Ostium: Diamond
23 Capítulo 16
Capítulo 16
Aliado da Lua
Dia 20 de junho.
“Servo, hoje terás de me apresentar, nem pense em falar algo estupido, sequer cogite sair do vosso roteiro, o ensaiamos uma centena de vezes”
—Certo! Certo! Me lembre uma vez, me lembre duas, mas não me lembre a terceira já!
Eu dizia, na mesma caverna de sempre, por enquanto continuava vazia. Os outros chegariam em mais alguns minutos ainda.
Apesar de ela estar como sempre, quando olhei ao redor, parecia um pouco iluminada demais.
—Alice, tem algo estranho... estou vendo um pouco melhor... é algum tipo de visão noturna?
“É uma surpresa agradável teres visto, pois sim, creio poder manter esse tipo de visão por mais uma lua ainda. Graças ao sangue que tomastes do espadachim enferrujado”
—...
Fechei ambos os olhos, não querendo mais ver os detalhes da caverna, os ver me lembraria e... em breve, teria de contar a eles também.
Não podia chutar como cada um deles reagiria ao saber o que havia me tornado, ainda poderia conversar com eles normalmente? Tudo continuaria como estava antes? E depois, e... na escuridão esses pensamentos ruins nasciam.
“Sinto muito, servo, precisas passar por isso apenas pois falhei em manter minha forma, tive de extrair de ti para manter-me nesse mundo. Essa fraqueza uma vez lhe prejudicou e assim continuará, infelizmente... ainda não tenho força para acabar com isso”
—Eu sei. Ainda assim, foi só por causa disso tudo que ainda estou vivo, dentre os males... talvez esse seja o menos pior, você pode falar a todos como salvou minha vida, não tema nisso.
Conclui, não havia de que se arrepender, as escolhas tomadas até agora vinham de ninguém mais senão eu mesmo. Assim seria.
Abri meus olhos novamente, por dentro da caverna estava um breu completo, percebi que podia me impedir de ver bem no escuro.
—Jack? É vosse* aí? Quem está?
—Ritte, sou eu. Ninguém mais. Entre, vou acender uma vela.
Mal via silhuetas do lado de fora, se olhasse para o céu naquela noite, veria apenas um terço ou quase da lua no céu.
“Conforme a lua se esconde, vosso poder segue, se farás algo, diria para não esperares a lua sumir. Terás riscos assim”
Foi o que ela me contou. Mantive isso em mente, cada pingo de força que pudesse retirar deveria ser usado.
Acendi as velas, todos eles estavam lá, eles passaram por mim sem falar muito, bem, exceto a Une...:
—Jack, isso tem algo com sua visita a uma loja de roupas feminina ontem? Eu estava vendo isso pelo meu radar.
—Até isso...? Essa coisa não tem áudio? Tem?
—Se tivesse, não funcionaria mais, estupido, um dia ainda vou te cortar e recuperar meu rastreador.
Ela havia falado isso em sussurros antes de todos sentarmos, pensei se algo poderia ter dado pistas suficientes, mas... simplesmente não era possível.
Quando alguns segundos passaram, resolvi fazer como havia sido instruído.
—Mostrar será mais fácil do que falar... só não percam a calma, ela não vai gostar nada disso.
—Ela?
A Roi perguntou, em resposta, eu me movi um pouco, assim, a luz daquela vela, minha sombra se projetou na parede, ou melhor, quem fingia ser minha sombra.
—...!
Eu imaginei uma reação assim, não era natural, aquela sombra não era minha, sequer fazia sentido uma sombra se mover daquele jeito, mas logo... tudo faria sentido:
—Desculpa a demora. Isso está assim desde o dia 9 desse mês, se lembro bem. Há um sexto indivíduo nessa caverna, uma vampira que me salvou mais de uma vez. Aqui.
Estendi minhas duas mãos para frente, as abri, como se para segurar algo e...
Num passe de mágica:
—Pois sim! Se houvesse fonte para tudo, uma resposta para todas vossas perguntas, sou eu quem as portaria. Num tempo passado meus nomes eram diversos, a Princesa Vampira, Mãe dos Pecados, Grande Mistério, Enigma Sangrento. Agora, entretanto, enquanto me alio a vós, irei por outro nome, um nome vivo.
Ela apareceu, pousando sobre minhas mãos e se equilibrando por lá, não era difícil fazer isso, eu estava muito mais forte do que antes, mas a razão dela me mandar fazer isso... eu não tive resposta.
—Chamei ela de... Alice, eu achei mais fácil, por favor, aproveitem essa chance para perguntar tudo o que precisam.
Imaginei que depois de tudo o que vimos juntos, eles também só veriam a vampira se equilibrando em minhas mãos como outra esquisitice, uma tanto mais próxima, porém apenas mais uma.
Foi quase o que houve, a Une correu para ver o que segurava de perto, enquanto a Roi... ela tinha os lábios torcidos e mal piscava mais...
—JACK! Isso é sério?! Isso é quase como em “entrevista com o vampiro”! Apesar dela não ter cachos...
—Na verdade... melhor, vampira, pode explicar?
A pedi e em sussurros que só ela poderia ouvir, logo ela explicou aquele desentendimento:
—Está forma é apenas uma ilusão, melhor, uma projeção. No momento não portamos mais que um décimo de tudo o que era capaz um dia como uma verdadeira vampira, portanto, assumir uma forma além dessa atual é impossível a mim.
A vampira continuou a os responder, eventualmente cansando de se equilibrar em minhas mãos e pulando para meu ombro. No fim ela os deixaria tão cientes da situação quanto eu, adicionando alguns detalhes para parecer mais impressionante.
“Vaidade soa como um traço vampírico, sim...”
Duas perguntas, entretanto, na verdade, uma pergunta e uma resposta foram talvez um pouco mais importantes do que pareceria.
A primeira pergunta da Roi, uma que só ela poderia fazer.
—Suas presas, então...
—Não tem relação alguma, eu encontrei com a Alice neste mês ainda. E mais...
Como ensaiado, nós dois mostramos nossas presas ao mesmo tempo, ela tinha as presas de uma vampira, as minhas eram apenas uma deformidade, um pequeno erro, eu só nasci meio errado.
E então, para a resposta de uma pergunta da Franziska.
—Jack... o que houve no outro dia então...
—Foi...
Antes de responder, a vampira me interrompeu, com algum poder ela comandou as palavras a pararem em minha garganta, quando continuou:
—Perdoe-me. Vosso corpo havia se ferido além do que minha fraca forma podia salvar. O forcei a tomar o sangue do vilão para o derrotar, também para que pudesse mantê-lo vivo. Em vosso respeito, não tomei mais que o necessário. Apenas o suficiente para salvá-lo.
Ela mentiu, porém nisso, foi quando a Roi perguntou:
—Caso ele morresse? O que seria de você?
Desde que eu fiz essa ligação, isso também era uma questão em minha mente, cada vez em que estava em perigo, essa questão me vinha, contudo, eu logo tentei responder:
—Roi, na verdade, nós não sab...
—Servo, vosmecê não sabe. Deixe-me responder a humana.
—...!
“Como?...”
