É de manhã e você está em casa se preparando pra ir à escola novamente. O clima frio dessa primavera casa perfeito com o café que você está tomando enquanto assiste ao noticiário ainda falando sobre o que aconteceu recentemente na noite da projeção ao ar livre na cidade.



“ — ...e o que a princípio parecia um fenômeno inexplicável nos céus de Nevinny foi, na verdade, a maior demonstração de tecnologia holográfica já registrada no continente — a jornalista anuncia, enquanto imagens gravadas por drones mostram os cinco táxis voadores sumindo na névoa e a floresta invertida cobrindo os prédios — A assessoria do conglomerado tecnológico de Nevinny confirmou que o espetáculo abriu oficialmente a campanha e contagem regressiva de lançamento da nova frota de transporte aéreo executivo. Segundo os idealizadores, a 'floresta flutuante' simboliza a harmonia entre o avanço futurista e a preservação ambiental. O investimento milionário promete integrar as duas realidades até o fim do ano.”


A tela muda abruptamente. As imagens aéreas e limpas do show de luzes dão lugar a gravações trêmulas, feitas por celulares. O cenário agora é a avenida principal, focado em grupos de pessoas que claramente representam Miríade.



​— No entanto, — a voz da âncora retornou, agora mais tensa — o que era para ser uma celebração de marketing gerou revolta imediata. Cerca de trinta minutos da apresentação, moradores do bairro Miríade iniciaram um forte protesto de resistência. A população local acusa as corporações de Nevinny de usarem tecnologia de vigilância camuflada de entretenimento e criticam o investimento bilionário em transporte de luxo enquanto que o distrito miridiano sofre com apagões e a cidade registra um leve aumento em anos nos índices de violência.


Na TV, o letreiro urgente pisca com a escrita: "CAOS EM NEVINNY: PROTESTOS TRAVAM ACESSO À ZONA SUL".


​Dá para ver barricadas de pneus queimados, o reflexo avermelhado do fogo contra as paredes pichadas do bairro e uma multidão furiosa carregando cartazes improvisados com mais detalhes. Alguns deles dizendo: "Céu de Ouro, Chão de Sangue" e "Abaixo os Espectros de Atelis". O som dos gritos de protesto ecoando na reportagem, misturando-se com as primeiras sirenes da tropa de choque que avançava pelas ruas de Nevinny.



A tela do telejornal pisca, cortando as imagens trêmulas do confronto na rua para focar no estúdio da emissora local. Sentado de forma impecável em uma poltrona de couro, vestindo um terno sob medida cinza-chumbo e ostentando um semblante que mistura preocupação patriarcal e firmeza autoritária, está o candidato à prefeitura de Nevinny, o senhor Delano, pai de Cynthia.


​O letreiro na parte inferior da tela agora muda para: "EXCLUSIVO: NORBERTO DELANO COMENTA A ONDA DE VANDALISMO EM NEVINNY".


Ele ajeita a gravata antes de iniciar seu pequeno discurso, e, olhando diretamente para a câmera principal, começa a falar com a voz pausada, porém firme.


— Isso é um completo absurdo. É com profundo pesar que acompanho os episódios lamentáveis que se desdobram nesta noite em Nevinny. O que era pra ser um marco histórico de inovação, um vislumbre do futuro tecnológico que pretendemos trazer para conectar nossa região, foi sequestrado por um grupo de baderneiros que insiste em manter os pés fincados no atraso e na violência.


​Norberto uniu as mãos, inclinando-se ligeiramente para a frente, intensificando o olhar.


​— “Quero ser muito claro: o que está acontecendo nas ruas não é um protesto legítimo; é uma rebelião criminosa contra o progresso. Não podemos permitir que o rancor de uma minoria barulhenta sabote o futuro dos nossos filhos, o futuro da nossa economia. Como candidato e, acima de tudo, como cidadão que preza pela ordem, eu garanto: em minha gestão, a periferia não será palco para o caos. O investimento privado e a segurança pública caminharão lado a lado. Nós não vamos nos curvar diante de barricadas, e o braço forte da lei vai restabelecer a paz que as famílias de bem merecem. O progresso e a ordem de Nevinny não serão parados por pneus queimados.”




