Os segredos de Eva
22 O peso das palavras
Ao sair do edifício onde ficava o escritório do advogado, Caroline percebeu o seu coração um pouco mais leve, tinha uma dúvida a menos, já que o exame confirmava que ela realmente a filha de Eva, mas, ainda continuava a ser atormentada por outros receios, como a incriminação dos seus pais, a possível batalha legal com Amélia e, principalmente, a reação de Tom, quando descobrisse a respeito de todas as mentiras que os envolviam.
Estava tão perdida em seus pensamentos que quase trombou com uma pessoa, pediu desculpas e continuou o seu caminho, mas atenta, foi quando viu o anuncio em um ônibus que passou ligeiro bem na sua frente. Não pode acreditar, devia ser algum engano, uma ilusão de ótica, por estar tão concentrada nessa história, mas jurava que era isso mesmo, um anúncio de um livro com uma foto de Eva na capa. O ônibus já ia longe, tanto que não dava para identificar o que estava escrito no anúncio que carregava. Ela precisava saber, atordoada, parou no meio da calçada e esperou, pois, com certeza, deveria passar outro, a qualquer momento. Demorou, já estava quase desistindo, talvez, devesse encontrar uma livraria e procurar. Foi quando outro ônibus passou, e ela conseguiu ler o cartaz que exibia: A estrela perdida, biografia não autorizada da atriz e milionária Eva Montserrat. Seu coração bateu forte, imaginando se ela estaria ali, se alguém mais adivinhou o seu segredo, tinha que saber. Precisava achar uma livraria, sabia onde encontrar ali por perto, caminhou a passos largos, em busca do seu objetivo.
Na livraria, os livros estavam expostos, empilhados bem a vista em uma das ilhas centrais e traziam na capa a imagem do belo rosto de sua mãe, com um olhar quente em uma expressão sensual, Caroline respirou fundo assim que os viu, em dois passos se aproximou, segurando um exemplar com firmeza, ficou por alguns segundos analisando a capa, leu o nome da autora: Adelaide Noel, nunca ouviu falar. Abriu passou os olhos pelo índice, averiguando os nomes dos capítulos e lá estava ela: A filha rejeitada. Com as mãos trêmulas, procurou a página indicada, começou a ler, contudo a sua ansiedade embaralhava as palavras à sua frente. Seria melhor comprar um exemplar e voltar para casa, onde poderia ter paz, longe do burburinho da loja.
Ao chegar em casa, entrou apressada, sem sequer falar com seus pais, um tanto entediados na sua vida de bonança, foi direto para o seu quarto, com o livro queimando nas suas mãos. Atirando-se na cama, abriu na página do capítulo marcado. Lá, leu sobre a gravidez indesejada e camuflada da jovem Eva, que despontava em uma promissora carreira artística, e que ela sabia quem seria o pai da criança, mas, jamais revelou, e a possível hipótese que teria vendido o seu bebê para pagar uma cara cirurgia plástica no nariz. Uma ideia tão absurda fez Caroline ri, porém, depois de tamanha baboseira, não encontrou nenhuma referência a sua identidade em nenhum lugar, assim, respirou aliviada.
Outro capítulo chamou sua atenção: O menino de ouro. Foi desse modo que Murilo se referiu a Tom, quando estavam na ilha. Nele, contava com Eva havia conhecido e seduzido Tom, que era pintado com um garoto bonito, tolo, oportunista e totalmente manipulado pela mulher. Para Eva, o jovem marido não passava de algo para ser exibido, tal qual uma joia ou um vestido. Era horrível, sentiu muita raiva por ele.
Em um ímpeto, desejou muito falar com Tom, ouvir sua voz, descobrir se ele saberia sobre o livro, pegou seu telefone e acesso a discagem direta.
— Caroline!
— Tom! — Não dava para saber como, mas pressentiu que ele já tinha conhecimento do livro e do seu conteúdo. — Você já viu? — Foi uma pergunta retórica.
— Sim — Ele soltou o ar com força. — Deveria já estar acostumado, desde que estou com Eva, sou alvo desse tipo de comentários maldosos, sempre viam uma outra intenção no nosso relacionamento, além do amor que eu sentia por ela. — Sua voz era triste, dolorosa.
— Eu lamento tanto, Tom. Você sabe quem é essa autora?
— Não, mas, com certeza, ela tem uma fonte bem próxima de Eva, alguém chegado, pois, apesar de tantas calúnias e exageros, há algumas verdades incontestáveis.
— Quem poderá ser? Amélia?
— Suponho que não. Ela é ambiciosa, mas não tola, jamais botaria em risco o que conseguiu na partilha.
— Como assim?
— Há uma clausula no testamento, que garante nosso silêncio quanto a intimidade de Eva, já que, perderíamos tudo, caso revelássemos os segredos que sabíamos. Ela vai querer ir contra a herdeira da filha, sendo assim, não acredito que se arriscaria dessa maneira.
Na tela do telefone dela, há uma nova chamada e verificou que é o advogado, presumiu que fosse sobre o livro, talvez, quisesse apenas tranquilizá-la.
— Tom, tenho uma outra ligação que preciso atender, retornarei logo que puder.
— Estarei esperando.
Do outro lado da linha, tom de Gustav era tão sério que até a assustou.
— Caroline, precisamos conversar — Sua voz soturna, tanto que o seu coração parou de bater, considerando que ele houvesse descoberto sobre ela e Tom, mesmo que não tivesse cometido nenhum crime, que não seria nada demais, afinal, eram duas pessoas descompromissadas, no entanto, sentia uma culpa inexplicável.
— Algo importante? — Tentou manter o tom falsamente casual. — É sobre o livro? — Arriscou.
— Você já sabe?
— Sim, descobri quando saía do seu escritório, cheguei a comprar um exemplar e comecei a ler. Tem um monte de mentiras.
— Já fui informado disso, tanto que estarei movendo uma ação contra a autora e a editora, por difamarem o nome de uma pessoa morta, sem comprovações.
— E acha que ganhará?
— Será só mover as peças certas — ele declarou, seguro. — Mas, não é sobre isso que eu quero falar com você.
Ela estremeceu.
— Então, sobre o que é?
— Caroline, eu descobri algo um tanto perigoso para você, para nós.
— Como assim perigoso? — Ela engoliu seco, com medo do que viria dali.
Ele soltou o ar com força, sentindo o peso das palavras que diria a seguir.
— Pois bem, eu soube que colocaram um prêmio para descobrirem a sua identidade, Caroline. Estão oferecendo um bom dinheiro, para saber quem é a filha e herdeira de Eva.
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