Os segredos de Eva
5 senhor Eva Montserrat
A parada para o almoço fez muito bem a Caroline, a ajudaria a se acalmar um pouco, colocar as ideias no lugar. Após a passada no bufê, Gustav escolheu uma das mesas para se acomodarem, olhando em volta, todas tinham lugares vagos, contudo, ele escolheu a mais isolada, onde só havia um rapaz de cabelos lisos e muito escuros.
— Podemos nos sentar aqui, Haikai?
O rapaz olhou em volta, com um ar entediado, não entendo porque eles escolheriam aquela mesa em especial, por fim, deu de ombros e Caroline e Gustav ocuparam as cadeiras livres.
Ao mesmo tempo, Caroline ficou irrequieta por conhecer o seu irmão adotivo, afinal, ele tomou o seu lugar na vida da mãe biológica.
— Haikai, essa é minha secretária, Caroline. Haikai é filho da senhora Eva Montserrat — Gustav os apresenta, educadamente.
— Lamento muito por sua mãe — ela disse, com sinceridade, prestando atenção ao rapaz e, como esperava, ele era bonito e mostrava fortes traços da sua ascendência oriental.
— Eu também — o rapaz disse de um modo seco.
Ela não sabia que falar mais, naquele momento, e Haikai parece não se incomodar com o silêncio.
Foi aí que um pequeno turbilhão peludo apareceu, correndo e latindo, por entre os convidados que se esquivavam, assustados, atrás dele, uma mulher aflita tentava alcançá-lo, sem sucesso. Percebendo que o bichinho estava apavorado, Caroline se levantou, esperou uma oportunidade, que veio quando bichinho se viu acuado, atento a sua perseguidora, assim se aproximando bem devagarinho, agarrou o pelo corpo, deixando as mãos longe da sua boca. O cachorrinho latiu, se rebelando, tentando escapar das mãos de sua captora, mas a garota o segurou firme, dizendo palavras para acalmá-lo. Por fim, cansado, ele se deu por vencido e parou de lutar, relaxando, no instante que ela começou a acariciá-lo. Era um lindo lulu pomerania branco.
— Chiffon! — A empregada se aproximou, aliviada, retirando o cão das mãos de Caroline. — Obrigada, normalmente, ele não é assim, acho que só está sentido a falta da dona Eva.
— Esse cão devia ser sacrificado! — Ouvi Amélia dizer, com pouco-caso. Aquelas palavras deram um aperto no peito de Caroline, imaginando, se sua avó teria dito o mesmo sobre ela.
Melissa se aproximou, a passos largos, deles.
— Obrigada! — Acariciou a cabeça do cachorrinho. — Leve-o para dentro — ordenou a mulher com o cachorro nas mãos, que se foi, imediatamente. — Chiffon pertencia a senhora Montserrat e está muito estressado, depois da morte dela. Todos nós estamos — completou.
— Coitadinho! — Caroline queria perguntar sobre o destino do cão, talvez, até pudesse ficar com ele, caso ninguém o quisesse.
— Mas, por favor, terminem o seu almoço. Precisam de algo?
— Não, obrigado, Melissa. Como sempre, está tudo perfeito — Gustav se adiantou.
Ao retornarem aos seus lugares, notaram que Haikai havia desaparecido.
— Ele é um garoto bastante inteligente, mas não muito sociável — Ao perceber a ausência de Haikai, Gustav comentou, voltando a sua refeição.
Lá fora, principiou um vento forte, trazendo nuvens pesadas e escuras, escondendo sol.
— Deve chover — Caroline observou, olhando pelas vidraças.
— Chuvas fortes passageiras são comum nessa região. Já terminou? Pois, poderemos continuar as apresentações.
— Sim — Caroline respondeu, sem muita convicção, não estava gostando em nada daquela gente, mas pelo prêmio valeria a pena passar por essa provação, já que, no final, ganharia um bom dinheiro que poderia garantir o futuro dela e de sua família.
O vento aumentou, podia senti-lo sacudindo a estrutura da construção, os vidros trepidavam. Lá embaixo, o mar cor de chumbo encrespava mais e mais.
