Os primeiros sete
6 Quarta-feira, dia 6
Notas iniciais
— O que é isso? – Freddie disse vendo um pacote na porta da casa
— Deixa eu ver – Steve abriu a porta e pegou o pacote
— Papai, posso ver desenho? – O garoto disse assim que colocou os pés dentro de casa – Eddie! – Freddie falou assim que o cachorro apareceu correndo em sua direção
— Ei garoto – Steve passou a mão nos pelos do cachorro que estava no meio de uma sessão de abraços e carinho com o filho
— Então papai, eu posso ver o desenho? – Freddie disse ficando em pé novamente após Eddie correr pro andar de cima – O Noah disse que quando ele chega da escola ele vê Mini Beat Power Rockers
— Depois o papai vai ver se é um desenho pra você assistir, ok? – Steve disse entrando em casa e fechando a porta da frente
— Mas papai, o Noah vê – Freddie fez bico e se aproximou da televisão – Por favorzinho
— Olha, é pra você – Steve falou após ler o nome do filho no pacote e o entregou
— O que é isso? – Freddie disse se sentando no chão
— Abre aí – Steve olhou e o garoto começou a abrir
— Me ajuda, papai? – Freddie disse entregando o pacote meio aberto pra Steve, que se sentou ao lado dele
— Gosta de livros, garoto? – Steve disse abrindo o restante do pacote
— Eu gosto mais de desenho – Freddie olhou pra Steve – São livros? – Ele perguntou quando o pai terminou de abrir
— É, são livros. Não gostou, filho? Você gosta de quadrinhos
— É que eu gosto mais da televisão, eu posso ver o desenho agora? – Freddie se levantou, sem sequer dar atenção aos dois novos livros que haviam chegado – Quero ver desenho, papai, por favor – Steve respirou fundo e olhou pro menino em pé ao lado dele
— Tudo bem, só enquanto eu faço o jantar
— Tá bom, papai – Freddie sorriu amplamente e pulou no sofá
— Mas antes, nós vamos conversar – Steve também se levantou e sentou ao lado do menino no sofá – Filho, nós temos que estabelecer uma coisa importante
— O que é estabelecer?
— Estabelecer é... Como eu posso dizer? Instituir, temos que instituir uma coisa
— Eu também não sei o que é isso, papai
— Ok, vou tentar de novo. Hum, nós temos que ter algumas regras. Entendeu?
— Sim
— Escuta, ontem, antes de ir para a escola, nós fizemos um combinado, você só iria ver televisão enquanto o papai tomava banho, e depois iria desligar sem problemas, lembra? – O garoto concordou com a cabeça – Então filho, você não quis cumprir esse acordo
— Mas agora eu vou fazer certo
— Filho, escuta, quando fazemos um acordo, um combinado, uma promessa, nós devemos cumprir. Freddie, nós não mentimos um para o outro, nem pra ninguém
— Porque?
— Mentir é errado, Freddie, e tem consequências quando se faz isso, por menor que seja a mentira – Steve olhou pro garoto sentado no sofá o olhando como se o pai fosse atacá-lo a qualquer momento – Quando você faz um acordo e não cumpre, isso é mentira, sabe? E isso não é legal, isso não é certo. E aqui, aqui isso é uma regra, filho. Nós não mentimos. Mentiras trazem consequências e danos, e em algumas vezes, não dá pra voltar atrás. E nós não queremos isso, não é?
— Não, papai. Desculpa – Freddie disse baixinho
— Está tudo bem, filho – Steve disse o pegando no colo – Ainda não tínhamos falado sobre as regras, nós temos algumas e temos que conversar sobre isso
— Temos?
— Sim, nós temos – Freddie olhou ansioso para Steve
— Fala, papai
— Por enquanto, duas regras. E a número 1 é, nunca diga mentiras, não importa menor que seja
— Tudo bem, sem falar mentira
— Regra número 2, sempre cumpra o que prometeu
— Não falar mentira e fazer o que prometer, eu acho que eu sei fazer isso
— Isso é bom, amigo – Steve sorriu
— Tem mais regras?