A vampira continuou:
—Nós temos uma mesma alma, a dividimos igualmente, ou melhor, ambos a usamos por completo, por isso não tenho mais minha forma verdadeira, por isso ele é um quase-morto, quase-vivo imperfeito. E case viesse a perecer definitivamente...
Ela pausou, ouvi seus pensamentos insanamente velozes, em mais alguns segundos de silêncio depois, Alice continuou:
—Neste caso, já que toda a alma pertenceria a mim, pois mortos-vivos não possuem nada assim... voltaria a viver. Ou talvez, poderia usar parte da energia da alma, deixa-la ir e então voltar a minha forma verdadeira.
“Ela não me contou nada disso!...”
—Obrigada. Alice.
—Não precisa agradecer-me, humana. Jamais teria feito outra coisa, nunca o deixaria morrer, se tivesse opção, isso é.
Foi a conclusão que a Roi conseguiu, após isso, ela não falou mais nada.
E numa hora, quando só havia silêncio, parecia ser minha hora de falar.
—Bem... é isso apenas, isso não é uma mudança fundamental, ainda temos de ir atrás dos corsários, também, mesmo com esses poderes de um vampiro, ainda não posso enfrentar a capitã diretamente. O plano de vocês será o mais importante.
—Cheque* digo, Jack... isso é estranho, mas... é como se tivéssemos ganho uma aliada, sim?
Mesmo da Franziska, eu digo que não esperava ouvir aquilo, quem respondeu aquilo precisou ser a vampira, assim que ela notou como estava espantado.
—Se o meu servo está ao lado de vocês, também estarei, é apenas isso e tão simples quanto isto.
Olhei para o Ritte, o pedindo silenciosamente para falar algo:
—Você tem sorte, né? A adição duma vampira não deve ser ruim, non?
A Une tinha bem mais entusiasmo:
—Agora você acredita no que te contei? Essa cidade é estranha, você achou essa vampira no mesmo dia que os corsários atacaram, não foi? É porque estava certa!
—Eu ainda prefiro torcer para você só ter imaginado aquela... coisa...
Tendo tudo dito, a vampira me sinalizou para erguer minhas mãos novamente, eu o fiz e ela voltou a posição de início, acima dos outros:
—Assim os deixo, espero terem limpo suas almas de dúvidas, essa é uma chance que poucos vivos conseguem. Adeus.
Então ela sumiu, novamente entrou no papel de minha sombra.
—Desculpa por não ter contado antes, realmente aconteceu muita coisa, mas isso não é comum de jeito nenhum para justificar, eu estava escondendo, ativamente ainda.
A Franziska se aproximou, um passo a mais do que esperava, por pouco não me assustei.
—Err... mille merci, eu também não saberia o que fazer, nem sou você, mas ainda me falta palavras.
Dei um passo para trás.
—Não é bem algo que se vê todo dia...! Mais, vá pensar exatamente no que isso implica em casa, está tarde, eu...
—Posso levar os outros.
A Roi se ofereceu de imediato, se levantando.
—Nem tive de pedir, mas era essa a ideia.
Imediatamente ela apressou as outras para saírem, mencionando o quão tarde era, os perigos que os corsários poderiam jogar na gente, não foi tanto tempo até apenas...
Não, eu não estava nem um pouco sozinho, não só a vampira estava lá, em minha sombra, como o Ritte também estava lá, era domingo, afinal. Ele já estava indo até o colchão que ele sempre usava para dormir por lá...
—Jack... cansei demais, você não tinha como arranjar menos problemas...? Bonne nuit...
Apesar do que ele disse, eu não acho que ele ia dormir nem tão cedo, em vez disso, Ritte estava pondo frutas e pães em um prato que a pouco não estava lá, ao menos a comida eu lembrava de a ter eu mesmo posto lá.
—Vai querer algumas? Olha, les raisins.
Ele disse enquanto mostrava a cesta, como eu mesmo havia a preparado, havia várias uvas nela, claramente.
—Se pudéssemos fazer suco de uva agora seria bem agradável.
—Eu posso fazer. Só espere um pouco.
O Ritte não esperou nada, apesar de eu não ter certeza do que havia pedido, ele pôs a cesta de volta em seu devido lugar e andou até a “geladeira” que a...
—Vou pegar uma maça sua, Ambrose, não tente me impedir.
A Une, a geladeira que a Une tinha improvisado.
—Err... vai ficar aqui?
—Sim. Tem espaço mais que suficiente.
Apesar de falar com naturalidade, a Une nunca tinha feito isso, até agora.
Olhando bem, a pessoa que havia interrompido a minha descrição, pego uma maça que o Ritte havia guardado para si e resolvido abruptamente passar a noite naquela caverna assustadora... era a Une.
Mais, quando percebi, ela havia se levantado de seu lugar e se aproximado de mim, sentou-se ao meu lado, olhou para cada direção, parecendo checar algo, então perguntou:
—O que você tem com aquela vampira...? Sei que estão numa espécie de ligação especial, mas a forma que ela falou sobre você...
—Une... por favor, isso não é como um filme antigo que você assistiu.
—Mas o que você sente por ela? Alias... ela não pode ouvir isso, certo?
—Humana, claro que posso.
—...!
—Não é educado ser tão invasiva sobre os outros.
Ela havia aparecido em pé dessa vez, em frente da Une, ela parecia ter perdido cor antes mesmo de ter o sangue roubado.
Apesar de estar um pouco irritado por ela não ter me dado tempo de impedir essa situação, eu não hesistei em agir, sabendo que para mim, seria fácil demais de resolver a situação:
—Alice, eu falei que ela é um pouco... err... mais, ela só estava perguntando o que eu pensava. Eu não vejo problema nisso.
Estava trocando para onde olhava conscientemente, apesar de ter falhado em falar mal da Une, senti que entendia melhor como uma vampira de séculos de idade pensava. Senti estar indo bem.
—Hum, então a responda. Desviar perguntas é um ato covarde.
Ela não pôs uma ordem, não me forçou a seguir essa ordem, só usou palavras para isso, a ausência disso era um tipo de mensagem ainda.
Mas, essa era uma pergunta que fui forçado a responder, essa situação em que contei aos meus amigos sobre a vampira, na verdade, havia me forçado a responde-la.
Era para meu próprio bem.
—Eu quero, depois de derrotarmos os corsários, eu quero a transformar numa humana novamente. Não sei como você chegou a isso, nem acho ser possível exatamente. Apenas que... para mim, você tem um tipo de humanidade. É admirável, queria deixar essa essência florescer em um corpo adequado, o de um humano. Também... claro, é divertido conversar com você, ao menos queria jogar algo moderno com você, talvez ouvir mais das suas histórias. Seja como for... diria ser isso.
Falei exatamente como pensava, para não deixar nada ser perdido, o que foi dito é meu sentimento agora, era o mesmo antes de o declarar, agora ele apenas está mais forte.
—Entendo...
Alice respondeu, com uma espécie de sorriso de canto, um que deixava sua presa visível.
Então ela jogou o rosto ao lado e falou em uma voz sutil, que só nós dois fossemos ouvir:
—Não pretendo esconder que tenho certa simpatia por vosmecê, meu servo, és um humano fantástico. Um que admiro.
