Os segredos de Eva

4 De segunda categoria


Caroline se vestiu como julgava apropriado para uma falsa secretária, havia comprados algumas roupas mais formais, não muito cara para não dar na vista, mas condizentes com a ocasião. Em um salão desses bem caro, deram um jeito no cabelo, deixando mais domados e comprou maquiagens novas e de boa qualidade, se olhando assim no espelho, achou que até estava bonita, procurando com atenção algum traço que assemelhasse a sua verdadeira mãe. Não devia se iludir, mas, quem sabe, haveria uma leve semelhança. Provavelmente, se pareceria com o seu desconhecido pai.

Um pouco antes da hora marcada, saiu do anexo, conseguiu chegar ao pequeno jardim de plantas exóticas, daí não reconheceu o caminho. Olhou para um lado e para outro, querendo recordar, encontrar algum ponto de referência, mas, nada.

— Está procurando o lugar do almoço? — Um rapaz lhe perguntou, saindo de algum lugar.

— Sim, eu me perdi — Ele parou junto a ela e deu um sorriso perfeito, em um rosto perfeito. Foi difícil afastar os olhos daqueles olhos tão intensos.

— Venha comigo, estou indo para lá, conheço o caminho.

— Obrigada.

— Você também está no anexo?

— Sim, estou.

— Quer dizer que você, também é uma convidada de segunda categoria. Desculpe, sem ofensas.

Ela riu.

— Pode dizer que sim, sou secretária do doutor Lutz, o advogado da senhora Montserrat.

— Eu sou Murilo, fisioterapeuta da senhora Montserrat e, agora, da senhora Ruiz, a mãe da senhora dela.

— Ela não tem o mesmo sobrenome que a filha? — Caroline ficou curiosa em relação a sua avó.

— Não, ela se casou de novo, Ruiz é o sobrenome do segundo ou terceiro marido, sei lá. Já enterrou pelo menos dois maridos.

Caroline já havia lido sobre a famigerada Amélia Ruiz, mãe Eva Montserrat, descobriu que era uma mulher ambiciosa, determinada e sagaz que impulsionou a carreira da filha, sendo uma das responsáveis por transformá-la em uma estrela.

— Chegamos! Vou falar a senhora Ruiz.

Eles entraram em uma ampla sala toda envidraçada, quase debruçada sobre o mar, onde havia uma grande mesa de bufê e cercada por algumas mesas menores.

— Também, vou falar com meu chefe — Deixando Murilo, Caroline se aproximou do advogado, que já tinha um copo de chá gelado na mão. Para ela, aquilo parecia mais férias em um hotel de luxo do que uma cerimônia de despedida, apesar das poucas pessoas ali presentes trajarem roupas discretas e escuras e das conversas em voz baixas.

— Você está bem instalada, Caroline? — o advogado quis saber de imediato, assim que ela se aproximou.

— Perfeitamente.

— São acomodações mais simples e afastadas, mas eu não forcei para que ficasse na casa principal, para não levar suspeitas indevidas

— Suspeita indevidas? Não entendi.

— Como por exemplo, você ser minha amante.

— Quem imaginaria isso? — Caroline ficou perplexa.

— Todo mundo. Eu já disse como está bonita, Caroline.

— Obrigada, nada como um bom corte de cabelo e roupas novas.

— Você me lembra um pouco a sua mãe.

— O senhor só pode estar brincando!

— Não — Ele deu um pequeno sorriso. — Gostaria de conhecer os outros?

— Sim, já que estou aqui — disse, com falsa indiferença.

— Então, vou apresentá-la a Amélia, sua avó, mas, por favor, não se assuste, pois, comumente, ela não é uma pessoa muito sociável.

— Pode deixar, eu sei lidar bem com isso.

Os dois se aproximaram de uma mulher grande de cabelos escuros, um vestido preto longo e solto, imenso óculos de sol que escondia a metade do seu rosto, destacando os lábios vermelhos de batom, estava sentada em uma cadeira de vime branca que se assemelhava um trono, na sua mão, um copo longo de chá gelado, com verdes folhas de hortelã. A sua frente, Murilo estava sentado, em uma banqueta e a roliça perna da mulher esticada sobre as coxas dele, que massageava o joelho inchado dela.

— Amélia, minha querida — o advogado se aproximou e beijou a mão dela, como se fosse uma rainha. — Como vai?

