Os órfãos de Nevinny Vol.2
27 Oscar perdido
“Oi, diário. Tem sido um longo tempo desde a última vez que escrevi. Também não tem tantos motivos assim pra escrever, já que toda vez eu sempre acabo trazendo notícias não tão boas assim.
Dessa vez não está tão diferente.
O ano passado terminou de uma forma inesperada pra mim onde eu me encontrei no meio de crime onde eu era a principal suspeita. Muita gente olhou pra mim de uma maneira estranha e que eu jamais desejaria pra alguém. A sorte é que meu pai, Joseph, me ajudou a aliviar um pouco a tensão pra que eu não seja essa pessoa horrível que tanto falavam que eu era. Depois que eu cheguei nessa cidade eu já me meti em algumas confusões e acabei levando o grupo com quem eu ando pro meio disso também.
Os últimos meses e semanas também têm sido um pouco complicados. A cidade agora tá no meio de protestos porque o lançamento dos táxis voadores tá bem perto de acontecer. O povo de Miríade ainda tá no clima de anti-progresso e não querem de jeito nenhum que os táxis sejam lançados. Eu temo pelo meu pai que é investidor desse projeto. Já falaram mal dele na noite do baile de inverno da escola e eu tenho medo que ele seja atacado de novo de alguma forma. Eu temo por mim, pela minha família. Não queria estar no meio disso, mas também sinto orgulho por ele fazer parte de algo tão importante.
Enfim, o meu objetivo pro dia é a Micaella. Ela não falou comigo e com mais ninguém do grupo desde que as aulas voltaram. Ela não tentou nenhum contato com ninguém. Preciso cumprir com o dever que o detetive Gnust me propôs, assim como pra Suzanne de observar e investigar alunos e funcionários da escola e tentar descobrir se alguém por perto tem envolvimento no ataque de Suzanne ou se como o rapaz em Montana, ela simplesmente foi atacada por seguir as coordenadas. Eu tenho que começar por algum lugar. Acho que com Micaella pode ser um bom começo.”
⌚️📍 Manhã em Montreal, em algum lugar do vasto jardim do Colégio
Você e Lavínia estão afastadxs, atrás de alguma das inúmeras árvores do jardim da escola, onde o burburinho dos demais alunos parece uma realidade distante. Cada vez menos alunos ousam em passear pelo jardim desde o que aconteceu com Suzanne e agora, com o aluno recém desaparecido, Joaquim Matarazzo do primeiro ano, na qual certamente temem que um próximo ataque possa ocorrer novamente no local ou algo assim.
Lavínia está de braços e inquieta, na expectativa de saber “pra que raios” você havia chamado pra esse encontro que tem que ser tão distante de todos.
— Se você não fosse amigx, eu juraria que você estaria me trazendo pra esse jardim pra me atacar. Anda, S/N, pra que toda essa discrição e mistério?— ela pergunta abaixando o tom de voz ao ver duas garotas saindo de trás da moita um pouco próximas de onde estão — Daqui a pouco elas vão sair falando pra escola que a gente tá aqui armando alguma coisa. Vão achar que estamos fazendo uma revolução.
— De certa forma, não deixa de ser uma — você responde, encostando-se no tronco áspero da árvore com expressão séria, sem espaço para brincadeiras — Lavínia, preciso te pedir uma coisa. É sério. E precisa ficar só entre nós.
Lavínia franze o cenho, estreitando os olhos com curiosidade.
— Estou ouvindo. Desembucha.
— Quero que você se reaproxime da Micaella.
A reação é imediata. Lavínia dá um passo pra trás, balançando a cabeça em sinal de negação.
— An, an. Mas o que é isso que você tá me pedindo? Tá doidx? Pra que eu vou me reaproximar da Micaella? Você sabe que eu não suporto essa garota. Principalmente depois do que ela fez com a Rebekah. S/N, ela traiu a própria amiga na cara dura com o namorado dela. Ou por acaso já esqueceu?
— Não, eu não esqueci. E o que eu vou pedir não é nada demais — você diz.
— E por que você não faz o que tem que fazer, então? Você era mais próximx dela do que eu.
— Porque… ora, você não vê que o circo fechou pro meu lado? Você acha que a Micaella iria querer manter contato comigo depois do que aconteceu na escola com Suzanne? Ela deve ter embarcado na onda dos outros de acreditar e, por isso ela não quis falar mais comigo — você explica.
