É um fim de tarde típico de primavera, onde o crepúsculo não chegou como uma transição suave, mas como uma sombra pesada que cai depressa trazendo consigo um vento cortante que assobia nas frestas do vidro. Os tons de roxo no céu misturados com a coloração laranja do pôr do sol faz tudo parecer uma pintura de tão deslumbrante que tudo se torna. À medida que o sol se põe recolhendo seus últimos feixes de luz, as sombras se alongam, aos poucos, pelas paredes do quarto, engolindo os cantos do ambiente e trazendo consigo o sutil esfriar do início da noite.

Na penumbra, a tela do computador é a única fonte de claridade pulsante, iluminando todo o quarto com um brilho pálido e azulado.



Seus olhos estão focados em linhas e mais linhas de arquivos digitalizados, relatórios antigos e fragmentos de jornais de notícias em sites da biblioteca digital. A busca é minuciosa. E objetiva: fatos históricos de Miríade. Mais especificamente a era de dona Ami. Aqueles anos de chumbo em que a cidade não era apenas um emaranhado de ruas, mas um caldeirão fervente de rebelião, segredos enterrados e sangue seco sob o asfalto. Cada manifesto antigo lido e cada foto em preto e branco digitalizada parecem sussurrar avisos de uma época em que a cidade tentou quebrar suas próprias correntes, cobrando um preço alto demais de quem se atreveu a liderar.

O silêncio do quarto, quebrado apenas pelo movimento da avenida do lado de fora começou a sufocar. A atmosfera pesada daquelas descobertas exigia uma segunda mente.

Com os dedos levemente gelados pelo frio que começava a tomar o ambiente, você de imediato pega o celular. A tela brilha, iluminando o rosto cansado por um instante antes de iniciar a chamada. Foram apenas dois toques antes que a voz de Allison do outro lado rompesse a quietude opressiva, misturando-se ao vento que começava a bater contra o vidro da janela:



— Allison? E aí, encontrou alguma coisa importante que eu não achei?

— Oi, S/N. Eu não encontrei nada demais. Como você sabe, a Internet limita algumas declarações e notícias. Sobre Miríade, então… não podia ser diferente. No meu bairro não tem um arsenal de informações, livros e coisas que possam nos ajudar assim como encontramos na Biblioteca Central. Se tiver, está muito bem escondido, mas é melhor a gente não procurar.

— Eu sei, aquele seu amigo Palooma não vai gostar de saber o que a gente procura. Mas… ele não poderia ajudar a gente em qualquer hipótese? — você pergunta.

— S/N, do jeito que Palooma é. Você não lembra que quase viramos picadinho por ele. Se eu não tivesse sido reconhecidx talvez nem estaria aqui pra contar história — Allison responde com uma risadinha.

— Tá, então deixa pra lá.

— Não entendo. Por que toda essa curiosidade agora? Por que você tá querendo saber de mais fatos sobre Miríade? Só pra ajudar essa sua amiga?

— É. E também por curiosidade. A enfermeira que cuidava dela certamente é daí. E o rapaz que ajudava também. Lembra que rastreamos o número dele e encontramos em uma casinha no seu bairro? Depois disso eles sumiram. Só queria tentar encaixar as peças pra ver se é o que eu tô pensando.

— S/N, nem todo mundo de Miríade é ruim como falam. Eu sei que o pessoal do meu distrito… quer dizer, bairro, tem muitas histórias não legais pra serem reconhecidos, mas também tem gente boa aqui.

— Eu sei. Eu não quero que se sinta ofendida. Na verdade, nem sei mais no que pensar — você diz dando um breve suspiro, cansadx.

— Você precisa sair um pouco. Precisa dar uma volta. Não quer sair comigo? — elx pergunta.

— Que tipo de pergunta é essa? O que Max pensaria se soubesse que a gente tá saindo às escondidas?

— Você é amigx. E Max não precisa saber. Já vivemos muitas aventuras juntxs. Esse vai ser mais um segredo nosso. Olha, só pra constar que não estou traindo ninguém, mais uma pessoa vai com a gente. Chamei a Lavínia. Ela vai nos encontrar lá e ser testemunha de tudo.

— Lá aonde? — você pergunta sem entender.

— Está com saudades do Super 8?




