Os órfãos de Nevinny

106 Oriundos de Montreal


Na estrada indo em direção à sua escola para o último dia de aula, está apenas você e Lívia passando pelas estradas cobertas de neve enquanto ainda um pouco de neve está caindo. Quer dizer, não estão completamente cobertas devido a algumas partes onde a neve está derretida.


Está uma manhã formidável para os amantes do frio, assim como está para você e ela. Ainda mais com uma música tocando na playlist de Lívia chamada "Alley-Oop" da banda americana The Hollywood Argyles trazendo a deixa perfeita para aumentar o volume e assim saborear a sonoridade.



— Ai, eu adoro essa música. Tá perfeita e combinando com o dia de hoje. É seu último dia de aula, meu último dia de trabalho antes do recesso. Por que não ficar mais animada?


— Ela é boa mesmo. Nunca tinha escutado — você diz.


— Você vai querer ir pra algum lugar hoje pra gente comemorar? Side Phantoms, Super 8? Ou qualquer outro lugar, não sei.


— Pode ser. Mas por agora eu tô focando na prova que eu vou fazer daqui a pouco. A gente pode pensar nisso mais tarde. Ainda bem que é prova de história, vai ser mais leve.


— Eu também tô leve com esse sumiço do Joseph. Ele não tá mais me perseguindo nem aparecendo na nossa casa. Nossa, acho que esse natal ia ser um porre por causa dele, mas acredito que vai ser melhor do que eu pensava — ela diz.


— Você já sabe o que vai fazer? — você pergunta.


— Ainda não, mas vai aparecer alguma coisa legal, senão a gente inventa. Não se importaria se fosse só eu e você, não é?


— Acho que não. Apenas não tendo gente chata e a gente ter que mostrar simpatia falsa é o que importa.




📍 Colégio Montreal



Depois de alguns minutos você enfim chega à escola. Antes de entrar você observa Lívia no carro indo até a esquina até dobrar na rua e em seguida desaparecer no cenário.


É engraçado que por ser o último dia de aulas, automaticamente vem em sua mente cenas do primeiro dia em que foi pisar na escola. Praticamente as mesmas imagens de alunos no portão conversando sorridentes, o segurança recepcionando-os. Só há alguns elementos que diferencia o dia atual com o de meses atrás: o clima antes de verão agora ser inverno, as roupas despojadas, curtas e livres das pessoas passando por todos os lugares, o cheiro do ar mais úmido, a paisagem branca... e também a faixa, uma enorme faixa pendurada bem na entrada da escola na parede depois do portão escrito:


— "BAILE ANUAL DE INVERNO DE MONTREAL. FALTAM 03 DIAS!" — Nossa, mal posso esperar por isso.


— Nem me fale. É o nosso primeiro baile — você diz, pensativx — Bom dia, Cris.


— Bom dia, S/N — Cris fala — Eu ainda nem sei se realmente venho. Tudo parece ser tão chato, tão coisa de... menininha.


— De menininha? Como assim?


— Sei lá. Não sei se faz muito meu tipo. Na minha cabeça vem uma festa de escola cor-de-rosa.


— Não, nada a ver. Deve ser bem legal. Você nunca viu um baile de inverno por aí em filme ou série? Deve ser bem legal. Você tem que vir. Eu achei que eu não ia vir mas acho que tô repensando direito e talvez eu venha sim. Vai que eu não tenha outra oportunidade.


— Caraca, você falando assim fica estranho. Parece despedida ou que vai morrer — Cris sorri.


— Eu não sei. Vai que hoje é realmente a última vez que eu piso nessa escola — você fala.


— Tá pensando em deixar o Colégio? Você vai sair?


Você faz um breve mistério por alguns segundos olhando para Cris com um sorrisinho de canto de boca, mas ao notar sua expressão logo quebra o silêncio e decide contar a verdade.


— É claro que eu não vou sair. Só tô brincando com você. Vambora, vamo' sair daqui de fora e entrar na escola. Aqui tá fazendo um frio enorme mesmo com todas essas roupas.



⌚️ Após algum tempo...



