"A minha cabeça tá a mil, ainda continuo pensando em muitas coisas. Essa semana é a semana das provas finais, então eu tenho que manter o foco se eu quiser passar de ano. Algumas coisas aconteceram recentemente, incluindo a soltura de Mirella e a morte da dona Leca. Eu até agora ainda nem acredito que isso possa ter acontecido, então desse jeito fica meio difícil de pensar.


Além do mais, Allison e eu paramos com as pesquisas e investigações por um tempo já que a neve está avançando e dentro de alguns dias nós já estaremos entrando na semana do Natal. Isso vai ter que ficar pra uma outra hora.


E, por falar em Natal, eu ainda não sei como vai ser esse ano já que é o primeiro natal que eu vou celebrar sem os meus pais e os meus amigos de Atelis. Nesse ano vai ser só eu e Lívia. Acredito que não vai ser ruim, já que eu não vou estar no meio de um relacionamento conturbado onde a polícia possa estar envolvida, mas ao mesmo tempo acho que já to sentindo falta da fartura que tem toda ano na mansão e também com certeza vou sentir falta da presença dos meus amigos. Mas o que eu posso fazer já que eu nem sei quanto tempo vou levar pra voltar pra aquela cidade?"




⌚️ 07:55 p.m.



São quase oito horas da noite e você se encontra na — por agora pouco movimentada — Avenida Rose voltando de uma visita à casa de dona Ami. O assunto em que fora tratar com a sua preocupada e confusa amiga certamente não poderia ter sido outro a não ser sobre a morte de dona Leca que vos deixou há poucos dias.Ela ainda não está bem devido a perda e tampouco quer saber de comemorar alguma coisa, nem o natal que já está perto.


As imagens que você vê nos telões da avenida estão muito belas e coloridas. As marcas já anunciam a chegada do natal com toda a sua formosura e encanto, pra lembrar as pessoas todo o brilho e magia que tem, porém, diante dos últimos acontecimentos fica difícil pensar dessa forma pra preparar uma ceia, comprar presentes ou fazer uma decoração. Talvez não seja hora de pensar em festa, talvez isso fique pra depois, quem sabe?



Em um determinado ponto da avenida seu celular toca informando uma notificação de mensagem que acabara de chegar. É meio espantoso a forma como pensara nos últimos anos de natal de manhã cedo e sobre como fora a última comemoração ainda na cidade de Atelis com todo o costume que sempre teve desde quando nasceu em meio à sua família e amigos. Espantoso por estar recebendo uma mensagem de alguém que de fato não tem contato há algumas semanas, por isso suas lembranças começam a vir à tona lhe trazendo, talvez, um ar de esperança em que possa ter esse costume de volta algum dia.


A pessoa em questão se chama...



Você: Nat? Finalmente apareceu


Nat: Finalmente apareci?

Nat: Quer dizer que estava esperando por uma mensagem minha?


Você: Não era isso

Você: Eu só não esperava


Nat: Não esperava?

Nat: Da pra ver q ainda se importa cmg


Você: Não começa com o drama e fala o que vc quer


Nat: Como assim o que eu quero? Não posso apenas vir falar com você?


Você: Pode

Você: Mas se veio falar comigo e apenas decidiu aparecer é pq quer falar alguma coisa ou tem alguma novidade

Você: Já sei

Você: Vc já tá indo pra NASA não é?


Nat: Ainda não

Nat: Vai levar um pouco de tempo ainda

Nat: Mas realmente eu sumi um pouco então vir falar cm vc

Nat: Vc por acaso já percebeu em que época estamos?


Você: É claro que sei

Você: Tá se aproximando do natal aqui em Nevinny tbm igual em Atelis

Você: Eu não tô vivendo em outro planeta


Nat: Tudo bem. Entendi

Nat: Mas não foi isso que eu quis dizer

Nat: Mas eu vim perguntar mesmo como vc está



Em meio à conversa com Allison, subitamente, enquanto anda pela avenida, você escuta passos contínuos vindo por trás, e, assim que olha para tal direção, vê um homem de gorro vermelho e calça e moletom pretos com um tênis combinando e em suas mãos um cigarro aceso como detalhe que rapidamente chega em sua presença de vez.


— Boa noite, jovem. Você poderia me dizer que horas são agora?


— Oi. São oito e cinco da noite — você fala olhando para o telão na avenida, apontando.