📍 Super 8…



Vinte minutos depois, a atmosfera fresca, porém um pouco mais fria da noite bate contra o seu rosto assim que você empurra a porta de vidro do Super 8. O contraste é imediato: o cheiro de café fresco, óleo de fritura e o murmúrio baixo das conversas dos clientes criam uma bolha de falsa segurança contra o crepúsculo hostil do lado de fora.

Você e Allison estão numa mesa tomando cerveja amanteigada e licor de chocolate enquanto aguardam a chegada de Lavínia. Allison trouxe consigo uma cópia de um manifesto em Miríade da década de 80.

— Pelos fatos que você me contou, essa sua amiga, dona Ami pode ter participado de muitas das rebeliões que aconteceram naquelas épocas. Mas… ela não te contou nada do que realmente aconteceu? Você sabe se essa sua amiga era de Miríade também? — Allison pergunta, curiosx.

— Eu não sei muita coisa. Dona Ami fala muita coisa e às vezes não fala nada. A prima dela distante, Albertina, disse que dona Ami fala coisas meio confusas, trocando fatos. Mas uma coisa eu não posso negar, aquela história dela ter sido encontrada amarrada no armário não foi invenção e tinha um bilhete ameaçador. Até hoje me lembro. Tenho certeza que tudo isso tá ligado àquela enfermeira Mirella. Mas o porquê mesmo ninguém sabe — você diz um pouco frustradx.

— Essas pesquisas que a gente encontra pelos sites não são o suficiente. Nem em Miríade temos onde pesquisar — Allison fala.

— Vocês não têm mesmo um arsenal, uma biblioteca ou um museu onde guardam as histórias de Miríade? Tem certeza?

— Não. Não de pesquisas, apenas de objetos. Ele fica em um local no meio de Miríade — Allison explica.

— Então acho que o que eu quero vou ter que conseguir com a dona Ami mesmo — você diz dando um breve suspiro como reação à resposta de Allison.



A sua esperança de conseguir algo mais específico sobre a época de Miríade na fase das rebeliões, porém está sendo mais complicado do que esperava. A Biblioteca Central seria um bom lugar pra procurar algo sobre, mas será que vale a pena gastar tempo e esforço lá?



— O que você não me falou ainda é por que tá fazendo isso? Por que todo esse interesse pelas rebeliões antigas de Miríade e pra que saber se essa Mirella está ou esteve envolvida nisso?

— Eu explico mais uma vez — você inicia — Dona Ami me falou coisas sobre a época de Miríade. Ela vive me dizendo que naquela época o povo de Miríade não era confiável. O bilhete que deixaram com dona Ami, aquela ameaça, pode ter alguma coisa a ver com algo que a dona Ami possa ter vivido na época. A Mirella pode ser a chave disso, ou por que mais a Mirella doparia a dona Ami e depois sumiria desse jeito? Pode ser que ela tenha dado um aviso por algo que dona Ami fez no passado.

— Mas o que isso tem a ver com você, S/N? Por que não deixa essa história com a polícia? Nós não precisamos investigar — Allison suplica com a expressão de quem tá querendo dizer que não está nem um pouco a fim de entrar pra uma nova confusão. De verdade, seu olhar é de alguém que está a todo custo tentando te precaver te cometer um enorme erro e que talvez não possa se desvincular dele depois.



No meio disso, o sino da porta do Super 8 toca e, do nada, é lançada na mesa uma bolsa preta com detalhes metálicos espinhosos.



— Eu não faço a mínima ideia onde que a Mirella possa estar. Eu pude jurar uma outra vez que ela estava online, mas eu não pude ter certeza porque ela não tem mais foto de perfil e quando eu comecei a digitar ela saiu. Agora, eu não entendo, por que você me pediu pra tentar falar com ela outra vez, S/N. Eu achei que a gente já tinha superado essa história de ir atrás da Mirella e tivesse deixado isso pra polícia resolver. Você pode me explicar o que você tá querendo com isso? — Lavínia pergunta parecendo furiosa ou preocupada, logo sentando-se à mesa.