— Você gostou das regras, cara? – Steve olhou pro menino que respondeu com um sorriso – Bom, tem outras regrinhas, mas por enquanto quero que saiba essas duas, ok?
— Porque as outras não?
— Aos poucos nós vamos conversar sobre isso, filho – O menino olhou pra Steve – Escuta, você deve estar com fome, vou preparar o jantar
— Liga a televisão? – Freddie deu um sorriso sapeca pra Steve
— Podemos combinar que quando o papai chamar, vamos desligar?
— Podemos
— Então está combinado? – Steve disse se levantando
— Sim! – Freddie sorriu animado e Steve ligou a televisão e seguiu para a cozinha pra fazer a comida. Quase 40 minutos depois, Steve voltou pra sala, onde só se ouvia as vozes das personagens do desenho e se via um Freddie muito concentrado
— O jantar está pronto, filho – Steve disse após se sentar ao lado do menino no sofá e espiar o desenho – Vamos desligar a televisão e ir comer?
— Só mais um pouquinho, papai – Freddie disse olhando para a televisão e agarrando o controle
— Filho, como é a nossa regra? – Steve disse sério e o filho o olhou como um cachorrinho que caiu da mudança, o que quase fez Steve ceder. Quase.
— Tudo bem – Freddie entregou o controle que estava segurando para Steve – Mas eu quero ver depois de novo
— Vamos conversar sobre isso depois, ok? – Steve se levantou – Agora o senhor vai lavar as mãozinhas para poder comer – Steve pegou o garoto no colo e andou até a cozinha, onde Freddie lavou a mão e em seguida, Steve o sentou à mesa
— O que é isso? – Freddie perguntou após ver o prato já montado
— Legumes assados, arroz e franguinho assado, tudo cortadinho para você – Steve fez uma pausa – Olha, tem cenoura, brócolis e batata
— Eu queria macarronada
— Por mais que seja muito gostoso, não é muito saudável comer sempre, filho. Tivemos macarronada ontem, lembra?
— Eu não gosto desse – Ele apontou pra cenoura
— Você já comeu antes?
— Eu não sei se eu comi
— Mas a cenourinha é muito boa, amigo – Steve disse puxando uma cadeira para ficar ao lado do filho – Experimenta, só um pedacinho – Steve disse colocando na colher do garoto um pedaço
— Não, papai – Freddie disse o olhando – Quero só o franguinho – Falou antes de pegar um pedaço no prato e em seguida comeu
— Ei amigo, não pegue a comida com as mãos
— Minha mão está limpa
— Eu sei, mas você precisa comer com a colher – Steve indicou a colher com a cenoura – Experimenta só um pouquinho, pequeno
— Não gosto, papai
— Você já experimentou para saber se não gosta?
— Não, só que eu não gosto – Freddie disse pegando a colher tirando a cenoura e pegando um pedaço de batata
— Come o brócolis também, filho – O menino pegou um pedaço do brócolis e comeu sem nenhum problema. Steve tentou mais uma vez que ele comesse a cenoura mas nada feito. Então Steve colocou seu prato e eles jantaram juntos, com direito a uma segunda rodada pro garoto.
— Agora eu posso ver mais desenho? – Disse após terminar de comer
— Você já viu muito desenho – Steve falou o ajudando a descer da cadeira
— Só um pouco
— Não filho, chega de desenho por hoje
— Mas papai...
— Não, filho
— Só que...
— Escuta – Steve se abaixou na frente do menino – Regra número 3, não é não, então, não insista
— Papai...
— Não, filho. O papai já falou. Olha, você pode desenhar, brincar, olhe seus livros, você nem viu
— Não gosto deles – Freddie fez bico – E nem gosto de brincar e nem de desenhar... Só gosto de desenho!
