Acho que entendi...

Enquanto discretamente saia, eu usei o comunicador:

—Sabem que eu estou aqui, vou chamar a atenção dos corsários. Por favor, deem um jeito nisso tudo. Vou fazer o que posso.

Não esperei a resposta, não havia tempo para isso, eu sai do meu esconderijo, me vi encarando algumas dezenas de corsários, além de claro, Charlotte, ou melhor, a capitã.

Antes que percebessem o que haviam achado, eu vi minha chance e disparei com a força que não era a de um humano.

Disparando por meio de corsários, os poucos que tentavam reagir se encontravam com a lâmina enferrujada que empunhava, eu havia lembrado... essa arma, ela servia para me defender, não mais que isso.

Numa dança de ferro, eu passei por todos os corsários, cada vez mais o meu maior inimigo se aproximava:

—CAPITÃ! CUIDADO!

Ela alcançou sua espada, a dita sourukatta estava sendo puxada, mas, eu pensei:

—Você não vai conseguir!

Jogando minha lâmina para longe, numa ultima defesa que a fez partir ao meio, eu pulei com tudo em direção, aquela espada... a maior arma da capitã, eu iria a usar contra ela.

Minha mão esquerda pegou em seu punhal, por cima da mão da capitã, minha força agora era suficiente para a vencer, eu podia tomar aquela espada, só faltava mais um pouco.

Com a minha direita, eu seguraria pela própria lâmina, eu aceitaria até cortar e rasgar meus dedos por aquilo, iria tomar aquela arma.

“...!”

E quando meu corpo chegou, eu conectei minha mão a lâmina...

—...?

Um segundo antes, eu havia ouvido um tipo de aviso, porém não tinha como me parar mais, havia corrido e disparado com tudo para lá e mesmo se a morte me encarasse, eu não pararia, assim pensei...

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!

Com um empurrão da capitã, um que não foi confrontado com qualquer resistência, meu corpo caiu ao chão, mas nem isso era entendido...

Queima! Queima! Queima! Queimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueima

Um calor que não queimava a pele, mas a própria alma, aqueles pensamentos, antes poluídos pela presença da vampira, todos eles haviam sumido, só havia uma coisa, uma alma queimando de dentro para fora, uma dor a qual eu não podia lidar, ninguém poderia.

Minha existência, o que eu era estava se apagando pedaço a pedaço, sem parar e cada vez mais rápido, até...

Sumir, aquela dor havia desaparecido e...

Tudo o que restava agora, era uma lâmina apontada a alguns centímetros do meu rosto. A mão onde eu havia tentado alcançar aquela espada, eu via cortes profundos, os dedos que tentaram alcançar a lâmina passando perto de serem decepados, minha palma com apenas uma marca como a de queimadura, um brilho sobrenatural em si.

—Alice... você precisa me curar...

E apesar de falar isso...

—Garoto-demônio! O que você disse!? Fale alto e me deixe ouvir também!

O inimigo, ele estava bem em minha frente. O meu maior pesadelo, eu estava praticamente derrotado, bem em minha frente... a vilã, minha maior inimiga, Charlotte...:

—Uma emboscada...! Um ataque pelas costas...! Ninguém nunca me derrotou assim! Ninguém nunca sobreviveu aos meus cortes!

Ela me agarrou pelo pescoço, parecendo até querer me matar ali mesmo, me puxando para perto e encarando direto nos meus olhos, a ira era visível, queimava tanto quanto aquela espada havia me queimado.

Mesmo tendo chamado a Alice... eu não ouvia nada, não sentia algo vindo de dentro, nem mesmo percebia algum poder agindo sobre mim.

Quando tentei me soltar, ela só me jogou de volta ao chão.

—Você está tão fraco assim? Mal sinto sua presença, nem parece que estou segurando algo. Hahaha...

Ela riu novamente, tão lento que cada som proferido parecia vir de um canto diferente, ao meu redor, era como se as sombras rissem, do mastro contra o sol, de cada corsário. Pareciam vir vozes de todas elas.

Me encarei sem escolha, puxei a pílula entre meus dentes, isso seria a minha segunda chance de tomar a arma dela, talvez se só agarrasse o cabo, caso pudesse a tirar sem encostar na lâmina...

Porém, notei algo preso na minha garganta, quando tentei engolir aquilo, tossi, me senti sido cortado por dentro. Vi sangue no chão ao meu lado, mais...

A pílula tinha saído também.

Mesmo com minha mão em pedaços, eu tentei a usar para alcançar a pílula, se pudesse... tudo poderia ser resolvido... seria minha última chance, eu a faria valer...

Estendi a mão que não havia sido cortada para tomar a pílula. Eu dobrei todo meu corpo, eu dei as costas para a capitã tentando alcançar aquilo, porém...:

AH!

—O que é isso?

Antes de a alcançar, a capitã perfurou minha mão, o salto dela tinha uma lâmina também.

“Por que...? Que tipo de arma é essa? Como...”

Não podia imaginar respostas para essas perguntas, não entendia com quem lidava de forma nenhuma.

Era apenas alguns centímetros antes de alcançar a pílula...

Forcei, tentei estender meus dedos o quanto podia, empurrar ela de volta com a força restante, a que não havia me sido roubada. Entretanto, antes disso, pois não fui rápido suficiente, pois me faltou convicção, a minha última chance estava nas mãos dela.

—O que é isso? Não que me interesse...

Assim a minha última chance foi lançada para longe, para o mar, onde nunca mais seria encontrada. Não podia imaginar o contrário.

Quando não a respondi, a capitã desceu e me puxou, agarrou minha roupa e me levantou com uma mão só, eu nem pensei que ela poderia fazer isso antes...

Havia alguns corsários que só agora haviam se movido. Elas os encarou, imediatamente entenderam que deviam apenas puxar suas espadas e se afastar, isso era o quão superior ela era.

—Acho que entendo agora como o Ben possa ter perdido, vocês crianças são bem perigosas. Um homem patético como ele com certeza iria perder se estivesse sozinho.

—Você vai perder também!... Charlotte! Eu vou...

Mas apesar de querer, mover meus braços, eles não iriam responder, eu não sabia como podia já estar tão cansado, contudo, sentia em cada osso, meu limite se aproximando.

—Não. O seu destino está lá.

Os arredores mudaram, o barulho curto e agudo de um passo foi dado, vários deles em direção a borda do navio.

—...!

—Durma. Durma para sempre. Esse é o seu futuro inevitável. Não importa que decisões o faça, os caminhos o qual percorreu, o destino de todo humano é esse.

Ela lentamente me carregava pelo navio, para me levar até seu limite, então eu seria jogado ao mar, após isso... não haveria mais nada para mim.

As decisões que tomei, os caminhos percorridos teriam todos levado a isso...

—Espere... Alice, Alice... onde você está? Não pode me ouvir? O que está esperando...?

Fazia minhas últimas perguntas enquanto era carregado a minha tumba, o mar, onde humanos não podem habitar, meu corpo passaria uma eternidade ali...

Minha alma, nem desejava imaginar aonde ela se encontraria.

—Estou chegando.

Ouvi isso, essas palavras que eram... essa voz só podia ser uma pessoa...

“Roi...!”

Senti que minhas forças finalmente estavam voltando, eu podia mover os braços novamente, uma fagulha da energia sombria que me cobria desde meu encontro com a vampira.

Não tinha dúvidas que vencer, para mim, seria impossível.

Por isso eu não vim sozinho.

—Capitã! Você vai perder! Eu prometi isso antes, eu falei que ia usar tudo o que tinha! Então engole isso! Shadow kick!

Mesmo sem muita força, ela mesma estava me puxando para perto, eu me afastei um pouco, ganhei um momentum e me atirei de volta a ela.

Minha testa colidiu com a dela sem nenhum adendo, por mais resistente que ela seja, não tenho dúvidas que doeu um pouco mais nela do que em mim.

E quem estava tomando proveito das poucas sombras que haviam, se escondendo em plena vista... Roi havia partido para o ataque.

Claro, o barulho dos passos dela foi suficiente para alertar a capitã, porém, depois de ser distraída com o golpe, ela não pode prever o truque que a esperava.

Assim como outros corsários, quando ela tentou bloquear o que pensava ser um golpe de espada, semelhante ao meu próprio ataque, ela foi recebida com a corrente elétrica que passou por todo o seu corpo.

Reconheci a sensação logo que ela chegou a mim, era realmente uma invenção da Une.

“Eu vou dar algum presente para ela quando voltarmos, para a Roi também... talvez outra revista? Podia tentar procurar uma bem obscura...”

Nos olhos da Roi, trocando de direção rápido para desviar daquele corte, ela viu finalmente, aquele choque, meu próprio golpe, finalmente havia aparecido uma brecha, a nossa vitória...

E com um chute alto, ela acertou a mão que empunhava a tal arma, finalmente... ela estava mais com Charlotte.