— Tá, e por que eu e não Cris, Allison ou Max? Com certeza elxs teriam mais aptidão pra um diálogo mais civilizado do que comigo.
— Aptidão? Que linguajar é esse que você tá usando?
— É o meu linguajar. Tô virando uma menina culta. A Meghan me deu várias aulinhas e me ensinou palavras que eu nunca tinha ouvido.
— Certo, isso não importa agora. O que eu quero é que você fale com a Micaella porque você seria a pessoa que com certeza ela iria escutar. Cris, Allison e Max são pessoas que ela talvez saiba que não a escutariam. Agora você, de certa forma violenta como é, ela daria mais ouvidos já que ela sabe que o máximo que você faria seria dar uma surra nela, mas é algo que não vai acontecer, não é mesmo?
Lavínia solta uma risada soprada, incrédula, e cruza os braços com mais força.
— Tá, e o que vou dizer? "Oi, Micaella, sumida! Tudo bem? Eu sei que você pisou na bola, a gente te odeia, mas eu quero tentar ser sua amiga.” Ela vai me deixar falando sozinha na hora. E eu não vou aguentar e vou terminar de esculhambar com ela. É isso que vai acabar acontecendo.
— Não se você der um motivo que conforte ela. Tipo, que você tá cansada do grupo e quer sair fora pra que nada respingue em você e que enxerga que apesar do que ela fez, ela não é uma má pessoa e que fora do grupo a Micaella é a mais próxima com quem você teve contato e que agora quer reatar — você diz.
— Você tá falando como se a gente tivesse namorado. Credo! Nem se eu fosse lésbica. Isso seria a pior mentira que eu contaria.
— Mas é pra um bem maior. Se a Micaella se achar importante e confortada, ela pode ceder e chegar aonde eu quero.
— Que é…
— Saber se ela tem informações sobre alguma coisa da noite do baile de inverno. Eu preciso saber se ela viu ou ouviu alguma coisa. Lembra que me foi dada a missão de vigiar o povo dessa escola? Eu acho que já demorei demais pra fazer isso — você explica.
— Ahh, agora entendi onde você quer chegar. Você tá me usando como bode expiatório.
— É. Só dessa vez. Eu acho. Aliás, você me deve. É o mínimo que você pode fazer pra me ajudar depois de ter me drogado com aquele suco mentolado. Eu quero que você consiga algumas informações pra mim. Vai saber se não foi a própria Micaella também pra se vingar do grupo, não sei.
— Não começa com as suas teorias também, S/N. Acusar uma pessoa sem provas também não pode.
— Eu não tô acusando ninguém. Só preciso começar a investigar, já disse. Preciso me preparar, adiantar alguma coisa. Depois desse sumiço do Joaquim, pras acusações e picuinhas envolvendo meu nome começar de novo é num instante. E vocês do grupo podem acabar pagando já que andam comigo. Olha, você pode falar isso pra Micaella. Já seria bem convincente, se já não for verdade, né?
— O que você tá querendo dizer com isso? — ela questiona, desconfiada.
O silêncio cai entre vocês, quebrado apenas pelo sussurro das folhas ao vento. Lavínia desvia o olhar para o horizonte do jardim, processando a gravidade do plano. De uma certa forma é arriscado. Se Micaella descobrir a farsa, qualquer chance de trégua estaria morta.
— Isso é muito perigoso, S/N — murmura Lavínia, finalmente olhando de volta — Se ela descobrir que estou espionando…
— Você não vai espionar. Você vai apenas... ouvir. Coletar informações. É diferente — S/N suaviza colocando uma das mãos no ombro dela, encorajando-a. — Só precisamos saber como ela tá de verdade. Faz isso pela nossa segurança. Pelo grupo.
Lavínia suspira profundamente, os ombros cedendo sob o peso da decisão. Ela lhe olha com um misto de resignação, de dúvidas mas também determinação ou interessada em assim fazer, já que é por um bem nobre, digamos assim.
— Tá, eu faço — ela aceita um pouco meio incomodada porque trata-se de Micaella — Mas se isso sair do controle, eu digo que foi ideia sua.
Você dá um sorriso tenso, porém de alívio.