— Foi o que eu acabei de perguntar, mas S/N disse que…

— Eu disse que tô pesquisando e quero saber mais coisas sobre o passado de Miríade e a era rebelde. Eu acho que algumas coisas possam ter relação, tipo, dona Ami foi atacada uma vez por ter alguma relação mais profunda com o povo de Miríade na época e eu… não sei, posso até estar imaginando coisas, mas tem uma chance de esses eventos acontecerem por perto de mim por causa da minha curiosidade, não é? Digo, eu descobri as passagens das trilhas de trem e andei pelo bairro de Miríade, investiguei com Allison coisas que eu não poderia investigar e…

— Espera, espera. Isso não faz sentido — Lavínia interrompe — Você tá querendo dizer que essas coisas absurdas de ataque à Suzanne e você ter sido de primeira a principal suspeita por ter amarrado dona Ami no armário é porque você descobriu sobre essas trilhas de trem? — ela dá uma risadinha — Eu acho que alguém tá precisando do suco mentolado da Meghan outra vez.

— Suco mentolado? Que suco é esse? — Allison pergunta sem entender.

— É um suco que a Meghan, minha amiga de infância de Atelis me dava quando eu falava muito sobre os trilhos de trem. Esse suco me ajudava a me acalmar. Era um calmante e sonífero e me ajudava a esquecer sobre os trilhos por um tempo — você diz deixando Allison e Lavínia de boca aberta — Ah, pra que essa surpresa, Lavínia? Vocês achavam mesmo que eu não sabiam que vocês estavam me dopando por causa das minhas conversas?

— Eu… eu só achei que… — ela inicia.

— Espera, a Lavínia estava te dopando? E você sabia e aceitava, S/N?! Que coisa absurda! Essa não é a Lavínia que eu conheço — Allison repreende.

— A gente só ‘tava ajudando S/N. Elx não parava de falar sobre esse trilhos em Atelis, sendo que não existem trilhos de trem em Atelis!

— Bom, eu não sei bem o que tinha dentro daquele suco, mas me ajudava a me tranquilizar. Era uma coisa que dava certo e eu ficava bem. De alguma forma eu podia me acalmar e esquecer um pouco do turbilhão de coisas que ‘tava acontecendo. Na verdade, eu tinha que agradecer vocês por isso — você diz arrancando um sorriso singelo de Lavínia enquanto que, Allison, ainda fica boquiabertx com a conversa — O que eu fico com medo e tô começando a pensar é que meu pai possa ter alguma coisa nessa história. Tipo, vai que assim como dona Ami, meu pai também teve suas relações com a rebelião naquela época e agora inimigos do passado estão querendo se vingar? Começou pela prisão dele, teve aquele táxi voador que supostamente foi sabotado por aquele russo Svidetel…

— Mas isso não tem nada a ver, S/N. Sua família não é de Atelis? O que seus pais, podres de ricos teriam a ver com a história de Nevinny antiga? — Lavínia dispara — E além do mais, me desculpa pelo que vou dizer agora, mas essas coisas com o seu pai tem a ver com as atitudes que ele tomou agora depois de adulto ou por inconsequentes atitudes do passado e agora ele tá pagando por isso. Não tem nada a ver com o passado da cidade.

— Será? Eu achei que conhecia o Joseph e quando fui ver ele estava sendo preso por crimes, corrupção, lavagem de dinheiro e sabe-se mais o quê. Quem me garante que ele também não teve pelo menos uma pontinha de participação na história de Nevinny? — você questiona, pensativx.

— Realmente, é um ponto. Você pode ter razão quanto à isso, S/N. E, se for, essa teoria de que o seu pai possa estar pagando pelo o que ele fez no passado pode ser super real — Allison concorda — Mexer com uma história dessa ainda mais num tempo turbulento é difícil de apagar. Ele pode estar colhendo agora o que ele aprontou naquela época.

​Lavínia cruza os braços, recostando-se na cadeira estofada do Super 8, ainda um pouco desconfortável por ter sido desmascarada sobre o suco mentolado, mas obstinada em manter os pés no chão.

​

— S/N, o Joseph sempre foi um homem de negócios, focado em Atelis. Como ele se encaixaria em Nevinny? As duas realidades mal se cruzavam naquela época. Hoje ainda continua assim. Nevinny é vista como a cidade caótica e Atelis como a cidade de ouro.

​— Justamente através do dinheiro, Lavínia — Allison intervém, os olhos brilhando com a nova linha de raciocínio que começava a se desenhar na mesa. — Pense bem. Uma rebelião não se sustenta apenas com ideais e manifestos. Eles precisavam de armas, de transporte, de esconderijos e, acima de tudo, de financiamento clandestino. Se o pai de S/N era podre de rico e já estava envolvido em esquemas de lavagem de dinheiro recentemente, quem garante que essa "habilidade" dele não começou lá atrás, financiando os dois lados da moeda na antiga Nevinny?