Assisti, a katana fez um arco pelo ar, o vento mudava a sua direção a todo momento.

Porém, eu não ouvi o som da espada batendo contra água, talvez o vento estivesse contra nós também, não apenas as sombras.

O metal bateu contra algo sólido, madeira.

—Isso não é nada...!

A capitã sabia que não tinha sido derrotada.

Em vez de ficar e lutar, ela me soltou e correu atrás da lâmina, mas eu não daria chance de ela recuperar a espada, pousei ambos pés no chão, eu quase cai novamente com um balanço do navio, mas logo estava correndo outra vez em direção aquele barulho, perseguindo a capitã.

Foi quando finalmente um corsário se interpôs, eu estava um pouco tonto, a premonição de que algo ruim estava prestes a acontecer. Não tinha como desviar, portanto...

—Saiam da minha frente!

Eu os empurrei para os lados, sem mudar de direção e sem perder velocidade.

“Não vou perder! Não vou perder! Se usarem suas armas, que assim seja! Eu não vou deixar o que a Roi fez ser em vão!”

Os cortes pareciam me tirar mais sangue do que deviam, eu via meu corpo ficar muito mais fraco a cada passo, quando estava finalmente com o caminho aberto, eu havia ultrapassado até Charlotte, eu via o brilho da lâmina...

Não deu tempo...

Mesmo se ainda conseguisse andar, diferente do que imaginei, Charlotte não foi atrás de sua espada, ela pulou em minha direção, pondo seu joelho nas minhas costas e então todo seu corpo sobre o meu, naquela hora eu estava perto de ser degolado por uma adaga.

Porém, ainda apenas com instinto, eu a segurei, ainda assim, senti algum sangue escorrendo pelo meu pescoço, a resistência que tinha feito foi meramente suficiente, qualquer hesitação e aquela arma teria atravessado minha garganta.

—AH! Eu não vou deixar...!

Enquanto isso, mesmo que não visse, pelos passos, pela minha audição se tornando aguçada novamente.

A Roi foi cercada por corsários. Ela imediatamente guardou seu bastão consigo e levantou as mãos. Já tínhamos visto o quão perigoso eles podiam ser.

Eu não posso a culpar, ela devia estar contra ao menos cinco deles, nem mesmo juntos poderíamos vencer contra todos eles, pois eu estava preso, isso se tornou definitivamente impossível.

—Amarrem ela! Rápido!

Um corsário gritou, alguns estavam prestes a agir, porém.

—Parem aí mesmo.

A capitã levantou, me segurando pelo ombro e com a adaga ainda presa no meu pescoço, eu tive de seguir, não tinha nem força suficiente para me soltar, mesmo se quisesse.

Meus olhos se encontrarão com a Roi, ela não estava muito diferente de a um minuto atrás, mas seu rosto tinha uma expressão, mesmo que levemente, suas sobrancelhas tinham arqueado um pouco, os olhos um pouco fechados, como se focando em algo.

—Eu preciso dela com as duas mãos livres. É uma oferta, a última que vou dar...

—...?

A Roi não mudou de expressão, porém os corsários sim, aquilo... isso não era único, eles pareciam estar se animando para ver o mesmo espetáculo, se afastaram e com olhos vidrados, esperavam a próxima fala da capitã.

E enquanto isso ocorria, eu tentava com tudo passar uma mensagem para a Roi, eu pedia tempo, tempo para a vampira me curar e recuperar minhas forças, pelo menos o suficiente para escapar da capitã...

Foi quando veio, a oferta da vilã:

—Das pessoas nesse navio, vocês são um dos poucos que já conseguiram me desarmar mais de uma vez, eu já fiz essa oferta a seu colega, ele recusou sem pensar. Eu queria que você o redimisse. Abandonem tudo o que lhes prende, as suas vidas estão fadadas a acabar aqui, porém, eu imagino poder as substituir por outra, venham a tripulação e eu os ensinarei tudo que sei. Talvez um dia sejam vocês a liderar minhas frotas... eu tenho vários antigos rivais entre meus aliados. A adição de prodígios como vocês seria muito bem-vinda.

—...

—Então, irá aceitar?... Se você não o fizer, só há um destino para todos vocês, me digam qual!

De imediato, todos os tripulantes responderam em união:

—Prancha! Prancha!! Prancha!!! Se unam a nós ou andem na prancha!

E nós realmente não tínhamos muitas opções, ainda não havia sinal da ajuda do Ritte, portanto, devia ter algumas dezenas de corsários sobrando no navio, enquanto nós éramos apenas duas pessoas. Até certo ponto, aqueles vilões eram os donos do nosso destino.

—Certo. Eu aceito.

E a Roi... entendeu isso também.

—Ainda bem... eu realmente gosto quando os mocinhos desistem de lutar e se juntam a mim. Agora me faça um favor, corra até minha espada e jogue ela no navio. É tudo que eu vou pedir para compensar pelas suas ações. Traga ela de volta.

“Roi... só mais alguns segundos...! Por favor”

Tudo o que precisava era de mais força, só o suficiente para escapar da capitã...

Os corsários abriram caminho, com olhares intensos de expectativa, começaram a gritar outra vez, mas agora, comemorando:

—Juntem-se a nós! Juntem-se a nós!

Podia até ouvir com vozes mais baixas:

—Tragam uma espada de verdade para eles. Tragam roupas de marinheiros!

Roi começou a andar pelo convés, agora, pelo que parecia, nós éramos os mais novos membros da tripulação, os últimos heróis trazidos para o outro lado, entretanto...

Ao olhar para ela, não podia dizer isso. Os olhos da Roi não mudaram, ela não tinha mudado nada desde que a conheci a mais ou menos um ano, era inacreditável ela mudar agora, só pelos ditos da capitã, Charlotte, a pessoa que agora estava com uma adaga em meu pescoço, intensamente observado a Roi andar até a prancha.

—Vá com cuidado, a maioria das pessoas cai no mar bem antes de chegar na ponta da prancha, tem muito vento, ela é bamba, se a minha espada cair no mar... você ainda vai ter que ir busca-la.

Minha aliada não respondeu a isso, apenas continuou caminhando para a prancha, como se não houvesse o que pensar.

“É impossível ela ter mudado de lado assim, não vejo dúvida alguma, só se... será que ela sempre foi assim? Não... eu sei que ela pode já ter feito algumas coisas esquisitas, mas nada assim, é inacreditável. Sei como o senso de justiça dela é forte, eu já fui um inimigo dela, agora sou um amigo, já vi esses dois lados da Roi, não consigo acreditar que haja algo a mais, algo maligno nisso também”

Após olhar por alguns segundos em frente... ela se segurou nas bordas e subiu na prancha, com alguns passos com longas pausas entre si e sem fazer mais barulho, ela andou...

Conseguia a imaginar fazendo isso, a Roi não era bruta, ela tinha técnica e seu corpo era bem leve, diria que sua forma de lutar estava mais próxima de como a capitã fazia, apesar dessa Charlotte ser bem mais forte do que eu, digo... sem a ajuda da Alice ela seria.

Então Roi caminhou pela prancha, com passos leves, sem ser levada pelo vento, ela chegou bem na ponta... lá estava a espada que a mesma tinha colocado ali, ou pelo menos, suas ações diretas a colocaram lá, mesmo que a intenção imagino, tenha sido a jogar no mar.

“Certo, Roi? Você só está ganhando tempo para que eu me recupere, de alguma maneira você percebeu o que aconteceu, sim? Jogue essa espada no mar, essa é a nossa chance...!”

Quando chegou lá, a vi se abaixar, segurar a lâmina pelo seu cabo, com algum esforço, ela ergueu a sourukatta. Agora... em suas mãos a espada brilhante como o sol sobre nós, também parecia ser fonte de uma parte da força da capitã, estava nas mãos de ninguém menos que uma aliada, mais... estava mais perto que nunca de ser jogada ao abismo, se jogada no mar... sei que nunca mais seria encontrada, não importa quanta sorte a capitã tenha...

Entretanto, vi nos seus olhos, os olhos encarando a espada.

A Roi... ela não tinha certeza do que iria fazer.

—Roi! Não! Não! Por favor!

—Cale a boca ou...!

Ela pressionou a adaga contra meu pescoço um pouco mais.

—A decisão é dela, você só deve a seguir, não é isso o que chamam de lealdade? Vai trair sua amiga só por ela ter tomado um caminho pouco diferente do seu, sua amizade só vale isso?

—Roi! Ela nunca mais vai ser tão forte sem isso! Alguém, alguém...! O instituto pode a vencer depois! Eu já vi, sem essa arma... nós podemos vencer! Ela vai perder! Roi...!

Continuei gritando, minha garganta foi um pouco mais cortada, a faca estava cada vez mais profunda em meu corpo.

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—Garota, nem pense nisso. Converse com ele depois e convença a se unir também, você tomou a decisão certa, está salvando a vida dele, caso não me retorne a sourukatta, eu vou terminar de degola-lo, melhor vou fazê-lo andar na prancha também.