— Ah, que distração a minha. Obrigado — ele fala dando um sorriso meio tímido encostando‐se na parede da loja de chocolates voltando a fumar seu cigarro.


— Por nada. Boa noite — você diz enquanto volta a sua caminhada olhando para a tela do celular com duas mensagens seguidas de Nat escritas "S/N?" e "Ainda tá aí?"


Você: Desculpa

Você: Um homem me parou perguntando as horas aqui na rua

Você: Sendo que tinha bem no telão no meio da avenida


Nat: Que susto

Nat: Pensei que vc tinha abandonado a conversa

Nat: Que homem é esse?


Você: Eu não sei

Você: Foi um desconhecido que me parou na rua


Ao olhar para trás novamente, o tal homem que antes lhe perguntara as horas vem caminhando em passos lentos olhando para a frente ainda com o cigarro.


Você: Confesso que não tô gostando muito

Você: Ele é meio esquisito


Nat: Como assim?


Você: Sabe aquelas pessoas que te olham parecendo que vão te devorar a qualquer momento?

Você: O olhar desse cara me transmitiu essa sensação de um jeito esquisito



Na mesma hora seu celular toca com a ligação de Nat. Você atende no mesmo momento.


— Achei melhor te ligar. Se ele tiver te perseguindo ele vai achar que você tá ligando pra polícia.


— O quê?! Mas por que um estranho ia me perseguir na rua? Ele só me perguntou as horas — você fala.


— Olha pra trás e vê o que ele tá fazendo — Nat ordena.



Obedecendo a ordem de Nat, ao olhar para trás, o homem ainda continua indo em sua direção, porém seus passos estão agora mais acelerados.


— Droga! Ele tá andando mais rápido.


— Você tem que despistar ele, S/N. Vou chamar a polícia pra você — Nat diz.


— Você nem sabe onde eu tô. Espera que eu me viro.


— Ah, verdade. Me desculpa.



Então, assim, você começa a sua tentativa de fuga para tentar despistar o tal homem esquisito. Cada vez que olha para trás parece que ele está mais e mais perto e sua mente já lhe desperta sobre a real intenção dele que com certeza não deve ser nada boa. Seu coração começa a palpitar já que não sabe o motivo dele estar te perseguindo de fato e sua respiração já inicia o estágio de ofegação, podendo ser ouvido por Nat no outro lado da linha.


Em um momento de repense, decide finalizar a ligação discando de imediato o código de emergência para polícia que dentre segundos lhe atende.



— Código de emergência policial. Em que posso ajudar?


— Oi, eu quero fazer uma denúncia! — você fala.


— Pois não. Por favor, diga a sua denúncia.


— Tem um homem me perseguindo na Avenida Rose. Ele tá de gorro vermelho, usando um moletom e calça preta de frio e calçado de tênis vermelho com branco. Eu tô tentando despistar ele, mas não sei por quanto tempo.


— Tudo bem. Tenha calma. Estamos enviando a viatura mais próxima da sua localização. Mas onde exatamente você está?


— Eu não sei. Tem várias lojas. Mas acabei de passar pela loja de chocolates Velmont. Só tentem pegar ele.



E assim você encerra a sua ligação. Seu foco agora está apenas em escapar da visão do indivíduo. Existem algumas poucas e pingadas pessoas na rua, algumas delas até notam sua correria, mas apenas olham de relance e ignoram. Sua esperança está mais à frente da rua virando a esquina. Nela, você consegue ver a escadaria externa de um pequeno prédio. Sem pensar duas vezes você corre até a escadaria e começa a subir.


Uma coisa boa da maioria das escadarias externas é que você tem a opção de puxá-las para cima a fim de que mais ninguém possa subir. Essa, em específica faz parte dessa maioria.


Assim que você encontra a parte da entrada da escadaria, logo começa a subir os degraus apressadamente. A alavanca que fica posicionada na lateral do primeiro degrau é puxada, porém exige um pouco de esforço pra ser puxada completamente. O homem que estava a te perseguir enfim chega em sua localização. Enquanto você puxa a alavanca que sobe a escada aos poucos, ele põe suas mãos fazendo força na tentativa de puxá-la para baixo.


Seu coração acelera ainda mais juntamente com a adrenalina e a preocupação de que ele consiga te alcançar. Porém, já com o seu adiantamento, a batalha de forças não dura tanto quando, ao pegar o jeito com a alavanca e com um pouco de forçaque lhe faz gritar, ela flui e finalmente consegue levantar a escada impedindo a subida do tal homem.


