Notas iniciais
Olá! Está gostando? Não deixa de comentar, favoritar, enfim, sua opinião é muito importante! Boa leitura!

É preciso se arriscar. É preciso não ter medo. É preciso acreditar. O relato aqui, poucos vão compreender, pois só olhos atentos podem notar um veneno na xícara de café!

Na manhã seguinte, Rebeca acordou disposta. Vestiu-se com um de seus melhores vestidos, preto, justo e que ia até as coxas; abaixo do pescoço, o decote era um pouco voluptuoso para ser usado naquela manhã, mas isso não lhe impediu. Acrescentou ainda luvas de renda, e o último presente que ganhara da mãe: os sapatos brilhosos de saltinho. Tomou um de seus chapéus mais simples e desceu as escadarias da Mansão Garcia. Encontrou uma mesa cheia: pães, geleia, suco, frutas, sequilhos, leite, mel... Nunca vira tanta comida.

Estavam todos lá, e Rebeca se lembrou da conversa que escutara na noite anterior. Obviamente, eles não contavam com uma parente de sangue no caminho da herança. Mesmo que não fosse verdade, agora Rebeca ia até o fim. Além do mais, seria prazeroso provocar aquela família.

— Bom dia, família DÂngelo! — falou ela, com um sorriso largo, como se pudesse dizer: Ainda estou respirando.

A Sra. DÂngelo retribuiu com um sorriso falso e disse:

— Olá, senhorita. Dormiu bem?

Rebeca encarou cada membro da mesa antes de responder. Cibele estava com a mesma camisola do dia anterior e o sorriso bobo enquanto comia rapidamente. Juan, o filho misterioso, observava a hóspede quase que sem piscar. Talvez planejando como vai me matar, pensou ela. E então voltou-se para a mais velha:

— Na verdade, não.

— Creio que foi só um pesadelo — declarou a Sra. DÂngelo, olhando gentilmente para a sobrinha do patrão.

— Sim, foi só um pesadelo — confirmou Rebeca, dando de ombros.

— Sente-se conosco, senhorita Garcia — convidou Juan.

A Sra. DÂngelo estava do lado esquerdo da mesa, seguida pelos dois filhos. Rebeca assentiu e sentou-se na ponta, imaginando ser aquele o lugar do tio.

— Espero que a senhorita não estranhe empregados estarem sentados à mesa — disse Sra. DÂngelo, atenciosa, fazendo Rebeca instintivamente semicerrar os olhos, ainda pela conversa da noite anterior. — Seu tio não gostava de comer sozinho, então todos nós sentávamos à mesa. Éramos sua família.

— Entendo perfeitamente — falou Rebeca. — Mais alguém mora aqui?

— Não — Cibele respondeu ligeiramente.

— Imagino que tinham uma boa relação... — arriscou Rebeca.

— O senhor Garcia me contava histórias — explicou Cibele, sem parar de comer. E ficou triste de repente. — É, contava.

— Não quero que entenda mal, mas ele era o patrão, e nós, os empregados... — Sra. DÂngelo começou a esclarecer.

Rebeca interrompeu-a e soltou mais uma vez:

— Entendo perfeitamente. — A frase soou desconfiada. O clima ficou pesado, mas ninguém naquela mesa parecia se importar em ter uma conversa agradável com a hóspede.

Sentindo o cheiro do pão quente e de outras iguarias, Rebeca olhou para a mesa farta e pegou apenas uma torrada. Até Juan comentar:

— Seu tio não era muito de amigos.

— Pois me pareço muito com titio. — Rebeca aproveitou o gancho. — Prefiro os inimigos — acrescentou, sem refrear o sorriso zombeteiro. E então percebeu que o trio dos DÂngelo pararam de comer para observá-la. — O que foi? Estou falando a verdade. — Riu e mordeu a torrada.

Todos voltaram a mastigar.