—...

Ela voltava a me encarar.

Naquele momento quase toda a minha força estava recuperada, porém, eu não ouvia Alice falar mais nada, algo estava errado, eu teria de partir para o ataque de alguma forma, mas minha mente não podia ligar para isso agora...

“Roi... não faça isso... eu não consigo imaginar você...”

—Deixe que eu morra! Só se livre dessa porcaria! Jogue ela no mar e derrote ela depois! Eu confio em você! Roi...! Por favor Roi!

Por um segundo, naquele navio o único som era o do vento forte que jogava os cabelos da Roi para os lados e os faziam parecer flutuar, a água batendo no casco do navio em que estávamos, além do vago e distante som dos animais habitando aquele ambiente natural, como a maior parte do mundo, eles não faziam ideia do conflito ocorrendo por lá.

Após esses segundos. Roi segurou firme na espada pouco curvada de um gume, a mesma lâmina que matou tantos inocentes, a que presenciei sendo usada para incitar uma violência e um desperdício de vida humana impensável.

Então... ela falou:

—Não posso fazer isso.

As palavras dela podiam ser ambíguas, a Roi sempre foi assim, porém, suas ações não deixavam dúvidas.

Ela lançou a espada que segurava em suas mãos ao ar, novamente um arco foi feito.

A espada voou de um lado ao outro pelo ar, levada pelo vento...

De imediato a capitã me soltou, deixando sua adaga cair no chão, ela deu vários passos a frente, estendeu sua mão ao ar.

Então...

A sourukatta estava novamente em suas mãos. A Roi fez uma parte do trabalho, o vento garantiu que ele seria terminado.

Hahaha...! HAHAHA! Consegui!! Sourukatta! Você sempre irá voltar...! Hahaha...

Meus joelhos estavam ao chão, ergui meu rosto o quando podia, encarei a Roi, e como se não percebesse o que ocorria ao nosso redor, ela me encarou de volta.

Naqueles olhares que trocamos, eu vi...

Pela primeira vez entendi suas expressões, suas sobrancelhas que se moveram apenas um pouco, seu olhar milímetros mais baixos que o normal, os lábios pouco torcidos.

Vi neles... arrependimento, culpa, tristeza, mas também...

Alivio.

Esse que então, foi substituído por desespero.

Um estrondo se espalhou pelo mar, a expressão dela acompanhou, não houve surpresa, no momento que aquilo ocorreu, cada pessoa, ainda mais a Roi, entendeu o acontecido.

Quando um pequeno buraco, rodeado de pólvora apareceu no peito dela.

Pássaros pendurados nas velas fugiram, uma última coisa que eu ouvi, não pela voz fraca dela, mas pelo comunicador que garantiu a Roi ter suas palavras ouvidas...

—Jack... eu...

Uma mensagem para mim, uma que nunca seria terminada.

No próximo segundo, ela perdeu o equilíbrio, seu corpo pendeu para o lado oposto, então a terra a puxou.

—Durma para sempre, criança.

Foi o que Charlotte falou a ela.

Então a Roi, minha amiga, não, mais que isso até... eu confiava absolutamente nela, mesmo depois daquilo, ainda queria acreditar nas boas intenções dela, porém... mesmo assim.

A pessoa que mais confiava perdeu seu equilíbrio e caiu de costas, sumiu da minha vista, um instante depois, o som de seu corpo batendo contra a água foi ouvido...

ROIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!

Eu corri sem pensar naquela direção, eu passei direto pela capitã, eu corri até a prancha e em um salto olhei pela borda, procurando algo, um sinal dela, uma... qualquer coisa...

Porém, tudo que vi foi um leve tom de vermelho colorindo as águas, iria continuar procurando, já estava pronto para pular na água, mas...

Hahaha... sabe, garoto-demônio, você sequer entende por que sua amiga morreu? Consegue compreender, apesar de tudo dito por mim ter sido uma verdade, o porquê é óbvio para você também?

Me virei para Charlotte, não, para mim ela não tinha nome algum assim, ela não era nem mesmo a silhueta sombria a quão havia quase me matado algumas vezes, quem sequestrou o Ritte, nem mesmo a vilã perseguida pelo meu grupo pelo ultimo mês.

Ela não era a capitã, não era sequer uma assassina de verdade.

Vi, ela só havia matado uma pessoa, encarei a responsável pela morte da Roi,

Finalmente ouvi os sussurros de uma pessoa que também era aliada minha:

“Se é o que desejas, não o impedirei”

Meus dedos estavam em mal estado, porém, já tinha recuperado a força mais do que suficiente para eu mesmo segurar a capitã sem chances de que ela escapasse.

E mais, senti algo em minha boca, um desejo o qual nunca imaginei que teria, repentinamente, eu lembrei do gosto de algo apenas provado uma vez por mim.

O gosto de sangue.

Como um suco de uma fruta exótica, obtida depois de trabalhar por meses, um pouco doce, trazendo uma sensação que não podia ser explicada apenas por um bom sabor.

—Pois esse é o meu poder, também é por isso que você é tão fraco. Não aceitou o dom lhe dado, como eu, o dom de sorte não vem de graça, ele tem um preço. Esse preço... é o da execução da maldade, entende?

—...

A encarei, respirei um pouco... absorvendo toda a energia possível...

Mesmo sem estar escuro, eu percebi o mundo ficando diferente, como antes, minha visão foi aprimorada pela Alice, enquanto a capitã falava, estava vendo como deveria derrota-la.

—Trazer heróis para o meu lado é exatamente um ato maligno, é por isso que gosto tanto de fazer isso, ele me enche desse poder, vim a esse mundo para executar o mau e é essa a maneira de eu receber minha recompensa. Certamente trazer ambos para o meu lado seria algo maligno, entretanto... não foi muito melhor eu ter a matado logo depois de a fazer jogar tudo que vocês trabalharam fora?! Hahaha... ela estava segurando a própria vida em mãos, tudo o que ela fez foi por isso, ainda assim... a jogou no lixo por sua causa, é sua culpa, entende? Hahaha...

—Você não entende nada...!

—Entendo, entendi como isso era o ato mais maligno que podia executar, agora, garoto-demônio... venha. Eu sou invencível! Use tudo que tem, não será suficiente!

Todos os tripulantes do convés vieram, armas em mãos, apontadas em minha direção, quando um deles, um com roupas pouco mais decoradas perguntou:

—Capitã, devemos mata-lo então? Eu não tenho como entender suas intenções.

—Não se preocupem. Eu vou cuidar dele sozinho.

De imediato, todos eles abaixaram as armas e abriram espaço.

“Eu também deveria dizer, mesmo agora, vosmecê sabes que não há como vencer”

Eu sempre soube.

“Ainda assim, quando você morrer, eu irei lhe vingar, se é assim que deseja, não posso lhe interromper”

—Obrigado... eu acho que vai realmente ser assim...

Eu me preparei, dei um pé para trás, como se esperasse ganhar impulso...

—Garoto-demônio, como você vai lutar sem nenhuma espada? Não aprendeu nada desde nossa última luta?

—Quando não tenho armas, vou usar minhas garras, sem elas, irei usar minhas presas, se não tiver nada disso, o que sobra de minha vontade lhe perseguira.

—Humpf! Você pode fazer o que quiser, o vencedor é quem pode tomar as decisões!

O tempo pareceu congelar uma última vez, a batalha que seria decidida em um instante começaria assim que o relógio passasse apenas mais um segundo.

...

Apesar de meus olhos estarem apenas na capitã, em como iria a eliminar, o quão longe estava disposto a ir por isso, havia várias outras pessoas agindo ao mesmo tempo...

Os três membros capturados do instituto não poderiam ser subestimados.

Ainda mais pois, afinal, a única coisa os prendendo era corda, não posso dizer que era barata, mas ainda era só corda, talvez algumas gaiolas de aço tivessem sido mais apropriadas.

Ninguém estava ativamente os vigiando, eles estavam no meio do navio, afinal, mas isso significava também que todos eles tiravam os olhos do mastro em algum ponto, coube a um deles, chutaria que foi... talvez a Kiu tenha o feito, digo, Annie Miller.

Coube a ela observar isso, então notar o momento de sincronia, onde ninguém tivesse os vigiando, efetivamente, eles estariam invisíveis.

E nesse momento, os três se soltaram das cordas como se nunca tivessem sido presos.

...

Bem, não só em terra, mas havia mais uma pessoa naquele navio, ela havia entrado sem que nem mesmo seus aliados a percebessem...

Ao mesmo tempo, os reforços pedidos vinham em alta velocidade, sem pensar em quanto barulho estariam fazendo.

E claro, os meus aliados, os dois irmãos que planejaram tudo isso já estavam próximos... muito próximos...

Menos de mil pés, ao menos:

—Jack! Sai do convés!

—Navio à vista! Tomem seus postos!