Os moradores do prédio começam a acender as luzes de suas residências lhe chamando a atenção quando vê as janelas externas ficando iluminadas. O homem misterioso lhe olha seriamente parecendo com raiva a ponto de jogar seu cigarro aceso no chão e, na angústia e ansidedade de sair da vista dele você não hesita e segue subindo os degraus que ainda restam, pois, por certos motivos não quer que os residentes te vejam na situação de escapada, mesmo que assim seja melhor pois os mesmos poderiam lhe oferecer ajuda.




📍 No terraço do prédio...



Chegando no terraço após uma breve fuga, o fôlego volta e novamente vem o alívio para respirar seguramente. Ainda pode-se ouvir os moradores do prédio conversando entre si perguntando o que tinha acontecido, porém sua vistoria é breve já que em segundos eles voltam para suas residências como se não tivesse acontecido nada.


O momento de tranquilidade vem mesmo quando você olha para o norte e tem a magnífica e surpreendente vista da cidade de Nevinny. Todas as luzes, a captação do som da cidade e dos movimentos dos veículos e pedestres passando pelas ruas lhe fazem brilhar os olhos. Não que seja a primeira vez que tem essa visão, pois da janela do seu quarto dá pra ter quase a mesma visão de agora, com exceção de todos os barulhos que pode captar da cidade e pelo fato do seu apartamento estar num andar mais alto.


Distraídx pelo tempo e toda a correria, um toque de realidade lhe vem através de seu bolso quando novamente o celular toca com a ligação de Nat.


— S/N, você está bem?


— Oi, Nat. Quase esqueci de você. Eu tô bem.


— O que aconteceu com o homem que te perseguiu? A polícia pegou ele?


— Não. Foi uma coisa muito doida. Eu tive sorte de escapar dele. Acabei subindo uma escadaria externa de um prédio e consegui me livrar dele. Agora tô em um terraço de um prédio. Não sei como vou sair daqui depois.


— Ele fugiu?


— Acredito que sim. Aquele homem era um louco. Nunca tinha passado por uma coisa assim. O cara parecia um psicopata ou sei lá. Eu levei um susto tão grande.


— Calma, fique tranquilx. Foi só uma adrenalina pré-natal (risos). Acha que consegue continuar nossa conversa agora? Mas antes você precisa verificar se tá tudo bem mesmo e que está em segurança.


— Tá, espera aí.


Você deixa Nat esperando na chamada e decide fazer um check na redondeza do terraço para verificar se não há nenhuma brecha que possa facilitar acesso de alguém e assim ser surpreendidx novamente. Após olhar os quatro cantos e ver com cuidado a movimentação lá embaixo enfim tem a certeza que assim poderia continuar a ligação.



— É, eu olhei. Acho que tô num lugar seguro.


— Ótimo. Então acho que dá pra continuar. De onde a gente parou mesmo?


— Eu não sei, deixa eu ver... Er... acho que você 'tava falando da NASA.


— Não. Você que estava falando da NASA. Parece que você tá obcecadx por lá. Quer me ver tão distante assim?


— Desculpa. Mas de onde a gente parou? Eu 'tava ocupadx correndo de um maluco — você fala.


— Sobre o Natal. Me diz, o que você vai fazer nesse Natal. Como está na sua escola? A nossa continua a mesma coisa de sempre, sem muitas novidades.


— Bom, estamos na última semana de aulas. É semana de provas e tá chegando o dia do baile.


— O baile de inverno? Você já escolheu a sua roupa? — Nat pergunta.


— Não. Eu vou escolher qualquer uma das minhas peças que eu tenho no guarda-roupa. Tem várias roupas que eu ainda nunca usei.


— Nossa, eu ia adorar te ver arrumadx pro baile. Ia ser nosso primeiro baile da escola de Atelis.


— Era.


— E o natal? Você só vai ficar com a sua irmã mesmo? Por que você não vem pra cá pra Atelis? Uma hora dessa eu, você e Megan estaríamos arrumando a árvore de natal da sua casa.


— Era — você fala pensativx e com olhar distante — Bom, eu ainda não sei. Acho que Lívia vai fazer alguma coisa, uma ceia pra nós dois. Não sei se ela vai pra algum lugar ou chamar alguns amigos. Eu ainda não recebi nenhum convite de nenhum lugar pra jantar. As coisas por aqui são bem diferentes. Uma hora dessas eu já 'tava com quatro convites de famílias amigas da minha mãe e do meu pai.


