Os segredos de Eva

26 A mulher revelada


Durante o curto trajeto que separava o seu quarto da sala, uma pequena chama de esperança nasceu no seu peito, poderia ser Tom, que a procurou a fim de conversarem, assim ela poderia se explicar, se desculpar por tê-lo enganado. No entanto, a visão do seu visitante foi como um balde de água fria sobre ela, quedou paralisada.

— Amélia! O que você está aqui?

Fixou os olhos na mulher diante dela, sentada em uma das poltronas, enquanto seu pai lhe fazia companhia.

— Eu não posso conhecer melhor a minha neta? — A mulher não se abalou, lhe deu um sorriso que não refletiu nos olhos.

— A neta que você nunca quis — falou, de modo duro.

— Todo mundo comete erros.

— Uns muito mais que outros — Caroline diz, entredentes.

— Caroline! — Laurita chama a atenção da filha. — Dona Amélia, quer um café?

— Só Amélia, por favor. Sim, eu aceito.

— Eu já volto. Manoel, venha me ajudar!

— Para quê? — O seu pai está confuso, sem saber se vai ou se fica, mas a esposa lhe olha com cara feia e faz um aceno com a cabeça para ele a seguir, assim compreendeu e a acompanhou.

— Podemos conversar, Caroline? — Amélia pediu, assim que se viram sozinhas, a garota assentiu com a cabeça, sentando-se diante da outra mulher, bastante incomodada diante daquela mulher.

— O que quer me falar, que vai entrar na justiça contra mim?

— Não, seria uma luta inglória, só nos exporia ainda mais, meu nome e o da minha filha estaria na berlinda por abandonar um bebê a própria sorte — disse, de um modo prático.

— Quer dizer que você não vai contestar a minha identidade nos tribunais? — Caroline estava chocada com tal revelação.

— Para quê? Eu vi as provas e contraprovas. Para ser sincera, eu mesma fiz as minhas pesquisas tentando encontrar alguma brecha nessa história, porém, não encontrei nenhuma.

Caroline respirou aliviada ao ouvir aquilo, só não ter que enfrentar uma longa e desgastante briga para provar quem era.

— Se acredita que sou sua neta, então, por que está aqui?

— Já disse para conhecê-la melhor.

— Por que não acredito nisso?

— Não posso mudar a sua opinião sobre mim, mas como sinal de boa vontade, eu vim trazer lhe isso.

Ela tirou da grande bolsa, que estava no seu colo, pequenos livros de capas duras e de cores fortes, estendeu-os para a garota a sua frente, que hesitou, mas os segurou, sem entender o que aquilo significava.

— O que é isso?

— Os livros de anotações de Eva. Minha filha costumava anotar seus pensamentos e fatos importantes. Quem sabe, planejasse escrever suas memórias algum dia.

Caroline sentiu os objetos queimarem na sua mão, um certo pânico a afligiu, ali estavam os segredos de Eva, sua indecifrável mãe, a mulher que gostaria tanto de conhecer.

— Um diário?

— Não, Eva não se preocupava com o tempo, não há uma linearidade nos fatos, ela só escrevia o que vinha na cabeça. Você aparece aí, muitas vezes.

— Por que está me dando isso?

— Porque acho que tem o direito de conhecer a sua verdadeira mãe. Leia com calma, não se preocupe em devolvê-los, eu fiz cópias.

— Você pretende publicar isso? — Caroline indagou, espantada.

— Talvez, dependendo da oferta e se a necessidade falar mais alto. — Ela deu de ombros. — Sou uma mulher prática, minha menina.

Caroline ia rebater, falando que não era a sua menina, mas não teve tempo, pois seus pais retornaram, com uma bandeja com xícaras, bule de café e pequenos biscoitos, e começaram uma breve conversa leve e amena, falando principalmente de Eva e suas histórias.

Quando Amélia se foi, a mãe de Caroline a encarou, com seriedade.

— O que ela queria, afinal? — quis saber.

— Eu não sei, mãe, mas, ela me deu isso — respondeu, mostrando os três pequenos livros na sua mão.

