Os segredos de Eva

1 Sua verdadeira mãe


O despertador soou, impiedoso, às seis horas da manhã, desolada, Caroline estendeu a mão para desligá-lo, demorando a conseguir, ainda tonta de sono, se levantou da sua cama tão convidativa, mas não tinha jeito, precisava ir em frente, não tinha muito tempo a perder. Coçou a cabeça, se espreguiçou com um grande bocejo e, tal qual um zumbi, rumou para o banheiro, jurando para si mesmo que se deitaria mais cedo naquela noite, mesmo sabendo de antemão, que não cumpriria a promessa. Não se sentia melhor quando saiu dali, após levar um bom tempo domando a cabeleira rebelde, escondendo com maquiagem as derradeiras espinhas que ainda teimavam a surgir no rosto, colocou a sua velha calça jeans, uma camiseta, tênis e estava pronta para a faculdade. Ao entrar na cozinha, encontrou seu pais conversando em voz baixa, parando imediatamente de falar, a sua chegada.

— Bom dia. O que houve? — perguntou, tomando lugar à mesa, pegando um pedaço de pão e passando manteiga.

— Bom dia, minha filha. Não houve nada — sua mãe lhe respondeu, servindo-a de uma xícara de café com leite.

— Então, por que vocês estão assim tão estranhos? Cochichando.

— Eu e sua mãe estávamos comentando sobre a morte de Eva Montserrat, ontem à noite, em um acidente de carro.

— Quem? Alguém conhecido? — Caroline quis saber, franzindo a testa.

— Uma das atrizes mais bonita e talentosas da nossa época — respondeu seu pai com a ar pomposo.

— Nunca ouvi falar — a garota deu de ombros.

— Porque ela parou de trabalhar, quando se casou com um milionário gringo — o pai explicou.

— Seu pai tinha uma certa quedinha por ela — Havia uma pontinha de antipatia na voz da mãe.

— Eu tenho que confessar a verdade, mas ela era simplesmente linda, não havia mulher igual, quando aparecia na tela... — Seu pai se defendeu.

— Preciso ir, se eu perder o ônibus, vou chegar atrasada na faculdade — Caroline anunciou, já se levantando.

— Mas, você nem acabou de tomar o café — a mãe disse, inconformada.

— Não tenho tempo, preciso ir. Tchau.

Àquela hora da manhã, o ônibus estava totalmente lotado, entrou se espremendo até encontrar um lugar, mas não tinha opção, não podia chegar atrasada as aulas, sonhava um dia ter um carro, mesmo velho, para poder fugir desse sufoco diário, mas sabia que seria quase impossível, já que os seus pais não tinham dinheiro para esses tipos de luxo.

Mesmo saindo cedo de casa, chegou em cima da hora, correu para sala, entrou esbaforida, ocupando o lugar ao lado da sua amiga Lia, acalmando a respiração, antes do professor entrar. Só aí prestou atenção na colega, que conversava com Lucas em voz baixa.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, curiosa, ao notar a expressão fechada da amiga.

— Aconteceu...Eva Montserrat morreu.

— Ah, isso! Eu já sei, meus pais me contaram hoje de manhã — Caroline deu de ombros.

— Como você pode ser tão insensível, Carol? Essa mulher é um exemplo para todas as mulheres.

— É! Por quê?

— Porque ela é um exemplo para todas as mulheres que lutam por um lugarzinho ao sol. Você não conhece a vida dela? — Lia falou, de um modo empolado e dramático.

Caroline olhou para Lucas, que ergueu as sobrancelhas, com um sorrisinho sarcástico.

— Não, eu não conheço — Caroline respondeu, como se estivesse cometendo alguma espécie de sacrilégio.

— Ela nasceu pobre, fez uma carreira brilhante, se tornou uma estrela do cinema, até se casar com um milionário espanhol e se tornar uma mulher da alta sociedade, mas nunca teve filhos e o marido morreu de uma doença grave, então ela se casou outra vez e, agora, quando poderia, finalmente, ser feliz ao lado do seu amado, acontecesse isso, morreu de uma maneira tão trágica. — Os olhos de Lia brilhavam pelas lágrimas, sua voz era cheia de emoção, Caroline assistia aquela cena abismada. — Olhe! — Lia sacudiu o seu telefone na frente do rosto de Caroline.

— O que foi?

— Veja como ela era linda!

Caroline fitou a foto de uma mulher muito bonita, de idade indeterminada, vasta e brilhante cabeleira loura que caia em cascata sobre os ombros, emoldurando o rosto perfeito de feições delicadas e os quentes olhos castanhos.

— Sim, ela era bem bonita.

— Era mesmo — Lia fala com um tom de pesar.

Caroline passou para outra foto e depois outra, em um rápido resumo da vida daquela mulher. De repente, parou e mostrou a amiga.

— Quem é?

— Esse é Tom Miller. Atual marido de Eva. Ele é bem mais jovem do que ela e tão bonito — Lia solta um suspiro sonhador, Lucas olha por cima do ombro dela.