— Tá, pode dizer. Eu já estou todx visadx mesmo.
— E… por onde a gente começa?
⌚️ Um tempo depois…
O sinal do intervalo ecoou pelos corredores como uma sentença de morte.
Pra você, o som parece o início de um cronômetro regressivo para o desastre.
Enquanto a maré de alunos inunda o pátio principal com risadas e conversas barulhentas, você prefere se afastar do fluxo, sentindo o estômago dar nós. A sensação de carregar um segredo tão pesado lhe deixa quase dormente. O plano de S/N ainda ecoa na sua mente, desde a hora em que a conversa havia finalizado. Nem sequer conseguiu prestar atenção na aula por conta disso. A teoria é sempre muito mais bonita que a prática. Como é que eu vou olhar na cara dela sem voar no pescoço dela?, pensa consigo, sentindo as unhas cravarem na palma das mãos. "Seja convincente. Ela precisa acreditar que estamos desmoronando."
O problema não é mentir. O problema é que, no segundo em que olhar para a cara de Micaella, não sabe se conseguirá manter a máscara de "amiga arrependida e cansada" ou se simplesmente voaria no pescoço dela por tudo o que ela fez. As mãos já começam a suar novamente, então as limpa na lateral da calça, tentando acalmar o ritmo do coração.
Começa a procurá-la. A princípio foi evitando os lugares óbvios onde o grupo costuma se reunir — até porque ver S/N ou qualquer outro agora só estragaria o disfarce. Depois foi em direção à biblioteca, depois ao refeitório, mas nada.
Parece que ela realmente está se escondendo de todos.
Finalmente, decidiu checar o antigo bloco de laboratórios desativados, um lugar onde pouca gente vai por ser frio e silencioso demais. Mas nada.
Então, voltando pelos arredores e outros corredores até novamente chegar no pátio e, vasculhando entre os alunos que riem e conversam, a avista, sentada em um banco mais afastado, sob a sombra de um pergolado, mexendo no celular com uma postura intocável de quem se julga superior a tudo e a todos, bem parecida com alguém bem conhecida na escola.
Respirou fundo, engolindo o orgulho — e a raiva — forçando suas pernas a se moverem.
— Oi, Micaella.
Ela não levantou os olhos imediatamente. Levou alguns segundos antes de travar a tela do celular e te encarar com uma sobrancelha perfeitamente arqueada.
— Lavínia? — ela finge surpresa, esboçando um sorriso cínico — Nossa, achei que vocês tinham me deletado da existência de vez. O que você quer?
Eu quero quebrar esse seu nariz empinado, foi o primeiro pensamento que cruzou a sua mente, mas decide forçar um sorriso murcho, tentando parecer vulnerável.
— Eu... eu só queria conversar um pouco. Saber como você tá.
— Consideração? Que fofa. E desde quando você se importa comigo, Lavínia? Sempre me mandava indiretas, falava certas coisas. Deixa eu adivinhar... veio aqui a mando do seu grupinho de heróis? — Micaella pergunta claramente mostrando nenhum interesse.
— Não tem grupo nenhum, Micaella! — rebate, e dessa vez o tom hostil quase lhe entrega. Calma! Volta pro personagem! — você pensa consigo em seguida desviando o olhar forçando os ombros a murcharem, adotando uma postura derrotada — Na verdade... não tem mais grupo. É exatamente por isso que vim falar com você.
— Ah, é? O que aconteceu? Cansou de brincar de casinha com os outros? Agora que seu grupo acabou vem atrás de mim pra quê? Pra fazer um novo? Não quero saber de nada. Isso é problema seu. Na verdade… — ela dá uma pausa — Na verdade eu sei o que você tá fazendo.
Você engole seco e por alguns segundos fica sem fala.
— Seu grupo tá desmoronando, é isso? Não me parece bem isso. Eu vejo vocês andando pra lá e pra cá.
— Isso é… são só aparências — você mente sentindo um gosto amargo na boca — Depois de toda aquela confusão, todo mundo começou a apontar o dedo. A gente não se suporta mais. Está ficando cada um por si agora. Eu me senti uma idiota por tanto tempo defendendo as pessoas erradas. Agora tô vendo isso com clareza e... achei que talvez você fosse a única que entenderia o que é ser deixada de lado.