⌚️ 09:18



— … e então, quando tudo começou, nós ainda estávamos saindo da loja e um burburinho, pessoas se desesperando. Foi um completo caos. A sorte é que conseguimos nos esconder e sair ilesos dali. Mas foi um sufoco tremendo — comenta uma aluna que passa pelo corredor comentando com a amiga.



O assunto não poderia ser outro. A cidade passa por um momento de insegurança e fragilidade depois do ocorrido. Uma parte da sociedade comenta sobre a maravilha que foi aquela projeção grandiosa de ter a experiência dos táxis voadores em tamanho real passarem por cima das cabeças, mas a outra parte teme pelo fato de partes da cidade terem sido afetadas e destruídas, tudo isso causado pela rebelião anti-progresso pelo povo de Miríade, principalmente.



Fazendo parte do seu grupo de colegas da escola, Allison se sente muito envergonhadx e de uma certa forma assumindo a culpa pelo povo de seu bairro estar, mais uma vez, sendo enxergado com maus olhos. A sua tentativa de justificar a ação do seu povo perante o ocorrido insiste em se sobressair pra tentar, talvez, de alguma forma, amenizar o que aconteceu, porém em seu rosto, há uma expressão bastante preocupadx e hesitante, como de alguém que sabe que, independente do que falar, não valerá muito a pena.



— Vocês precisam entender o outro lado da história — Allison começa, a voz saindo um pouco mais alta do que o planejado, chamando a atenção de duas garotas na mesa ao lado. Elx pigarreia, baixando o tom, mas mantendo o olhar urgente — O pessoal de Miríade não é contra o progresso porque gosta do atraso. É que, pra nós, toda vez que Nevinny fala em "avanço tecnológico", o resultado prático é o nosso bairro ficar sem luz pra abastecer os geradores deles. Aquela projeção holográfica gastou uma energia absurda enquanto três blocos da nossa comunidade estavam às escuras. E ficou assim por horas!


​Allison limpa as mãos suadas na calça, os olhos oscilando entre todos do grupo que estão à mesa buscando desesperadamente uma faísca de validação.



​— Muitas vezes, muitos de nós nos sentimos invisíveis. O vandalismo... as barricadas... os protestos… isso tudo é o único jeito que o povo do meu distrito encontra de fazer o resto da cidade olhar para baixo. Se não quebrarem nada, ninguém nem lembra que a gente existe. Muitas das coisas que acontecem em Miríade nem sequer são mencionadas na televisão, apenas quando alguém de lá se envolveu em uma confusão ou crime — elx justifica, embora o tremor em suas mãos entregue o desconforto ao falar da violência.


— ​A gente super entende a revolta. Sério, Allison. Ninguém aqui acha que Miríade vive no luxo ou que a reclamação não tem sentido — Rebekah começa, inclinando-se para a frente, o tom suavizado pelo afeto, mas firme na crítica — Mas incendiar ônibus e destruir o comércio local não faz Nevinny ouvir vocês. Só dá ao Norberto o argumento perfeito na TV para chamar todo mundo de baderneiro. Olha o que ele acabou de falar! Vocês estão caindo direto na armadilha dele.


— Eu sei. Mas, infelizmente, eu não respondo por todo o meu povo. Vocês conhecem a história. Miríade sempre foi assim. Joel começou tudo isso e o resto foi acompanhando. Até hoje.


​— A Rebekah tem razão, amor — Max intervém, tocando gentilmente no ombro e encostando a cabeça — Nós estamos do seu lado, você sabe disso. Você não tem que carregar a culpa pelo que o seu bairro faz. Mas tentar justificar o que aconteceu hoje... não sei. Destruir as poucas coisas que Nevinny tem em comum com o avanço não vai trazer a luz de volta pra Miríade. Só faz o resto da cidade ter medo de andar por lá.


