Os segredos de Eva

28 Muito além do horizonte


Caroline estava leve e confiante que iria ficar tudo bem, que seria um fim de semana inesquecível, que enfim ela e Tom voltariam a ficar juntos e felizes, quando todos os receios e controvérsias se evanescessem, deixando o resto para trás.

Era nisso que pensava quando chegou na sua casa, teria Tom somente para ela durante aqueles dias, a ponto de decidir deixar Chiffon, o cachorro de Eva, a cuidados dos seus pais, seria bom para eles se distraírem um pouco, enquanto estive fora.

Assim, que pisou no apartamento, lembrou-se de ligar o telefone, havia algumas mensagens, a maioria do advogado pedindo que retornasse à ligação, poderia ser algo urgente, então fez isso.

— Caroline, tentei falar com você à tarde toda — o tom dele era de reprimenda.

— Estava ocupada.

— Soube que você queria o telefone de Melissa, por quê?

— Sim, eu liguei para o seu escritório, mas ninguém quis me dar alguma informação?

— Melissa não está muito sociável, anda um tanto recolhida ultimamente, preferindo ficar sozinha. Ela ainda está abalada e sofrendo muito com a morte de Eva. No entanto, se eu puder ajudá-la?

— Não, você não pode.

— Você voltou a reencontrar com Tom Miller?

O sangue da garota gelou nas veias.

— Não. Por quê? — respondeu, com um fio de voz.

— Porque é melhor assim, aquele rapaz não é confiável, ele ludibriou Eva, que era uma mulher muito mais experiente que você, mas, no fundo, era uma romântica, acreditava nessas histórias de amor.

— Ele não quer mais saber de mim, quando descobriu as minhas mentiras.

— Será melhor para você, Caroline. Você é muito jovem para se envolver desse jeito, principalmente, com um homem como aquele — falou de modo gentil.

— E você já tem ideia de quem foi o informante do livro sobre Eva? — Mudou de assunto.

— Aquele monte de bobagem? Com certeza, alguém que queria tirar proveito da situação, mas eles pagarão caro por todas aquelas mentiras, não se preocupe.

— Não estou preocupada.

A veloz lancha pilotada por Tom saltava as pequenas ondas do mar verde esmeralda e o coração da garota saltava junto leve e feliz, como se quisesse escapar do peito, afinal, teria um fim de semana inteiro, sozinha ao lado dele.

Ela o observava, seguro, no comando da pequena nave.

— Você pilota bem! — falou alto, por cima do barulho do potente motor.

— Se você construiu uma casa em uma ilha e morou nela, tem que saber como sair de lá, quando for preciso. O tempo está firme, teremos sol durante o fim de semana.

— Eu não me importaria de ficar presa nessa ilha, com você por causa de um temporal — brincou, relembrando a sua última estadia naquele local.

— Eu dispensei os empregados, nesse fim de semana, queria evitar fofocas, assim seremos só nós dois, naquela casa.

— Por quanto tempo precisaremos viver assim, escondidos?

— Se não dermos motivos, logo esquecerão de nós, mas, por enquanto, somos a sensação do momento. A filha abandonada da grande estrela que se tornou amante do padrasto.

Caroline deu um riso nervoso.

— É estranho, pensar dessa forma, você como meu padrasto, porque para isso, eu deveria pensar em Eva como a minha mãe

— Mesmo que você não pense assim, ela era a sua mãe. E devem estar criando um monte de teoria de conspiração, para explicar porque estamos juntos. Então, não vamos falar desse assunto, durante o resto do fim de semana — Tom decretou.

Caroline se sentiu um tanto aliviada, apesar de estar indo para um lugar impregnado pela presença daquela mulher, que via muito mais como uma rival do que como sua mãe.

O desembarque foi bem diferente dessa vez, o lugar sereno, o silêncio quebrado pelo barulho do mar batendo contra a embarcação e o cais, a brisa passando pela vegetação, vez ou outra o piado de um pássaro, o céu azul e claro. O ar era limpo e fresco, toda a tensão ficou do outro lado do mar.