Reunidos no ginásio da escola após o breve intervalo e também após terem passado as últimas horas fazendo longas provas, você está sentadx em um dos bancos do ginásio ao lado de seus colegas lado a lado por ordem de Meredith e o diretor Pascualli juntamente à todos os outros alunos para darem início ao fim do último dia de aula. Já tem algum tempo que estão no local, inclusive várias músicas já tocaram na rádio da escola a fim de tentar distrair os alunos com toda a demora. Todos os estiloso e gêneros já tocaram, sempre agradando a muitos e a outros não. Porém a espera parece estar prestes a acabar quando uma movimentação surge ao centro da quadra. Parece que eles vão falar alguma coisa. Tem até microfone no meio do ginásio. Deve ser algo pra falar sobre o resultado das provas ou então pra gente não exagerar nas férias. Essa conclusão é feita ao ver Meredith indo ao centro do ginásio já com um microfone na mão parecendo uma apresentadora de TV.


— "Queridos alunos do Colégio Montreal, bom dia. É com muita tristeza e também muita felicidade que eu venho em nome de todos os funcionários falar sobre esse dia que muitos esperavam. Falar desse ano letivo em Montreal é falar sobre o quão desafiador certos dias foram e também os dias de glória. Todas as questões que tivemos que resolver, as festas, comemorações, despedidas e chegadas de novos alunos e funcionários. Mas também todos esses fatores foram imprescindíveis para escrevermos nossa história e chegarmos até aqui..."


— O que será que a Meredith vai falar hoje? Tomara que não seja tão longo. Tô doidx pra ir pra casa — Cris fala.


— Calma, Cris. Daqui a pouco a gente vai embora. Nós acabamos de fazer nossas provas, mas nós não estamos mais no ensino fundamental onde a gente termina de fazer a prova e vai embora. Eles querem se despedir formalmente e desejar boas férias pra todo mundo do jeito certo. Não vai demorar — Rebekah declara.


— Espero que não mesmo. Detesto ficar ouvindo falação chata — Max diz.


— "Como parte de nossa comemoração aos quarenta anos do Colégio Montreal decidimos inovar na despedida e resgatarmos alunos que praticamente fundaram essa escola. Por isso, é com muito prazer que quero chamar cinco alunos muito importantes de quatro décadas atrás para darem uma palavrinha com vocês hoje. Por favor eu peço aplausos. Alunos, podem entrar." — Meredith conclui.



Os alunos então começam a aplaudir enquanto veem cinco adultos entrando no ginásio até subirem no palco. Eles são adultos, não aparentam ter tanta idade. Talvez tenham por volta de um pouco mais de cinquenta anos cada um deles.


Um a um vão chegando até se posicionarem bem ao meio do ginásio ficando um ao lado do outro enquanto olham todo o local, os alunos e cochicham um pouco entre si.


— "Pessoal, por favor, deem boas-vindas para os primeiros alunos dos primeiros anos de fundação do Colégio Montreal. Assim como vocês, eles também passaram e festejaram o primeiro baile de inverno da escola. Assim também como eu. Sim, é possível que muitos de vocês não saibam, mas eu também fui uma novata e também veterana dessa escola, porém, esses cinco alunos que estão aqui do meu lado foram consagrados e escolhidos para abrirem e refletirem sobre algo que ficou guardado durante todo esse tempo. Acho que muitos de vocês já conhecem a chamada Cápsula do Tempo, não?



Um alto burburinho toma conta do espaço, alguns alunos até assobiam e gritam pra prestigiar os adultos, ao passo que alguns professores aparecem no ginásio trazendo cinco caixas douradas — naquela tonalidade de um dourado bem opaco — em cima de alguns travesseiros vermelhos com penugens douradas nas quatro vértices.



Os professores param um a um atrás dos antigos alunos e mais uma vez Meredith toma a palavra.


— "Hoje eu quero fazer uma dinâmica com vocês. Dentro dessas caixas estão as cápsulas do tempo desses respectivos alunos. Depois desse bom tempo, o que faremos hoje é dar a oportunidade deles abrirem suas cápsulas, lerem o que escreveram nela e fazerem suas reflexões, além de se apresentarem e falarem o que tem a dizer sobre o "eu" do passado e o "eu" do presente."


— Nossa, mas que coisa mais cafona. Essa história de "eu do passado" e "eu do presente" é tão besta. Quem liga pra isso? — Lavínia reclama.


— Concordo com você, Lavínia — Cris fala.


— Deixa de reclamar. Isso parece ser interessante — você diz.


— É, vai que eles falam alguma coisa de importante que sirva de conteúdo pra gente ou uma pista? — Allison declara.


— Pista? Que pista? — Max pergunta.



Um dos alunos, uma mulher de cabelos pretos ondulados de camisa azul e saia vermelha com bolinhas brancas toma a frente indo em direção ao microfone acompanhada de uma professora que carrega a almofada com a caixa dourada.