A Sra. DÂngelo ergueu o bule de café e serviu Rebeca em uma xícara branca com detalhes dourados. Ainda observando a delicadeza do recipiente, Rebeca esperou a xícara ficar cheia, mas não agradeceu.

— E então, o que a senhorita vai fazer em Lucena por esses dias? — Sra. DÂngelo puxou assunto.

— Nada — Rebeca respondeu de pronto, e então riu mais uma vez quando todos olharam para ela surpresos. — Bem, pensei em conhecer um pouco sobre a vida de titio, a cidade... Além do mais, gostei do céu cinza de Lucena, pretendo ficar por aqui. Quem sabe, morar nesta casa, parece muito grande só para vocês. E estou gostando da simpatia de todos. — Ela olhou para Juan, que retribuiu com um sorriso aquiescido, ainda que um pouco irônico.

Rebeca viu Juan tomar uma xícara nas mãos. Leite. Voltou-se para o café em sua xícara. Encarou o líquido preto e arrepiou-se. Tanto tempo sem ver a bebida que nem se lembrou de que odiava café.

— O que foi, a xícara está suja, senhorita? — a governanta perguntou em um tom preocupado demais.

Rebeca olhou para a bebida de todos. Todos tomavam leite. O que fazia aquelas pessoas pensarem que só ela gostava de café? Olhou para a bebida, a fumaça ainda saía da xícara. Voltou-se para a Sra. DÂngelo, o rosto sem expressão não denunciava nada. Em seguida, Juan demonstrou ter reparado na desconfiança evidente.

— Ora, senhorita, está se sentindo bem?

Um pouco distante, Rebeca notou os olhos de Juan inquietos. Encarou a Sra. DÂngelo mais uma vez, suas pupilas azuis pareciam um pouco mais dilatadas, mas sua face não devolvia nenhuma pista. Apesar do ar mais pesado que se instalou na mesa, ninguém disse nada. Tomou a xícara na mão e encarou o líquido mais de perto. O cheiro de café forte invadiu seu nariz, instintivamente seu estômago revirou. Foi como se uma lâmpada se acendesse na cabeça de Rebeca.

Definitivamente eles são espertos, o café está envenenado!

— Odeio café — disse Rebeca, voltando a xícara para o píres e empurrando para longe dela. Ninguém disse nada, então ela se levantou. Seu estômago roncou, não muito satisfeito. Tanto tempo sem comer algo decente... — Hora de conhecer Lucena. Tenham um bom dia!

Todos continuaram calados. Rebeca andou em direção à porta principal, satisfeita por contar com a sorte de odiar café. Estava quase de saída quando viu Ametista, a gata, passar correndo por ela.

— Espere, senhorita! — Juan se levantou também. Ela se virou para o rapaz, mas sua atenção foi desviada para o felino subindo na cadeira em que há poucos segundos estava sentada.

Ametista bebeu o café. Pobre gata!

Todos se voltaram para Ametista, Rebeca conseguiu ver até mesmo a Sra. DÂngelo arregalando os olhos em surpresa. A senhora ficou ainda mais chocada quando a gata desceu da cadeira e andou normalmente. Rebeca, esquecendo-se de que Juan a tinha chamado, saiu pela porta da frente.

Lá fora, o sol continuava se escondendo. Rebeca suspirou e se imaginou acordando todos os dias de sua vida tendo a vista de Lucena. Poucas casas, clima agradável e sem o Sr. Olivier para irritá-la. Concluiu: preciso daquela mansão!

— Rebeca, espere, por favor — gritou Juan, correndo para alcançá-la no enorme portão. — Incomoda-se? Quero dizer, posso chamá-la pelo primeiro nome? —Sorriu quando viu que finalmente ela lhe deu atenção.

— Na verdade... — começou ela, reparando como os olhos dele ficavam ainda mais lindos com um pouco de luz do dia. Afastou os pensamentos, incapaz de esquecer a recepção daquela misteriosa família. — Prefiro senhorita Garcia!