— Vou levar a sua bagagem para o quarto, pedi que deixasse a despensa e geladeira bem abastecidas. Eu estou com fome, e você? — Tom falou, pegando as malas.

— Um pouco.

— Sabe onde fica a cozinha?

— Não, mas eu me viro.

Quando eles entraram na casa, ele apontou para um corredor, antes de começar a subir as escadas.

— Fica para lá e só seguir em frente, que eu já volto.

Seria bem estranho, só os dois naquela casa enorme e vazia, até um tanto sinistro, preferia estar em um lugar menor e mais aconchegante, sempre perto um do outro.

Seguiu pelo corredor, ouvindo o silêncio, iluminada pela luz natural que entravam pelas claraboias, e sem muita dificuldade, chegou a cozinha bastante ampla, brilhante, com tantos eletrodoméstica, alguns nem saberia para que servia, uma cafeteira italiana que poderia estar em qualquer sofisticada cafeteria da cidade, geladeira e freezer gigantesco, pois a comida precisava ser estocada. Caroline abriu a geladeira, não sabendo por onde começar, verificou os recipientes bem acondicionados e etiquetados, avaliando o que tinham ali, estava distraída na escolha, quando sentiu algo tocar suas costas, assustada, deixou um pequeno grito escapar, dando um pulo.

— Calma. — Tom disse a abraçando. — Desculpe, não quis assustar você.

— Eu só estava distraída, isso aqui é tão silencioso.

— Só assim teremos paz.

— O que vai querer frango ou peixe? — ela perguntou, de um modo animado.

— Peixe?

— Então, será peixe — resolveu decidida, com a vasilha na mão, olhou em volta, sem imaginar onde estaria os pratos e talheres naqueles inúmeros armários.

— Eu coloco a mesa e você esquenta a comida ali, no micro-ondas. — Ele apontou para o outro lado da cozinha. — Que tal um vinho?

— Não vai dizer que tem uma adega aqui!

— Só uma pequena adega refrigerada.

Após o delicioso almoço, regado com um excelente vinho californiano, Caroline se sentia aquecida e lânguida, entretidos pela conversa descompromissada, não tocaram em assuntos espinhosos e sombrios, tal qual um casal comum, sem o peso dos acontecimentos e das cobranças, sem a sombra de Eva pairando sobre eles. O passado ficou além-mar.

— Por que você não vai até o quarto, coloca um biquíni e podemos aproveitar a tarde de sol na praia? — Tom propôs, quando acabavam de lavar a louça e arrumar a cozinha.

— Acho uma boa ideia, mas não sei qual é o quarto.

— Esqueci desse detalhe, eu a levo até lá e aproveito para trocar de roupa, também.

— Essa casa é tão grande que até dá alguém se esconder aqui, sem ninguém saber — Caroline considerou, enquanto subiam as escadas, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.

— É um exagero. Agora, que passou o calor da emoção, não sei se é uma boa ideia ficar com ela, talvez, fosse melhor deixar o passado para trás — Aquelas palavras trouxeram um misto de surpresa e esperança, que Tom quisesse construir um novo futuro ao seu lado.

— O quarto é esse aqui — Ele mostrou uma das primeiras portas do longo corredor, os dois ignoraram a porta fechada do quarto de Eva logo ali adiante.

— Imaginei que ficaríamos no seu estúdio, lá embaixo.

— Aquele lugar foi meio que improvisado. Achei que você ficaria mais confortável aqui — Ele abriu a porta, revelando um quarto amplo e claro, dominado por uma cama king-size, com as grandes janelas dando para o mar, muito mais confortável do que o quarto que ela ocupou no anexo, na primeira vez que esteve ali.

Encantada, ela caminhou até a janela e admirou a paisagem a sua frente, a imensidão do mar esverdeado findando no horizonte azul e, mais na lateral, a opulência do verde-esmeralda das matas virgens, soltou um longo suspirou e se voltou para trás.

— Esse lugar realmente é lindo, Tom.

Mas, sem que ela notasse, ele havia se aproximado para bem junto a ela, não falou nada, apenas a envolveu em um longo e ardente beijo, que se prolongou cada vez mais apaixonadamente, mas já não saciavam os corpos exigentes querendo muito além disso.