— "Bom dia, alunos." — a mulher fala.


— Bom dia — todos respondem.


— "Eu me chamo Nebraska Jones e eu fui aluna dessa escola há mais de quarenta anos. Como a Meredith disse, eu recebi esse convite pra abrir a cápsula do tempo que eu e meus colegas fizemos naquela época com as nossas ambições, sentimentos do presente da época e o que a gente queria pro futuro. Eu fico muito emocionada e muito feliz de ter feito parte da história e acredito que muitos de vocês, dessa geração de agora, tanto pra quem chegou esse ano e pra quem já tá indo, eu espero que estejam gratos e orgulhosos por tudo o que viveram aqui."


Nebraska finaliza a parte de seu discurso e os alunos a aplaudem com toda empolgação. Abrindo a caixa dourada, ela tira um papel de dentro e logo vai desdobrando-o até abrir por completo.


— "Por favor, Nebraska, você poderia ler o que escreveu para a sua cápsula do tempo e compartilhar com a gente?" — Meredith solicita.


— "Ah, tudo bem. Mas eu tô muito nervosa com isso então qualquer coisa se eu começar a chorar aqui, me perdoem." — ela diz já com a voz embargada.


O público ri enquanto Nebraska se prepara para a leitura.


— "Futuro eu, se não vou pedir muito, gostaria de pedir que até quando essa carta for aberta eu tenha realizado meus sonhos. Quais são eles? Nada muito extraordinário. Apenas me formar em alguma faculdade, ter um bom emprego, me casar com alguém e ter uma família. Não sou muito ligada à luxo, na verdade detesto quem faz disso uma prioridade na vida. Os anos oitenta é muito bom, mas tem algumas coisas que acabam impossibilitando nosso progresso por falta de avanço na ciência e na tecnologia. Eu espero que durante esse tempo ou até antes tudo tenha melhorado e que a paz enfim tenha chegado ao planeta. Com muito amor pra quem estiver lendo essa carta, e se ainda estiver viva, procura meu histórico no Colégio Montreal pra gente trocar histórias."


Em meio a aplausos e gargalhadas, Nebraska se consome em lágrimas enquanto que Meredith a conforta dando-lhe um abraço. Alguns dos outros ex-alunos que assistem atrás também se emocionam podendo ver eles dando algumas batidinhas com seus dedos para secarem seus rostos.


— Quanto drama pra ler uma cartinha antiga — Cris comenta.


— Nossa, que pessoa mais insensível você é, Cris. É claro que essa mulher, a Nebraska tá bem emocionada. Voltar na escola que ela estudou e voltar depois de quarenta anos após ter esperado pra abrir a cápsula do tempo durante todo esse período e reviver lembranças da época dela de ensino médio, é claro que ela ia ficar desse jeito, mas com certeza você não entende de emoções, não é? Nem parece que tem um coração aí dentro — Rebekah diz sério, mas logo depois dá um largo sorriso.


— É, também acho isso meio exagerado, mas eu entendo. Até eu achei tudo bonito — Lavínia diz.


— Bem, isso tudo é legal, mas... eu queria mesmo nem estar aqui. Na verdade eu queria estar em casa. As provas de hoje cansaram, eu queria ir embora e não ser obrigadx a assistir abertura de cápsulas — Max reclama revirando os olhos.


— Ah, amor, não fala assim. Você não tá achando divertido? — Allison pergunta.


— Na verdade não muito.


— Mas eu acho que não deve ser obrigado todo mundo assistir. Acho que se quiser você pode ir embora — você dispara.


Lavínia dá uma gargalhada baixa chamando a atenção de Max que a olha com a expressão aparentemente digamos... furiosa.


— Er...não sei se eu gostei do olhar de Max. Vocês não vão se estranhar agora, né? Porque se forem eu vou ver se consigo uma pipoca — Cris fala.


— Cris! — Lavínia exclama ainda gargalhando.


— Olhem, quem tá indo pro centro do palco agora é o cara. Vai ser a vez dele de abrir a cápsula — Allison fala imediatamente fazendo suas atenções se concentrarem no centro do ginásio, na qual realmente em seguida o homem ao lado de Nebraska dirige-se ao centro do ginásio acompanhado da professora que leva com ele sua caixa dourada.




⌚️ Após algum tempo...



Cinco cápsulas foram abertas e os respectivos alunos leram suas cartas sem deixar de se emocionarem com os conteúdos. Após deixarem mensagens de gratidão, apoio e guiarem os atuais alunos para terem foco e esperança, Meredith realiza uma espécie de convocação onde faz extrema importância da presença de todos, mais uma vez tomando a palavra...



