Os segredos de Eva
2 Entre perdas e ganhos
Ao ouvir aquilo, ficou tonta, sua visão tornou-se turva, suas pernas fraquejaram, não conseguia respirar, então se apoiou no encosto de uma cadeira para não desabar.
— Minha mãe biológica? — sussurrou, como se seu cérebro não processasse aquelas palavras.
Sempre soube que havia sido adotada, porém de uma forma ilegal, alguém lhe deu aos meus pais, que a registraram como sua filha legítima. Conhecia bem a história que da mãe não podia ter filhos, por causa de um problema de saúde, até que um dia uma pessoa entregou a eles, um bebê recém-nascida abandonada em um hospital, que deram o nome de Caroline.
Assim, nunca senti falta da sua mãe biológica, mesmo nas vezes que se pegava imaginando como ela seria e porque teria feito isso. No entanto, teve muita sorte de ser acolhida por pais amorosos e cuidadosos como os seus, apesar de não ter uma vida de luxo, viviam com o pouco dinheiro contado. E agora, depois de tanto tempo, descobrir que a mulher que não a quis foi uma atriz famosa e muito rica.
— Sim, sua mãe biológica era a senhora Eva Montserrat-Ortega. Ela lhe teve muito jovem, no começo da carreira, não sabia o que fazer, estava sozinha e indefesa.
— E eu não era indefesa? Então, ela simplesmente abandonou a filha a própria sorte — Caroline concluiu de modo duro.
— Infelizmente — o advogado rebateu.
— Como posso ter certeza que sou mesmo a filha de Eva? Existem muitas crianças abandonadas pelo mundo.
— A senhora Montserrat colocou detetives ao seu encalço. Por muito tempo, eles pesquisaram o seu paradeiro, desde que saiu daquela maternidade e descobrirem você.
— Mesmo assim, como podem ter certeza que sou eu a filha dela? — Caroline perguntou, ainda descrente.
— Teste de DNA — o advogado respondeu, com segurança.
— Como conseguiram uma amostra do meu DNA?! — Caroline estava cada vez mais abismada.
— Há alguns meses, houve uma campanha patrocinado por um laboratório para tipagem sanguínea, que a senhorita participou.
— Aquilo foi uma armação só para conseguir meu DNA?! Tanto trabalho por isso?!
— A senhora Montserrat precisava ter certeza.
— Eu só não entendo o porquê de tudo essa história, se ela me abandonou — disse, entredentes.
— Deve considerar que sua mãe era quase uma criança, na época que você nasceu, estava completamente perdida e desamparada, quando tomou essa decisão. O homem que a engravidou a abandonou a própria sorte.
— Quem é esse homem?
— Ninguém sabe, sua mãe nunca revelou o nome do seu pai, senhorita.
— Essa mulher não é minha mãe! Minha mãe é aquela mulher ali, sentada, que me criou e cuidou de mim — falou, sem conter a raiva.
— Entendo que esteja chocada com a notícia, senhorita. Mas, posso garantir que sua mãe nunca a esqueceu, assim que teve condições, ela a procurou, incansavelmente.
— Com certeza, para aplacar sua culpa.
— Pode até se dizer que sim, mas ela queria realmente conhecê-la. Eu estava presente, quando foi informada que, finalmente, sua filha havia sido encontrada, ela ficou exultante. Eva sentiu muito orgulho da senhorita, por estar cursando uma excelente faculdade.
— Se ela sabia quem eu era, onde estava por que não veio me procurar? — perguntou, com mais calma, curiosa em relação àquela mulher desconhecida que a gerou.
— Ela estava planejando isso, pretendia se aproximar, contudo, não queria se precipitar, para não a assustar, faria tudo ao seu tempo certo. O tempo que ela não teve.
— Ou foi por medo de ser rejeitada?
— É uma pergunta que não saberei responder, no entanto, a senhora Eva Montserrat que conheci era uma mulher bastante corajosa, que não se deixava se intimidar tão facilmente.
— Mas, agora, ela está morta, então, por que o senhor está aqui?
— Para provar que a sua mãe jamais a esqueceu, ela lhe deixou uma boa herança.
— Uma herança? — Ela não esperava por isso, estava abismada, já que há alguns minutos, nem sequer tinha ideia de quem era a sua verdadeira mãe.
