Ela não tinha nenhuma esperança que Tom retornasse sua ligação, não sabia como agir para conseguir alguma pista, não poderia, simplesmente, ir à polícia com essa suspeita, sem nenhuma prova concreta, então, a quem procurar? Nunca Amélia, queria distância daquela mulher, assim pensou em Melissa, a secretária de Eva, mas como encontrá-la? Talvez o escritório de Gustav tivesse o telefone dela, mas já era tarde, não queria incomodar ninguém sem motivo real, ligaria no dia seguinte. Assim começou a reler, as anotações de Eva, querendo descobriu algo nas entrelinhas, alguma pista desse seu perseguidor. E por que Eva esconderia seu nome?

Sua mãe a chamou para o jantar, mas estava tão cansada com as novidades do dia, que recusou, acabando por adormeceu ainda vestida, com um dos livros de anotações na mão. Acordou já tarde da noite com o telefone tocando, mal pode acreditar no nome que aparecia nele.

— Tom!

— Desculpe eu ligar a essa hora, está um pouco tarde, mas acabei de retornar da ilha e vi sua mensagem.

— Como você está?

— Como você acha que estou? — A voz dele era dura, ele não a perdoara.

— Eu...

— Então, que história é essa de ameaça a Eva? — Ele foi direto ao assunto.

— Amélia esteve aqui, para me dar os livros de anotações de Eva. Você os conhecia?

— Sim, mas Eva nunca me deixou ler. Por que Amélia faria isso?

— Eu não sei, mas disse que queria que eu conhecesse melhor a minha mãe biológica, ou algo assim.

— Isso não é típico de Amélia. E foi aí que soube da ameaça?

— Sim, há várias citações sobre esse tal perseguidor, mas Eva não revelou quem era.

Ela ouve Tom solta o ar com força do outro lado.

— Não acredito na hipótese de assassinato. Eu a conhecia bem, Eva era muito imprudente no trânsito e tinha altos níveis de álcool no sangue, isso você não vai encontrar nessas anotações.

Silêncio.

— Era só isso, Caroline?

— Tom... Eu não quero que me odeie, eu não queria magoar você, só que estava confusa, não sabia o que fazer.

— Eu não odeio você, só estou magoado por não ter confiado em mim, não entendi o porquê de tanto segredos.

— Eu só segui as orientações do doutor Lutz.

— Gustav sempre foi um tanto exagerado, muito superprotetor em relação a Eva.

— Se você soubesse que sou a filha de Eva, a situação seria diferente entre nós?

— Provavelmente, sim. Eu não me aproximaria de você

— Então, tudo foi como tinha de ser. Por favor, podemos nos encontrar para conversar?

Passou um longo tempo de silêncio, antes de ele responder, tanto que ela achou que ele havia desligado.

— Sim, eu quero me encontrar com você.

Caroline não disfarçou o sorriso.

— Quando?

— Quando você quiser.

— Amanhã?

— Sim, amanhã. Onde?

— Precisamos achar um lugar neutro e discreto.

— Eu tenho uma ideia — ela respondeu, animada.

No começo da tarde, logo após a hora do almoço, a rua estava quase vazia, a maior parte das pessoas dentro de casa, ainda mais naquele tempo quente, assim ninguém estava lá para reparar o carro chegar e parar diante daquela casa vazia e uma mulher sair de lá de dentro e entrar correndo.

Voltar para o seu lar da infância empoeirado, vazio e silencioso, foi no mínimo estranho e triste, ver as plantas mortas e ressecados no jardim, os objetos cotidianos esquecidos sem uso. Caroline prometeu a si mesmo que os doariam, assim que a situação se acalmasse. Foi até a cozinha, ligou a chave geral para que tivesse luz, abriu as janelas dos fundos para arejar o lugar, pois sabia que não poderiam ser vistas da frente. Depois, perambulou entrando e saindo dos cômodos, recordando o passado, imaginando como sua vida havia mudado tanto em tão pouco tempo.

Sentou-se no sofá da sala, o mesmo onde encontrou Gustav Lutz, na tarde onde revelou quem era sua verdadeira mãe. Ouviu batidas de leve na porta da frente, correu para abrir, por alguns segundos, o encarou, sem jeito sequer e podia acreditar que Tom estava ali, bem diante dela.