​— Eu só não quero que vocês pensem que eu sou assim. Ou que a minha família apoia isso. Meu pai está super confuso e incomodado com isso. Principalmente temendo pela minha segurança — Allison fala, em um tom mais baixo, com a voz desinflada de toda a imponência de antes — É horrível ver todo mundo na escola olhando para a gente como se fôssemos animais selvagens toda vez que o pavio de Miríade acende.



De repente, os alto-falantes da escola emitem um ruído como se alguém se preparasse pra falar. Duas batidas de microfone são emitidas e a voz do diretor Pascualli falando “bom dia” pega todos de surpresa.



— ​Gente... vocês precisam ver isso — Cris murmura, a voz quase falhando, mostrando a tela do celular no meio da mesa para que o grupo possa ver, porém o tom de voz de Pascualli sobressai chamando a atenção da maioria dos que estão presentes no jardim.



— “Bom dia corpo docente e alunos. Venho trazer uma notícia de última hora para vocês…”



Antes mesmo de Pascualli começar a falar, de alguma forma, parece que o ar para. De imediato, o silêncio se instala sobre o Colégio Montreal não de forma gradual, mas abrupta, quase violento. As copas das árvores que há poucos segundos se moviam simplesmente travam. Nem uma rajada de vento sequer dá pra escutar agora, apenas a respiração ofegante e pesada de Pascualli diante ao microfone. Após alguns segundos de pausa, ele pigarreia antes de dar continuidade ao seu pronunciamento.


— É com profunda consternação e extrema urgência que interrompo as atividades desta manhã. Fomos oficialmente notificados pelas autoridades e pela família de que Joaquim Matarazzo, um de nossos alunos do primeiro ano está formalmente desaparecido desde a noite da rebelião na cidade. O jovem não retornou à sua residência e as últimas informações indicam que ele foi visto nos arredores de um dos pontos da rebelião naquela fatídica noite.




Ninguém no jardim sequer dá uma palavra. Os ouvidos estão totalmente atentos para as palavras do diretor que vêm como um soco no estômago de cada um, porém parecendo não ter direito a reclamar.



— Um aluno daqui da escola tá desaparecido? Logo na noite da rebelião? Será que alguém pegou ele? — Lavínia questiona ao ler a notícia por completo no celular de Cris.


​— Apelamos a qualquer um que tenha visto ou mantido contato com ele nas últimas horas que se dirija imediatamente à diretoria. À imprensa e à comunidade de Nevinny, reforçamos que a instituição está colaborando com as buscas, embora as forças policiais estejam com contingente reduzido devido aos distúrbios civis. Então, por favor, se alguém tiver alguma informação pra contribuir nessa busca, nós agradecemos desde já. Bom dia a todos e… protejam-se.


​O clique final do sistema de som ecoa como o disparo de uma arma. A estática morreu, mas o vento não volta a soprar. A escola permanece imersa numa espécie de atmosfera cinzenta e sufocante, onde o eco da voz de Pascualli parece ter selado o destino de todos dentro dos muros.



A conversa, então, volta para o grupo. Lavínia lê, em voz alta o noticiário e seus outros colegas acompanham.



— Me diz mais o que aconteceu. Era só o que me faltava mais outro aluno da escola ter sido atacado. Ainda nem passou direito o que aconteceu com Suzanne — você fala de uma forma ansiosa e com receio.


— Calma, S/N — Lavínia continua — É mais um aluno de Montreal. Esse tal de Joaquim. Acabaram de divulgar. A notícia foi publicada minutos atrás: “Família de estudante do Colégio Montreal apela à imprensa por paradeiro do filho de quatorze anos, desaparecido desde a noite da rebelião”.


​— A família deu entrevista agora há pouco — continua Cris, informando um trecho da notícia, aparentemente nervosx, quase suando frio — Eles estão dizendo que o rapaz não voltou pra casa quando os primeiros conflitos começaram e que, como a polícia tá focada apenas na baderna da cidade, ninguém tá investigando o sumiço dele.


