Os segredos de Eva
21 Sem dúvida nenhuma
Dentro do carro, perdida nos braços de Tom, entre beijos intensos, Caroline não queria imaginar como essa história iria acabar, sequer poderia cogitar em perdê-lo por causas dessa rede de mentiras onde se emaranhou, deseja que o tempo parasse nesse exato momento, para se sentir assim, tão feliz e desejada, para sempre. Mas, não podia protelar mais, tinha que ir para casa, assim escapou dos braços dele, que fez uma expressão desolada.
— Preciso ir, tenho que acordar cedo amanhã — falou, com pesar.
— Não, por favor, fique mais um pouco — Ele a puxou de novo e a beijou.
Mais uma vez, ela se desvencilhou dele, com delicadeza.
— É sério, tenho mesmo que ir.
— Mas, sábado ainda está de pé, não está?
— Sim, então, até sábado.
Caroline saiu, depressa, do carro antes que mudasse de ideia, parou diante da porta do prédio, se virou e acenou, antes de entrar. Ficou olhando através da porta de vidro até o carro dele desaparecer, girou e deu de cara com o olhar de interrogação do porteiro, sentado à sua mesa.
— Queria saber se dona Aurélia mora aqui? — perguntou, com dissimulada inocência.
— Qual apartamento?
— Trezentos e três
— Não há nenhuma Aurélia que eu conheço nesse apartamento, nem nesse prédio — o homem respondeu, um tanto contrariado.
Ela pegou o telefone e fingiu olhar algo.
— Droga! Prédio errado! Desculpa, eu posso esperar um pouco aqui, enquanto chamou um carro? — pediu o porteiro que concordou de má vontade, achando aquela garota maluca.
Dessa vez, ela escapou, mas por quanto tempo poderia enganar Tom?
Já dentro do carro, voltando para casa, vendo as ruas passarem pelas janelas do veículo, Caroline relembrava a conversa que teve com Tom, sobre uma falsa herdeira.
Uma nuvem de dúvida pairou pela sua cabeça, considerando que poderia estar sendo usada pelo advogado para controlar a herança de Eva, já que nunca havia visto o citado exame de DNA, que comprovava a filiação. Poderia ter, somente, uma história parecida com a suposta filha de Eva, um bebê abandonado em um hospital como tantos.
Mas, segundo Gustav, Eva foi quem a descobriu seu paradeiro, entretanto, jamais saberia se era verdade ou não. Talvez, se conversasse com o advogado e visse os documentos, se sentiria mais confiante.
No dia seguinte, ligou para o doutor Lutz pediu para conversar. Ele pareceu não estranhar quando ela expos suas dúvidas.
— Você só está um pouco insegura com tudo que aconteceu, mas não se preocupe, se ver esses documentos a deixará mais feliz, pode vir ao meu escritório, hoje, na parte da tarde, digamos, às três.
— Certo, eu estarei aí, nessa hora.
O ostentoso escritório de Gustav Lutz não a intimidava tanto como nas primeiras vezes que esteve ali, com seus lustrosos móveis de madeiras nobres, objetos de decoração chiques, tapetes orientais, belos quadros e sofás de couro, todos os sinais de sucesso e dinheiro. Caroline estava sentada na sala de espera, sem prestar atenção na bonita secretária ocupada com seus afazeres, tanto que sequer percebeu quando ela anunciou que poderia entrar.
Ao entrar no requintado escritório, Gustav ergueu-se e foi na sua direção, com um sorriso de boas-vindas, um ato ensaiado para todos os clientes.
— Marta, por favor, café e água para nós dois — pediu a secretária ainda parada na porta, que assentiu com a cabeça e saiu.
— Caroline, que bom que poderemos conversar. Por favor, sente-se — Ele indicou o sofá de couro marrom em um canto da sala, pegou várias pastas e colocou sobre a mesa baixa na sua frente e sentou-se ao lado da moça.
— Então, eu posso ver o exame de DNA e as demais provas que sou mesmo a filha de Eva.
— É evidente que pode, eles estão anexados ao processo de reconhecimento de maternidade. Não precisa ficar preocupada quanto a isso.
— Ainda é tudo tão novo para mim, isso me deixa com dúvidas se realmente sou filha dessa mulher, já que somos tão diferentes.
— Isso que você se engana, Caroline. Quando eu conheci sua mãe, ela deveria ter aproximadamente a sua idade agora, já começava a fazer algum sucesso e precisava de alguma acessória, pois, um famoso empresário a havia passado para trás em um contrato. Eu sabia que ela não poderia pagar os meus honorários, mas era uma menina tão doce e tão desprotegida, que peguei o caso por um pagamento simbólico e foi assim que me tornei o advogado dela.
— E quanto o fato dela ser mesmo a minha mãe?
— Está aqui — Ele entregou uma pasta à Caroline, que a folheou, lá, havia relato de Eva, relatos minuciosos da investigação para achá-la da agência de detetives, documentos do hospital onde ela nasceu e o um teste de DNA e sua contraprova de um bem-conceituado laboratório, que relatava que Caroline Ferrer tinha 99, 999% de possibilidade de ser filha de Eva Montserrat-Ortega. — Sem dúvida nenhuma, Eva era a sua mãe, Caroline. Eu nunca enfrentaria Amélia, se não estivesse muito bem embasado. Mais tranquila, agora?
Caroline assentiu com a cabeça, todos aqueles papéis pareciam bem reais.
A silenciosa copeira trouxe o pedido, em uma bela bandeja de prata. Caroline pegou o copo d’água, tomou um bom gole e continuou a segurar o copo frio nas mãos.
— E quando poderei ser reconhecida como filha de Eva? — Precisava saber quando tempo teria para decidir o que faria em relação a Tom.
— Em algumas semanas. Tenha só mais um pouco de paciência.
De certo modo, isso era bom, pois teria algum tempo para se resolver.
— Obrigada pela atenção. — Caroline fez menção de levantar, mas Gustav a parou com um gesto.
— Só um instante, pois temos mais um assunto a discutir.
— Sobre meus pais, eles serão condenados se a verdade vir à tona? — O coração dela disparou.
— Sim, como sabemos, eles infringiram a lei, mas acho pouco provável que haja alguma condenação, afinal, os motivos dele eram nobres e foram bons pais e vocês tem um excelente advogado. — Ele deu uma risadinha pela própria piada. — Contudo, teremos que esperar o desenrolar dos fatos. Mas, não é sobre isso que quero conversar. — Ela esperou aflita, desejando que não fosse sobre seu envolvimento com Tom. — Ontem, eu recebi uma mensagem, avisando que seu cartão de crédito estava sendo usado, digamos, em um bairro um tanto distante, tarde da noite.
— Você está monitorando o meu cartão? — interrogou, em misto de indignação e receio.
— O seu cartão está ligado à minha firma, sendo assim sou avisado de movimentações não habituais, como a de ontem à noite.
— Saí com um pessoal da faculdade, fomos à uma pizzaria — mentiu.
— Caroline, devo lembrar que você é uma mulher muito rica, sendo assim, deve ter mais cuidado.
— Com certeza, eu terei.
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