Os fins justificaram

1 Mais um dia Comum


Sangue. Gotas seguindo por 360 diferentes direções em uma dança incomum às almas viventes no mundinho recluso conhecido como realidade. Balas. Objetos prateados e maciços voavam aparentemente sem rumo pelo ar mórbido do armazém. A lâmina preta fazia-se vermelha cada vez que uma cabeça voava ou que tripas quentes caíam ao chão. Era dessa forma que Victor matava, quase como se coreografados fossem seus movimentos. Não havia tempo para gritos ou dor, apenas o calor da extensa placa atravessando pelos, pele, músculos, cálcio e então cálcio, músculos, pele e pelos.

O garoto não falava enquanto matava, não era algo a se comentar ou trazer a tona quaisquer prós ou contras. Também não trazia expressões no rosto, tudo parecia vazio e inóspito em seu coração durante o trabalho que lhe fora dado.

Os tiros continuavam de todos os lados, mas nenhum acertava o jovem rapaz e sua escura e afiada corrente. O motivo de Victor não ser atingido não era obvio e tinha ligação direta com um jovem, mais jovem que este narrado que, parado no centro do espaço, dava seu show. Dele, literalmente voavam milhares de besouros, esses tão negros que brilhavam a luz sombria que vinha das claraboias imundas.

Os pequenos grandes animais iam em bandos até os homens com jalecos de médico, sim, os mesmos com as armas nas mãos, e os impediam de ver ou entender tanto Victor quanto o próprio Ruan. A expressão de Ruan era tão palpável que chegava a ser difícil de ser demonstrada, havia naqueles olhos dor, naqueles lábios divertimento e... Ruan era isso, um paradoxo por si só. Sem armas, apenas ideias, estas que eram armas ao virarem imagens. Seria uma ilusão achar que passavam elas, as ideias, de ilusões. Mas não podemos esquecer quão poderosas são as criações, mesmo que apenas imagéticas, de um sonhador como era o jovem.

Nem um arranhão podiam os besouros fazer,eles não existiam afinal, mas isso não era importante. A essência das ideias é o fato de não precisarem existir para mudar o mundo, também seria essa a priori dos sonhos. Os homens de jaleco atiravam no que viam e acertavam seus companheiros sem a intenção. Nova e continuamente sangue espirrava sem fim pelo armazém.

E então o sorriso que quebrava tudo. Crânios, clavículas e joelhos. Augusto tinha uma atração especial pela dor alheia e fazia de tudo para atirar aonde mais dói. Entre gritos eufóricos, xingamentos e acrobacias o rapaz dava tiros certeiros com suas duas pistolas, uma de pedra escura e outra de cristal escarlate. Cada homem que por ele era derrubado significava um número a mais gritado para ninguém e para todo mundo. Já estava no décimo quando se deparou com apenas dois de pé. Victor, Ruan e Augusto estavam agora sozinhos no grande armazém de teto envidraçado sujo e chão com o cheiro enferrujado típico de sangue.

“Não falei que esse trabalho seria divertido!”

Augusto quebrou o silêncio enquanto as armas se quebravam em suas mãos, os insetos continuavam não existindo, agora nem mais como imagens, e a corrente cor de ébano voltava a ser uma tatuagem no braço.

Nada estava onde deveria, isso incluía as mentes dos três rapazes ao saírem do depósito.