Com essa declaração, a vampira sumiu novamente, porém nem podia fingir não entender o porquê, era intuitivo para mim o que havia ocorrido.
—Devia ter imaginado que ela iria ouvir, minha sombra não é só uma decoração.
Assim que minha sombra voltou para seu lugar, eu não consegui me conter mais, ter dito aquilo me estressou e eu critiquei a Une por isso, sem pensar tanto dessa vez.
—Sim... e o que você tinha falado antes? Agora quer fazer sua vampira voltar a vida...?
—É como disse. Talvez seja só um sonho, não senti muita segurança dela assim que falei isso. E ainda assim, vou tentar. Se desistisse agora iria morrer como um covarde.
—Aqui.
Ouvi isso, então o Ritte, apareceu.
Ele deu um suco de uva em minhas mãos.
Antes de dormir, então, compartilhamos o que tínhamos, não era muito, mas era mais que suficiente para apenas três pessoas.
Pães, frutas e um pouco de suco. Nós compartilhamos tudo isso, então deixamos o dia passar.
“Até que a Une combina bastante com esse tipo de coisa, eu talvez a chame para o próximo domingo, se possível sem uma revelação desse tipo pouco antes...”
Dia 21 de julho.
Neste dia, em torno das três da tarde, eu estava em uma rua apertada, entrando por uma viela suspeita, pois havia sido “mandado”
A ideia veio da Franziska, ela perguntou se talvez um exame médico pudesse dar alguma ideia do que ser um vampiro exatamente significava, ela admitiu que a maior parte disso era apenas curiosidade, porém de fato podia haver uma vantagem estratégica nisso.
“Não creio que a ciência moderna seja capaz de explicar os poderes da escuridão, é apenas impossível, porém tu és livre para tentar”
E os outros deviam estar focados em planejar o nosso ataque, inventar algo, ou talvez treinar para combater nossos inimigos. O quão injusto seria se eu apenas esperasse? Resolvi ajudar como podia.
—Jack, Jack. O que sua ideia significa? Por que está aqui? A semana acabou de começar meu...
A doutora me encontrou ainda fora da sala de consultas, parecia que ela havia acabado de entrar na clínica até, tinha as mãos nos bolsos do jaleco como se guardasse algo e aquele dia recebi seus piores olhares.
—Estou sentindo algo estranho... preciso de um exame.
—Sua condição está piorando. Isso é esperado. Já pode ir.
—...!
Pela primeira vez, eu teria de pedir mais que uma vez, até agora, a doutora parecia apenas fazer tudo, mesmo reclamando, cheguei a ignorar esses protestos, porém...
“Vosmecê começou mal, porém pode continuar a tentar. É uma médica com quem lidas, não? O que poderia unir todos os médicos?”
A minha sombra sussurrou, com uma ideia. Algo que lembrava vagamente de outra conversa com a doutora:
—Doutora Kutt! O juramento. Ele não fala nada sobre isso?!
—Boa, boa tentativa, porém não há nada para essa exata situação, você devia ter lido ele antes, talvez pedido ajuda a alguém mais esperto e então talvez isso funcionasse, felizmente. Você não fez nada disso.
Ela sorriu um pouco, bem como se apreciasse minha tentativa, seus olhos, todavia, estavam escuros, parecendo ter alguma tristeza graças a minha falha.
A doutora deu as costas após um instante que não tive resposta, voltou a andar para a sala de consultas.
“Ela venceu de você completamente. Teu desempenho foi patético”
Se não conseguisse nem isso... como poderia voltar e contar aos outros? Ao menos queria dizer que havia tentado de tudo, porém, naquele momento, me restava uma última coisa.
—Imaginei... não é como se você se importasse com juramento algum, talvez se o tivesse feito de verdade isso fosse diferente.
A doutora parou. Seu último passou ecoou por toda a clínica. Ela definitivamente não pensava em continuar a andar.
—O que, o que você disse? Eu não acho que ouvi direito.
—...!
Havia me arrependido imediatamente, não havia pensado por um segundo antes de falar e acabei falando bem mais do que deveria.
“Essa é dentre as acusações, uma das piores, espero que tenha como sustentar suas palavras, servo. Isso é o mínimo o que espero”
—Não, não, não. Tenho certeza do que ouvi... nesse caso...
A doutora voltou a andar, passou por uma porta e...
—Entre.
Já podia dizer que foi meio caminho andado, não podia parar ainda.
Ela parou na porta, quando entrei.
O pino de metal batendo dizia que ela havia trancado o consultório. Fingi não perceber, continuei andando, me sentei e olhei para a doutora, ela estava cobrindo a porta ainda.
“Tome cuidado”
A vampira falou apenas isso, um aviso vago, porém um que não recebia tanto.
Mordi meus lábios, como se me preparasse para reagir, não sabia a que, não ainda, todavia...
—Ah... não é bem, bem como se fosse fazer algo. Eu não posso te matar tão fácil...
Mas nada veio. Como outros dias, ela se sentou perto das máquinas esquisitas do consultório e começou a fazer perguntas:
—Foi naquele dia que aquele homem veio, não é? Faz um tempo, porém deve ter sido sua melhor chance. Para falar a verdade, apesar de ser muita coincidência...
Havia sido sorte, na verdade, eu não sabia no dia, mas essa informação acabou vindo a tona outra vez, estranhamente...
—Sim... foi nesse dia, chamamos ele de “trapaceiro” você pode fazer isso também, não temos certeza de qual seja o nome verdadeiro dele.
—Certo. Parece mais, mais... fácil. E deixarei algo claro, como falei antes. Eu fiz o juramento, o quebrar uma vez não muda isso.
A doutora falou isso, então tirou os olhos de mim, foi para as gavetas, por onde ela as abria uma atrás da outra.
—O que houve afinal? Isso explica porque você está trabalhando num canto tão recluso, porém... doutora, também não parece bem uma pessoa má, eu não tive essa impressão sua.
“Julgar pessoas com um olhar poder não ser proveitoso a vosmecê... é o que penso”
Ainda assim, era o que eu fazia.
—Agradeço a confiança, mas de onde você a tirou? Uma... uma vez ouvi que confiança só pode existir se antes houver dúvida. Você já teve dúvidas?
—Não exatamente. Sempre achei que você estava envolvida em algo estranho, mas desde a primeira vez que vim... não consegui imaginar você como uma vilã... digamos...
—Mas, mas. Me disseram que confiança que não veio da superação de dúvidas, é uma mentira, é vazia. Como... desprovida de alma. Assim que eu colocaria.
—...
E com tudo o que ela dizia, sobre minha confiança vazia...:
—Não penso o suficiente para negar nada do que você disse, mas eu não as aceitei. Ainda não posso concordar com nada do que disse, suas palavras, não as aceitei.
—Está bem... vamos ver o que tem a dizer então.
A doutora finalmente puxou uma pasta de uma daquelas gavetas. Se voltou para mim e a jogou em minhas mãos.
—Doutora... o que...?
—Pode parar? Parar de me chamar de doutora sempre, é educado demais para você, só me chame de Kutt logo, isso combina mais.
—Certo, Kutt, o que é isso?
—Olhe, por favor. Pode não haver as respostas que você queria, mas estão aqui as quais você precisa. Eu estou cansada de explicar tudo.