— Não vejo nada de mais — rebateu, com um tom desdenhoso.

— Como não? Ele tem aquele ar másculo, esses olhos azuis, as feições perfeitas.

— Sim, ele é bem bonito — Caroline concordou, sem desviar os olhos da imagem diante dela.

Mas, a conversa foi interrompida com a entrada do professor, na sala de aula, começando a aula de imediato.

No entanto, a comoção pela morte da atriz milionária continuou, afinal, ela havia morrido no auge da beleza e do glamour, envolta em uma aura de sucesso. Um trágico fim para um conto de fadas: A menina pobre e linda que fica rica e famosa, encontra seu lindo príncipe e morreu. Por alguns dias, os meios de comunicação só falavam sobre isso, até que outra tragédia mais recente tomou o seu lugar na mídia. E o que importava para Caroline, que a bela atriz Eva Montserrat, seu estrelato, o casamento milionário e sua morte estúpida, pois a vida da garota continuaria a mesma dureza de sempre?

Semanas depois, em um fim de manhã, na saída da faculdade, após uma das provas finais do semestre, encontrou Lia, que aguardava por Lucas.

— Como você foi? — Lia perguntou com ar desanimado.

— Acho que bem. E você?

— Acho que sim.

O telefone de Caroline tocou, ela olhou para a tela do telefone e bufou irritada, ao deparar com mais um número desconhecido.

— O que foi? Você não vai atender? — Lia perguntou, franzindo a testa com ar de surpresa.

— Não. É um trote. Há tempos, algum maluco descobriu o meu número e fica me ligando, dizendo que precisa muito conversar comigo, sobre um assunto do meu interesse — Caroline responde, sem esconder a irritação.

— E que assunto é esse?

— Ele não fala, diz que tem que ser pessoalmente. Quer marcar um encontro no lugar onde eu preferir.

— Será que pode ser algum tarado? Um stalker? Já tentou bloquear o número?

— Sim, mas, ele liga de outro número.

— E se for verdade? — Lia cogita, pensativa.

— Como pode ser verdade? Que assunto sério alguém teria comigo? Deve ser algum doido, que resolveu me perturbar.

— Você deve ter cuidado, ele pode tentar algo, pode ser uma espécie de perseguidor. Poderia ir à polícia — Lia advertiu com ar preocupado.

— E dizer o quê? Ele não me ameaça nem nada parecido, é até bastante respeitoso.

— Atenda logo e vamos ver o que o tal homem tem a fala.

Mesmo receosa, Caroline fez o sugerido, atendeu no viva-voz.

— Senhorita Caroline Ferrer?

— Sim.

— Como já lhe disse antes, meu nome é Gustav Lutz, advogado, e gostaria de marcar um encontro com a senhorita para tratar de negócios, poderá ser no meu escritório ou em outro lugar que preferir.

— Sobre o que é o assunto dessa conversa?

— Lamento, mas só poderei revelar pessoalmente.

— Isso é muito esquisito.

— Sei o que deve estar pensando, senhorita. Que sou uma espécie de maluco ou criminoso, no entanto, posso lhe assegurar que essa conversa será do seu absoluto interesse.

— Se o senhor não me revelar a razão dessa conversa, eu não posso aceitar esse encontro.

— Senhorita, infelizmente, não posso.

— Então, nada feito. Adeus — ela desligou.

— Você desligou! Nunca saberemos o que é! — Lia gritou, exaltada.

— Não se preocupe, ele ligará outra vez, em um ou dois dias.

— Isso é muito estranho, mesmo.

Naquele fim de tarde, depois de enfrentar mais um ônibus lotado, cansada, Caroline andava pela calçada em direção à sua casa, parou surpreendida ao ver o carro Mercedes prateado, novinho, parado junto ao meio-fio, defronte ao seu portão. Imaginando o que alguém que tinha um carro como aquele estaria fazendo no seu bairro, passou pela porta, entrado em casa, avistou os pais sentados na sala com as costas eretas, olhar fixo e um jeito rígido.

— Oi! Que caras são essas? — perguntou, assustada, diante da estranha cena.

— Caroline! — sua mãe sussurrou, olhando para ela, em seguida, para frente, ela acompanhou o olhar, para encontrar o homem de meia-idade, alto e magro, vestindo um terno cinza-chumbo de aparência bem cara, que tinha nas mãos uma xícara do estimado conjunto de porcelana, presente do casamento dos seus pais.

Prontamente, o homem colocou a xícara sobre a mesa de centro e se ergueu, de um jeito imponente, dava para ver que era alguém importante.

— Senhorita Caroline Ferrer, sou Gustav Lutz, advogado da sua mãe — Caroline estendeu a mão para o homem e olhou para a mãe, sem entender. — Não, senhorita. Eu sou advogado da sua verdadeira mãe — ele corrigiu o equívoco.

— Minha verdadeira mãe?!

— Sim, sua mãe biológica, a recentemente falecida senhora Eva Montserrat-Ortega.