Todos esses gritos não eram em vão, naquele momento, minha visão se abriu a todos os arredores, a situação complicada em que estávamos, a qual não podia ser simplificada apenas a minha luta inútil contra a capitã.

Atrás de mim, eu vi por trás de algo como uma nevoa, a sombra de um navio se aproximando.

Nesse segundo de distração, eu tive uma oportunidade.

Em vez de correr à minha morte, lancei um golpe na mão que a sourukatta era empunhada, com um golpe, graças ao instante em que a capitã se distraiu.

A arma, caiu, com a outra mão, a mesma que havia sido partida ao tocar a lâmina agora segurava a espada.

E naquele momento, em um segundo, vi-me apontando a ponta da lâmina de volta ao pescoço da capitã. Um segundo seria suficiente para dar um golpe fatal.

—...!

Pela primeira vez, vi algum sinal de temor no rosto dela, mas não por tanto tempo.

Em outro segundo, não havia mais nada em minha mão esquerda, vi sangue por um segundo, uma outra lâmina atravessando o ar.

AHH!

Não consegui pensar em nada, eu senti dor por um instante, em seguida, minha mente se tornou um espaço vazio. Eu me encontrei com as perguntas.

“O que houve?” E “Por que?”

E lentamente voltei ao mundo real, agora estava de volta à onde comecei, com a ponta da lâmina a alguns centímetros do meu pescoço, com vento forte quase me fazendo cair daquela superfície que balançava ainda mais agora.

—Você quer morrer do mesmo jeito? O que esperava ao fugir até aqui?

Tinha recuado até a ponta da prancha. O cheiro de sal do mar parecia mais forte, esse sal era essencialmente o que mais poderia me ameaçar agora.

Com o espaço aberto, o vento passava livre, poderia até ser levado e cair no mar quando deixasse minha guarda baixa.

Mais que isso, sentia dor uma dor que não era tão intensa, não foi feita pela espada empunhada pela capitã, era ainda assim, quase pior...

Eu só vi minha mão direita segurando a esquerda, gotas de sangue mostrando o caminho que havia feito até onde estava...

Soltei aquela ferida, imaginando o que causaria isso, então...

Haviam três cortes, tão limpos a ponto de a quantidade de sangue ser negligenciável, neles, os três dedos faltando em minha mão.

—Você quer ter o mesmo fim dela? Acabar esse sofrimento? Eu posso prover isso. Hahaha...

E não havia tempo para ressentir ou tentar culpa-la, pois a vi puxando outra arma, a apontando para meu peito.

Apesar de não haver como desviar daquele tiro, imaginei, devia haver como escapar da morte certa, no fundo da minha mente, me lembrei de algo.

Olhei alguns graus para a esquerda, um passo para frente, pôs ambos pés no chão, me impulsionei e fui jogado pela prancha para o ar.

Apesar dela pressionar o gatilho, aquela arma arcaica com certeza não estava tão longe de virar sucata, uma explosão de pólvora ocorreu, mas apenas isso.

—Eu vou voltar! Vou acabar com você!

—Você está no meu navio! Você não pode escapar!

O vento rugiu, meu mundo girou e girou, vi o céu e vi o mar, logo meu voo chegou ao seu fim.

Batendo de costas em uma tabua de madeira, ela quebrou em duas ou mais, pousei no chão e ele logo também se partiu, fui puxado junto das tabuas de madeira até o fim daquele andar...

O meu voo havia funcionado, eu havia ido da prancha até um dos andares internos daquele navio, esse, claro, era por si só um problema também.

Estava quase impossível de respirar, meu corpo só fazia espasmos, estava escuro, cheguei a pensar se não havia morrido, mas...

“Fique parado. Você vai precisar pelo menos de alguns minutos antes de poder se mover novamente. Ao menos voltamos para a escuridão”

—Minutos... não temos tanto tempo...

Quando entendi minha situação, voltei a respirar, já podia fazer um pouco mais que espasmos... mesmo que fosse só me arrastar...

—...?

“Há alguém por perto... pare. Se misture com as sombras”

Eu o fiz, fiquei totalmente estático enquanto tentava olhar para frente, de onde ouvia vagamente o barulho de passos, mas eles pareciam distantes, havia uma pausa entre eles.

Foi quando... uma sombra passou pelo corredor, ela parecia estar veloz como se nadasse pelas sombras, mas, parou. Ela olhou em minha direção e ficou estática.

Não podia ver os detalhes só por aquela silhueta, precisaria de algo a mais.

Só com esse pensamento, meus olhos ganharam um brilho anormal, toda a escuridão desapareceu, pude ver a pessoa em minha frente claramente, como se estivesse ainda à céu aberto e ao meio-dia.

—Yui... Sasaki...?

—Wa! Quem está ai?!

—Jack... Jack Delsteen...

A garota de olhos puxados, claramente uma asiática, com uma misteriosa cicatriz reta atravessando a bochecha tinha aparecido ali.

—Como...? Você não devia estar no convés?

—Bem... foi um salto bem perigoso... você estava aqui desde sempre...?

—Entrei com os outros. Secretamente, mas sim, ainda bem que encontrei você, agora o Suka-kun deve estar abrindo o caminho para os reféns, parece que metade deles vão se esconder por esses andares, a outra metade nós teremos de os teleportar direto para a terra firme.

—O que...? Como ele pode fazer isso? São muitos...!

—Acredite. Estamos no limite, mas eu acredito no plano dele, ainda mais quando o Suka-kun sabe tanto de como os ostium funcionam.

Ela não estava exatamente me encarando de volta, mas mesmo assim, via nos olhos dela, claramente, um brilho em meio a escuridão, Yui falava para que confiasse no Otsuka sem ressalvas, ela mesma parecia viver por essas palavras de alguma forma.

Pensei, talvez ele realmente mereça essa admiração, apesar de parecer um garoto assustador com alguns colegas esquisitos...

Conversei com ele algumas vezes, podia confiar no que a Yui dizia:

—Ele jamais deixaria um inocente, não, o Suka-kun nunca deixaria qualquer pessoa morrer, mesmo um inimigo, mesmo um desconhecido, não há exceções para ele. Eu também acho não haver limite no quanto ele pode fazer...

“Pode andar, eu me concentrei em consertar os mínimos, só nem pense em lutar”

Me joguei de joelhos, respondi enfim:

—A capitã está vindo, ela vai me seguir eventualmente. Você pode fazer alguma distração até eu subir...? Conhecendo ela... pode ser que ataque um refém sem pensar.

—Entendi, Jack-san, vou fazer o que posso, mesmo que possa não ser tanto assim.

—Você não pode fazer nenhum truque só para deixar ela parada alguns segundos...? Eu tenho que enfrenta-la e... talvez esse ambiente me dê uma vantagem.

—Hum... vou pensar em algo! Só não fique muito para trás.

Ela se levantou, me deu as costas e começou a correr de volta para o convés, ela acabaria se encontrando com a capitã antes de mim, bem antes de mim nesse ritmo ainda...

“Você estava indiretamente pedindo minha ajuda? É isso que entendi? ”

—Sim, Alice, agora que estamos no escuro, você poderia tentar ataca-la de surpresa, enquanto eu luto, quando uma chance aparecer, você pode atacar.

“Assim será, sou eu que reino sobre as sombras, essa mortal sem graça não poderá jamais reivindicar algo assim, irei a vencer e tomar todo seu sangue, então corrigirei essa má-interpretação que você formou, meu servo”

—Parece ótimo para mim...

Finalmente joguei o outro pé para cima, consegui me levantar e voltei a subir as escadas, dessa vez, em direção da minha última batalha.

“O que você sente agora, servo? Diga o que pensas da sua inimiga...”

—Eu vou matar ela, eu posso ter hesitado mais cedo, pode ser que isso seja errado, não, com certeza é, mas isso deixou de importar quando ela fez algo o qual jamais poderá ser desfeito, eu farei ela pagar, isso também é só um senso de justiça bem egoísta meu, espero que você possa me perdoar por isso.

“Não, não, diria isso ser um ponto forte de vós, um humano tão modesto, tão sincero consigo mesmo e com os outros, essa qualidade de poder se apresentar como tu és verdadeiramente, ela sempre foi um traço dos vivos o qual me atraiu, você é um exemplo perfeito de tudo isso”

—Obrigado...

Continuei subindo as escadas, lentamente sentindo como meus ferimentos estavam se curando, a Alice certamente não estava poupando esforço algum para realizar esses feitos.

“Deveria avisar, sua capacidade de cura como um meio-morto, meio-vivo é um tanto limitada, sinto que teus dedos não possam ser recuperados, entretanto, cortes e outros ferimentos os quais se recuperariam normalmente, certamente posso os resolver”

—Está tudo bem! Eu sou ambidestro, sabia disso?!

Apesar de ser uma má noticia, não esperava ser um grande problema, mas tocar guitarra ainda seria... possível...

