Os segredos de Eva
19 Só uma garota de sorte qualquer
Naquela noite, Caroline mal fechou os olhos, deitada na cama, envolta por uma bruma de excitação e receio, que ficava cada mais vez densa e obscura, ao estar apaixonada por aquele homem proibido em todos os sentidos, do mesmo modo, sufocava, imersa em um mar de mentiras e subterfúgios. Imaginando como Tom a odiaria se descobrisse que ela o estava enganando, durante todo esse tempo. Precisava se livrar dessas amarras, libertar seu coração, afundado em toda essa torpeza, Gustav tinha que a liberar da sua promessa, permitir que revelasse a verdade, pelo menos, a Tom, mesmo em dúvida, se ele a perdoaria e aceitaria uma relação com a filha bastarda da sua falecida esposa.
— Que cara é essa, Caroline? Parece que ficou a noite toda acordada! — Sua amiga Lia notou a feição dela transtornada pela falta de sono, no exato momento, em que se encontraram, antes das aulas.
— Não, está tudo bem, só não dormir direito, porque estou um pouco resfriada — Outra mentira, já estava se acostumando com isso.
— Você precisa se cuidar, está muito abatida — Lia recomendou, preocupada.
Angustiada, durante toda a tarde, Caroline telefonou para Gustav, cheia de esperança, mas ele não a atendeu, somente após várias tentativas que ela conseguiu falar.
— Doutor Lutz, precisamos conversar — ela tenta manter a voz firme, mas se percebia uma pequena nota de angústia.
— O que está acontecendo, Caroline?
— Quando poderei revelar a verdade do que está acontecendo na minha vida?
— Por que tanta pressa? Não há nada a temer, os processos estão ocorrendo o mais rápido possível.
— Eu sei, no entanto, estou enganado todos a minha volta e não sou assim, não consigo viver mentido desse jeito.
— Você é muito jovem, não conhece os perigos que a espreitam, precisa ser mais prudente e paciente.
— Perigos? Como assim, perigos? O que eu teria a temer? — indagou, exacerbada.
— O que você acha? Que Amélia se conformou por ser deixada para trás? Ela deve estar escondida nas sombras, esperando uma oportunidade para ir contra você, nos tribunais, por isso temos que estar bem embasados. Além do Tom, é claro?
— Tom? O que tem Tom? — Seu coração bateu aflito com receio do poderia vir dali.
— Sim, Tom. Ou acha que ele não estava esperando por mais do que conseguiu? Caroline, há muito dinheiro envolvido, tanto que você nem imagina. Então, não se preocupe, mantenha nossa pequena farsa por apenas mais alguns dias.
— Mais alguns dias?
— Sim, até que seja reconhecida legalmente como herdeira de Eva. Quanto seus pais, nós os livraremos de qualquer problema, por terem registrado você ilegalmente.
— Eu gostaria de ver os documentos desse caso.
— Para quê? Está tudo sendo resolvido, somos um escritório bastante experientes em casos assim. Não se preocupe e boa noite, Caroline.
— Obrigada e boa noite.
Era isso mesmo? O advogado desconfiava que Tom poderia fazer algo contra ela. Não podia acreditar nisso, Tom nunca seria capaz de tal torpeza. Ou seria por isso que ele se aproximou dela?
No entanto, ele parecia que não desconfiava de nada, mas poderia ter adivinhado, assim com Haikai concluiu quem ela era e a verdadeira razão por estar naquela ilha.
Não! Não queria crer nessa possibilidade, não podia imaginar que Tom fosse tão vil a esse ponto.
E como se ouvisse seu nome, o telefone dela tocou e na tela apareceu o nome dele, deveria ter recusado, todavia, atendeu, ansiosa. Seu coração bateu mais forte ao ouvir a sua voz.
— Oi, Tom.
— Oi, Caroline. Está tudo certo para o passeio de sábado, pela manhã? — Ele tinha um tom falsamente casual.
— Claro, mas, você poderia mandar só uma mensagem.
— Eu sei, mas fiquei imaginando, durante o dia inteiro, uma razão para telefonar e ouvir a sua voz.
O coração dela afundou em um pântano de angústia e medo. E se tudo fosse mentira? E se ele também a estivesse enganando? Como poderia saber?
— Eu também queria muito ouvir sua voz — enfim, confessou
Após falar com Tom, todos os seus receios se dissipavam, com uma brisa fresca afastando as nuvens plúmbeas deixando os raios de sol passarem, acabando com as sombras escuras que assombrava sua alma. Então, o futuro se tornou claro e brilhante, com a certeza que tudo daria certo no final, apesar de todas as calúnias. Assim, teve uma maravilhosa e tranquila noite de sono acordou leve e feliz, no dia seguinte.
— Vejo que você está bem melhor do seu resfriado, parece muito bem hoje — Lia falou, animada, enquanto as duas andavam juntos para o lado de fora do prédio da faculdade, aproveitando o tênue sol da manhã, durante o intervalo entre as aulas.
Sentaram-se em um degrau da escada da entrada, assim como outros alunos, Caroline louca para contar a amiga, a respeito do seu amor proibido por Tom, podia ser só genérica, não citar nomes, no entanto, antes de começar a falar outra garota se sentou próximo a elas, com uma dessas revistas de fofocas na mão, que começou a folhear, Lia esticou os olhos na direção das páginas de cores vivas, cheia de fotos de pessoas bonitas e famosas.
— Está vendo, Lia, como a fila anda? — Ana, a tal garota, provocou a outra, estendendo a revista.
— O que quer dizer com isso?
— Veja só isso. O marido daquela atriz famosa, que morreu outro dia, já está com outra.
Ao ouvir isso, o sangue de Caroline gelou nas veias.
— Deixa eu ver! — Lia tirou, de forma abrupta, a revista da mão da outra menina, para olhar bem de perto.
Caroline parou de respirar, com receio que a amiga a reconhecesse, mas ela não deu nenhum sinal disso, assim inclinou a cabeça e deu uma espiada na foto pouco nítida, onde Tom aparecia beijando uma mulher com o rosto escondido nas sombras. Soltou o ar, aliviada, pois nem mesmo sua mãe a reconheceria, assim mesmo, percebeu que, de agora em diante, deveriam ser mais discretos, para não serem pegos desprevenidos.
— Não dá para ver quem é — Lia falou, desiludida.
— Mas, um homem como esse não iria ficar muito tempo sozinho. Sortuda! — Ana rebateu.
— Ele tem o direito de continuar com sua vida e tentar ser feliz, de novo — Caroline opinou, com cuidado.
— Eu sei, mas, ele arrumou outra tão rápido, pensei que ficaria sofrendo pelo amor perdido, por mais um tempinho — Lia respondeu de um jeito triste, dando um longo suspiro no final.
— Você é uma tonta romântica — Ana falou, achando graça. — Quem será ela? — Tentam adivinhar, olhando de outro ângulo.
— Não parece ninguém conhecida.
— Só uma garota de sorte qualquer — Ana concluiu.
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