Os fins justificaram

2 Antes dos dias comuns


Os três estavam em pontos distintos do espaço-tempo. Velocidades diferentes, pensamentos discrepantes, mas um objetivo me comum: chegar à escola.

Sim, nossos “heróis” são garotos inexperientes.Mas dizem por aí que as boas histórias têm jovens inexperientes que: ganham poderes, encontram mentores, vilões, amizades, amores, quase morrem e no fim vivem felizes para sempre! Infelizmente, tenho que informar ao caro leitor que essa não será uma boa história.

Ruan descia um morro o qual sempre parecia deveras extenso, principalmente na subida. A mente do garoto voava passando por diversas imagens espaças em significado, ao menos para outros que não o próprio Ruan. Seus devaneios foram abruptamente interrompidos pelo som de ambulância ao longe.

Augusto estava parado no portão da escola fazia um par de horas e, ao mesmo tempo em que curtia sua imobilidade, pensava sobre a utilidade de tão altos portões e muros. Era uma escola, afinal! Para o rapaz, era inaceitável que a vontade de sair fosse tão maior do que a vontade de entrar. Talvez por essa vontade existissem muros altos, leis de obrigatoriedade e um triste futuro. Quando enfim decidiu dar o primeiro passo para entrar no local de “não-tão-aprendizado”, uma ambulância parou no acostamento.

Então Ruan, Augusto e Christopher, o terceiro integrante do inquebrável trio, se encontraram no mesmo lugar de sempre, um canto escuro no pátio da escola, sombreado por um conjunto de pequenas árvores de tronco quebradiço. A manhã era fria, desta forma contrastando com os sorrisos e corações dos rapazes. Quentes.

Augusto deu seu melhor sorriso sarcástico para os outros garotos e quando seus dentes se bateram disse: “Nada como uma segunda-feira de frio pra deixar tudo mais bonito”.

Ruan, com um olhar que mudava, ora pra Augusto ora pro céu, reclamou: “Só você pra gostar de frio, cara. Tô com uns 30 casacos aqui.”.

Christopher bufou impacientemente e disse: “Deixando o frio de lado, vamos ao que interessa. Vocês viram aquelas ambulâncias lá fora?”.

“Eu só vi uma, tem mais? Quem ta morrendo nessa desgraça?!”. Augusto disse num tom provocativo, mas que no fundo indicava uma curiosidade preocupada.

Ruan, numa tentativa de não se preocupar e não preocupar os dois amigos tentou prever – “Talvez seja uma palestra ou alg...”.

Ruan fora interrompido pela voz. Ela era distante, mas penetrante, forte o bastante para chamar a atenção da escola. Todos se viraram na direção da voz e, dentro da escola, em frente aos grandes muros e portões, estavam Eles. Podiam ser vistas muitas câmeras filmadoras, algumas apontadas para o grande homem de megafone a frente de todos e outras apontadas para os estudantes. Todos os homens estavam de jaleco, como médicos.

Com um pouco de interferência e ruído, do megafone saíam as seguintes palavras: “Meus queridos, desculpe me intrometer no mundinho de vocês. Garanto que o recado que tenho a dar será rápido e...”.

Da multidão de alunos saiu à diretora da escola. Mulher antiga, mas muito imponente. Respeitada em cada canto da escola e da cidade.

A diretora começou a falar impetuosamente, mas com uma firmeza digna de grandes líderes. “Com licença, mas não recebi nenhuma notificação de que os senhores viriam, dessa forma terei de pedir que desliguem as câmeras e se retirem imediatamente!”.

Sangue.

O primeiro corpo havia caído no chão. A diretora, símbolo da ordem na escola estava estirada no chão com apenas metade da cabeça, o resto da mesma se encontrava em várias partes do pátio. A ordem se encontrava estirada no chão.

Aquele aparelho ruidoso se tornou macabro e, de forma cadavérica, disse num tom quase sussurrante: “Este é só o começo.”.

O efeito dominó, sugere a ideia de um efeito ser a causa de outro efeito gerando uma série de acontecimentos semelhantes de média, longa ou infinita duração. O primeiro grito levou ao segundo, que levou ao terceiro. Da mesma forma que a primeira pessoa a correr. Da mesma forma que primeira pessoa a morrer.

Os homens de jaleco sacaram todo tipo de armas e o massacre se iniciou. Alguns deles sorriam com o trabalho bem feito.

A cada segundo a população da escola diminuía às dezenas. Sangue voava mais do que os pássaros que a muito haviam deixado a área, dizem que animais pressentem o perigo...

Os três jovens demoraram a correr. O choque com a realidade é sempre difícil e costuma paralisar, mas uma perna se moveu e foi o bastante para as outras cinco se dessem conta do que fazer.

Christopher caiu a sua esquerda, Ruan a sua direita, mas nada chegou a Augusto. O rapaz correu mais alguns metros antes de parar. Em seus olhos? Lágrimas. Punhos? Cerrados. Coração? Disparado. A vida nunca mais seria a mesma. Augusto não sabia se a matança havia parado, mas em seu mundo não tinha mais barulho. Sua mente estava limpa, não havia para onde fugir, como ou motivo.

Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. E nesse momento Augusto compreendeu sua vida, vendo o passado e o futuro. A morte certa tem o poder de abrir os olhos.

Em alguns segundos o garoto viu como vivia por viver, sem sentido ou rumo e corria desesperadamente em busca dos prazeres aparentemente contínuos, mas que durariam minutos. Cresceria e teria um emprego que se obrigaria a gostar, uma companheira que amaria por alguns anos e depois apenas aguentaria. Filhos, nos quais faria pressão para que vivessem uma vida diferente e com um pingo de sentido, mas que no fim fariam o mesmo que ele, de forma um pouco diferente. Pagaria todo mês impostos por serviços que não receberia e faria boletins de ocorrência na policia que seriam arquivados dois minutos depois. Por fim morreria com um sorriso bobo no rosto para disfarçar a tristeza interior por não ter feito nem um décimo do que a vida lhe proporcionou.

Não. Não queria morrer, muito embora viver daquela maneira fosse como estar morto.

O som. O impacto. A dor. Agora caído ao chão, Augusto via o liquido vermelho escorrer do peito junto com as lágrimas dos seus olhos.

Olhou para trás e de início viu Ruan em uma poça de sangue e, um pouco atrás, Christopher. Augusto sempre admirara a inteligência de seu amigo, mas nunca imaginara que veria de onde ela vinha.

As sirenes chegaram em alta velocidade e o tiroteio só fez aumentar. Homens de preto e de branco corriam para todas as direções lançando suas balas para onde quer que fosse. Se isso ainda importava, pouco se há para dizer, afinal, pra que aumentar o número de corpos estirados no pátio da escola?

Enquanto todos os adultos se preocupavam em atirar, um garoto, apenas alguns anos mais velho que os outros, olhava para o massacre com algum sentimento. Parecia sentir raiva, muita raiva. E com olhos perscrustadores procurava entre os corpos dos alunos algo em especial. Correu agilmente na direção de Ruan e colocou a mão em seu braço, mas logo o deixou. Um pequeno sorriso se formou nos lábios do rapaz. Talvez o fato de haver ao menos um sobrevivente o tenha deixado feliz. Logo depois correu na direção de Augusto, que se contorcia no chão. Colocou a mão em seu peito e sua expressão se fechou. Agachou-se e colocou algo brilhante dentro do machucado. Augusto desmaiou logo em seguida. A dor era forte demais.

Muito foi perdido naquele trágico dia. Perderam-se entes queridos, partes do corpo, aulas... Perdeu-se a esperança.