O silêncio cai sobre a mesa por alguns segundos, quebrado apenas pelo som da máquina de café expresso ao fundo.

— Nossa, você falando assim até me assusta um pouco por falar do meu pai. Mas, vai que isso está certo. Eu não sei mais de nada — você diz dando um breve suspiro.

— Temos que ser realistas, S/N. Isso com toda certeza — Allison afirma.

— ​Se o Svidetel sabotou aquele táxi voador — você diz, com a voz baixa e firme — ele não estava apenas tentando silenciar o meu pai, ou assustar de alguma forma, ele estava executando uma queima de arquivo que começou há décadas. Lavínia, meu pai disse que ele e o senhor Svidetel não tiveram uma boa relação no passado. Teve traição incluída nisso. Meu pai levou aquele táxi voador pro navio como forma de apaziguar tudo. O bom é que ninguém morreu, mas o susto já foi o suficiente. Meu pai não foi preso, mas teve que desembolsar algum dinheiro pra reparar o que ele fez.

— Espera, de que táxi voador vocês estão falando que eu não tô sabendo? — Allison pergunta um tanto incomodadx.

— Ah, foi um evento em Atelis. Nada demais — Lavínia fala imediatamente olhando para você.

— Se essas teorias que estamos conversando sobre Mirella estarem certas e todo o resto, pode ser que pessoas possam correr perigo. Se foi Mirella mesmo que atacou dona Ami ou alguém envolvido com a política do passado em Nevinny sabotou mesmo com o meu pai e até mesmo atacou Suzanne e que de alguma forma quis colocar a culpa sobre mim, então quer dizer que eu e principalmente quem está comigo possa ser atacado de alguma forma — você conclui olhando para o lado quando algumas pessoas estão olhando fixamente para a janela.

Um ruído estranho ecoa do lado de fora. Não é o som comum do tráfego ou de alguma discussão de rua, mas sim um murmúrio coletivo, uma onda de exclamações abafadas que faz a conversação na lanchonete morrer instantaneamente. Os primeiros clientes já começam a sair de suas mesas e correm tanto para janela e, outros, com maior curiosidade, já vão para fora, estes já apontando para o céu.

Sem demorar, você, Allison e Lavínia, movidxs pela curiosidade e indagação, logo acompanham os demais, deixando as bebidas de lado ao verem já uma multidão que se forma bem na calçada.

As exclamações ganham potência na rua. O motivo é o que está acima de suas cabeças. De repente, algumas naves posicionadas, ao todo, umas cinco, sobrevoam, todas para uma mesma direção. São táxis voadores. Iluminados, exatamente iguais aos que o seu pai apresentou no navio do senhor Svidetel e também no evento do Purple X em Dolahrey, no ano passado.

— Que coisa linda! — Lavínia exclama, logo pegando o celular para filmar o desfile dos veículos.



Outras pessoas também parecem impressionadas pela visão que estão tendo. Em segundos há inúmeras delas com os celulares apontados para cima e outras apenas observam.

Depois que os táxis voadores passam e já estão mais longe, subitamente, eles simplesmente desaparecem. O céu, agora, fica iluminado, em seguida coberto com uma névoa baixa. Dessa vez ele projeta, de cabeça para baixo e em proporções titânicas a silhueta de uma floresta cercando toda a região. É como se uma versão fantasmagórica, sombria e hiper-realista da natureza estivesse flutuando sobre a cidade, pois os pássaros passando e piados de coruja dão ao ambiente um toque e tanto de realismo.

O barulho da rua cessa. Os carros que passavam agora estão parados. As pessoas saem do carro depois que um clarão encobre a superfície. É a Lua. Linda e brilhante, talvez mais do que nunca. Sua luz é tão grande que encobre o rosto de todos com o brilho diamante. Tudo faz soar como se todos os pequenos fossem microscópicos diante do evento.

Um vento forte na terra surge e, de algum modo, dissipa a névoa encoberta na imagem acima. Um efeito especial bem ensaiado, digamos de passagem. Tudo sincronizado a ponto de arrancar da grande maioria aplausos bravos e fortes.