“Você tem algum problema com esta médica, servo?”
—Não exatamente...
“Imagino se o tivesse”
E na pasta era onde uma história era guardada...
Papeis, jornais, alguns documentos, todos contando uma narrativa de forma tão simples quanto era possível.
Entre os papeis, com conexões e recortes, uma história terrível era contada em sentenças curtas, breves e sem espaço para outra má-interpretação.
Sobre um doutor, um cientista que buscava a cura de uma doença quase nunca vista, uma que afligia sua esposa e filha...
Ele trabalhou noite e dia, outros pesquisadores falavam nunca terem visto o laboratório vazio, pois era lá onde ele sempre estava. Assim como também nunca o viram fora do laboratório...
Porém, apesar de ter ido além dos limites éticos, ter em nome de uma cura quebrado protocolos, ele nunca foi preso, pois...
Ele recebeu a notícia antes de qualquer outro, a de que sua esposa havia morrido, ele correu ao hospital e...
Ao vê-la, parece que o doutor apenas colapsou ao chão, quando um médico o levantou, ele já estava morto, porém a causa não é certa. Uma autopsia foi inconclusiva...
Depois disso, as datas avançam muito, falam do passado recente.
Como a filha daquele pesquisador seguiu a mesma carreira, então recebeu reconhecimento de imediato por ter algo como obsessão por doenças raras das quais mal se há registros, ela queria estuda-las, apesar de as chances não estarem a seu favor, ela conseguiu.
Então... ela nunca mais foi vista...?
Tudo isso pude ver num instante, apenas de olhar de relance pelos papéis, tão era a organização que se podia concluir tudo isso em pouco mais que alguns segundos.
Ia começar a estuda-lo a fundo, pensando que isso seria algum mistério que devesse resolver, porém Kutt me chamou atenção.
—Você até que foi rápido. O que tirou disso, disso?
—Err... vosmecê eras a doutora que havia sumido, é isso?
As palavras saíram sem minha decisão, ia tentar segurar minha garganta, mas ouvi.
“Não precisa me agradecer, eu usei tua voz para dar a resposta certa, não poderia arriscar ver tu falando mais asneiras”
—Bem, bem mais perceptivo do que esperava. Sim, assim como eu era a filha desse pesquisador... consegue imaginar o que houve?
—Não espere tanto de mim. Só conte a história...
—Pois sim, sim. Há um espaço vago nesses papéis, como pode ver, meu nome, assim como meu destino não são mencionados, pois essa foi minha decisão... não havia mais espaço para mim numa cidade grande, não merecia mais o renome que poderia receber.
—O que houve?! Não precisa entrar em detalhes, diga o que eu posso entender.
A Kutt suspirou, como se minha voz a incomodasse, então se moveu na cadeira, pôs uma perna sobre a outra e continuou:
—Foi quando quebrei meu juramento... o termo técnico para o que executei você deve já ter ouvido sobre, eutanásia.
Uma palavra a qual já havia ouvido algumas vezes na escola, o Louis parecia saber bastante sobre. Tinha uma pronuncia estranha, talvez... viesse do grego?
“O ato de acabar com uma vida para pôr fim ao seu sofrimento. Nem sempre é usada em termos da medicina, todavia, servo, parece ser tudo o que pensas ao ouvir a palavra”
Pelos sussurros eu recebia o conhecimento adquirido pela vampira.
A prática é legal neste país, desde que o paciente deseje, isso é. De uma forma que não deixe dúvidas das intenções ou de seu estado mental. Isso, claro, foi o que eu mesmo sabia.
—Um garoto um pouco mais novo, ele tinha o mesmo problema... mesmo problema o qual você se aflige hoje.
—Isso não era uma condição rara? Pensei...
—Ela é. Não se engane, vocês dois terem exatamente a mesma condição é único, pelo menos por agora. Apesar de dizer ser o mesmo possa ser inadequado ao explicar a você...
—Hum? Não entendo o que isso significa, Kutt...
Não ia me acostumar com chamar ela pelo nome ainda.
—Na sua idade, ele já não podia mais andar. Não podia manusear a maioria dos objetos cotidianos, ele vivia no hospital.
—Você conheceu ele...?
—Sim. Minha cura foi desenvolvida nesse tempo, tempo. Foi quase a mesma a qual havia irresponsavelmente lhe entreguei. Para uma pessoa normal o efeito não deveria ser tão... intenso, muito menos ter uma duração curta como é.
—E o efeito terminar com refrigerante?
—Isso é uma excentricidade na formula.
—Ah, se você diz...
—Enfim. Para ele, isso não era como um energético, era um tratamento, ele tinha de tomar várias daquelas pílulas todos os dias, mas sua vida havia voltado ao normal.
A doutora sorriu, sinceramente, sem más intenções escondidas, foi a melhor expressão que já havia visto em seu rosto.
—Pensei que tinha salvado o garoto. Por um ano ele ainda precisava me ver para analises, pois também estava buscando uma cura de verdade...
Kutt olhou para o chão.
—Estava sempre me agradecendo. Fazia acrobacias no hospital para mostrar o quanto eu o havia ajudado, o que mais eu poderia desejar? Esse ano foi o mais belo da minha vida, ele, entretanto. Não poderia continuar.
—O que houve?...
Ela olhou nos meus olhos outra vez, então concluiu a sua história:
—Pois as pílulas deixaram de ser suficientes. Cada dia ele precisava de mais delas, o excesso trouxe efeitos colaterais, vários os quais não havia previsto, para qualquer medico ficou claro que não seria mais suficiente, essa é uma síndrome que evolui com o tempo, só se agravaria mais e mais... então ele foi internado no hospital em que trabalhei... trabalhei então dia e noite em busca de uma cura, usei tudo o que tinha, cada recurso e todos os meus estudos foram postos a prova, prova...
Apesar de um olhar intenso continuar, eu não deixei de a encarar de volta, havia buscado respostas, iria até o fim por elas.
—Sem resultados por vários meses, os pais dele me levaram ao seu quarto, com dificuldade ele me perguntou... perguntou se ainda havia chance, ou se a vida dela havia se perdido... eu falei para ele, assim como para seus país...
“Não há mais nada que possamos fazer. Eu falhei”
—Ainda no quarto, então, ele perguntou se poderia fazer uma eutanásia, apenas sai do quarto e esperei do lado de fora. Por algumas horas, então os pais dele vieram, disseram que iam respeitar o desejo do filho, eu mesma cuidei dos papéis. No dia seguinte uma colega do garoto o visitou, os vi conversando por horas, então, eu entrei. Ele enfim, teve sua última conversa, mal podia me olhar nos olhos, tal qual era seu estado, porém ainda estava me agradecendo, contou tudo o que havia feito naquele ano, até as partes que se dizia arrependido... seu último suspiro ele dizia...
“Esse foi o melhor ano de toda minha vida, conheci pessoas, fiz coisas e... nada disso teria acontecido sem você, doutora”
—Para mim também... foi minha resposta, então cortei o que ainda mantinha o garoto nesse mundo. Ele ainda fazia algo como um sorriso, mas era óbvio também, medo. Ele não sabia o que aconteceria depois, havia desistido do que é mais básico de um instinto primordial, imagino como seria...