— É uma pena... — Juan fingiu estar magoado. — Pensei que tínhamos... Você sabe. — Ele se aproximou e ela consequentemente sentiu seu cheiro, uma mistura de algo cítrico e amadeirado, ou talvez uma combinação estranha de verbena e carvalho.

— Não sei, não, Sr. DÂngelo. — Rebeca deu um passo para trás, ainda sorrindo com a tentativa forçada de sedução.

— Quem sabe poderíamos fazer uma caminhada — insistiu ele.

Rebeca pareceu segurar uma risada. Juan percebeu e ficou sério de repente.

— Pensei que me pediria para mostrar a cidade — declarou com estranhamento. O DÂngelo inclinou a cabeça com olhar enviesado na direção dela. Ela fingiu ponderar sobre o convite.

— Não costumo pedir ajuda. — Rebeca sorriu e voltou a andar.

— Há coisas na cidade que você não pode descobrir sozinha — atiçou Juan.

Rebeca virou-se novamente, de forma impressionada. Ele voltou a se aproximar dela.

— Sim, eu posso. Sempre consigo o que quero! — Virou-se, e desta vez Juan a deixou ir. — Até mais ver, Sr. DÂngelo!

Juan foi deixado para trás. E sem olhá-lo novamente, Rebeca seguiu um caminho a pé até a cidade. O clima era ameno naquela manhã, perfeito para uma caminhada. Não pôde deixar de notar que talvez o garoto DÂngelo tivesse falado a verdade, deveria haver algo interessante para descobrir.

Com passos seguros no salto tilintando na única rua de Lucena, Rebeca conseguiu chamar atenção dos moradores por onde passava. Observava atentamente os primeiros sinais de pessoas que a encaravam com expressões fechadas e roupas fora da moda atual da Capital. Quanta gente estranha, pensou ela.

A sensação de ser observada pairava no ar. Ficou atenta. Olhou para trás várias vezes durante o percurso da rua de pedra, mas simplesmente não se deparou com nada.

Uma casa simples, cor-de-rosa, aparentava ser uma butique, pelo vestido chamativo na vitrine. A peça em vermelho com renda preta tinha barras esvoaçantes. E não foi a única roupa que encantou Rebeca. Alguns vestidos pareciam ser da moda dos anos 1920, porém, bem conservados. Havia ainda modelos antiguíssimos, e outros ela já vira em algumas butiques da Capital, como saias extremamente rodadas que denunciavam as novas tendências. Quando deu por si, estava dentro da loja.

— A minha mulher precisa de algo diferente, um sapato que ninguém em Lucena tenha — disse um homem corpulento vestindo um terno engomado azul. Seu rosto barbudo o fazia aparentar ter idade para ser pai de Rebeca.

— A primeira-dama é exigente, mas acho que irá gostar destes — falou a vendedora, uma jovem de cabelos loiros e sorriso complacente.

O homem pegou os sapatos e os analisou como se fosse um joalheiro olhando uma pedra preciosa. Rebeca observava a conversa dos dois.

— Não, são iguais aos que comprei semana passada! — concluiu ele.

— Posso ajudar, senhorita? — A vendedora olhou para Rebeca, que após alguns segundos, tinha esquecido que existia.

O homem virou-se para Rebeca, reparou nela até os olhos cinzentos alcançarem seus pés.

— Aqueles! Preciso de sapatos como aqueles! — Ele sorriu com satisfação exagerada e apontou para os pés de Rebeca.

— Não temos esses sapatos — disse a vendedora, meio cansada.

— Hum, me venderia esses sapatos, senhorita? — perguntou o homem, determinado.

— Ah, eu não... — ponderou Rebeca, lembrando-se de que era um presente da mãe. — Depende do seu pagamento — repensou. A mãe não estava mais em sua vida, era hora de abandoná-la de vez.