Imaginei isso, mas percebi algo.

Sem a banda, não havia o porquê de pensar nisso, a Roi era nossa amiga, com as baquetas ela sempre fazia ritmos fantásticos com sua bateria, sem isso, não haveria uma banda, sem ela... minha guitarra, tudo o que tinha feito até agora, isso perdeu o sentido.

Sem a Roi, ajudar o instituto não teria mais graça, eu perdi a pessoa com quem podia confiar, ela sabia lutar também, os outros são mais como... pessoas a proteger, apesar de serem espertos, nunca os queria ver lutando.

A banda também, ela iria acabar.

Os dias na escola não seriam mais tão bons também, eu não ouviria as respostas curtas e diretas dela mais, não tive tempo de perguntar tantas coisas, não vou mais poder pedir para brigar com ela por diversão.

Pensando em tudo isso...

Reparei como... depois disso tudo, independente de se iria eu vencer, ou não... minha vida, tudo o qual trabalhei até agora, de certa forma, estava perdido.

“Gostaria de que não pensasse assim... eu sempre estarei em tua sombra, ao teu lado por toda a eternidade, não já havias adivinhado? Eres tão estupido a esse ponto?”

—Alice...? O que foi? Você não estava buscando se separar de mim? Eu sou um vivo e você, uma vampira, passar uma eternidade comigo é mesmo...

“Sem tempo. Estou ouvindo vários passos”

Minha audição ficou em seu pico, chegou a doer quando ouvi os passos vindo.

Acelerei ainda mais, já sentia minhas pernas em perfeito estados, meus braços, também, pois vendo bem, eu não havia realmente conseguido tantos ferimentos até agora...

—Quando cai aqui... consegui encontrar a Yui... ainda fazer aquele salto... tudo isso talvez, realmente seja só... sorte. Essa força a qual não compreendo, entretanto sempre parece estar ao meu lado, ao mesmo tempo...

Charlotte também, aquelas coisas que aconteceram mais cedo, tudo aquilo foi certamente a sorte dela agindo... “Inacreditável” eu pensei, ao refletir como um poder desses estava nas mãos de uma pessoa tão podre, uma vilã daquele tipo...

Isso me cegava, me deixava com um tipo de agressividade difícil de controlar, sabia, quando a chance se apresentasse, quando a capitã estivesse em minha frente, atacaria com tudo, usaria unhas e dentes para acabar com ela.

E a fonte daquele som doloroso, como a Yui disse... alguns passageiros teriam que se esconder no navio.

Passei por várias pessoas, vagamente reconheci algumas delas como outros passageiros do cruzeiro, era uma multidão passando e cobrindo todo o corredor, algumas pessoas aparentemente fortes na frente os guiando com lanternas.

E claro, eu apenas fui contra essa multidão, passei por aquelas pessoas sem falar mais nada, não tinha nada a dizer, se minhas ações fossem dizer algo, também não sei o que seria.

Após passar por eles, voltei a escuridão daqueles corredores, sentia uma presença aterradora cada vez mais próxima, uma a qual deixava mais difícil de respirar, uma que congelava meus músculos a cada passo dado.

Era nessa direção aonde devia ir.

—As sombras podem ser sua casa...

“Mas vós sois aqueles a reinar sobre a escuridão”

Finalmente cheguei, naquele ponto, não havia mais dúvida do que estava em minha frente, via a escuridão como se fosse dia. Minha maior rival estava a uma mera dezena de metros de mim.

A Yui estava pressionada contra o fim do corredor, a capitã parecia tentar apontar a espada exatamente na sua posição, segundos faltando para atacar.

—Como ousa se passar por um membro da minha tripulação e me distrair assim? Eu sei onde o garoto-demônio está, sei que não é em lugar nenhum por aqui.

Ela parecia ter conseguido enganar a capitã, mesmo se por apenas alguns segundos. Agora, tinha de intervir no mesmo momento de a encontrar, ou o resultado do truque acabaria sendo de mais uma alma perdida

—Capitã! Eu estou bem aqui. Vamos acabar com isso de uma vez por todas!

Depois de ter dito isso, o destino havia sido selado.

Naquela batalha, naquele mesmo canto escuro do navio, o resultado da guerra travada pelo último mês seria decidido.

Sem a capitã, não deveria haver ninguém com a força e o carisma suficiente para manter liderança dos corsários, eles virariam história.

Quando morresse... não queria imaginar o que restaria para os meus aliados.

Minhas presas estavam prontas, eu tinha as mãos na forma de garras, mesmo com uma parte perdida, eu ainda podia lutar.

Ela se virou para mim, mesmo na escuridão quase absoluta, ela parecia saber exatamente onde estava, me encarava como se visse claramente a cor dos meus olhos.

“Talvez ela esteja percebendo... tome cuidado, também lembre que essa visão é minha, quando me separar de você, ela virá comigo”

Saber disso realmente mudava como pensava em lutar, quando ela saísse, minha própria capacidade de lutar cairia drasticamente.

Não poderia mais ver no escuro, ficaria mais fraco, também não poderia eu mesmo tentar tomar o sangue dela.

E a Alice também não seria mais forte que ela quando se separasse, a vantagem de força que temos juntos é muito estreita, meramente suficiente.

Preparei meus punhos, faltava mais um passo para estarmos no alcance de um ataque um do outro. Quando ele fosse dado, a batalha seria decidida.

Ou eu seria cortado ao meio pela espada que ela empunhava, ou ela teria seu sangue tomado por mim até a última gota.

—Garoto-demônio, quais são suas últimas palavras?

—Você já disse o porquê de ter feito tudo isso, era apenas pelo mau, sim? Só queria ganhar mais poder pelos seus métodos absurdos?

—Exatamente, tudo isso era apenas um plano para atrair o instituto, os heróis, então os matar, se não viessem, meu plano já contava como mataria eles em uma ofensiva, infelizmente... você chegou um dia antes do nosso plano começar, sabe o quão frustrante isso é? O quão divertido teria sido os atacar? Hahaha...

—Mais uma coisa. Por que você me chama assim?

—Só isso? Hum... pois não sei seu nome, ao mesmo tempo, é isso o que você parece, sua existência é a coisa que mais me irrita nesse mundo! Nunca pensei existir alguém capaz de sobreviver a meus ataques, mas você... no navio, quando capturei seu amigo, enquanto o perseguia... de novo, de novo e de novo! Você continua fugindo de meus ataques! Minha lâmina perdeu o fio, meus braços parecem ter perdido a força... por sua causa! Eu mal consegui matar aquele garçom inútil!... Por isso... eu vou ter de acabar com sua vida, aqui, agora...

Ela empunhou sua espada, com sua máxima capacidade, no ponto onde a arma podia ser tratada como uma extensão de seu corpo.

—Não há escolha mais, vamos.

O primeiro passo...

Seria o meu.

E quando o som de meu passo se propagou por todo o recinto, ela desapareceu, mesmo meus olhos que viam o escuro como se fosse plena luz, por um instante, não conseguiram mais a ver.

No outro instante, ela já estava em minha frente, com uma mão, descendo sua sourukatta para um golpe que iria separar um terço do meu corpo do resto.

Só tinha um atributo o qual ganhava dela, se ignorasse minha vitalidade, claro.

Com minha mão direita, segurei o punho dela, o golpe parou no mesmo instante, ela não poderia o continuar, não seria como da última vez, mais ainda...

Pois com a outra das minhas mãos, a joguei e consegui envolver meu braço ao redor de seu pescoço, nessa ação, em seguida eu saltaria e lançaria minhas presas diretamente ao pescoço dela, sugando todo o sangue que fosse possível.

Entretanto, devia ter imaginado como ela se defenderia.

Ao pular, ela usou sua perna, fazendo um chute no caminho por qual iria atravessar.

Com isso, a lâmina colocada do salto entrou em jogo mais uma vez, por sorte ela não rasgou meu rosto ao meio, o virei e aquilo se tornou apenas um corte profundo da minha bochecha até a minha orelha.

Então, com outra perna, ela me chutou.

Fui forçado a desprender as duas mãos, ela não pode continuar seu golpe, seu próprio golpe havia me lançado para longe de seu alcance.

Outra vez, bati de costas em uma parede, mas dessa vez não havia tempo para pensar em o quão ferido estava, isso não era nada para mim, portanto cai novamente, com ambos pés no chão.

—Alice... você vai ter de agir... logo...

Me mantive estático, havia feito uma suposição própria, conclui, claramente, ela não tinha como enxergar no escuro como eu, isso mal fazia sentido, mesmo para uma pessoa extraordinária assim.

O olhar levemente perdido, ela não ter avançado também.

Se mantivesse distância, não poderia ser atacado, entretanto, para mim, isso também significava não poder atacar.

Para aproveitar essa leve vantagem, só poderia tentar atacar de um ângulo diferente, como fiz com os corsários, assim pensei.

Comecei a correr normalmente, uma disparada na direção da capitã.