— "Bom, eu espero que tenham apreciado a experiência de agora e espero que de fato reflitam sobre a trajetória dos ex-alunos e as suas trajetórias de hoje em diante na escola para os alunos que estão entrando esse ano e a trajetória de vida para os formandos que se despedem. Que essa abertura de cápsulas vos influenciem e inspirem, e também que lhes motivem de o que vocês vão querer e fazer a partir daqui. Mas antes, eu tenho uma surpresa pra vocês. Com bas nessa experiência que presenciaram agora, eu, juntamente ao diretor Pascualli e também os outros funcionários pensamos que poderíamos reaplicar a dinâmica das cápsulas do tempo e tomamos a liberdade de fazermos o mesmo, mas dessa vez com vocês, o que acham?"


O falatório novamente toma conta do espaço, porém dessa forma é mais intenso. Os alunos adoraram a ideia de abrir as tais cápsulas dos ex-alunos e verem o que foi escrito por suas próprias mãos com base no que vivenciaram na época em que estudaram. Incluindo você.


Muitos não sabiam da história das cápsulas, o que pegou a maioria de surpresa. Agora saber que os atuais alunos poderão ter a mesma oportunidade de fazer as suas próprias com base nas emoções que estão sentindo agora acumuladas durante todo o ano é surreal.


O que será que pode sair a partir disso?





— "Tudo bem, tudo bem. Tenham calma. Eu sei que vocês gostaram da ideia, mas precisamos ter calma. Por favor, eu peço que todos se acalmem e comecem a pensar o que vocês irão querer pôr em suas cápsulas do tempo. Se inspirem nos ex-alunos e escrevam coisas que vocês estão sentindo a respeito desse ano letivo. Comentários a respeito da escola, a respeito dos estudos, o que vocês querem fazer no futuro, no que querem se formar, o que conquistaram até aqui. Não iremos aceitar qualquer tipo de gracinha. Já aviso previamente. Nada de desenhos desrespeitosos ou qualquer coisa do tipo. Suas cápsulas serão abertas após um período onde novos estudantes terão a oportunidade de conhecerem um pouco as suas experiências, assim como suas personalidades. Vocês não vão querer que um filho ou filha de vocês passem por certo tipo de constrangimento ao ver palavras de contrassenso escritas em uma carta dos pais, não é?"


— Nossa, mas que mulher mais chatinha, né? Parece que isso é uma coisa extremamente importante. Olha o jeito que ela tá falando — Cris reclama.


— Achei que era só eu que 'tava achando isso. Super exagerada — Lavínia fala revirando os olhos.


— Mas do que é tanto que vocês estão reclamando? Ela tá super certa — Rebekah fala.


— Você não vai dizer pra gente que tá do lado dela, não é, Rebekah?


— E ela não tem razão? Imagina no futuro a sua filha abrir a cápsula do tempo onde vai ver um monte de bobagem escrita pela mãe? Imagina você lendo sua carta pra todo mundo e a sua filha e os outros alunos em vez de ouvirem frases bonitas só ouvirem besteira?


— Isso não vai acontecer. Eu não vou ter filhos — Lavínia fala com uma expressão indecisa.


— Tá, mas vai que isso aconteça. Você não sabe de toda a sua história daqui pra frente. Rebekah tá certa. É melhor pensar antes — Allison concorda.


— Isso mesmo, amor — Max apoia.


— Eu já sei o que vou escrever. Vou pedir pela paz mundial, melhora na economia mundial e entre outras coisas. Vou aproveitar e pegar meu perfume de lavanda pra borrifar na carta e deixar com um cheirinho maravilhoso pra quando abrirem — Rebekah fala abrindo a mochila.


— Nossa, que meiga — Lavínia fala dando um sorrisinho nada simpático.


— Eu também acho que sei o que vou escrever, mas não vou falar nada. Vou deixar pra surpresa dos anos à frente — Allison afirma.


— Nem pra mim você vai contar, amor? — Max pergunta.


— Não.


Em meio às discussões e propostas de ideias de seus colegas, você começa a se questionar e tentar pensar em algo pra tentar colocar na sua carta da cápsula do tempo. Essa dinâmica lhe pegou meio de surpresa, já que é algo que não esperava. Os depoimentos dos ex-alunos poderia ter te ajudado um pouco a dar inspiração e as ideias virem para serem colocadas no papel, porém o que sente é um vazio e sua real vontade mesmo parece ser de colocar várias coisas, mas ao mesmo tempo não colocar nada.