— Sim, ela sabia das dificuldades financeiras dos seus pais adotivos, queria protegê-la, lhe proporcional um futuro melhor, sendo assim, criou um fundo de investimento no seu nome.
— E só isso, ela me abandona, morre antes de me conhecer e me deixa um monte de dinheiro. Eu não quero essa herança.
O queixo do advogado literalmente caiu, deixando sem palavras, enquanto pais dela pularam das poltronas, surpresos.
— Você não pode fazer uma coisa dessas, minha filha! — o pai exclamou, assustado.
— Como não?
— Isso poderá fazer muita diferença para o seu futuro — a mãe ponderou, tentando manter a calma, colocando as mãos sobre os ombros da filha.
— Eu nunca precisei dela na minha vida — rebateu, irredutível.
— Por favor, senhorita, ouça sua mãe, pense bem, antes de dar uma resposta tão precipitada, no calor do momento. Isso pode ser muito importante para você.
Caroline sabia que eles tinham razão, pois algum dinheiro na sua vida seria uma dádiva, ajudaria a aliviar a carga pesada dos seus pais.
— Mas, essa herança terá algum preço, estou certa?
O advogado respirou fundo, demonstrando que não estava enganada, esse dinheiro não viria de graça.
— Infelizmente, os seus pais adotivos cometeram um crime ao registrá-la como sua filha legítima, passando por cima da lei.
Viu os olhos da sua mãe se arregalarem e o rosto do seu pai ficar vermelho.
— Abandonar um bebê também é um crime!
— No entanto, a morte impedirá a senhora Montserrat de ser punida desse crime, quanto aos seus pais...— ele prosseguiu de modo frio e impiedoso.
Queria expulsar aquele homem da sua casa e esquecer toda essa história, contudo, desconfiava que não seria tão fácil assim.
— Quero que entendam que não pretendo causar nenhum tipo de problema, a senhora Montserrat era muito grata aos seus pais adotivos por criarem tão bem a filha dela, entretanto, tenho como dever realizar o último desejo da minha cliente.
— Que seria? — Precisava saber logo, estava cansada daquela conversa.
O olhar do advogado foi ferino, erguendo o queixo altivo, devido à impaciência e má vontade dela, não se importou, só queria aquele capacho da de Eva Montserrat fora das suas vistas.
— Calma, Caroline — o pai entendeu a situação delicada, teriam todos que agir com muito cuidado.
— No primeiro momento, a senhorita não poderá ser reconhecida como uma filha legitima, já que seria um problema criminal para seus pais adotivos e mancharia a imagem da senhora Montserrat por abandonar um bebê.
— É claro, quem gostaria de manchar a imagem perfeita de Eva Montserrat? — rebateu com sarcasmo, o advogado lhe lançou um olhar desaprovador, então se calou.
— O sonho da senhora Montserrat era ter toda a sua família e amigos mais próximos reunidos, na sua residência, para a comemoração do seu próximo aniversário, entretanto, devido a essa terrível fatalidade, isso nunca acontecerá. No entanto, desejaríamos reunir todos para a cerimônia íntima, quando suas cinzas serão espalhadas, como era a sua vontade, e que ocorrerá na sua ilha, o lugar favorito dela.
— Na ilha dela? Ela tem uma ilha? — seu pai indagou, perplexo.
— Sim, ela tem uma casa nessa ilha — o advogado respondeu de modo natural.
— Toda família? Que família? — Caroline quis saber.
— O atual marido e o filho da senhora Montserrat. Além da mãe, a empresária e algumas poucas pessoas mais próximas.
— Filho? Eu tenho um irmão?
— Sim e não. Ele foi adotado pela senhora Montserrat, como a senhorita o foi.
Aquela novidade a espantou, aquela mulher colocou uma outra pessoa no lugar dela, seria para aplacar o peso da sua consciência? Por outro lado, imaginava se seus pais não a acolhessem como seria a sua vida, talvez, em um orfanato, sozinha. Sua mãe biológica havia feito uma escolha entre seu bebê e sua carreira, ela preferiu a fama. Além disso, toda essa história despertou outra questão, quem seria o meu pai?
— Quantos anos esse garoto tem?
— Haikai tem 20 anos. Eva o adotou que ele tinha 5 anos.
— A minha idade! Ela devia sentir muito peso na consciência.
— Senhorita, então, qual será sua resposta? Irá ou não a cerimônia em homenagem a sua mãe, na ilha?
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