Na proa do barco, Caroline avistava a ilha crescer a sua frente, fechou mais o casaco e se abraçou, se protegendo do incomodo vento marinho, apesar do frio, preferiu ficar longe dos outros passageiros, acomodados na cabine. Relembrando a conversa que teve com o senhor Lutz, no escritório dele, nos dias que antecederam a viagem:

— Entendo que não seria prudente a senhorita aparecer como a filha desaparecida da senhora Montserrat, pois acarretará muitas perguntas inapropriadas, o fato poderá aparecer nos jornais, que não seria bom para ambas as partes — ele ponderou, sentado atrás da mesa reluzente, na sua sala, enquanto segurava uma linda caneta MontBlanc dourada.

— Se é assim, como explicaremos a minha presença na ilha? — quis saber, sentada bem na frente dele.

— Pensei em seguir o plano original da senhora Montserrat — respondeu, com naturalidade.

— Plano original?

— Sim, a senhora Montserrat havia bolado um plano para que fosse a comemoração do aniversário dela, sem despertar suspeitas. A senhorita iria como a minha secretária.

— Secretária? Como assim?

— Sim, perfeitamente explicável, principalmente, nessa ocasião tão lúgubre, já que ocorrerá a leitura do testamento dela, logo após a cerimônia.

— Está bem, mas como poderei passar como sua secretária? Olhe para mim!

— Pensamos nisso, também. A senhorita terá uma ajuda para mudar de aparência. Cabelos, roupas, maquiagem. Tudo necessário para se passar por uma secretária do meu escritório. — Estendeu a mão e lhe entregou um cartão de crédito, depois, pegou o telefone. — Aline, poderia vim aqui.

Logo em seguida, uma moça, usando um impecável conjunto de calça e blazer, saltos altos e bem maquiada, apareceu através da porta.

— Aline, essa é a senhorita Caroline Ferrer. Gostaria que a ajudasse.

— E aquela é a casa da senhora Montserrat — o piloto do barco a avisou, na última etapa da viagem para chegar até o seu destino.

— É bem grande! — disse, surpreendida, ao ver a bela construção, com as imensas janelas reluzindo ao sol da manhã, envolvida pela mata densa.

— A senhora Montserrat mandou construir, não havia nada aqui, só mato. Ela passava muito tempo nesse lugar, principalmente, depois que ficou viúva, mas, depois do segundo casamento, vinha menos.

— E como ela era a senhora Montserrat? — Estava curiosa por saber sobre a mulher que a gerou, por isso, após descobrir a verdade, havia pesquisado tudo que conseguiu a respeito dela, com a ajuda da amiga Lia, que não entendia aquele súbito interesse pela falecida atriz.

Infelizmente, Caroline não podia revelar a amiga o real motivo dessas pesquisas. No entanto, a maior parte do que averiguou não a levava a lugar nenhum, eram inconsistentes e superficiais, falavam da apenas mulher linda e talentosa, um mito, que se casou com um dos homens mais ricos do mundo, que morreu por uma grave e longa doença.

Após a morte do seu segundo marido, ela passou a viver praticamente reclusa na casa, que construiu em uma ilha paradisíaca, até se casar, novamente, com um homem mais jovem, e, pelas fotos, muito bonito.

— Eu não a conheci muito bem, sempre tratava com a secretária, só leva e trazia as pessoas para a ilha, mas ela era bastante educada, não falava muito — respondeu o capitão.

A lancha diminuiu a velocidade até parar no atracadouro, os passageiros saíram apressados, loucos para pisar em terra firme, os marinheiros começaram a retirar as bagagens. Uma mulher alta, magra de cabelos castanhos claros cortados curtos, vestindo uma blusa de seda azul e calça de linho branco, aguardava a chegada dos convidados, usou a mão como anteparo para se proteger do sol e poder os enxergar melhor, quando saíam do barco.

—Sejam bem-vindos, todos vocês. A maioria já me conhece, sou Melissa, secretária da senhora Montserrat e responsável pelo seu bem-estar, enquanto estiverem nessa casa. É um prazer em tê-los aqui, apesar da ocasião tão mórbida – falou a todos, de um modo sério e profissional. — Não se preocupem, pois, suas bagagens serão levadas as suas devidas acomodações.

— Obrigada — A garota não sabia o que falar.

—Melissa foi a secretária de muitos anos da senhora Montserrat, praticamente, cuidando de toda parte prática da vida dela. É uma mulher muito inteligente e perspicaz, mas extremamente leal a Eva — o senhor Lutz informou a garota, em voz baixa, enquanto caminhávamos em direção a casa.

Caroline considerou que seria uma pessoa para prestar atenção, se quisesse, realmente, desvendar Eva Montserrat, sua mãe. Contudo, ainda não tinha certeza se estava disposta a isso.

O final do deque de madeira do atracadouro se continuava com o piso do lindo jardim, indo direto para a porta de vidro que levava a uma antessala, onde se avista as grandes poltronas de vimes com forração de algodão cru. Nunca na sua vida, ela havia visto algo parecido, tão bonito e bem decorado. Pelo visto, a senhora Montserrat tinha muito dinheiro e bom gosto.

— A senhorita Ferrer ficará no anexo — Melissa informou, durante a distribuição de quartos, enquanto, Caroline imaginava se haveria quarto para tanta gente, mas havia.

Uma das empregadas a guiou para lado de fora, cruzaram um pequeno e bem cuidado jardim, cheio de plantas exóticas, até chegar ao referido anexo, uma construção menor que servia como casa de hospedes, com alguns quartos muito bem decorados e confortáveis.

— Esse será o seu quarto, senhorita. Aqui está o controle da TV e do ar condicionado, aqui é um frigobar, se precisar de algo especial é só pedir. Há um pequeno bar aqui, com algumas bebidas. As toalhas limpas estão banheiro e tem mais travesseiros e cobertas no armário. Caso precisasse de algo mais, é só solicitar a qualquer empregado ou pelo interfone — A moça explicou.

— Qual é o seu nome?

— Rita, senhorita.

— Por favor, me chame apenas de Caroline. E todos os quartos da casa são assim, Rita.

— Não, esses são os mais simples, geralmente, destinados aos empregados dos convidados.

O queixo dela literalmente caiu.

— Se desejar algo mais?

— Não, obrigada.

— O almoço será servido a uma hora, na varanda envidraçada, senhorita.

A moça saiu a deixando sozinha, para explorar o lugar. Ainda abismada com tudo aquilo, sentou na cama e se balançou para sentir maciez do colchão, passou mão nas delicadas roupas de cama, nunca viu nada tão suave assim, comeu uma suculenta maça da cesta de fruta. O banheiro era maior do que o seu quarto na sua casa, tinha até uma banheira e sais de banho, abriu um dos vidros para aspirar o seu perfume, poderia tomar um banho de estrela de cinema. A estrela de cinema que sua mãe biológica foi. A mãe que escolheu tudo isso a ela, que a abandonou. Colocou a embalagem de sais de banho de volta sobre a pia. Talvez, fosse melhor se preparar para o almoço e o encontro com a família de Eva Montserrat.