Ao terminar de falar, ela se levantou, destrancou a porta.
—Pode ir, você ouviu o que precisava.
Foi como se algo me puxasse a sair, eu não tive força de vontade para continuar lá por mais tempo, segui aquelas ordens e sai da sala, porém não ousei pôr os pés para fora da clínica. Me sentei no chão, pensando intensamente no que ouvi.
—O que pensas, servo? Ouvistes tudo, foi um erro buscar essas respostas? Ainda crê em teu julgamento anterior?
Alice se materializou em um canto da clínica, se afastando até da luz falsa feita pelas lâmpadas. E apesar de poder apenas ler minha mente, fez essas perguntas a mim.
—Sim. Ainda confio no que havia declarado, preciso de mais ainda, ela deve saber algo sobre o trapaceiro, a doutora pode nos ajudar a derrotar os corsários, não vou desistir de conseguir outro aliado.
—Ira vencer a qualquer custo? Não importa com quem tenha de se aliar?
—O que isso quer dizer? Todos os meus amigos são boas pessoas, eles não vão me trair. Apesar de talvez não serem tão bons para outras pessoas, apesar de se arrependerem do passado que tiveram. Eu não vou perder nada se lutar ao lado deles, para mim isso é tudo. Nada mais importa.
—Para vosmecê, essa é a verdade
—Aquele juramento não me interessa nem um pouco. Foi o que ela decidiu ser o melhor, foi a última escolha do garoto a de desistir... agora, eu vou pedir ajuda mais uma vez!
Me levantei do chão e virei novamente para a sala de consultas.
—Imaginei, suas decisões podem ser previsíveis, todavia elas me agradam.
Foi o que ouvi enquanto sentia minha sombra se manifestar novamente.
—Doutora! Eu vim ter uma consulta!
—Quantas, quantas vezes você ainda vai insistir...? Eu falei tudo aquilo e ainda...
—Não precisa parar. Se quiser continuar falando sobre coisas que não me interessam, vá com tudo, eu sou bem resiliente não só meu corpo, minha convicção não se perde tão fácil também.
—Estou vendo, vendo...
A doutora olhou para mim, ela olhou em minha sombra, quase como se percebesse a terceira pessoa na sala... por fim, ela disse...:
—Diga o problema então, vou lhe ajudar de acordo com o melhor das minhas capacidades.
E no final, ela aceitou me ajudar, independente do que acontecesse daqui para frente, eu não subestimaria a convicção da doutora Kutt, jamais.
Sentei novamente no mesmo canto de sempre.
—Estou esperando... esperando e esperando...
No fim, ela estava impaciente agora, então não fiz mais que o necessário, eu contei como meu físico parecia ter melhorado sobrenaturalmente nos últimos dias, mas sem ir ao ponto de mencionar o motivo.
E sem cerimônia, ela usou um bisturi e tirou um pedaço de pele do meu braço.
—Ah! Por que?!
—Deve ser mais rápido, rápido do que interpretar o que você está tentando dizer. Me dê algumas horas, por favor. Isso não é tão simples, meus equipamentos podiam ser melhores também...
—Ok...
Apesar de estar fazendo uma espécie de sorriso em reação a minha dor, o quão genuíno ele era não podia ser mais incerto.
E tendo o dia inteiro livre, eu apenas esperei... foram duas horas no total...
Por essas horas a Kutt mal respondeu as minhas tentativas de conversa fiada, por isso acabei só conversando com a minha sombra, ela ainda parecia incomodada em ser usada para matar tempo, porém ao menos estava me respondendo.
—Hum? Jack, você ligou para alguém?
—Não... o que foi, doutora? Doutora Kutt.
—Achei, achei ter ouvido a voz de uma garota vindo de você, como se numa ligação... estava meio abafada, não era natural...
—Isso é uma piada? Eu nem falei nada.
“Perdão, acabei projetando minha voz através de teus lábios por acidente, foi um erro meu”
—Não, realmente, realmente ouvi uma outra voz além da sua... deve ter sido o vento ou outra coisa, com licença.
Ela voltou a trabalhar.
Por entre perguntas retóricas, ela continuava a apertar botões e observar coisas com microscópios.
—Como isso, isso já está nesse estágio...? Não parece como antes... o que é essa...?
—O que você está vendo?
—Me dê sua a mão, a que cortei.
Sem ter motivo para recusar, levantei e estendi meu braço, deixando o corte em frente a seu rosto.
—Já sumiu... eu, eu não estou vendo coisas então...
—Kutt, pode falar diretamente comigo? Esses murmúrios estão me deixando com medo do que você vai concluir.
“Ela deve ter notado uma disparidade. Aquele pedaço tirado de tu não é especial, sem uma conexão a mim, não há nada além de a pele de um humano, assim creio”
—Sente. Eu acho que consegui algo.
Me retirei, olhei para a sombra que projetava por um instante, havia refletido sobre contar mais, porém ainda não tinha certeza da minha escolha, talvez só decidisse no momento, imaginei.
—Esse tecido que arranquei passou por algo que nunca vi antes naturalmente... pondo de forma breve, parecia como se estivesse evaporando, na verdade, foi mais como o processo de decomposição de um corpo, porém num ritmo fora de escala, levando em conta o clima desta sala, isso é ainda mais estranho.
—Com... como...?
Olhei para minha sombra com o olhar mais repreensivo que podia fazer.
“Não imaginei que fosse ocorrer num caso como o teu..., todavia, mortos-vivos verdadeiros não deixam rastros. Se cortares a mão dum, ela crescera novamente e a parte perdida dissolvera no mesmo ritmo. Tenho dúvidas se possas fazer o mesmo, não tomaria tal risco”
—Isso tem alguma relação com minha pele já ter se recuperado? Acha que poderia tomar proveito disso de alguma forma?
—O que está pensando? Você acha que isso é um super-poder?
—Err... não quis dizer assim, isso foi minha pele, porém não tinha um pouco de sangue para você olhar também?
—Oh. Bem notado, isso também parecia ter alguma propriedade.
—Legal, mas... o que isso significa?
—Não tenho como afirmar...
Ela pôs a mão sobre o rosto, começou a cutucar a ponta do nariz, ainda falando:
—Passei tanto, tanto, tanto tempo estudando as condições mais raras, ainda assim, nada me vêm em mente ao ver isso... você realmente não tem nenhuma ideia, Jack? Se pudesse ajudar, seria de grande ajuda para continuar minhas pesquisas.
—...
“Nem pense nisso. Vossa existência já é compartilhada por aqueles quatro paspalhos! Quer espalhar ainda mais?! E se formos caçados?”
Ainda não. Só parecia uma má ideia falar mais...
—Talvez seja... magia?
A doutora segurou o próprio rosto, foi uma perca de compostura súbita, ela tremeu um pouco com risos e falou sem seu tom ácido:
—Magia?... Gostei disso... talvez você seja a fonte de algum rumor da cidade também? Seria bem conveniente se fosse um vampiro...
—...!
—Ah... e o que você está dizendo? Magia? Isso é apenas fantasia. E eu não trabalho com nada assim. É certo como alguns, alguns fenômenos naturais parecem não ter explicação, todavia, pôr lógica e aprender a controla-los é o objetivo final de qualquer ciência.