— Escolha qualquer vestido da loja e eu pago.

— Não posso ficar descalça, meu senhor!

— Escolha um sapato também, ora! — disse o homem, impaciente. Rapidamente Rebeca concordou.

De fato, esta cidade é diferente, quanta sorte para um dia!

Por um instante, Rebeca quis desfazer o negócio. Eram sapatos únicos, não só por serem um presente de sua mãe, mas por serem confortáveis e bonitos; não encontraria outro igual naquela cidade. Porém, quando a vendedora lhe trouxe um vestido, ela retirou os sapatos e pediu o modelo da última moda.

— O senhor deve amar sua esposa — comentou Rebeca, rindo do negócio.

— É verdade — disse o homem, gargalhando. — E a senhorita, quem é?

— Sou Rebeca Garcia. Sou sobrinha de...

— Fortunato Garcia — completou o homem. — Sou Augusto, o prefeito de Lucena. — Ele estendeu a mão, mas Rebeca continuou quieta, com os olhos semicerrados. O prefeito então voltou a mão para junto do corpo. — As notícias correm nesta cidade, senhorita.

— Vejo que sim — disse ela. Um prefeito... O tempo de vacas magras foi apenas uma chuva passageira, pensou.

O terceiro erro de Rebeca foi não esperar por uma tempestade.

— É um prazer conhecer a única herdeira do Sr. Garcia. — Sorriu com avidez. — E o que tem achado de Lucena?

— Bem, acabo de sair da casa de tio Fortunato para tirar minhas próprias conclusões.

— E tem gostado da recepção dos DÂngelo? — perguntou o prefeito.

Rebeca pensou naquela família e no plano de tirá-la do testamento de Fortunato, em seguida, algo lhe veio à mente: a morte do homem. E se Fortunato tivesse sido assassinado? E se os DÂngelo fossem os culpados?

— São adoráveis — mentiu.

O prefeito a encarou por um tempo, como se duvidasse daquela resposta. Rebeca pensou em dizer ao homem sua verdadeira experiência com os DÂngelo, mas ele abriu um sorriso gentil e falou:

— Talvez queira almoçar em minha casa durante sua estadia.

— Não sei se devo... — ponderou.

— Ora, e por que não? Minha mulher e eu éramos amigos do velho Fortunato. Ela ficará honrada em conhecer a sobrinha — o prefeito enfatizou.

Até que ponto iria aquela farsa?

— Sendo assim... Estou desocupada a maior parte do dia, não vai fazer diferença se for hoje mesmo, que tal? — Rebeca deu de ombros, invadida por uma sensação de curiosidade.

Para ela, Augusto parecia saber sobre Fortunato Garcia. E mais, ele era o prefeito, conhecia mais do que qualquer pessoa os mistérios daquela cidade.

— É claro! — O homem sorriu mais uma vez. — Ficará quanto tempo entre nós?

Conversando a caminho da mansão do prefeito, os dois seguiam a pé. Rebeca viu alguns membros da alta sociedade na praça, foi apresentada a eles como a sobrinha do Sr. Garcia.

Quando a casa surgiu no seu campo de visão, Rebeca percebeu que o tio era ainda mais rico que o prefeito de Lucena. Augusto apontou para uma casa grande, de um verde desbotado. Ainda assim, era uma bela casa. O estilo Vitoriano impressionava Rebeca, porém, não se comparava à imponência da Mansão Garcia.

Já do lado de dentro, ela observou a diferença da decoração com a mansão. As cores claras passavam um ar menos fantasmagórico, os móveis eram menos antigos, porém mais simples. Havia duas poltronas verde-musgo na sala e uma mesinha de centro com um arranjo de flores do campo. Mais à frente, na sala de jantar, uma mesa oval com apenas cinco cadeiras. A decoração era em dourado e bege, e, apesar de ser dia, um enorme lustre estava aceso.