Micaella lhe avalia de cima a baixo, procurando qualquer sinal de falsidade que fosse. Mas adotando uma posição neutra, ela diz:
— Entendi — Micaella disse, levantando-se devagar do banco. Ela dá um passo na sua direção, diminuindo a distância e o sorriso dela se torna ainda mais cortante — Então quer dizer que a grande aliança entre vocês ruiu? Que trágico. Mas sabe, Lavínia... eu não sei se sinto pena por você estar sozinha. Afinal de contas, você escolheu o lado errado desde o começo. E acontece que eu também que criticava a Cynthia por simplesmente quem ela é, sendo que a diferença é que a Cynthia pode até ser arrogante, mas não é assassina.
As palavras sobre S/N entram como uma facada no seu peito. Seus dentes rangem com tanta força até sua mandíbula doer. O impulso de partir para cima dela, de segurá-la pelo colarinho do uniforme e gritar a verdade foi quase incontrolável.
“Só mais um soco, só um empurrão e eu acabo com essa pose”, pensa, o coração martelando no peito.
Respirando fundo, porém, mentalmente, você canaliza a raiva em uma expressão de pura mágoa falsa. A acusação de Micaella tem que parecer como se tivesse te destruído por dentro, e não enfurecido.
— Você acha que eu não sei disso? — você murmura com a voz trêmula. — Eu... eu errei, Micaella. E tô percebendo isso cada vez mais. As coisas que S/N fala não fazem muito sentido. Às vezes é como se elx pensasse muito no que dizer, pra inventar coisas e arredondar a história do que realmente aconteceu naquela noite. S/N mudou totalmente. Principalmente agora depois da volta às aulas. Elx tá paranoicx, agressivx... o grupo começou a brigar porque ninguém mais confia em ninguém. Eu não tô mais aguentando o clima pesado. Ainda só estou no grupo pra tentar arrancar alguma informação. Vai que elx solta alguma coisa sem querer.
— Nossa, super — Micaella concorda — Mas saiba que pessoas assim são difíceis de conseguir alguma coisa. Elas podem matar e serem totalmente simpáticas e sociáveis. Isso é psicopatia.
Micaella recolhe a mão, cruzando os braços novamente, com o brilho de triunfo no olhar. É como se ela saboreasse cada palavra que sai de sua boca.
— E assustador. Como eu pude andar com alguém assim? — você diz.
— Aquela noite foi super traumatizante. Pra todos. Um desastre completo.
— Eu sei… eu sei. Só de lembrar eu já fico arrepiada — você fala passando as mão pelo braço mostrando bem de perto para Micaella, porém não há nenhum pelo em pé — Quando eu lembro da cena que vi, dos gritos das alunas com medo. Nossa. E o pior é que eu não vi, nem percebi nada. Você não ouviu nada? Alguém correndo ou agindo de forma estranha ou qualquer barulho diferente? Qualquer detalhe mudaria tudo.
Micaella para sua empolgação e, cerrando os olhos lhe avalia. Você prende a respiração na torcida e desespero “Por favor, morde a isca. Diz que viu uma sombra, diz que ouviu uma discussão, qualquer coisa.”
— Peraí, por que o interesse repentino nos meus passos daquela noite, Lavínia?
— Porque eu só quero que isso acabe! — você dispara deixando uma pitada de desespero real transparecer — Se a polícia achar o culpado de verdade, eles param de vigiar S/N e deixam o resto de nós em paz e não vai ter mais ataques. Vai saber o que aconteceu com esse Joaquim? Eu só pensei que... bem, você é atenta. Não deixa nada passar. Pensei que pudesse ter notado algo que os investigadores deixaram batido.
— Pois pensou errado. Eu não vi absolutamente nada, e não ouvi nada de anormal. Ou você esqueceu da confusão da noite entre eu, Micaella e Tommy? Com toda a euforia daquela noite depois do escândalo eu não poderia ver nada. Eu saí com Tommy, ficamos afastados um pouco longe daquilo e só — ela declara — Eu não quero mais falar desse assunto. Falar de Tommy ainda dói pra mim de uma certa forma. Ele acabou saindo da escola por causa daquela azeda da Rebekah. A gente tentou continuar com a relação, mas ele não parava de falar daquela garota, acabou não dando certo.