— Como você acha que estou indo, Gustav. Meu joelho está me matando, hoje. Ainda bem que tenho as mãos milagrosas de Murilo para me salvar. — Ela sorriu. Caroline notou uma certa pitadinha de malícia, quando Murilo lhe devolveu o sorriso. — O tempo deve estar virando.

— Amélia, eu quero lhe apresentar a minha secretária, Caroline.

A mulher abaixou os óculos, por um breve instante, analisando a garota de alto a baixo, que apenas sorrir sem graça.

— Ela não é muito jovem para você, Gustav? Quer dizer, para ser sua secretária? — Amélia questionou de um modo ácido, o advogado pigarreou, deu um sorriso que não chegou aos olhos, sem perder a compostura.

— Posso lhe garantir que Caroline é muito competente — Gustav falou, de forma amável.

— Sim, mas quem sou eu para falar. A minha doce Eva começou a trabalhar muito mais nova do que você, garota. Uma criança, um verdadeiro anjo — Ela falou direto para Caroline e deu um longo suspiro de tristeza.

— Eu lamento a sua perda, senhora Ruiz — Caroline falou em voz baixa, contudo a mulher pareceu não escutar, pois se voltou para o rapaz. — Murilo, suba mais um pouco, exatamente, a aí. — Ela deu um gemido de prazer quando as mãos do rapaz subiram para suas coxas brancas e flácidas.

— Vamos cumprimentar os outros. Com sua licença, Amélia — Gustav se despediu, a mulher abanou a mão os dispensando, sem falar nada, concentrada na massagem feita pelas mãos habilidosas do belo rapaz.

O homem mais velho segurou, gentilmente, o braço de Caroline e se afastaram.

— Hoje, ela está bem — ele comentou.

— Ela parecer ser uma pessoa um pouco... difícil.

— Ela é muito determinada, queria fazer da filha um sucesso, por isso, Eva começou a fazer pequenos trabalhos na mais tenra idade, já que, Amélia enxergava um grande potencial da filha.

— Deve ter sido complicado para Eva conviver com essa mãe.

— Eva não conheceu outra vida, então, acho que ela estava acostumada.

— Amélia sabe sobre mim, sobre o meu nascimento.

— Eva nunca tocou nesse ponto, mas, com certeza, Amélia deveria saber, já que controlava toda a vida da filha.

Andaram alguns passos e pararam.

— Está vendo aquele homem ali, o de cabelos grisalhos? É Arthur Moriz, ele foi um grande ator na sua época, depois, se tornou um importante produtor e foi muito fundamental para que a carreira de Eva decolasse. Ele a colocou em filmes importantes com um bom papel. Vou apresentá-la a ele.

— Por quê? Ele não é da família.

— Mas, é quase como se fosse. Converse com ele, talvez, possa entender um pouco mais a sua mãe.

Eles se aproximaram o homem, empolgado, contando histórias do passado para dois empregados da casa, que pareciam aflitos, provavelmente, querendo prosseguir com suas obrigações.

— Como vai, Arthur?

— Gustav, meu velho? Eu estou bem. Vejo que você está muito bem, também — Arthur respondeu de modo animado, olhando para Caroline pelos cantos dos olhos, com um sorriso malicioso. Ao mesmo tempo, que os dois rapazes aproveitaram a oportunidade para escapulir dali.

— Essa é Caroline, minha secretária — Gustav a apresentou.

— Muito prazer — Caroline estendeu a mão ao velho senhor de olhos azuis embaçados e muitas rugas ao seu redor. Ele devia ter sido um belo homem no passado.

Arthur pegou a mão dela e beijou suavemente.

— Seja bem-vinda, minha bela – disse, com uma voz sedutora, aquilo a assustou um pouco. — É uma pena que tenhamos nos reunidos em uma tão triste ocasião. A pequena Eva não merecia morrer assim, dessa maneira tão trágica, em plena flor da idade — completa de modo de triste.

— Ninguém merece — Caroline rebateu.

— Algumas pessoas mereceriam — Arthur fala, olhando acintosamente para Amélia, que ainda recebi massagens de Murilo.

— Desculpe, Caroline, mas você deve estar com fome — Gustav interrompe, ao ver que o almoço começava a ser servido.

— Na verdade, estou com bastante fome — ela diz a verdade.

— Você deveria aprender viver com a fome, menina. Eva vivia, podia passar quase o dia todo sem comer, para manter a forma — Arthur revela.

— Mas, eu não sou Eva — Caroline retrucou, com um certo mal humor.

— Vamos almoçar, Caroline.

Eles se afastam de Arthur, indo em direção ao bufê.