Quando Rebeca foi apresentada à mulher do prefeito, ela mal conseguiu reparar direito em sua aparência, parecia tecer algum plano para arrancar informações importantes daquelas pessoas. De certo modo, pensou em ficar atenta à índole do prefeito e sua esposa, eles pareciam trocar olhares estranhos o tempo todo, a primeira-dama sequer disfarçava na presença de Rebeca.

Antes que mais uma conversa começasse, os filhos do casal foram apresentados à senhorita Garcia, que sorriu falsamente ao encarar as crianças. A garota tinha doze anos, usava um vestido branco leve e tinha os cabelos loiros desgrenhados. Rebeca não pôde evitar a comparação com Cibele, havia o mesmo sorriso esquisito de quem parecia em transe. O garoto era mais novo, parecia um pouco mais normal, mas não fez questão de cumprimentar a convidada educadamente. Sim, Rebeca gostou dele.

Após as apresentações, ela se sentou à mesa com o casal e os dois filhos. Comeu como nunca comera antes e então uma dúvida surgiu em sua mente:

— Como titio morreu?

A primeira-dama trocou olhares com o marido. Rebeca reparou no cabelo preso com alguns fios soltos da mulher, era loira como a filha. Vestia-se muito mal, com um vestido roxo de corte estranho, e tinha uma cara que denunciava que de jeito nenhum sabia disfarçar o seu estranhamento.

— Desculpem-me, cheguei ontem de viagem. E o Dr. Lorenzo não me explicou muita coisa...

O prefeito afastou as crianças e os três se sentaram na sala. Minutos depois, ele finalmente disse:

— Veneno. Seu tio morreu envenenado. Simplesmente amanheceu morto. Sinceramente, acho que foi suicídio.

Rebeca continuou calada, tentando avaliar se o prefeito estava falando a verdade. Até então, pareciam pessoas boas, que gostavam de comprar e ter convidados para uma boa refeição.

Não se pode confiar em pessoas assim!

— Está me dizendo que titio se matou? — questionou Rebeca.

— Talvez. Não havia ninguém para dar prosseguimento com a investigação — respondeu o prefeito. — E se fosse um assassinato, ninguém queria arriscar a própria pele. — Ele riu. Mas Rebeca continuou avaliando.

— Vou pedir para que façam um café — disse a primeira-dama, tentando desviar o assunto.

— Odeio café — Rebeca falou secamente.

— Quer um conselho, senhorita? — O prefeito disse após um longo silêncio. — Preste atenção ao que come e bebe naquela mansão... Os DÂngelo são... — Ele não terminou.

— O que o senhor quer dizer? — Rebeca fez-se de desentendida.

— Nada.

— Mas por via das dúvidas... — Sorriu gentilmente a esposa. — Temos a melhor cozinheira de Lucena, pode comer aqui quando quiser.

— O que vocês sabem sobre os DÂngelo? — perguntou Rebeca, ignorando a mulher do prefeito. Precisava insistir, Augusto parecia esperto, mas se ficasse a sós com a mulher, ela contaria tudo o que sabia. Parecia até mesmo se coçar de vontade de lhe contar alguma coisa.

— Sei o necessário para não confiar em nenhum deles — o prefeito disse com seriedade.

— Acho que já está tarde, senhorita Garcia. — A primeira-dama se levantou, de fato se coçando. Passava as unhas rapidamente pelos braços, devolvendo um olhar estranho para Rebeca.

— A primeira-dama não parece nada bem! — comentou Rebeca, com um pouco de vontade de rir, mas ao mesmo tempo intrigada.

— Deve ter comido demais — falou o prefeito, sem sequer olhar para a esposa. Rebeca estreitou os olhos e avaliou a mulher. Parecia cada vez mais vermelha, talvez até um pouco inchada.

— É alérgica a alguma coisa, senhora? — questionou Rebeca, desconfiada.

— Ora, menina, e você é médica?! — perguntou rudemente o prefeito. — Acho que é melhor a senhorita...

