Os segredos de Eva
20 Quero ficar com você
Foi assim que Caroline entendeu porque as pessoas famosas usavam óculos escuros imensos, escondia os cabelos sob bonés, o que antes achava uma paranoia, tornou-se natural para ela.
No momento que pode ficar sozinha, telefonou para Tom, aflita.
— Você viu? — perguntou, quando ele atendeu.
— O quê? Sobre a revista? Sim, já me falaram — Sua voz era tranquila, sem demonstrar nenhuma preocupação.
— E agora?
— Agora, nada. Eu sou viúvo, não estou traindo ninguém, a não ser que você seja casada? — falou, de um jeito brincalhão.
— Não, claro que não sou casada, mas é estranho, porque você ficou viúvo há tão pouco tempo — Não podia dizer que o problema era com ela.
— Eu sei, no entanto, se você se sentir mal quanto a isso, poderemos ser mais discretos, por enquanto.
— Eu agradeço, não quero minha cara estampada por aí.
— Tudo bem para mim. Eu sei como é que é, assusta mesmo, parece quem tem alguém vigiando cada passo.
— Você viveu isso com Eva?
— Sim e ficava muito irritado com isso, no início, por não ter liberdade. Mas, não se preocupe, pois, como não somos famosos, acredito que tudo voltará ao normal bem rápido.
— Eu espero.
— Estou louco para rever você.
— Eu também.
— Então, por que não pode ser hoje? Posso pegá-la onde estiver.
— Não! Podemos nos encontrar em um lugar discreto.
— Se é isso que quer, mas não consigo pensar em nenhum lugar.
Ela pensou por alguns segundos, até uma ideia surgiu na sua cabeça e um sorriso brincou nos seus lábios.
— Eu sei onde podemos ir, e tenho certeza, que não haverá nenhum paparazzo por perto.
A pequena pizzaria, escondida em uma rua pouco movimentada de um bairro residencial de classe média, não estava muito cheia, a maior parte dos seus frequentadores eram de famílias ou grupos de amigos. O ambiente era simples, mesas antigas com toalhas de xadrez verde e branca e fotos desbotadas da Itália nas paredes.
Caroline se surpreendeu a ver que Tom usava óculos e com o cabelo penteado de um jeito diferente, o interrogando com o olhar.
— Eu tenho alguns desses, sempre quando saia com Eva e queríamos passar despercebidos.
— Tipo o Super-homem?
— Mais ou menos isso — explicou, ao tempo, que tomaram lugar em uma mesa em um canto mais isolado.
— Espero que não se importe, pois, o lugar é bastante simples. Meus pais sempre me traziam aqui nos aniversários, para comer pizza. Era uma verdadeira extravagância para o nosso orçamento tão apertado. Mas, a pizza é muito boa, pelo menos para mim, naquela época. Mas, suponho que o vinho não seja tão bom assim.
— Não me importo, com tanto que esteja com você. Posso beber água.
— Como está Chiffon? — Caroline perguntou e ele sorriu.
— Aquele cachorro é muito mimado, não sei o que fazer para acalmá-lo. Ele late e choraminga muito.
— Talvez, sinta falta de Eva. Seja paciente.
— Eu sou, só não sei como lidar com isso.
— Onde ele está?
— No meu loft.
— Você tem um loft? — Ela ficou curiosa.
— Sim, presente de Eva. Ela queria que eu tivesse o meu próprio espaço. Ou quem sabe, ela deseja ter mais espaço longe de mim — disse, com amargor.
— E como estão o andamento da herança? Acharam a filha perdida de Eva? — ela testou, de um modo falsamente casual.
— Por que quer saber isso? — O semblante dele se fechou, uma nuvem escureceu seus olhos.
— Por nada, só curiosidade — respondeu dando de ombros, bancando a indiferente.
— Ainda não, mas Amélia me procurou, ela quer contestar o testamento. Não admite que a filha deixasse tudo para uma completa desconhecida.