—...
“Não fale. Não é hora. Parece ter dito que já há rumores de um vampiro nessa cidade, não há vivo mais obcecado por rumores do que caçadores”
A doutora voltou a falar em seu tom de sempre:
—Imagino que não tenha mais pistas, portanto... terei que ficar por isso, melhor esperar mais desenvolvimentos, se preocupasse tanto, vá, vá a um hospital de verdade.
—Um momento, só queria mais uma coisa... você poderia dar uma pílula de novo? As de antes. Eu vou precisar para... é uma longa história.
—Demorou, mas sim. Elas estão aqui.
Era outro frasco, porém dessa vez... olhando de perto, segurando em minha frente...
—O que houve com a cor? Está branco agora...
—Tive de mudar a formula para se adequar melhor a você. Deve segurar uma crise por pelo menos algumas horas. Não mais que seis. Você também não deve experimentar os efeitos de super-sensibilidade sensorial, dentre outros.
—Hum... isso é bom e tudo, mas onde estão os de antes?
A Kutt apertou a ponta do salto contra meu sapato, não foi com força, era só um aviso.
—Isso é um remédio. O que eu faço não é um energético, também não é um narcótico para te deixar mais forte. Eu não tenho plano algum de fazer outras com a formula original. Ainda menos para você usar numa briga ou outra besteira.
E assim foi dito. Sem espaço para a persuadir, porém...
—Eu sei que não é nada disso, mas eu preciso disso! Já decidi que vou usar tudo ao meu dispor para enfrentar os corsários. Sem exceções, além de que o efeito realmente me ajudou a correr deles.
—Não dei menor menção da chance, chance, chance de você me convencer! É bom que tenha convicção nisso, porém são suas palavras contra as minhas. Mesmo se fosse verdade, pode haver defeitos colaterais, sua condição poderia piorar, ou algo que nem posso prever. Faz ideia do risco?
—Pode me dar um segundo? Vou fazer uma ligação.
—Bem... claro, se acha importante assim...
Fui para o canto da sala, fingi apertar botões e pôs o telefone no meu ouvido:
—Alice? Eu acho que devíamos contar logo, talvez funcione...
“Você sabe o quão desnecessário esse teatro que fazes é, sim? E não. Não posso exaustar o quão perigoso seria vossa ideia, mais, eu já...”
—Na última vez que eu fiquei em perigo por causa dessa crise você não pôde fazer nada, não é sua culpa, eu sei, mas consegui sair vivo por pouco. E bem, os efeitos realmente ajudam, tem alguns defeitos, porém ainda estaria na vantagem.
“Hum... bem, vós falas a verdade, em vosso estado, posso me encontrar incapaz de o ajudar, entretanto, não valerá vencer contra os corsários e morrer para caçadores, como estás, seremos caças fáceis”
—Espera... será que sequer ainda tem caçadores de vampiros no mundo? Lembro do que o padre falou antes... você não estava lá, porém ele contou como não ouvia sobre vampiros por... décadas já.
“O que? Como isso poderia...”
—Devia ter falado disso antes...
Instantes de silêncio, neles eu pensei no erro que havia cometido, tentei imaginar o que a vampira poderia pensar daquilo tudo, então iria deixar passar, poderia os enfrentar apenas com o que tinha, porém...
“Vá. Não entre em detalhes, vou parar de projetar uma sombra e reflexo em você, isso servira?”
—...!
Notei nos meus pés a sombra ficando menos visível, como se sobre uma luz cada mais fraca, até ela sumir por completo.
Minha ideia não era exatamente isso, mas não havia uma lógica tão profunda sob minhas ações. Independentemente do que ocorresse.
—Doutora Kutt, você estava estudando condições raras, sim? E se te ajudasse com isso? Não poderia considerar fazer pelo menos mais uma daquelas pílulas?
—Apenas Kutt. E...
Ela se levantou, olhou ao redor do consultório, parecendo rever toda a situação atual, o que havia ocorrido nas últimas horas, então me encarou novamente, fazendo um pouco de questão de levantar o queixo, mesmo que ela só estivesse mais alta por causa dos saltos-altos.
—Não é como se você pudesse fazer muito, já é minha cobaia como parte do seu tratamento. O que você mostrou agora pode ser interessante, todavia, todavia, não há garantia... pode não ser tão interessante na realidade, talvez com algo mais claro...
Percebi, teria de usar a minha única arma restante.
—Kutt, você tem um espelho?
—Bem... sim, assim?
A doutora levantou ele em minha direção, foi assustador, repulsivo observar um espelho sem meu reflexo, porém, eu continuei, em frente.
Fiz com que ela virasse o espelho para si, então passei para trás dela, daquela forma, sem dúvidas, normalmente, deveria haver duas pessoas naquele reflexo.
—...!
—Se você ver bem... eu também não tenho uma sombra... Kutt... isso é uma condição rara suficiente para você? Pode me ajudar?
—Isso é como...
—Eu prometo fazer tudo o que você achar necessário depois disso, mas preciso mesmo de tudo o que você tem, pode me entregar pelo menos uma pílula? O mais rápido possível?
A Kutt pegou o espelho, o jogou ao lado e tirou algo do bolso do jaleco branco, pôs também em minha mão.
Outro frasco, como o de antes, porém as cores das pílulas eram diferentes, as cores não eram as mesmas, mas eu tinha certeza...
—Muito obrigado! Não posso te agradecer com apenas o que tenho!
Ela abriu espaço para a saída, como se pedindo para que eu corresse com meu prêmio.
—Só não morra, teria de recuperar seu corpo a qualquer custo...
Parti da clínica, atravessei pelo consultório, a porta para o lado de fora se abriu para mim e pulei em minha bicicleta, agora...
—Vai logo anoitecer...
Corri com minhas duas recompensas em mão, para agora onde o Ritte devia estar.
—Ele não deve estar no esconderijo, então...
Faltando mais uma hora para anoitecer, eu cheguei em frente a casa da família... do Ritte e da Queen. Deixei minha bicicleta na rua e entrei.
Até a porta e...
Ela estava trancada.
—Alice... eu vou precisar pedir permissão para entrar na casa ainda? Faria isso de qualquer maneira, mas supondo que não...
“Desde que já tenha entrado nela antes, mesmo antes de perder vossa sombra, tu ainda poderás ir e vir como desejas, até todos os moradores perecerem”
—Bom saber...
Dei alguns toques na porta. Sem resposta, eu decidi ligar para a Queen:
—Franziska, a doutora conseguiu algumas coisas, eu estou aqui na frente.
—Um monento* digo, momento!
Ouvi o que parecia muitos passos do outro lado, alguns objetos pequenos caindo. A porta abriu em mais uma dúzia de segundos.
Ela me levou para a sala de jantar, o Ritte estava muito concentrado e trancado no seu quarto, parecia ruim interromper ele...
Com ajuda dos sussurros vindos da minha sombra, eu falei o mesmo que a doutora me contou, esperando algo novo vir da Franziska:
Mas no fim daquilo, ela só tinha um olhar perdido e os lábios torcidos:
—Hum... pode ser talvez alguma... en fait, na verdade... isso não é nada novo...? Nós já sabíamos como você não é normal...