— Ir embora! — a mulher completou com voz grossa.

Rebeca se levantou, insatisfeita com o pouco de informação que havia conseguido. E sem agradecer pelo almoço, se dirigiu à primeira-dama, que se coçava cada vez mais:

— Espero que goste dos sapatos.

Praticamente sendo empurrada para a porta, Rebeca viu pela última vez a primeira-dama sacolejando e passando as unhas pelos braços. O prefeito fechou rapidamente a porta e Rebeca ponderou por alguns segundos o que de fato estava acontecendo com a mulher.

Não, não foi um caso de suicídio. Não do jeito que o prefeito declarou sua opinião sobre os DÂngelo. Agora sei que titio foi assassinado!

Rebeca voltou para a Mansão Garcia passando pelas ruas de Lucena com seu sorrisinho clássico. Ao entrar na casa grande, percebeu estar sozinha. Algo estranho, mas preferiu acreditar que os DÂngelo gostavam de visitar os vizinhos. O silêncio da casa não a assustou, mas seus passos eram extremamente calculados ao passar pela escadaria e o corredor principal.

Ela precisava ter uma carta na manga, algo que lhe desse a certeza sobre o que acontecera com Fortunato Garcia, e em momento algum poderia se esquecer de que não era sobrinha do homem que nem mesmo conhecia. Para Rebeca, todos os fatos até então indicavam que os culpados eram os membros da família DÂngelo.

Apesar de parecer óbvio demais...

Começou sua busca em descobrir mais sobre aquela família passeando pelo casarão. Não havia ninguém no simples quarto da Sra. DÂngelo, como também não havia nada que a denunciasse como a grande vilã da história.

Ao passar pelos aposentos do Sr. Garcia, a suíte luxuosa encheu os olhos de Rebeca. Ela reparou na cama enorme, nas poltronas macias e nas paredes decoradas com a cor vinho. Entrou e observou que o tio tinha um closet; ternos organizados por cores cheiravam a naftalina. Fez uma careta. Entretanto, parecia melhor que o cheiro de mofo do escritório do Sr. Olivier.

Qual é a chance de um cofre escondido? Um fundo falso? Uma passagem secreta? Uma pista do crime? Uma mancha no carpete que indique alguma história interessante? Rebeca se sentia em uma história de detetive.

Passou horas em sua investigação, observando cada detalhe. Bateu a mão por toda a parede do closet, até encontrar uma parte oca no chão. Eureca!

Abriu o fundo falso. Uma caixa vermelha era a única coisa escondida. Mas dentro dela havia um colar. Não era preciso ser um especialista para identificar as esmeraldas e os diamantes. Talvez aquilo fosse o bastante para melhorar sua vida.

— De onde veio este, pode haver muito mais! — comentou sozinha, com ar ganancioso.

Sem pensar duas vezes, Rebeca colocou o colar na caixa e rapidamente andou até o quarto de hóspedes. Não deixou de notar que a casa continuava silenciosa. Estar sozinha em uma casa daquele tamanho era o seu sonho; e ao mesmo tempo, o seu pesadelo.

No corredor principal não havia nenhuma janela, e se não fosse a luz que vinha de outros cômodos, estaria tudo escuro.

Um estalo soou em algum lugar. Rebeca parou de andar por alguns segundos. Poderia ser apenas um estalo de algum móvel velho. Ou... Alguém a observando. Olhou para trás. Do corredor, viu que a porta do maior quarto havia sido deixada aberta por ela. Movia-se lentamente, rangendo no silêncio agoniante. Com os olhos fixos, deu um sobressalto.

A porta bateu e deixou tudo em volta ainda mais parado. Invadida por um mau pressentimento, Rebeca decidiu seguir em passos apressados até o quarto.

Ao abrir a porta, abafou o próprio grito com as mãos.

Notas finais
O que será que Rebeca viu? Comenta aqui!