— Mas, é a filha dela! — Caroline rebateu um pouco exaltada demais.
— Contudo, não sabemos nada sobre essa garota.
— O doutor Lutz não está procurando por ela.
— Parece que sim, mas a velha raposa não fala nada para nós. Simplesmente, não entendo porque tanto segredo.
Caroline ficou perdida nessas palavras, quando uma garçonete chegou com os cardápios, entregando a eles.
— Então, qual dessas pizzas você indica? — O jeito dele ficou mais leve.
Ela piscou, voltando ao tempo real, colocando um sorriso no rosto.
— Eu gosto muito dessa aqui. Calabresa especial.
Fizeram seu pedido, enquanto esperavam, Caroline perguntou:
— Você confia no doutor Lutz?
— Eu sei que ele foi seu patrão e que Eva confiava muito nele. Mas, eu pressentia que havia algo errado, ele estava sempre por perto, se me entende... Eve não dava um passo sem falar com ele. Mas, com certeza, ele não gosta de mim.
— Por que você acha isso?
— Pela forma como ele me trata, principalmente, quando era casado com Eve, como se fosse uma espécie de bandido pronto para tirar proveito dela.
A pizza chegou, fatias foram distribuídos em cada prato. A deliciosa iguaria da memória da infância parecia gordurosa e borrachuda nos dias atuais, tanto que Caroline encarou Tom, sem jeito, contudo, ele parecia não se importar, continuando a comer seu pedaço com vontade.
— Mas, está tudo certo com sua parte da herança, não está?
Tom franziu a testa, em interrogação.
— Sim, está, não acredito que Gustav possa me enganar ou qualquer um dos outros herdeiros. Só fico preocupado com a provável filha de Eve?
— Por quê? Você acha que ele poderia passar a garota para trás? — Caroline ficou realmente aflita.
— Ou que sabe arranjar uma falsa herdeira — Ele dá de ombros, com indiferença.
— Você está dizendo inventar uma herdeira? — Caroline arregalou os olhos, imaginado se era isso que estaria acontecendo.
— Quem sabe? Todo pode acontecer, falsificar teste de DNA, arranjar testemunhas ou algo parecido.
— Mas, Amélia nunca permitiria, ela poderia pedir uma contraprova do teste de DNA, com seu próprio material.
— Sim, poderia e, com certeza, ela fará isso, assim que a possível herdeira parecer. Mas, não quero falar mais nesse assunto. — Tom esticou a mão sobre a mesa e pegou a mão dela.
Caroline sentiu o calor da mão dele se espalhar pelo seu corpo, ao mesmo tempo, seu estômago se revirou e não foi por causa da pizza.
— Hoje, a conta é minha! Da outra vez, foi você que pagou — Ela tirou a conta da mão dele, entregando o cartão de crédito a garçonete, que assistia tudo impassível.
— Uma mulher moderna. Tudo bem, fique à vontade — respondeu, achando divertido, mas, ela sabia que não deveria nem ser um terço do valor do jantar da outra noite.
Enfim, eles saíram na noite, na rua tranquila, sem vontade de se despedirem.
— E agora? — Tom perguntou, a olhando de um modo quente.
— Agora, tenho que voltar para casa.
— Como você vai? Está de carro?
— Vou pegar um táxi.
— Não, eu levo você.
— Eu não sei...
— Não confia em mim?
— Sim, eu confio, mas...
— Por favor, eu queria ficar um pouco sozinho com você.
Ela também queria, desejava beijá-lo, porém, após o que aconteceu, não podiam se arriscar por mais improvável que fosse a possibilidade de serem reconhecidos, que a farsa fosse revelada precocemente, sem ter tempo para se explicar com Tom.
— Sim, eu quero que me leve para casa — pediu, mesmo sem saber o que fazer. Não queria que ele soubesse onde ela morava ou que Gustav descobrisse que estava saindo com Tom.
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