— Escuta, o papai vai arrumar as coisas na cozinha, quer ficar aqui e me dizer como foi seu dia? – Steve disse mudando o assunto, o que fez a expressão do garotinho mudar rapidamente
— Ah! Ah! Ah! – O menino falou agitado e Steve se levantou, indo pra cozinha seguido do filho – A mãe da Keith levou uma torta de abacaxi hoje pra todo mundo
— Ah é? E você gostou? – Steve disse o pegando no colo e colocando sentado na bancada perto da pia
— Sim! Foi a melhor torta que eu já comi! Depois nós fomos no parquinho, eu fui na gangorra, a tia Laura me ajudou! Era alto e legal!
— Você gostou mesmo da escola, né?
— Sim! Lá é muito legal, e eu fiz um desenho nosso, mas a tia disse que não eu não podia trazer hoje mas só depois que a escola acabar
— Entendi, olha, estou ansioso para ver seu desenho
— Eu fiz o Eddie, eu e você papai, também fiz a água
— Parece ser um belo desenho, cara! Deve ter ficado muito bom, sabe por que?
— Por quê?
— Porque você é um artista incrível – Steve sorriu pro menino, que seguiu contando as histórias e falando sobre seus amigos e como gosta de brincar com eles. Quando Steve terminou, eles foram pra sala e Freddie olhou pro pai e ele sabia o que estaria por vir
— Um gosto muito de desenhos, sabia papai?
— Eu prefiro os livros, sabe? – Steve desconversou e começou, então Freddie o olhou curioso – Quando você lê algo, você imagina muitas coisas e se diverte também – Steve se sentou no chão e pegou os dois livros recém chegados
— Eu me divirto vendo desenho – Respondeu decidido
— Mas os livros são diferentes – Steve disse olhando pro filho – Você gosta de histórias antes de dormir, não é?
— Sim, eu amo
— Com os livros, você pode ter história na hora que quiser
— Mas eu ainda não sei ler, só pode ser com você na hora de dormir
— Você pode usar sua imaginação – Steve disse abrindo um dos livros – Olha quantas figuras tem nos seus livros novos, você pode imaginar suas próprias histórias vendo elas
— Eu posso imaginar que essa é a nossa praia? – Freddie perguntou vendo a primeira página do livro “The Storm Whale”
— Você pode imaginar o que quiser
— Eu acho que é legal, o que está escrito aí?
— “Leo morava com o pai e seis gatos na beira do mar”
— São muitos gatos, papai
— É, são sim – Steve sorriu
— Eu sei contar nos meus dedos, olha – Freddie levantou a mão e começou a contar – Um, dois, três, quatro, cinco e seis – Ele completou com a outra mão
— Isso foi bom hein, carinha
— Continua o livro, papai – Freddie disse se aninhando do lado de Steve, que passou o braço ao redor do garoto e ele descansou a cabeça em seu peito
— “Todas as manhãs, o seu pai...”— Steve continuou a leitura e Freddie observava e ouvida tudo atentamente, e comentava sobre as imagens do novo livro. Quando acabou, Freddie pediu e então Steve leu o outro e o garoto agiu da mesma maneira: ouviu todas as palavras que o pai dizia e sorria e comentava sobre os desenhos de cada uma das páginas
— Tem outro, papai? – O menino perguntou e bocejou
— Agora você tem que tomar banho, eu leio outra história para você quando terminar, pode ser?
— Tá bom, papai – Steve se levantou do chão e Freddie continuou sentado
— Vamos lá, amigo? – Steve esperou e Freddie se levantou devagar – Está cansado?
— Não, eu aguentou outra história – O menino falou com a cabeça deitada no ombro do pai.
O banho foi incrivelmente mais rápido do que o habitual, provavelmente porque a pilha do menino precisava de recarga. Já vestido e com os dentes escovados, Freddie lutava contra o sono para poder ouvir o terceiro livro da noite, que como prometido, Steve leu. Quando ele terminou, o filho estava a um passo de dormir, então guardou o livro, desligou a luz do quarto que faltava e deixou a noturna ligada. Depois se aproximou novamente do menino, que o olhou
— Papai, eu acho que agora eu gosto de livros – O menino disse bem baixinho e fechando os olhos
— Isso é bom, filho – Steve disse baixinho e sorriu – Boa noite, meu garoto. Dorme bem – Steve beijou a testa do menino que já estava dormindo
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