— Isso, seu pai. Por que você não vai jantar com ele? Vocês já estão se falando bem?


— Não, eu não tenho mais notícias do Joseph. Ele sumiu já faz alguns dias. De vez em quando ele manda um boa noite ou bom dia. Enfim, sumiu outra vez. Deve tá revolvendo alguma coisa dele, não sei.


— Sua mãe já apareceu?


— Não, eu não faço a mínima ideia por onde dona Samantha está.


— Dona Samantha? Você nunca chamou assim e agora trata ela por dona? — Nat pergunta sorrindo ao telefone.


— Bom, eu ainda tenho respeito por ela chamando de dona, não é?


— Sim, certamente. Bem, realmente acho que seu pai deve estar bem ocupado. Eu também nunca mais vi movimentações aqui na sua casa. Esse lugar já não recebe visitas há dias.


— Aliás, eu quero te perguntar uma coisa. Como está a Megan? Ainda tá na raiva eterna dela por mim?


— Parece que ela tá estremecendo um pouco. Quando falo de você parece que ela ainda sente raiva, mas algumas vezes no olhar dela eu percebo que ela ainda gosta de você. Ela sente sua falta. Só não admite. Na verdade nós sentimos. Você precisa nos visitar nessa época. Por que não pede pra sua irmã?


— Eu não sei. Tá, eu posso até ver com ela. Mas não prometo nada. Só estou tão piradx nas ideias. Parece que toda vez que eu falo com você alguma coisa importante e marcante aconteceu por aqui onde eu vivo.


— Bem, na maioria das vezes sim. E o que foi que aconteceu agora? — Nat pergunta.


— Uma mulher que eu conheço morreu. Na verdade ela era amiga de uma amiga minha. Mas eu conhecia. Simplesmente apareceu em casa sem vida envenenda com cianeto. Foi o que eu escutei.


— Que você escutou? Como assim?


— Eu fui no velório dela. Consegui escutar a conversa de um homem.


— Você virou fofoqueirx agora pra escutar conversa alheia?


— Não foi por querer. Foi só uma conversa que me chamou atenção.


— É, realmente eu não te conheço mais. Aquela pessoa pura e sensata que eu conhecia acho que não tá mais aí.


— Eu sonhei com Victor — você fala subitamente ficando em silêncio também deixando Nat sem palavras lhe fazendo pensar que não está mais na ligação.


De repente parece que o tempo para e todos os sons da cidade já não são mais ouvidos com exceção do vento gelado que sopra ao seu redor parecendo que anuncia uma breve nevasca... até que a voz de Nat aos poucos vai surgindo no outro lado da linha.


— Você sonhou com o Victor?


— Sim — você responde.


— Sobre o quê?


— Eu não sei. Eu não sei como te dizer mas... É estranho, é até estranho como isso faz sentido. Não sei se você ia acreditar em mim.


— Não acreditar em você? Por que eu não ia acreditar em você? Mas é claro que sim.


— Certo. Não sei se você lembra quando a gente conversava sobre essas histórias de sonhos, mas de alguma forma, meu sonho com Victor foi sobre a realidade que eu tô passando. Sei lá, parecia um aviso sobre o que poderia acontecer.


— E o que o Victor falou pra você em sonho?


— Ele falou várias coisas, coisas esquisitas até, mas eu fiquei com medo quando em uma parte do sonho ele me falou pra eu ter cuidado sobre os perigos que podiam estar em minha volta. E aí... e aí que em pouco tempo uma conhecida minha morre e agora eu sou perseguidx por um maluco que 'tava correndo atrás de mim pra lá sabe-se o quê.


— Bom, você sabe que eu acredito nessas coisas, ainda mais vinda do Victor que é uma pessoa que a gente conhece. Sabe, talvez ele esteja querendo se comunicar ou cobrar que você faça alguma visita à família dele e aos seus amigos.


— Lá vem você de novo com essa história. Não insiste muito ou então eu já desisto da ideia antes mesmo de cogitar a ir fazer uma visita. Você nem tá com saudade assim de mim pra começar. Ash te faz companhia, então você não tem com que se preocupar comigo. Toda vez você precisa falar sobre...