Você observa Micaella falar sobre algo que nem havia perguntado, prestando atenção em cada detalhe que ela dá. Mas no momento em que ela percebe, já te trata diferente.
— Por que eu tô falando tudo isso pra você? Isso não é da sua conta.
— Bom, você que começou a falar. Eu só tô aqui de ouvinte — você diz.
— Enfim, voltando ao assunto original: Se alguém planejou aquilo no escuro, fez um trabalho perfeitamente limpo. É uma pena, na verdade. Adoraria ter o prazer de ver S/N saindo daqui algemadx.
Frustração. Uma onda violenta de frustração pura e fria te atinge em cheio. Nada. Ela não sabia de nada, ou estava mentindo muito bem. Todo aquele teatro, o estômago embrulhado, o perfume sufocante dela na sua cara... tudo para receber um "não" definitivo. Um calor incômodo sobe pelo seu pescoço. A raiva reprimida com tanto esforço desde o início da conversa começa a transbordar.
— Limpo? — sua voz sai mais alta do que pretendia. O tom submisso some, substituído por um rosnado tenso — Alguém quase morreu naquela noite, Micaella. Não tem nada de "limpo" ou divertido nisso.
Micaella trava. Ela virou o rosto para você com a expressão mudando de irritada para uma severidade fria.
— O que você disse? — ela pergunta sem entender.
— Você ouviu. Você fala disso como se fosse uma fofoca de corredor ou um jogo para ver quem cai primeiro. A vida de todo mundo virou um inferno, mas você só liga para o seu próprio ego inflado!
Micaella te encara, chocada por um breve segundo antes que suas feições se transformassem em uma máscara de pura fúria. A farsa tinha desmoronado na frente dela.
— Olha como você fala comigo, sua garota de recados hipócrita! — Você vem aqui choramingar, pedindo esmola para sentar na minha mesa, e agora quer me dar lição de moral? Eu sabia que essa sua conversinha ‘tava estranha. Você não mudou nada. Continua sendo a mesma cadelinha raivosa de S/N!
Por um segundo se vê avançando em cima de Micaella. Os dedos se fechando no colarinho do uniforme arrancando aquela pose de rainha com um soco bem no meio daquele sorriso cínico. A vontade física de bater nela é quase magnética, uma força que puxa seus braços para frente.
Bate nela, a raiva gritava na minha cabeça. Ela merece. Acaba com isso de uma vez.
Micaella percebe a mudança na sua postura. Ela tensiona os ombros e arregala os olhos sutilmente enquanto espera o impacto, mas sem recuar, sustentando o olhar com pura arrogância.
Porém, ao lembrar das palavras de S/N e de sua trajetória na escola, parece que seus nervos entram em estado de alerta como se pedissem pra você parar. Uma vez você já tinha tido uma colher de chá ao voltar pra escola depois de um tempo sumida após o período em que se recuperou com a perda de seu filho, dando uma surra em Tommy e em Miguel Park Jisoo, o rival de Tommy, na qual ele suspeitava que tinha sido o responsável por tê-lo denunciado a respeito da bebida alcoólica no Super 8.
Aquela vez a escola não emitiu sua expulsão justamente devido ao tempo que passou. Claro, que isso não justifica uma agressão dupla, mas havia uma menina sofredora e uma mãe super preocupada. Aquilo foi um jeito de você extravasar por tal motivo, mas esse episódio não poderia acontecer outra vez.
Então, fecha os olhos por um milésimo de segundo, forçando o ar a entrar nos pulmões. O oxigênio queima e, aos poucos, vai trazendo um rastro mínimo de sanidade de volta.
“Eu não posso dar esse gostinho a ela. Não mesmo.”
Ao abrir os olhos, a fúria parece ter sido controlada.
— Você não vale o meu tempo, Micaella — a voz relaxada porém frustrada pelo plano não ter dado certo cortando como uma lâmina.
Logo vai saindo para não ouvir o resto do veneno de Micaella que já começa a murmurar coisas. De costas, não olha para trás sem dar satisfação de uma última palavra. Suas mãos tremem violentamente e o peito sobe e desce, ofegante. Você evitou uma briga física, mas o estrago estava feito. No mesmo momento pega o celular para digitar para S/N, sabendo que a conversa logo poderia ser mais difícil do que imaginava.
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