Os segredos de Eva

18 Nossas lembranças


Nas semanas que se seguiram, por várias vezes, Caroline se pegava pensativa, no seu novo bem decorado e confortável quarto, imaginando se Tom havia ou não encontrado o seu bilhete dentro do bolso do casaco. Talvez, não houve percebido, ficando esquecido ali por muito tempo, ou mesmo mudado de ideia após a partida dela, vendo a tolice desse interesse por uma garota como ela, depois de ter nos braços uma mulher igual a Eva. Sendo assim, seria melhor esquecê-lo de uma vez por toda.

Então, já conformada, tentando esquecer Tom, querendo acreditar que ninguém não poderia se apaixonar, em apenas alguns dias da sua vida. No entanto, o rosto, a voz, pequenos gestos dele sempre vinham a sua memória, causando um leve aperto no seu peito.

E quando menos esperava, aconteceu, seu telefone tocou, em uma tarde, ela deparou com um número desconhecido. Atendia muitos, nos últimos tempos. Ao reconhecer a voz, seu coração quase parou.

— Caroline, sou eu, Tom — disse, em um modo que mesclava animação com uma pitada de timidez.

— Tom! — murmurou, sem poder acreditar. Queria perguntar por que havia demorado tanto para ligar, mas se calou.

— Eu achei o seu bilhete, há pouco tempo. Fiquei chateado quando você partiu, sem conseguirmos trocar os nossos números. Tentei achá-la no escritório de Gustav, mas me disseram que você não trabalhava lá.

— Eu não trabalho mais lá, era só um emprego temporário — Ela estava se emaranhando, mais e mais, em uma rede de mentira, que, provavelmente, não conseguiria escapar.

— Não sabia o que fazer, então, como um milagre, coloquei o casaco enfiei a mão no bolso e lá estava, o número do seu telefone. Devo confessar, que demorei alguns dias, para telefonar, querendo arrumar uma desculpa qualquer. Então, eu pensei, mas que se dane, vou ligar porque tenho vontade, porque estou com saudades. Senti a sua falta, eu queria me encontrar com você — ele falou, suavemente.

As palavras de Gustav dançaram na cabeça dela, como um homem como Tom poderia se interessar por uma garota como ela, depois de ter Eva. Mas, precisava reencontrá-lo, nem que fosse por uma última vez. Mesmo achando que estava agindo errado em enganá-lo.

— Eu, também, senti a sua — Enchendo-se de coragem, disse a verdade.

— Então, podemos nos encontrar?

— Sim, eu quero muito me encontrar com você.

— Quando?

— Amanhã?

— Amanhã para mim está ótimo — Caroline pressentiu o sorriso dele. — Eu posso pegá-la na sua casa.

— Não, por favor. Eu prefiro me encontrar com você em algum lugar.

Caroline admirou seu reflexo na porta de vidro do restaurante combinado, ajeitou o cabelo, por um instante vacilou, considerando se o que estava fazendo era certo ou não e quais seriam as consequências dos seus atos, por fim, respirou fundo, antes de entrar, estava disposta pagar para ver, mesmo desconfiando que o preço pudesse ser bem alto.

Ela nunca estivera em um lugar como aquele antes. Na entrada, deu seu nome a hostess, que a levou através do salão de luz diáfana, com mesas coberta por alvas toalhas, encimadas com elegantes copos e delicados arranjos de flores, onde os poucos e discretos comensais conversam em voz baixa, os cheiros de temperos e vinhos, misturados com os dos perfumes importados e lustra-móveis davam uma atmosfera sofisticada e a deixando um tanto intimidada, mesmo com suas roupas novas e caras, ainda era uma garota do subúrbio, ao mesmo tempo que imaginava quantas vezes Eva e Tom estiveram ali. Chegando a mesa em que Tom já se encontrava, o coração dela acelerou, engoliu em seco, ao vê-lo, lindo, com seu jeito displicente, distraído, olhando pela janela, o mundo lá fora já mergulhado na noite, pontilhadas de luzes artificiais brilhantes.

O que ele estaria pensando, talvez, em Eva? Caroline imaginou, antes de se aproximar.

Ele se ergueu e o rosto se iluminando por um sorriso, assim que a viu, trocaram beijos singelos nas faces, esperou ela tomar seu lugar e se sentou.