Entretanto, ela não se moveu mais, manteve sua espada pronta na minha direção, fiquei pensando se ela havia sequer notado minha aproximação, parecia não ser o caso, ao mesmo tempo...

Tomar um risco desses seria estupido.

Com um pulo, me joguei para uma parede, por um instante que meus pés tiveram contato com ela, fiz outro movimento de um pulo, na direção da capitã.

Ainda assim, apesar de pensar ter desaparecido para ela, ao não fazer mais sons pelo chão, cortando a distância que sobrava em metade do tempo esperado, ela ainda assim...

Olhou para minha direção, mas não em meus olhos, então ergueu sua espada naquela direção, se preparando para fazer um corte.

—...!

Quando tocasse a espada, seria partido em dois, não havia dúvida disso, contudo eu não tinha nada para mudar minha direção pensei em tentar chutar a arma ou socar a mão dela, quando isso tudo veio, no entanto, já não tinha tempo para nada...

Exceto...

Tudo ficou escuro por um instante, só via silhuetas.

No outro instante, quando voltei a ver normalmente, a capitã estava atacando uma direção a qual não tinha sinal de nada, algo como noventa graus da minha direção, fazendo um golpe no ar.

Pensei ser minha chance, ela tinha dado as costas para mim. Dessa vez usei minhas duas mãos, cada uma sobre um ombro, consegui um apoio firme nela, a encarei por um segundo, olhei onde devia.

Lancei minhas presas.

Senti pele sendo rasgada, a ponta das minhas presas fazendo contato com algo além de pele, além dos músculos ainda.

Uma gota de sangue caiu no chão

Não mais que isso.

Antes de poder me fixar, toda minha orientação foi alterada, ela ia fazer uma manobra para direcionar todo o peso do meu corpo para longe dela.

Normalmente, pensei não ser o suficiente aquilo, seguraria com meus braços, minhas presas e não deixaria minha chance ser perdida...

Isso é, se tivesse uma escolha.

Não apenas aquele balanço, o navio mudou sua direção, o chão chegou a ficar pelo menos trinta graus em relação ao mar por alguns instantes, com algum estrondo, acompanhado do som de vidro caindo ao chão e despedaçando por todo o navio.

Essa direção, era também para onde fui jogado.

Não apenas voei para onde ela me lançou, como continuei caindo e rolando até chegar ao lado oposto do corredor, a Yui se encontrava na mesma, havia chegado ao meu lado com o balanço.

Enquanto o navio lentamente voltava ao normal, meus pensamentos corriam.

—Alice... você me deu aquela chance... mas não posso fazer nada... acho que ela é realmente fora do que posso lidar... eu não queria me render ainda, porém não consigo imaginar a vencer sem perder minha própria vida...

Quando havia chegado a alguns segundos de tomar todo seu sangue, um milagre, não, um desastre ocorreu e minha chance foi tirada, pensei que minha própria sorte pudesse anular a dela, entretanto, esse claramente não seria o caso.

“Continue tentando, estarei contigo até o fim, seja bom, ou não, tente teu máximo, será a única exigência de minha parte”

—Entendi...

Me levantei outra vez, só havia tomado alguns ferimentos leves a ponto de para mim, serem ignoráveis. Isso deveria continuar.

Quando o navio se ajustou outra vez, a mais de uma dezena de metros de distância, encontrei a capitã novamente, mas dessa vez...

Havia algo estranho.

Não entendi de imediato, mas era a sourukatta, a espada a qual ela sempre carregava, parecia ser fonte de boa parte de seu poder.

Estava... diferente.

Ainda era uma lâmina curvada, mas parecia ter um alcance sem igual, nunca havia visto uma espada que parecia poder cortar alguém a mais de dois metros de distância, era absurdo.

E ainda assim, a ponta não entrava no caminho daquele corredor, a curva parecia ser exatamente o suficiente para impedi-la de parar a capitã, a mesma ainda mal parecia notar a diferença, empunhando como se o peso dela não tivesse um grama diferente.

Seria outra arma? Uma totalmente diferente, ou talvez a mesma com outra lâmina? A sourukatta talvez... tivesse mudado sua própria forma? Como...?

E o brilho lunar dela continuava e se estendia por todo o metal, me dando o sinal de ainda ser tão perigosa quanto antes.

—Isso... antes já era difícil atacar graças ao risco de ser acertado e partido ao meio... assim... nem sei como posso a atacar sem ser interrompido pela espada mais...

“Pense, ao menos dessa vez, pense. Tu tens bem mais do que as capacidades de um único humano a teu dispor”

Apesar dessas palavras não terem o poder de me tornar numa pessoa esperta de imediato, elas me lembraram das palavras de uma pessoa assim.

Uma coisa o qual o Ritte havia me contado, uma ideia a qual não tivemos tempo de testar, porém uma a qual tentaria agora mesmo.

—Se meu poder é sorte, vou confiar nele...

Fechei os meus olhos, com a audição que tinha, conseguia saber que a capitã ainda estava bem em minha frente, apenas algumas dezenas de metros nos separavam e nessa direção, eu disparei.

Enquanto corria, não tinha ideia do que acontecia, apenas tinha uma ideia vaga da colocação da capitã, mais as vagas dicas dadas a mim pelo ambiente.

Uma delas, uma parecia mais importante.

O som do ar sendo cortado, um som que só existia por um instante, em seguida era substituído pelo som de metal colidindo com madeira, a qual era por sua vez deixada em pedaços pelo golpe feroz dado. Tudo isso eu ouvi como se estivesse a menos de meio metro de mim.

Então, com ambas mãos estendidas, eu pulei na direção da capitã.

Daquela vez, novamente, senti na ponta de meus dedos a pele, era a mesma a qual havia provado a um segundo atrás, sim, o cheiro do sangue era diferente de qualquer outro agora.

Mesmo assim, só o senti por um instante.

Em mais alguns segundos, aquela pele rapidamente deslizou pelos meus dedos, quando vi, uma distância ainda de mais vários metros haviam sido formados entre nós dois.

Finalmente abri os olhos, o que vi foi a capitã a metros de mim, ela ainda segurava sua espada, dessa vez com ambas mãos, mas também, o primeiro sinal de que ela havia perdido algo.

Vários arranhões, cortes finos, mas profundos em ambos ombros, o padrão de o ombro do que seria meu lado esquerdo só ter duas linhas não deixaria dúvida, eu havia conseguido fazer isso.

No chão havia algumas gotas de sangue, eu tinha chegado perto, perto de fazer um ferimento de verdade.

Apenas isso...

Ela ainda estava se movendo como antes, não havia sinal algum de perda de equilíbrio, ela mal parecia incomodada com aqueles cortes, ainda segurava a espada firmemente.

Dei um passo para trás.

“Tive de arriscar minha vida para fazer um corte tão patético assim? Se cada vez que precisa causar qualquer dano nela, por mínimo que seja, houver um risco desses... até eu percebo...”

Aquela batalha não poderia terminar com uma vitória.

E ainda assim, já que não tinha escolha, precisaria continuar.

O resultado, eu estava no exato mesmo ponto, meus olhos não tinham brilho algum, e havia um corte após a espada ter atravessado minha perna, de um lado a outro, a ponto de mal conseguir a mover. Ao olhar outra vez, notei outra perfuração, quase tão profunda quanto, em meu peito dessa vez.

A Alice havia se escondido longe de mim daquela vez, porém ao ver os dois cortes sobre mim, notei ela rapidamente se recolhendo e começando a tentar me consertar.

Contudo, a capitã estava a apenas dois metros de mim, podia atacar a qualquer momento, me finalizar enfim.

“Se salve!”

Tendo essa ordem, usei ambos braços, mesmo o com dedos dilacerados, então me joguei para o lado, a única chance de escapar.

Rolei escada a baixo, batendo minha cabeça pelos degraus, engolindo o próprio sangue, quebrando mais e mais ossos.

Ainda assim, tinha conseguido alguma distância, era tudo o que havia tentado.

Já estava morto, verdadeiramente, definitivamente, não um meio-morto, meio-vivo, dessa vez, o resto de vida em mim era apenas a chama de uma vela a qual havia queimado já por mais de um dia, bastava um sopro...

E o som dos salto-alto batendo nos degraus era de quem iria acabar com ela.

Como um último esforço, o brilho antes de minha vida se dissipar sozinha.

“Mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco...”

Só precisava me levantar, isso foi um pouco difícil demais, mas não como deveria.

Para mim, os golpes que recebi já deviam ter me matado, mas... não era o caso, a dor estava um pouco... vazia, minha pele não queimava, senti minha carne ser rasgada e a força do corte sendo aplicada, enquanto da última vez a lâmina havia passado por mim como se fosse papel.

Consegui me pôr em dois pés, me jogando contra a parede e quase escorregando de volta ao chão, porém, só aquilo devia bastar.