—Você sabe tanto quanto, senão mais que eu.
—E a vampira? A... Alice, ela não disse mais algo?
—Nada útil, eu perguntei algumas vezes já.
—Talvez tenha alguma ideia depois... agora eu não consigo mais pensar em nada... pardon, digo... desculpe, acabei te fazendo perder tempo...
—Não! Não! Eu só podia fazer isso para ajudar, acabou sendo bem... interessante até, eu consegui algumas coisas da doutora, ela é uma aliada nossa, afinal.
—Oh... pom* digo... bom que tenha tido essa sorte. Vai nos ajudar no resgate, sim?
E conforme a conversa avançava, a cena da luta final se formava em minha mente.
—Com certeza. São algumas pílulas, elas deveriam só suprimir minha doença, porém tem vários efeitos colaterais bem uteis. Só duas por agora, espero que sejam o bastante.
—Você vai ter de se expor se os corsários nos verem, é isso...?
A luta que ocorreria, eu contra os corsários, parecia inevitável...
—Estou disposto a isso. Você sabe como eu sou resistente, desde que virei um meio-vampiro isso só ficou melhor. Não tenho como só ir contra todos eles sozinhos, mas posso servir de distração.
—Par ailleurs, digo...! Alias... sobre aquele dia, quando você atacou o corsário e...
O dia em que encontramos o esconderijo deles, de alguma forma fomos achados, então eu quase morri, porém derrotei um corsário com...
—Não pretendo depender disso novamente. Um segundo a mais e o corsário morreria, eu teria feito um assassinato. É isso que penso, Franziska? Alguma ideia?
Para ela, isso era responsabilidade da vampira, eu era grato por isso, porém, para mim mesmo, a responsabilidade era toda minha. E com o menor erro, eu seria um assassino.
—Como você disse, também não queria isso... ia pedir para você não tentar, sei que precisa se defender, mas isso talvez seja demais...
Tendo a audição aguçada, notei como ela havia abaixado o tom da voz a cada palavra.
—Eu não queria pensar nisso, mas... talvez, zi* você estiver realmente em perigo... eu não acho que você devia morrer por isso...
—Hum...?
—Vamos ver o Ambrose! Allons-y!
Ela levantou a voz novamente, não queria insistir mais. Decidi subir com ela.
Depois de me deixar na frente da porta, ela foi na outra direção, não cheguei a perguntar o que ia fazer, mas não devia ser importante também.
Abri a porta...
—Ritte! Nós vencemos! Os persas foram derrotados!
—...?
Ele ficou lento demais, ele mal reagiu a piada que eu tentei fazer.
—Nada, vamos nessa... Ritte, como está indo a investigação?
Sentamos no chão novamente, de perto, ele tinha algumas olheiras também, como imaginei, deve ter colocado bastante esforço em planejar o nosso próximo movimento.
Também expliquei a ele sobre como consegui aquelas pílulas, fui um pouco mais a fundo no que exatamente elas podiam fazer.
—Génial... isso vai nos ajudar bastante, deixei tudo pronto... estou um pouco preocupado, mas amanhã deveremos avançar contra eles. Já sinto termos chegado perto demais do limite, além de que no dia 23 a lua vai ser coberta pela terra, pelo o que entendi... isso te deixaria mais fraco, é isso?
—Foi como ela disse.
—E nisso... a vampira poderia lutar também? Nas histórias vampiros parecem sempre serem bem fortes...
—Bem... deixa eu ver, Alice! Ele precisa falar com você!
Falei isso olhando para a minha sombra, mesmo que ela não realmente estivesse lá, a silhueta era tudo o que via.
Entretanto... dessa vez eu não recebi resposta, nenhum sussurro.
Tentando me focar em ouvi-la...
—Ritte... acho que não podemos falar com ela agora. Talvez se quisesse eu poderia força-la a sair, mas incomodar ela não é minha intenção...
—Isso mal soa como algo que você falaria... surprenant... o que aconteceu com o Jack que eu conhecia?
—Nós estamos em sincronia. É um pouco difícil de explicar, mas eu também posso falar, ao menos tenho uma boa ideia.
Depois de pensar um instante, organizar o que já sabia, tocar a ponta do meu nariz e lamber minhas presas, voltei a falar.
O Ritte parecia cansado, mas seu foco não havia sido perdido, os olhos mal piscavam e ele ouvia a cada palavra minha, das mais estupidas até as quase decentes.
—Seria possível, ela é mais fraca que eu, porém você viu que tem uma boa agilidade, porém... imagino que se ela fosse lutar teria de ser com isso mais que tudo...
Deixei meu pescoço pender para um lado, puxei minha camisa mais um pouco.
Pela forma que o olhar dele tremeu, imaginei que havia notado as marcas das presas dela, por alguma razão elas demoravam mais para sumir do que qualquer outro ferimento.
—Comme avant...? Não estava no dia, mas ouvi da Franziska sobre o que houve...
Ritte fechou os olhos, pôs as mãos na frente do rosto, pensando em algo, imaginei.
—Isso não seria bom. Jack... je sais, isso no fim é uma decisão sua, mais, está envolvendo a sua vida e essa habilidade que é apenas sua, mas se possível, não queria que tentasse isso, mesmo contra os corsários.
“É como o que a Franziska falou...”
—Um momento, talvez não Tesse* falar dessa forma, mesmo que seja uma má ideia os atacar desta maneira, eles são vilões então... eu não vou me pronunciar se você tiver de usar isso, realmente não seria bom se você morresse por algo assim, mais vale que continue lutando e derrote os corsários que morrer por causa de um conflito ético.
Mal podia falar, ele estava quase ecoando o que a Franziska havia dito, eles haviam conversado sobre isso antes? Ou foi apenas...
—Claro, eu não gostaria de morrer mesmo, mas Ritte, eu queria deixar claro que não vou viver a qualquer custo, isso seria covarde. Prefiro que eu mesmo morra do que acabar com a vida de outra pessoa.
—Ah... você tem um senso de justiça no fundo, até parece o filho de um policial.
—Mas eu sou o filho de um policial, Jack Delsteen, não é fácil lembrar?
—Eu sei, eu sei... de qualquer forma... então não seria tão bom pôr a vampira, mas caso ela pudesse apenas te apoiar? Falou que ela era só um pouco mais fraca que você, imagino como seria le vampire force.
—Isso. O problema também seria o sol... aquele lugar tem janelas, não seria nada bom se ela virasse pó ao tocar um feixe de luz.
—Bem... poderíamos ir à noite, você ficaria mais forte, non?
—Sim, porém... tem a chance de a capitã estar lá a noite, caso isso aconteça... nem quero imaginar na verdade. Lembra quando eu fui te resgatar? Ela parecia ser uma com as sombras, isso soa irracional, mas tenho medo se ela não poderia fazer algum tipo de... tramoia ou algo assim nas sombras.
—...?
—Era bem esquisito. Se do nosso lado tem o instituto e eles tinham um esconderijo gigante numa caverna congelada, imagino se ela não tem algo a mais...
“Talvez um... impossível. Nem quero considerar algo assim”
—D'accord, será no meio-dia, já fiz o plano, você lembra os detalhes?