— Não se preocupe, menina. Esse lugar é bem seguro — Gustav a tranquilizou.
Um raio rasgou o céu, seguido de estrondo que a fez tremer e olhar o além, através das grandes janelas, quando se voltou, novamente, encontrou um homem ao lado do advogado.
— Caroline, quero apresentá-la a Tom Miller...
— Mais conhecido com senhor Eva Montserrat — o recém-chegado completou de modo ácido, estendendo a mão.
Ela aceitou o cumprimento, sem desviar os olhos dele. Tom Miller era impressionante, com certeza, mais bonito pessoalmente do que nas fotos, era um daqueles homens que você acha que não existem, pele dourada de sol, cabelos castanhos escuros, olhos azuis quase transparentes, queixo quadrado, ombros largos, poderia ficar a tarde toda, listando todos os seus atributos. Já havia visto fotos dele antes, mas encontrá-lo pessoal era outra coisa. Sem dúvida nenhuma, entendia porque Eva se apaixonou por ele.
— Essa é minha secretária Caroline — Gustav prosseguiu as apresentações, mas ele não lhe deu atenção, a cumprimentando com apenas um leve aceno de cabeça.
— Gustav, você tem ideia de quando essa palhaçada vai acabar? — perguntou, impaciente.
— A cerimônia está planejada para a amanhã, no final da manhã — o advogado respondeu, com calma.
— Então, terei que aturar esses abutres até amanhã — Tom passou a mão nos cabelos e soltou o ar com força.
— Sim, era o desejo da sua mulher.
— Até na morte, Eva gosta de aprontar — dizendo isso, se afastou, pesando duro.
— Tom não se dá muito bem com algumas pessoas aqui. Ele é um pouco temperamental — Gustav explicou a Caroline que, também, não havia gostado delas, imaginando se não foi melhor ter sido abandonada no hospital do que conviver com essa gente. — Acho que chega de apresentações, por enquanto, vou beber algo mais forte do que chá gelado, se quiser me acompanhar?
— Não, obrigada, não estou acostumada a beber.
— Fique à vontade e se cuide, com sua licença.
Como Gustav, a maior parte das pessoas que estavam ali presente desapareceram. Os empregados já recolhiam as louças e a comida que sobrou. Caroline não sabia para onde ir nem o que fazer, quando Murilo apareceu ao seu lado.
— Perdida, moça?
— É.
— Não temos lugar nessa casa. Quer dar uma volta por aí? Eu mostro para você o lugar.
— Obrigada. Mas, e a chuva?
— Ainda não vai ser agora — Murilo afirmou olhando o céu.
Eles saíram da varanda envidraçada e começaram sua caminhada pelo jardim bem cuidado.
— Esse lugar é lindo! — Caroline exclamou, parando junto a piscina.
— Tem tudo que muito dinheiro pode proporcionar.
— Você costuma vir muito aqui.
— Eu morei aqui por um tempo, costumava trabalhar para Eva. Ela tinha dores crônicas de coluna, devido um acidente de filmagem. Muitas vezes, enquanto aparecia sorridente em uma foto ou em um filme, ela estava se contorcendo de dor.
— Eu nunca imaginaria.
— Você viu os filmes dela?
— Alguns — Sobretudo, nesses últimos tempos, curiosa para conhecer a sua mãe biológica.
— Eva era uma grande atriz, a rainha da dissimulação. Mas, vivendo com aquela mãe tinha que ser. Era como conviver com o diabo. — Caroline riu, achando graça daquela comparação. — Você está rindo, porque não sabe do que ela é capaz.
— E você sabe?
— Eva nunca me contou nada diretamente, mas, muitas vezes, esqueciam da minha presença, conversam e faziam comentários como se eu não estivesse lá. Eu escuto e não comento nada, não estou aqui para isso.
— Mas, a senhora Ruiz parece gostar muito das suas massagens.
— Acho que é a única forma de um homem colocar as mãos nela, outra vez. Gostaria de conhecer um lugar especial para Eva?
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