E havia... algumas pessoas com quem pensei em falar, pelo pequeno comunicador em meu ouvido... eu disse:

—Ritte... Queen... Une... não sei se estão ouvindo isso, mas... eu não vou deixar nossos esforços serem em vão... não acho que poderei voltar com vocês... ainda assim... eu vou levar a capitã junto comigo...! O sangue dela...

Desconectei meu comunicador, minha visão voltou a focar na minha rival, por último...

—Quando eu morrer...?

“Irei absorver teu corpo, teu sangue, vossa alma, tudo vira a mim, com isso... poderei recuperar minha forma original, essa humana não será mais que uma comida ambulante”

Certo.

Era exatamente o que esperava ouvir.

Havia dito o que precisava para os meus amigos, ao menos, imaginei ter dito, eu sabia o que aconteceria depois de morrer, então...

Não seria uma boa morte. Eu não iria em paz, iria pensando em tudo o que havia falhado. Não ser forte suficiente para derrotar a capitã, abandonando a vampira em minha sombra, meus amigos e todos que conheci na cidade.

Sequer deixaria um corpo para a Kutt estudar, não poderia cumprir minha promessa ao Nacrit, ou fazer algo pelo Louis.

E mais... como deixei a Roi morrer.

Não estava feliz em partir, meus desejos não tinham se realizado.

Pensei...

“É só minha obrigação, se não o fizer... ela continuará viva, se isso acontecer...”

Sabia não ser o que queria.

Mais uma vez, cerrei meus punhos, pôs um pé à frente do outro, uma pose de combate, a mesma de sempre, nada especial. Ao mesmo tempo, o meu melhor estava ali.

Olhei para a capitã, logo antes de pensar em dar mais um passo, em entrar no seu alcance.

Nesse olhar, sabia sem dúvidas.

Assim que andasse, no próximo passo, eu iria morrer.

—Você me esqueceu? Absurdo.

No canto do meu olho, me encontrei com um par de orbes negras que pareciam olhar para todos os lados ao mesmo tempo, alguém que, mesmo coberta por bandagens, com ferimentos abertos e ainda sangrando, não parecia fazer esforço alguma se mover.

Leve como uma pluma, mas cheia de vida, falando em frases monossilábicas, mas pela primeira vez, ela tinha uma expressão clara em seu rosto.

Raiva, sobrancelhas arqueadas e olhos espremidos, mesmo no escuro ela olhava diretamente para mim.

—Nem pense em se rebaixar mais. Falei para nunca mais tomar o sangue de alguém.

—Roi...?

—Jack! Cuidado!

Essa voz não vinha de ninguém que via, mas era uma voz que reconhecia

Por instinto, ao ver um brilho no canto do olho.

Meu corpo se dobrou para trás, joguei metade dele para baixo e pôs minhas mãos no chão, assim vi a capitã fazendo um corte na horizontal, a lâmina quase me cegou só de passar perto de meu rosto.

Fiz outra manobra, usando os braços para levantar todo o corpo e as pernas para o impulso, recuei para as escadas de onde as duas surgiram, melhor, três.

Ritte, Franziska, os dois irmãos e...

Roi...

Quando entendi quem via em minha frente, meu desespero se dissipou de minha alma, meus pensamentos, minha visão, todos os meus sentidos voltaram a ser claros.

Não havia nada atrapalhando meu julgamento, lembrei a que viemos.

—O que aconteceu afinal, Roi?...

—Um barco, entraram no navio por um barco, me viram flutuando e a Franziska me ajudou.

Ela era uma enfermeira, afinal, suas habilidades eram sobre curar pessoas, não sobre atacar, isso era o que eu fazia, tudo que fazia, imaginava assim.

—CAPITÃ!!! CHARLOTTE!!!

Essa pessoa, quem só podia curar, ao subir o último degrau, ela gritou pela nossa rival, com um tom que nem a imaginei o fazer.

Mas ao olhar para o rosto do Ritte, ainda subindo as escadas, seja o que fosse... isso era um plano. Os olhos dele falavam isso.

Dentre nós quatro que estavamos naquele recinto, eu só podia imaginar eu e a Roi estando na frente do campo de batalha, em meio a chuva de aço, porém... na realidade, quem se intepunha, quem estava de frente a vilã que matava sem remorso, em um instante...

Era a Franziska:

—Você perdeu! Mesmo com um golpe baixo, você ainda não conseguiu matar nenhum de nós!! Seus reféns não serviram de nada! Sua tripulação foi derrotada! A sorte que você tinha acabou! Não tem mais nada!

Pare! Você também está na lista agora...!

Após gritar tanto, tudo o que vi em resposta foi a capitã indo de volta em nossa direção, a lâmina ainda distorcida naquela forma estranha.

—Nós sobrevivemos no navio, contra seus corsários, quando veio a nossa casa, mesmo quando nós estávamos em seu território! Isso não é diferente! Agora é o seu fim!

Agora a vi encarando a Roi, seus olhos expeliam a intenção assassina que ela tinha, um ódio não vindo de um humano, alguém que podia matar sem hesitar. Essa era a nossa rival sem dúvidas.

Dessa vez, o último combate era inevitável.

Entretanto... assim que a Roi ameaçou pegar sua arma, pôs meu braço em sua frente, dei um passo a mais.

—Roi... você está ferida, eu acho que posso acabar com ela agora...

Em resposta, minha voz foi ouvida e ela recuou.

O que vi, na minha visão provida pela rainha da escuridão, era uma visão clara da capitã, o que ela tentava esconder ao ficar nas sombras, o motivo do seu rosto parecer lentamente sumir das memorias de outras pessoas.

Em meio a lentos passos, seus olhos estavam perambulando por toda a área, seu rosto ia de um lado a outro em o que pareciam ser curtos espasmos, sem motivo aparente. A forma dela segurar a sourukatta estava diferente, parecia haver perdido alguma técnica.

Parecia que a qualquer momento ela poderia deixar a própria arma cair de suas mãos, naquela situação, eu vi uma chance, mesmo que ainda fosse baixa, de vencer.

Não haviam mais palavras a serem ditas.

Eu disparei contra ela.

A resposta foi um corte na vertical, com objetivo de me partir em dois pedaços simétricos.

Mas, ele foi... previsível. Antes ela lutava como se realmente tivesse aprendido a se mesclar com as sombras, mesmo a vendo perfeitamente, até o último instante, não tinha ideia de como seria atacado, dessa vez... até o último instante ela não tinha se movido, até repentinamente lançar um corte na vertical, indo do teto ao chão em um décimo de segundo, porém... isso só parecia óbvio, a lia como um livro, talvez por a ter encontrado diversas vezes, ou finalmente suas sombras e truques haviam perdido efeito.

Quando dei um pulo curto para o lado, ela tentou mudar a direção do ataque, girando a espada.

Isso ainda, foi como imaginei.

Com o bastão da Roi, eu desferi um golpe, não para ela diretamente, um curto balanço na vertical contra a lâmina.

Ele quebrou em uma explosão de faíscas que iluminaram o corredor por um instante, no qual foi visto a espada se redirecionar ao chão.

Havia usado toda minha força naquela defesa, ainda, restava mais um pouco de tempo, uma brecha para minha vez de entrar na ofensiva.

Ao alcança-la, havia entendido.

Os dois haviam entendido, parte do que a fazia tão implacável era sua sorte sobrenatural, não havia como negar isso mais. Então... como ela disse...

Se havia uma fonte desse poder, eram os atos malignos cometidos por ela, como se tirasse energia disso, ao desfazer os reféns, ao salvar uma vida a qual ela tentou tirar.

Essa força, em retorno, foi retirada. Assim que isso aconteceu, sua calma, suas técnicas haviam se perdido em meio ao desespero, ao ódio, o sentimento de ter algo que sempre lhe acompanhou ser tomado pelo seu maior inimigo... eu conhecia esse sentimento agora.

Quando a alcancei, meu punho direito foi envolto de toda a força que podia, minha regeneração parou por um momento, meus olhos deixaram de enxergar, eu não tinha mais sombra ou reflexo, entretanto, não precisava mais disso.

Meu punho cerrado se conectou a ela em cheio no abdômen, assim que voltei a enxergar, eu vi o quão longe poderia ir, ela havia voado poucos metros para longe apenas com um golpe meu.

Pela primeira vez, ela havia caído diante de um de meus ataques.

Deixei o ar em meus pulmões sair por um momento, vagorosamente agora, eu andava na direção para onde ela havia parado.

—Você perdeu... está na hora de acabar com isso...

Ela se levantou, mas agora, isso não me incomodava, a derrubaria mais e mais vezes, até não haver mais respostas.

—Garoto-demônio...! Eu não perdi...!

“Estou ouvindo algo... passos leves...”

—...!

Havia duas crianças, um casal de irmãos descendo as escadas, de alguma forma, eles haviam apenas chegado agora.

Sem que tivesse espaço para protestar, ela segurou um deles pelo ombro, derrubou o outro e pressionou seu pé contra, o imobilizando no chão.