O som ecoa firme pela rua pelos quatro cantos. As pessoas sorriem, maravilhadas, guardando os celulares nos bolsos enquanto trocam comentários animados sobre "o maior golpe de marketing que Nevinny já tinha visto". Para a multidão, aquilo tinha sido apenas um espetáculo tecnológico de tirar o fôlego, um show de luzes perfeitamente ensaiado. E de fato foi. Mas, de alguma forma, para você não é apenas isso.

Allison ainda aplaude devagar, com um sorriso impressionado no rosto, enquanto Lavínia guarda o celular, maravilhada com o vídeo que acabara de gravar.

​— Isso foi surreal! Eu nem acredito que vi tudo de camarote — Lavínia diz, os olhos ainda brilhando com o reflexo diamante que a lua deixara no ar — Se isso for uma jogada de marketing pro lançamento dos táxis voadores, eles se superaram. Foi perfeito.

— Perfeito até demais — Allison concorda, cruzando os braços e olhando de relance para você — O que achou, S/N?

— É, foi perfeito. Bastante real. Uma tecnologia assustadora, mas bem convincente — você fala com um misto de maravilha e desconforto.

— Você sabia que o seu pai ia fazer isso? — Lavínia pergunta, curiosa.

— Na verdade eu nem sei se ele tem alguma coisa a ver com isso. Acho que ele teria me falado. Ou não.

— Acho que não. Senão estragaria a surpresa e você não estaria com essa cara.

​— S/N? Você está legal? — a voz de Allison soa mais próxima, o tom de animação dando lugar à preocupação ao notar o seu silêncio.

​— Sim — você fala, limpando as mãos suadas na calça e olhando uma última vez para o céu, agora limpo e escuro, como se nada tivesse acontecido — Vamos entrar? Nós deixamos as nossas bebidas e nem pagamos a conta ainda. Vamos pedir outras caso alguém tenha colocado alguma coisa dentro delas.

— Entrar? Nem pensar, S/N! Olha o tamanho daquela lua, ainda tá linda! — Lavínia exclama, apontando para o céu que, embora estivesse voltado ao normal, ainda mantém uma claridade prateada impressionante — Esse já é um dos eventos mais comentados desde o roubo do banco Khanterah. Eu preciso registrar mais momentos disso.

​— Uma superprodução dessas na periferia de Nevinny é raridade. Geralmente eles guardam esses efeitos visuais de última geração pra Dolahrey. Deve ser algum teste de projeção holográfica em larga escala. Vocês viram a nitidez daqueles pássaros? — Allison exalta — E o som? O piado da coruja parecia que estava do nosso lado, bem no poste ali na esquina. O design daqueles carros é exatamente igual do modelo apresentado no Purple Vision. A aerodinâmica é impecável. Joseph realmente tem muito bom gosto para os negócios, temos que admitir.

— Que bom que vejo que meu pai tem fã. Mas ele apenas fez o investimento, não construiu nem desenhou nada — você afirma.

​— E o show funcionou. Olha a rua! — Lavínia aponta para a avenida principal.

​As consequências do evento já começam a se desdobrar ao redor de vocês, mas de uma forma puramente urbana e caótica. O trânsito, que antes fluía devagar, agora está completamente travado. Motoristas haviam descido de seus carros para aplaudir e, agora que o espetáculo terminou, tentam voltar para os veículos ao mesmo tempo, criando um coro de buzinas confusas, mas sem a agressividade típica do tráfego de Nevinny. É uma energia quase festiva no ar.

​— Acho que metade da cidade vai se atrasar pra onde quer que estejam indo — Lavínia fala — Amanhã a escola não vai falar de outra coisa. Vai ser o assunto do momento.

​— Com certeza — Allison sorri, a mente já voltando, de forma mais relaxada, para os trilhos da normalidade — Mas falando sério, depois de um visual desses, até a energia pesada daquela nossa conversa sobre o Joseph e os rolos do passado deu uma dissipada. Parece que a noite ganhou outra cara. Vamos entrar e pedir outra rodada de bebidas?

— Vamos. Acho que preciso me distrair de novo — você concorda um pouco mais aliviadx querendo sair da multidão o mais rápido possível.

Você dá uma última olhada de relance para o céu e para o povo que ainda parece eufórico, meio que procurando ou esperando algo novo que possa aparecer acima de suas cabeças. Por fim, se viram em direção à porta do Super 8 enquanto o eco das buzinas e as risadas da multidão ainda preenchem abundantemente a noite de Nevinny, sob o brilho da lua que teima em continuar radiante.