—Bem... você falou?...
—Talvez não... então essa é a hora, devo ter explicado aos outros e esqueci de você, bem, não sei se você quer os detalhes, mas melhor contar tudo.
—Vá...
—Então tudo começa...
—Um momento!
Olhei para trás, puxei ele mais para um canto daquele quarto enorme, me levantei, peguei travesseiros e lençóis e os joguei no chão para formar uma barreira, então pulei para o lado de dentro, onde o Ritte ainda estava, ele não havia entendido ainda o que planejava, mas estava cansado a ponto de que mal parecia perceber o que ocorria ao seu redor.
—Ei, eu sei que o plano é importante, mas tem uma coisa que falei com a Franziska e...
—Ah, isso? Eu lembro... era sobre fazer a parte de éclaircir sobre o passado, né...?
Minhas palavras não vinham mais, não tinha considerado que ele sabia disso, não havia considerado qualquer outra possibilidade se não a qual estava agindo sobre, a primeira a qual me veio.
—É, imaxinei* que você ia lembrar um dia, temos algum tempo ainda, mas não tanto, então eu vou ser breve na explicação, certo? Também não é como se falar disso fosse divertido para mim.
—Você está carregando esse peso por ela é?
—Não é mais do que meu dever. Oui, oui, vamos lá, eu vou contar tudo isso... por onde começar... bem, só vou dizer o que vier em minha mente primeiro, você pode me interromper se ficar confuso de mais...
O Ritte começou a reconstruir seu passado...
—Acontecia que... sendo superficial... a Franziska era má.
—Hum!? Ritte!? O que você falou!?
—Calme. Eu sei que sua audição é boa suficiente para ter ouvido exatamente como eu disse, mas eu vou explicar...
Ele respirou fundo e lentamente recontou o que lembrava:
—Para você isso pode soar totalmente ridículo, mas era assim. Ela não tinha uma determinação para ajudar outros, muito menos algo como agora. Pelo contrário... digo, não é como se ela tivesse feito algo sério, isso foi a tempo. Mas sabe... eu via nela um potentiel, mesmo como uma criança, eu sabia que a minha irmã não era como outras pessoas, ela não agia sob boas intenções, nem era neutra suficiente para dar o privilégio de descaso, ela tinha algo como... uma maldade genuína talvez.
—Isso é...!
Eu tentei falar, mas já o via continuar, com um rosto que parecia sentir dor a cada palavra, ele sofreu para contar aquilo tudo, sem dúvidas...
—Acredite, eu ouvia tudo o que ela tinha a dizer, également a ajudava a nunca realmente sofrer as consequências, podemos dizer que é culpa minha também... talvez a obsessão que tenho em fazer planos e resolver problemas venha disso, talvez...
—Você ajudava, Ritte? O que você quer dizer?
—Sim. É uma história minha também, isso vindo da própria pessoa nunca pode soar genuíno, porém o mau nunca veio a mim, nunca tive tanto talento ou senti segurança que pudesse fazer qualquer coisa, ela, no entanto, deve ter sentido algo assim... eu apenas a ajudei porque... bem, ela é minha família, não importa como ou quando.
—Ritte, você é leal assim desde sempre, é...?
—Vrai ou faux, eu não mudarei meu lado. É assim que penso. Você entende isso, não é? Jack, o que você pensa disso?
E apesar de dor, os olhos deles não tinham o rosto de alguém derrotado, não era tristeza por um arrependimento, eu compreendo. O Ritte fez o seu melhor, desde sempre. Mas o destino... ele é cruel, eu vi...
—Não consigo ver algo errado em sua lógica, desde que você saiba onde sua lealdade está, não consigo dizer que isso é errado, mesmo se isso te levasse as escolhas erradas.
—Como nossos inimigos, os corsários, oui?
—Eu não tenho problema com cada corsário, por si só, a única coisa que os fazem serem nossos rivais é a quem eles deram sua lealdade, nós somos leais a nós mesmos, as ideias que temos, também a... poderia dizer que até ao fantasma que o instituto deixou, enquanto eles, eles são leais a capitã, acontece dela ser infinitamente maligna, muito perigosa para continuar livre, por causa disso, teremos de lutar.
—É assim então... bem, isso é uma conversa bem interessante, mas melhor eu terminar logo o que explicava, não tem muito tempo sobrando, é uma história curta na verdade.
—Continue.
—Apesar de tudo, eu acredito que a Franziska que vemos agora sempre esteve lá, porém houve coisas que não corroboraram para termos visto antes... a forma como... nós éramos... distintos. Você sabe como eu estou no lado direito daquela escola, isso foi decidido a bastante tempo, eu não tenho tanto talento quanto ela tinha, talvez a maldade tenha sido a única forma dela não sofrer com isso, então... talvez a culpa seja minha também...? Talent, destin... será que coisas assim existem?
Enquanto segurava em seu cachecol, como se o tentando puxar com mais e mais força... o Ritte perdeu algo, ele mostrou uma dúvida, eu, ao menos, podia dar uma certeza a ele:
—Sim... depois de tudo o que vi, não tenho mais dúvidas, talvez seja destino, talvez existam regras que não compreendo, porém deve haver algo assim...
—Então talvez não tenha sido minha culpa, mas de qualquer forma, eu diria que foi essa diferença, ela tinha algo de bom nela desde sempre, essa “injustiça” de dois irmãos serem tratados diferente foi distorcida em maldade. É isso que quero dizer. Alors... nós te conhecemos, talvez não pareça para você, mas foi bem importante, pelo menos para mim foi.
—Como assim?
—Isso é ruim de dizer, mas você já contou sobre bastante coisa que não queria para mim, portanto serei direto, Jack, você me mostrou como defender uma pessoa, eu vi como para isso, estar no lado certo era necessário, ter força também era uma forma, mas não tudo... acho que o que faltava para eu estar parfait, entende?
—Não exatamente... Ritte, tem algo que eu devia dizer agora?
—Non, non, estou apenas contando uma história, no fim dela... bem, não é como se tivesse acabado ainda, mas do que sei, isso é tudo.
—Uma coisa, se você está disposto a responder tanto, é por isso que vocês não têm o mesmo sobrenome?...
—Ah, sim, sim. Apesar de morar aqui, eu perdi meu nome, sabe, na verdade essa família é bem antiga, tem um certo renome, eu não posso ser chamado dessa forma... a Franziska ficou bastante irritada quando houve uma falsificação de documentos para dizer que eu era de outra família, não era filho de meus pais ou irmão dela...
—Hum... você até que tem bastante história para alguém que só fala sobre HQs.
—Desde quando eu só falo de HQs?...
Com isso, eu o ajudei a arrumar aquele quarto que tinha bagunçado ao jogar travesseiros e lençóis pelo chão, até a Franziska chegar com três xícaras de café.
Então, não havia mais como enrolar, amanhã lutaríamos, se perdêssemos...
Tudo o que havíamos conversado seria perdido, nossa amizade não valeria de nada, nossos conflitos, nossas perdas e nossas vitórias até agora teriam seu fim.
Cada um de nós sabia disso, enquanto as últimas horas passavam até o que para nós... devia ser o fim dos corsários e a sua líder insana.
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