Aquele que não estava caído, teve a sourukatta pressionada contra o pescoço.

—Ainda diz que a sorte me abandonou? Hahaha... HAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAH!!

Novamente, era como se as sombras ao meu redor ecoassem a risada insana que ela vocalizava, a forma como seu poder parecia ter retornado, a situação novamente virada a seu favor...

“Como posso derrotar alguém assim...? Mesmo agora... ela ainda consegue sair da situação em que estava...”

Eu pensei sozinho, novamente tendo de temer o próximo movimento de Charlotte.

—Solte os dois! Covarde! Nem pense em tentar usar a vida deles como moeda de troca! Quando você tentar fazer algo... já terei minhas garras no seu pescoço!

Ela em retorno... sorriu levemente.

—Realmente... é melhor eu acabar com esse aqui logo!

Podia ver a cena se repetindo em minha mente...

Em um instante, a lâmina atravessou de um canto ao outro do corredor, o garoto que estava nas mãos dela, foi jogado de lado, como se fosse uma arma sem valor, algo gasto e que já não tinha uso para ela.

A capitã trouxe a garota para tomar o posto anterior, puxando seu pescoço para a ponta da lâmina de sua espada.

Novamente, com um sorriso que ela tentava segurar, falou:

—Você continua falando sobre “viver” tudo em vão! Para me vencer, você tem de aprender sobre matar! Entendeu? Hahaha...

De certa forma, ela havia feito algo “certo” as forças que a ajudavam lhe deram uma chance, ela pagou na moeda medonha deles.

—Isso... isso não está certo!

Por outra vez, eu disparei contra ela, aquilo não podia ser certo, não era assim que devia uma troca ser feita.

Com a última tentativa dela de manter sua superioridade em luta, havia entendido o que era aquilo, a forma de lutar, ganância, ela era a personificação disso, ela tirava a vida de outros em nome de mais poder para si.

E a única forma de lutar contra isso, é com caridade, não tirar algo de outra pessoa, uma troca jamais poderia ser assim, quando se faz isso, a única pessoa que pode perder algo... é si mesmo. Isso é sacrifício.

Quando ela percebeu que não pararia, imediatamente soltou a garota, preparou para fazer outro corte, dessa vez...

Apenas continuei.

Pedi desculpas a Roi, esperei que ela pudesse me perdoar por isso.

Apenas para compensar o que havia se perdido, não mais que isso.

Com uma mão, consegui me segurar nela e fincar ambas presas em seu pescoço o mesmo ponto de antes.

Mas... algo estava errado, o sangue não parecia vir, logo após notar isso, eu fui lançado de volta ao chão.

“Como?... Eu devia ter mais força que ela, eu usei meus dois braços, eu...”

Foi quando percebi, minha visão estava escura, não podia ver nada mais, me sentia tão fraco quanto antes, enfim, percebi o que houve.

Olhando para o que não estava mais lá, ao virar para minha esquerda:

RAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

Com um golpe.

A lâmina se conectou ao meu braço, ele queimou e se partiu só de encostar com aquela espada, agora havia um corte limpo pouco além do meu ombro, antes, onde meu braço estava.

O fogo queimou e queimou, minha existência, por um instante, ela foi apagado por completo.

Com uma forte labareda, minha alma se queimou até apenas haver pó, o meu eu foi removido por completo pelas chamas indo além do corpo, a dor podia ser intensa, ela não me deixava pensar, mas meus instantes em que não existi... pensei haver morrido definitivamente lá.

No entanto, como antes, as chamas se apagaram repentinamente, eu voltei a viver, encarando novamente o que, a pouco, deveria ser meu braço...

De lá, apenas havia sangue se derramando agora.

No entanto, aquilo não era meu fim, havia morrido e voltado, isso era o destino e ele não deixaria aquele novo começo a nova vida ser extinguida daquela maneira.

Quando vi, o meu sangue estava se derramando precisamente sobre algo, o que antes era uma casca vazia, um garoto que a vida foi tirada violentamente, repentinamente.

Porém, aos poucos, via alguns sons, movimentos vagos, eu havia aprendido muito sobre a diferença de algo vivo e algo morto.

E para mim, o som que voltei a escutar, de um coração voltando a bater, isso era um sinal mais claro do que o sol.

O sangue que havia perdido, o sangue dado para salvar a garota iria também salvar seu irmão. Assim que se espalhou pela ferida, lentamente se dissolveu, ou melhor, foi absorvido e a fechou como se nunca estivesse lá antes.

—Jack!

Não podia ser melhor, a Roi tinha vindo até mim, ela chegou um pouco perto demais do que sobrava de meu braço.

—Roi... vamos continuar...

Olhei para uma silhueta em meio a escuridão, paralisada, olhando enquanto os outros dois se uniam a nós.

—Tudo o que você tentou falhou! Eu salvei o garoto também!... Ele está são e salvo! Sua última chance foi essa! Charlotte! Você vai pagar pelos seus crimes!

Não cheguei a pergunta-la, não havia tempo, ela estava próxima, portanto meu sangue apenas estava caindo sobre ela.

E naquele ponto, já sentia minha consciência se esvaindo.

—Roi... acho que você deve estar melhor agora... pode segurar ela só um pouco?

—Hum...? Como...?

Ela parecia ter notado que seus ferimentos haviam sumido, talvez pelo corpo ter voltado a seu peso de antes, talvez um surto de vitalidade.

—Certo, eu vou.

Ainda... existia mais um trunfo, algo para equilibrar a situação.

—Ritte! Luz!

Quando falei isso, o corredor se acendeu, era apenas uma lanterna bem forte, mas meus olhos queimaram um pouco ainda, vi assim, a situação finalmente parecia ao nosso favor.

A Roi havia perdido qualquer sinal de que um dia havia se machucado, enquanto a capitã estava enfim nas ultimas, ela tinha os cortes que havia executado, sua postura estava ainda mais fraca do que quando a enfrentei mais cedo.

E naquele dia, cada um de seus truques, a escuridão, sua sorte, todos eles haviam sido perdidos e jogados ao abismo, a Roi... ela sabia muito bem qual seria o resultado de a enfrentar:

—Renda-se. Vilã.

Ela falou isso, puxando uma cimitarra, uma que ela devia ter tomado de um dos corsários no deque do navio.

Mas não iria ter mais uma luta, eu não via em canto algum a sourukatta, a espada que parecia ser uma extensão do corpo da capitã.

Em vez de ir em frente, ela deu passos para trás, então virou-se de costas e começou a subir escadas.

—Volte aqui!

—Não tente escapar! Eu vou acabar com você

Me levantei.

—Jack! Espere...!

Tive de ignorar o grito da Franziska, eu não podia deixar ela fugir de forma alguma.

Mesmo que vagorosamente, com um de meus braços perdidos, ainda corria apenas um pouco mais lentamente do que a Roi, poderia manter aquele passo pelo tempo que fosse.

A perseguimos por todo o navio, passei pelo meio do intenso combate ocorrendo pelo deque, ela tentou subir pelas cordas e escapar, ainda assim, a Roi dava pulos habilidosos sem medo, eu usava meus dentes e meu único braço para continuar. Até o topo do navio.

Quando alcancei um chão, as duas haviam chegado até a borda, se equilibrando pelas hastes que mantinham as velas do navio, mesmo com o balançar intenso causado pela luta, nenhuma das duas parecia próxima de perder o equilíbrio.

Ainda assim, a capitã parecia estar encurralada, a um passo de cair ao mar, enquanto a Roi cuidadosamente andava em frente.

—Sua jornada acaba aqui, vilã.

—Ah...! Cale a boca! Pare de falar! “Isso acaba aqui” “Sua jornada acabou” A única coisa que acabara aqui vão ser suas vidas! EU vou continuar! EU vou viver!

Roi deu mais um passo...

—Pois minha natureza!... É sobreviver! Hahaha...

—...! Nã... Não!

Como se outra cena se repetisse, vi o corpo de Charlotte pendendo para trás, ela lentamente se virando, seu corpo mudando de centro de gravidade, sendo puxada lentamente pela terra.

Em seguida, após ela desaparecer de vista, o som de uma pessoa batendo contra a água.

De uma forma ou de outra, a capitã havia sido derrotada, a batalha, vencida.

Sem o resto de energia que sobrava em mim, a convicção que tinha em persegui-la até os confins do mundo, sucumbindo a perda de sangue, ainda tentava continuar consciente, até...

“Você fez muito bem. Espere ansiosamente tua recompensa, meu servo”

Com esse sussurro que me dizia ter feito o certo, contando como a batalha já havia sido vencida e meu trabalho havia terminado... enfim, eu me deixei cair em sono... a ultima coisa que vi... foi uma intensa luta de tantas, tantas pessoas que eu nunca havia visto, elas presenciaram a derrota da capitã, eles também, levariam a derrota de todos aqueles corsários...