— Entre! — Por fim, convidou, saindo da frente para lhe dar passagem, e fechando a porta rapidamente as suas costas, não queria testemunhas. – Sente-se – indicou o sofá, os dois se sentaram, a uma certa distância.

Ele olhou em volta, reparando o lugar simples e pequeno, os móveis antigos e gastos, os objetos baratos, até parar nos olhos dela

— Que lugar é esse?

— Eu cresci aqui, é a casa dos meus pais. Sim, minha vida era assim, Tom, simples e com muita luta. Meu pai era empregado de uma empresa de manutenção de rede elétrica e minha mãe, uma dona de casa.

— É por isso que estamos aqui, para eu saber como era a sua vida?

— Também, aqui é um lugar seguro, mas queria mostrar a você, como foi estranho para mim, chegar em casa em uma tarde e encontrar um advogado, dizendo que minha mãe biológica morreu e que eu fiquei milionária do dia para noite, ainda falando que tinha que manter tudo em segredo. Como poderia discordar?

— Ele explicou a você o porquê de tanto segredos.

— Não, só por alto, algo sobre a minha legitimação como herdeira de Eva e ainda tinha o problema dos meus pais, que me adotaram de forma ilegal. Uma das enfermeiras do hospital me entregou, às escondidas, para eles, que me registraram como filha legítima.

— E você acha que essas explicações bastam para justificar suas mentiras? — Sua voz era dura, ele não a perdoaria tão facilmente.

— Não, eu sei que não. Eu quis lhe contar a verdade, um monte de vezes, mas fiquei com medo.

— Medo do advogado?

— Não, medo de que se você descobrisse a verdade, que eu era a filha de Eva, não olhasse mais para mim.

— Por que você acha isso?

— Eu não seria mais uma secretária, seria a filha da sua falecida esposa, não é verdade?

— Sim, é — Ele soltou um longo suspiro e apoiou os cotovelos nos joelhos. — De qualquer maneira, não havia futuro para nós dois.

Aquelas palavras doeram fundo como uma ferroada no peito.

— Por que não poderíamos ter futuro?

— Porque Eva era sua mãe e minha esposa.

— Minha mãe se chama Laurita e é uma simples dona de casa. Eva é só a mulher que me gerou e me abandonou, que não conheci. Posso parecer fria, mas, para mim, ela só é um monte de lembranças dos outros.

— Eu a amei muito, ela era uma mulher extraordinária.

— Ela também o amou, chamou você de Sol da vida dela. Eva parecia meio sem esperança com a morte de Ortega, até você surgir na sua vida. É tão estranho como essa mulher desconhecida morreu e mudou toda a minha vida. Eu só queria que você me desse uma chance, que nos desse uma chance de tentar ser feliz, juntos.

Tom afundou seus olhos nos dela, indeciso.

— Eu estava perdido, sem rumo, até você chegar na minha vida, foi bom, mas, ao mesmo tempo, assustador, porque aconteceu muito rápido, não pensei que seria assim, gostar de alguém tão cedo, mas eu estava feliz, disposto a tentar, outra vez. Então, veio essa história de você ser filha de Eva, tirando o chão debaixo dos meus pés. A mentira me magoou demais.

— Se pudesse mudar, voltar o tempo, eu faria tudo diferente, mas não posso.

Nesse momento, o telefone de Caroline tocou, ela olhou para a tela. Gustav. Recusou a chamada. Desligou o aparelho. Nada poderia ser mais importante do que aquele momento decisivo. Ouvindo o silêncio, sentindo o tempo se esgotar e o coração bater forte, à espera angustiante de um desenlace.

— Tenho uma proposta para você — ele falou e ela parou de respirar. — Venha para ilha comigo, eu dispenso os empregados, seremos só nós dois, um fim de semana inteiro, assim poderemos conversar com calma, sem precisar ficarmos escondidos, como se fossemos criminosos.

Lentamente, um enorme sorriso cresceu no rosto dela, sem constrangimento, segurou as mãos dele entre as suas.

— Sim, eu irei para a ilha com você, Tom.