— Nossa, os familiares devem estar desesperados, então. O filho desaparecer assim do nada, ainda mais numa noite como essa — Rebekah comenta.


— O pior é que a gente nem conhecia esse menino. É novato. O ano acabou de começar, também. Vocês conhecem alguém que conhecia ele? — Max pergunta.


— Conhecia. Você acabou de falar como esse garoto tivesse… — Rebekah diz.


— Morrido? Com certeza esse já era. Estar sumido desde a noite da rebelião e até agora não ter dado as caras?


— Que horror!


— Mas é a verdade. Infelizmente — Cris concorda. O lado bom é que a gente não conhecia ele, porque senão seria mais uma acusação pra nossas costas.


— Isso é verdade. Pelo menos isso. Já é um alívio — você fala dando um suspiro — Estou preocupadx com o meu também. Essa história pode atrapalhar o lançamento dos táxis voadores. É daqui a quinze dias! Eu sei que posso estar sendo egoísta falando disso, mas o meu pai é um investidor. Ele e o time de investidores e produtores dos táxis não contavam com a rebelião e o desaparecimento desse aluno. Será que corre algum risco do lançamento ser adiado ou cancelado?


— Você acha mesmo que um time de investidores, empresários e outras mentes de gênios não pensariam nas hipóteses que poderiam acontecer, S/N? — Lavínia dispara — É claro que eles pensaram que alguma rebelião anti-táxis poderia acontecer.


— Ué, S/N, seu pai é investidor e você não sabe ainda se eles vão ou não levar o lançamento adiante? — Max incita.


Você nada responde.



— Eles vão levar adiante, com certeza. Se fossem mudar algo já teriam avisado — Allison diz ​— O mercado financeiro não tem coração. E muito menos medo de “protestantes rebeldes". Se o pai de S/N e os outros investidores injetaram bilhões nisso, eles vão querer o retorno no dia exato. Adiar significa perder dinheiro. Cancelar? Nem pensar.


​Você morde o lábio inferior, sentindo o peso dessa fala. Por um lado, o pragmatismo de Allison traz um certo alívio frio: o projeto da vida do seu pai, a promessa de um futuro tecnológico que mudará a cidade, parece seguro sob a armadura do corporativismo. Por outro lado, a frieza da constatação deixa um nó amargo na sua garganta. Quinze dias. O cronômetro continuava correndo, alheio à tempestade que se forma nos bastidores da escola.


​— Talvez você tenha razão sobre o dinheiro — você diz, a voz um pouco mais baixa, olhando para o reflexo do sol e as copas das árvores que suavemente voltam a soprar — Mas e a imagem pública? Se descobrirem que o sumiço desse garoto tem qualquer ligação com o movimento anti-tecnologia, ou pior... com a gente…


​— Ninguém vai descobrir nada porque nós não fizemos nada — Lavínia corta, categórica, dando um passo à frente — Nós somos apenas estudantes no meio do fogo cruzado. O foco agora tem que ser manter a cabeça baixa e deixar os adultos resolverem o problema deles.


Cris solta uma risada soprada, sem humor nenhum.


​— Mais fácil falar do que fazer, Lavínia. Você não viu os olhares no pátio hoje de manhã? O clima mudou. De novo. Agora não é só mais S/N tentando apagar de vez uma acusação de quase morte, ou a gente que, no começo fomos apontados como cúmplices. Agora envolve algo mais, político até. O lançamento desses táxis pode mudar muita coisa e talvez ele ou pessoas possam continuar sendo os centros do alvo.


Um silêncio tenso se instala entre vocês, quebrado pelo sinal estridente que ecoa pelos corredores, anunciando o início da próxima aula. Você olha para o celular, vendo a data na tela de bloqueio. Faltam exatamente duas semanas. Duas semanas para o futuro decolar — ou para o presente desmoronar por completo.