— O que é isso? — Laurita olhou para os pequenos objetos, espantada.

— Livros de anotações de Eva, onde ela colocava suas ideias e pensamentos, segundo Amélia.

— Você está muito curiosa, em relação a sua verdadeira mãe, eu até entendo porque ela era uma mulher linda, glamorosa, muito rica, um mito — Laurita disse de um modo triste.

— Mãe, você está com ciúmes de Eva? Que bobagem! — Caroline achou graça e a abraçou. — Nunca ela poderá substituir você, que foi a minha única e verdadeira mãe.

Mais tarde, outra vez, sozinha no seu quarto, Caroline encarava aqueles pequenos objetos, assustada, com a possibilidade do que iria encontrar ali, assim, respirou fundo, e abriu o primeiro.

Como Amélia lhe havia dito, não havia uma linearidade de fatos, eram ideias e pensamentos soltos, comentários aleatórios, a maioria sobre pessoas e fatos que desconheciam. Naquelas páginas, encontrou por várias vezes com uma mulher solitária e triste, obstinada em manter sua imagem para ser amada e admirada.

“ Como eu pude abandonar o meu anjo? Onde ela estará agora? Será que é feliz? ” Eva se perguntava.

— Sim, Eva, eu era feliz — respondeu a mãe ausente.

“ Haikai é um menino doce, porém triste e só, nunca poderei ser a mãe que ele precisa”. Eva reconhecia.

“ Ortega definha mais e mais a cada dia, não há nenhuma esperança, pode ser cruel, mas só espero que isso acabe logo. ” Escrevia sobre o seu segundo marido, que morreu após uma longa doença.

“ Tom me trouxe de volta à vida, tal qual o Sol iluminando os cantos escuros da minha alma perdida. O meu menino de ouro”.

Algumas das palavras eram engraçadas, outras tristes, Eva era inteligente, observadora e, muitas vezes, espirituosa e sagaz, deveria ter sido uma mulher incrível, que gostaria de conhecer, apesar de não desenvolver nenhum forte sentimento por ela.

Então, algo chamou sua atenção.

“ Ele continua com a mesma história de sempre, dizendo que me ama, me venera, que viveria aos meus pés se eu permitisse, ri e o chamei de louco. ”

Imaginou que devia ser mais um desses fãs doidos, que Eva deveria ter aos montes.

Continuou sua leitura, às vezes, engraçada, outras séria.

“ Ontem à noite, sonhei com a minha menina, gostaria de saber como ela está. ”

Pelo que parecia, Eva jamais parou de pensar na sua filha abandonada.

“Isso é completamente maluco! Encontrei uma joia caríssima no meu quarto, falei que não devia, mas insistiu que eu ficasse com ela, como prova do seu amor, disse não e a devolvi. ”

Começou a pular partes desinteressantes, procurando mais anotações sobre esse tal perseguidor apaixonado

“ Mais uma vez, insiste que preciso dar-lhe uma chance, digo que sou uma mulher casada e amo meu marido. Fala que Tom não é homem suficiente para mim, que só passa de um garoto, que nunca serei totalmente feliz ao lado dele, então, rebati mais uma vez que amava demais o meu marido, que aconteceu entre nós foi uma tolice minha, um momento de carência, que não devia brincar com seus sentimentos”

Caroline ficou imaginando que diferente dos outros, porque não escrevia o nome desse seu ferrenho perseguidor, o que tinha a esconder?

“ Outra noite, estávamos em uma festa, quando se aproximou de mim e ameaçou, disse que se não fosse sua, não seria de mais ninguém. Novamente, eu ri na sua cara, achando que fosse uma brincadeira de mau gosto, talvez, fosse melhor nos afastarmos. ”

Essa foi a última anotação, um calafrio percorreu a espinha da garota. Será que Eva foi assassinada? Mas, quem seria a pessoa que a ameaçou?

Pegou seu telefone, deixou uma mensagem de voz, pois necessitava dividir isso com alguém.

— Tom, sei que pode parecer apenas uma desculpa para falar com você, mas, estou com as anotações de Eva. Ela diz que foi ameaçada de morte por um possível perseguidor.