Tantas coisas aconteceram nesses últimos meses mesmo antes de mudar pra cidade de Nevinny: teve a prisão de seu pai, a saída de Atelis, o incidente com dona Ami, a volta de seu pai, algumas descobertas, a recente morte de dona Leca. Tiveram sim algumas coisas legais que aconteceram, mas será que daria pra colocar alguns desses ocorridos mesmo de forma resumida e soar positiva pra quem, provavelmente, ler a sua carta daqui a algum tempo? Como fazer isso de uma forma que possa trazer suas experiências sem parecer tudo muito negativo e ao mesmo tempo trazer o ar de esperança pra quem estiver lendo?


— Você não sabe o que vai fazer, né? Eu tô vendo sua cara de preocupação e de uma pessoa sem ideas. Por mim eu também não colocaria nada — Cris fala, aproximando-se do seu ouvido.


— Será que isso é obrigatório mesmo? Tipo, todo mundo tem que colocar alguma coisa? Eu tô aqui há menos tempo que vocês, então tenho menos tempo nessa escola. Não sei se tenho muito a dizer — você fala, indecisx.


— Realmente, pra você é mais complicado. Esteve em duas escolas no mesmo ano. Tem que ter cuidado pra não mistrurar as coisas. Mas, relaxa, pense nas coisas boas que você teve. Se não tiver muitas coisas pra falar sobre a escola, fala sobre a gente, fala sobre você ter conhecido pessoas novas, talvez. Fala sobre mim que tô aqui te ajudando a ter alguma ideia.


— Convencidx. Acho que você tá me deixando mais confusx — você diz — Mas, não sei se quero escrever alguma coisa ainda. Eles podiam ter dado um pouco mais de tempo, tipo a gente levar pra casa e fazer alguma coisa com calma.


— Também acho — Lavínia se intromete — Eu acho isso muito, sei lá. Pra que escrever essa coisa? Não sabe nem se ainda vai existir essa escola daqui a quarenta anos.


— Ai, Lavínia, que horror! Não fala assim — Rebekah reclama.


— Mas é verdade, ué.


— Eu já tenho a minha quase pronta. Já pontuei algumas coisas que vou escrever na carta. Agora só falta desenvolver — Max diz.


— Adoro pessoas eficientes — Rebekah se anima.



Pelos alto-falantes da rádio da escola, dá pra se ouvir batidas no microfone. As atenções novamente se voltam para o centro do ginásio ao ver que Meredith vai falar alguma coisa.


— "Ótimo, estou vendo que vocês estão começando a se preparar pra fazerem as suas cartas para a cápsula do tempo. Nossos kits com os papéis, caixas e cápsulas já estão sendo finalizados na preparação e logo serão trazidos para o ginásio pra começarmos a nossa dinâmica." — Meredith finaliza.


— "Tô muito animada pra isso. Acho que vou falar alguma coisa sobre o baile" — diz uma garota próxima de onde estão sentadxs.


— "Eu vou falar sobre a formatura, é claro. É meu último ano aqui" — diz outra.


Seu olhar vai por todos os lados observando as atitudes dos alunos, quão ansiosos, nervosos e outros até sem importância estão pra dinâmica que vem a seguir.


Segredos, medos, experiências e esperanças estão pra ser despejados em papéis em instantes, o que acaba motivando a todos, trazendo mistos de emoções. Parece ser um ato simples, apenas pra escrever coisas em um papel que vai ficar guardado por um tempão. Pra outros é bem mais que isso, algo bem importante. Parece que vão dar a vida por algo tão grandioso, uma promessa de um reencontro com seus eus do futuro.


A fila começa a se formar quando todos veem, finalmente, algumas caixas sendo trazidas pelos ex-alunos, professores e funcionários da escola.


Seus colegas já vão logo se levantando, aprontando suas mochilas. Rebekah, Max e Allison se preparam adiantamente pondo suas canetas em mãos, enquanto que Lavínia e Cris lhe chamam para acompanha-lxs. A indecisão e nervosismo toma conta de sua mente, já que por hora não tem nada preparado pra escrever na cápsula, além dos acontecimentos que vivenciou ultimamente. Porém, o que escreveria soaria mais como um desabafo e não mensagem de encorajamento e esperança como Meredith pediu pra que fizessem. Será que existe algum jeito de encontrar as palavras certas e, apesar dos fatos, encontrar a melhor maneira de escrever algo suficiente?