— Você sequer imagina como fiquei feliz, ao meter a mão no meu bolso e descobrir aquele papel com o seu telefone.

— Eu não sabia o que fazer, precisava ir, porque o doutor Lutz ficou me apressando, assim tive a ideia do casaco.

— Não imaginava que você fosse embora tão rápido.

— Ele tinha alguns negócios a resolver, com urgência.

— O importante que está aqui, agora, comigo. E não vou deixar você desaparecer outra vez.

Ela sorriu, sem graça, diante daquelas palavras, considerou se não seria a hora de falar toda a inexorável verdade, dizer quem realmente era, mas tinha tanto medo que ele se zangasse e fosse embora para sempre. Agora, que o reencontrou, a possibilidade de perdê-lo a deixava apavorada, todavia, poderia ser inevitável, já que estava presa a um emaranhado de mentiras. Abaixou os olhos para o cardápio à sua frente, incapaz de encará-lo.

— O que você recomenda? — Ela mudou de assunto.

— Eu não sei, nunca estive nesse restaurante antes.

— Mas, eu pensei que...

— Que já estive aqui com Eve. Não, escolhi um lugar novo, para uma nova lembrança, só nossa.

— Nossas lembranças? — Caroline não pode esconder um leve sorriso de satisfação.

Fizeram suas escolhas, Tom pediu vinho para acompanhar os pratos.

— Sim, por que não nossas lembranças? Eu estou querendo retomar a minha vida, é como ela estivesse em suspensão, durante os últimos anos. Pretendo voltar a trabalhar com mais afinco, me envolver com novos projetos do escritório do meu pai.

— Você ainda trabalha com o seu pai?

— Pode se dizer que sim. Meu pai é muito bom no que faz, apesar de ser um pouco teimoso.

— Qual pai não é? O meu é bastante.

Por um breve instante, pensou como deveria ser o seu pai biológico. Uma sombra de tristeza passou por seu olhar. Era melhor mudar de assunto, não queria Eva ali, entre eles, para estragar uma noite promissora.

— Eu trouxe Chiffon comigo — ele disse, com o ar divertido, referindo-se ao cachorrinho de Eva.

— E como ele está?

— Acho que um tanto deprimido, eu não sei como cuidar dele.

— Eu posso ajudar.

— Eu adoraria a sua ajuda.

O vinho foi cerimoniosamente apresentado, aberto e servido na taça de Tom para degustação. Depois, derramado em ambas as taças.

Os garçons chegaram com os pratos escolhidos, elegantemente escondidos sob cúpulas de metal, retiradas com toda pompa.

Caroline assistiu aquela encenação, com um certo espanto, pois, era tudo tão absolutamente diferente do mundo em que vivia, no entanto, não se deixou intimidar, pois, sempre foi uma boa observadora, já havia visto isso antes em filmes. Imaginou se havia herdado essa característica de Eva.

Eva! Ela estava sempre pairando sobre eles, mesmo sem seu nome ser dito, se percebia sua presença ali.

— O que foi? Não gostou da comida? — Tom perguntou, ao notar a face dela anuviada.

— Não, a comida está ótima e o vinho também — Ela lhe deu um dissimulado sorriso, não querendo confessar os seus pensamentos.

Algumas horas depois, no restaurante quase vazio, continuavam a conversar, contando histórias antigas, fazendo inocentes confissões, falando dos planos para o futuro, até que perceberam a passagem do tempo, era hora de partir.

— Você quer que eu a leve em casa? — ele perguntou, antes de deixarem o restaurante.

— Não é preciso, eu pedi um carro

Caroline percebeu a expressão de desilusão dele.

— Se quiser, podemos levar Chiffon para passear no fim de semana, o que acha?

— Acho uma excelente ideia.

Um sorriso radiante surgiu no rosto dele.

— Então, eu ligo para combinarmos, no sábado.

— Estarei esperando — Caroline disse, ao se aproximarem do carro.

Mas, antes que ela entrasse, ele a segurou pelos braços e a beijou. Um beijo terno e suave, ao mesmo tempo, quente e sensual, fazendo o coração dela parar em um misto de susto e exultação.

— Eu precisava fazer isso — Tom disse, junto aos lábios dela, quando se afastaram.