Epilogo

Sonhando com Vidas

Era um sonho.

O que vou contar não é nada mais que um sonho.

Um sonho onde minha convicção foi testada, o quão disposto a viver ainda estaria.

Estava difícil de entender o que acontecia, foi um pouco... abstrato demais, um pouco vago, havia um tempo desde o último sonho desses e quando veio, mal pude compreender o que via.

O dia estava claro, não havia uma nuvem no céu, minha visão movia-se rapidamente, mudando sem parar, eu parecia estar caindo, mas sendo um sonho, talvez fosse o céu que estava subindo?

Quando vi, havia sido engolfado por água, havia aterrissado no meio do mar, meu corpo inteiro, cada pedaço que tocava em água, um corte se abria, um osso se quebrava e minha vida, pouco a pouco, se perdia.

Ao ver como me encontrava, sabia.

“Eu não posso morrer aqui. Isso ainda não acabou... ninguém pode me derrotar! Eu nunca vou perder! Nunca, nunca posso morrer!”

Foi com isso, parecia ter logo sumido com cada sinal de dor, então, com ambas mãos, atravessei a água, não conseguia ver a superfície, o oceano parecia apenas se estender infinitamente, sem vida, sem pedras, nem parecia mais um oceano, só escuridão, mais e mais, para todos os lados.

Mesmo com isso, algo dizia para mim que havia uma chance de sair de lá, uma chance minúscula, nela me agarrei com todas as forças. Com ambas as mãos e toda minha força, mais do que toda minha força, eu continuei me empurrando em frente, o cenário não mudava, sentia estar me movendo, contudo, ainda não temi.

—Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca...

Como um mantra, minhas palavras ressoavam claramente, mesmo em meio a água. E elas continuavam a me dar forças.

Esse esforço, a luta não acabaria logo, passaram minutos, dezenas deles, então horas e horas... meus pulmões não funcionavam mais, estavam apenas cheios de água, minha visão havia se perdido, todos meus outros sentidos eram agora só sensações distantes, essa era a sensação de morrer.

Mesmo com isso...

—Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca...

Continuei a falar isso, mesmo com minhas cordas vocais já terem sido danificadas a ponto de que falar deveria ter se tornado uma tarefa impossível, no entanto, o mantra continuava, já não era uma escolha, esse mantra continuaria com ou sem mim, estava além do meu corpo.

Assim, aquele mantra era a única coisa que me dava energia naquele momento, minha última fonte de energia, a última chance de sobreviver,

—Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca...

Mesmo quando não ouvia meu coração bater, havia parado de respirar a tempo, minha mente já vazia, o mantra continuava, com ele, como se fossem ordens, minhas pernas repetiam o mesmo movimento de novo e de novo, meus braços jogavam o corpo em resposta, no mesmo ritmo de antes, mas sem sincronia, um esforço que por várias vezes era negado por si mesmo, pela coordenação caótica, mas ainda... continuava.

Um pouco do mundo ao redor mudou. A água infinita havia mudado. Mas sem sentidos sobrando, eu não tenho ideia de como.

Dia 24 de julho.

Quando abri os olhos, rostos que eu não podia esquecer me rodeavam.

Estava sentado no chão, sobre a madeira quente do navio, com a minha camisa rasgada e cada ferimento que consegui expostos, o sol, entretanto, ele já se punha, me via exatamente sob a divisão, na minha direita, sem dúvidas, o céu havia ganhado um tom rubro, na minha esquerda... um azul tão ou mais profundo que o mar nos circundando.

Nas minhas costas, agarrando em meu corpo e me suportando como estava, podia ver pelos fios de cabelos, no canto do meu olho, uma cor que não podia dar nome.

—Une... obrigado por tudo... ainda bem que consegui falar isso, suas tranqueiras foram mais uteis do que eu esperava...

—Shh... só fique parado, calado também se possível.

Ela repousou a mão sobre meus cabelos, seu rosto no meu ombro, eu não quis responder.

Vi na minha esquerda, onde já não havia nada além de um resto do meu braço e várias ataduras, antes brancas, mas que haviam ganhado uma coloração de um vermelho escurecido.

E lá, um dos meus maiores aliados, mesmo quando não estava fazendo exatamente o certo, ele aceitou minhas decisões, apesar do cachecol velho e o cabelo idiota... ele estava limpando algum corte que havia pego por pouco no meu ombro.

—Ritte, você me salvou também... suas ideias, sua convicção é bem mais impressionante que a minha, se fosse como você... isso não teria acontecido...

Tentei, mas não tinha como mover meu braço mais...

—Ei... você pode curar isso também, né? Tu peux e... o seu braço, ele virou vapor, pareceu ter sido absorvido pelo chão, isso é porque você só vai criar um novo daqui a pouco, né...?

—Não posso. Eu sou só um pseudo-vampiro... minha regeneração apenas serve para cortes superficiais, mesmo para isso, ainda demora um pouco. Isso é além dos meus poderes...

Ritte caiu em silêncio, mas colocou a mão em um de seus bolsos e mostrou...:

—O braço se foi, mas le montre...

Meu relógio de prata, ele havia recuperado ele ainda. Não pude deixar de sorrir.

E na minha direita, com os cabelos soltos ao vento forte, contrastando o escarlate com o leve tom dourado, intensamente fazendo curativos e pondo tudo que tinha em seu domínio, o domínio de curar, o da vida.

—Franziska, você não precisa se esforçar tanto, eu posso me curar sozinho, esses cortes devem sumir até o final da semana.

—Você lem* digo, tem de nos deixar fazer algo por você também, já cuidou de nós, queremos ajudar você também, seulement ça.

Não podia negar... estava feliz, tudo aquilo, apesar do que perdi.

Talvez tenha sido por aquele momento que estive vivendo até lá, não para morrer pouco antes, não para ser derrotado por um vilão qualquer, estava aqui para esse momento de paz...

E ao lado da Franziska, sentada no chão, de pernas estendidas, uma delas em cima do meu joelho, ainda me encarando firmemente.

—Foi a Roi que acabou com o serviço, vocês deviam dar um jeito nela também, sei que conseguiu alguns cortes e contusões, não foi?

—Eles sumiram... pelo seu sacrifício...

Havia enfim concluído, no fim, havia descoberto, sempre pude fazer isso, essa capacidade sempre esteve comigo.

Todo sacrifício terá um valor, minha dor poderá acabar com a de outros, eu poderei passar por qualquer desafio e cada perda será uma vitória, mas... isso era algo que podia tomar como minha vitória...?

“Tome-a, por favor, esse poder... isso não é o poder de um morto, nunca pude fazer algo assim, também não trata-se da capacidade de um vivo, claramente, é uma vitória apenas tua, algo que vosmecê somente pode o fazer”

Com todos os aliados que estiveram comigo desde o começo dessa jornada, eu deixei o tempo passar, até todo o escarlate mover-se para longe de nossa visão, o céu ser uma obra de arte que mostrava as centenas de estrelas sobre nós, uma visão tão bela quanto me lembrava.

Dessa vez, todos nós deveríamos compartilhar aquela visão, somente nós sabíamos os desafios que havíamos passado, o que ganhamos, colocamos na linha e perdemos... tudo isso era uma visão apenas nossa. Eu não queria isso de qualquer outra maneira.

No entanto, isso não era um fim definitivo, mesmo que não quisesse continuar, eu teria...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.