Os dois reis sob a montanha

40 Um estranho dia e uma estranha aula


Notas iniciais
Lady: vergonha alheia aqui ヽ(゚ー゚*ヽ) vergonha alheia acolá (ノ*゚ー゚)ノ

– Gostou?

A voz de Kili mal chegara aos ouvidos de Drogo, já que este estava assombrado com o quarto que lhe seria destinado. Seu primo, pelo que parecia, passou muito tempo organizando e moldando o local que seria o seu novo lar. Seu quarto era amplo e, tal como o quarto de Bilbo e Thorin, parecia ter sido retirado do Bolsão. Piso e paredes revestidos de madeira, quadros com pinturas de campos, florestas e hortas foram pendurados nas paredes, compensando a falta de janelas no cômodo. Uma estante cheia de livros jazia em um dos cantos e, ao lado dela, uma confortável poltrona. Uma pequena cozinha também fora construída, perfeita para fazer uma boa xícara de chá... Era perfeito. Lágrimas começaram a dominar o seus olhos, uma arrematadora saudade lhe abateu. Como deveria estar o Bolsão? E o Condado? Será que algum dia voltaria a vê-lo? Mesmo tendo um quarto que era a cópia do estilo do seu antigo lar, a verdade não podia ser escondida: ali não era e jamais seria o Bolsão. Não podia esquecer que agora estava vivendo no interior de uma montanha, longe dos campos verdes e do sol quente das terras dos hobbits.

– Não gostou? E-eu poderia... B-bem... – Kili parecia perdido, olhando para os lados, como se buscando algo para ajudá-lo naquela situação, talvez retirar algum objeto mágico oculto para trazer felicidade ao seu amado. Drogo exibiu um sorriso tímido, enxugou as lágrimas que escorriam de seu rosto com as costas das mãos e buscou o olhar do outro.

– Eu adorei... Só estou com saudades do meu antigo lar. – Confessou – Não precisa se preocupar.

– Como não deveria? Quero que fique feliz aqui – Falou, cabisbaixo, o anão. Aquilo fez o pequeno hobbit sentir seu coração apertar em seu peito. Não queria decepcionar o anão; sabia que ele, mais do que ninguém, o queria fazer confortável e seguro ali. Estava tão ansioso para mostrar as maravilhas de Erebor, e Drogo não queria estragar as expectativas do jovem príncipe.

– Vai demorar a me acostumar, mas... Sei que logo estarei aclimatado! – Disse com um sorriso bonito no rosto, tentando animar Kili.

– Eu queria te entender... — Confessou em um quase sussurro o anão, se sentando na cama que seria de Drogo.

– Me entender? Hm... Refere-se ao que, precisamente? – O hobbit se aproximou do outro, se acomodando ao seu lado.

– Sentir saudade de um lar.

Drogo o encarou, confuso.

– Como assim?

Kili soltou um profundo suspiro e começou o seu relato:

– Eu não nasci em Erebor. Sempre ouvi falar do reino dos anões por meu tio e minha mãe... Mas como poderia sentir saudades de algo que nunca vi? Eu entendia que era um local importante e que estava ligado a ele por minha herança. Contudo... Esse sentimento em relação a um lar, um lugar físico que você se identifica... Eu nunca senti de fato. Vivíamos constantemente nos mudando de uma vila humana para outra. Nunca ficamos muito tempo em um mesmo lugar e na verdade perdi a conta das cidades, vilas e aldeias humanas as quais passei durante a minha infância. Erebor, para mim, parecia algo inalcançável e a palavra lar era algo místico e também utópico. Acho que sei agora o que é um lar... Participei da conquista de Erebor, quase morri durante a batalha para expulsar o dragão. Entendo o meu papel como príncipe, vi a coroação do meu tio como rei... Mas, esses sentimentos de saudade ainda me são estranhos. Desculpe.

– Não precisa se desculpar por causa disso. – Sorriu de forma amável – e meio desconcertado — Drogo, colocando a sua pequena mão sobre a mão do príncipe – A verdade é que lar é onde nos sentimos confortáveis e seguros. Não necessariamente precisa ser um lugar físico. Sinto saudades do Bolsão, da família Tûk... Do meu cotidiano e do meu jardim. Mas, aos poucos, o sentimento de lar irá se estender para aqui. Afinal, nesta montanha estão as pessoas que mais amo... Bilbo e agora o pequeno Frerin, Fili, o senhor Glóin...

– E-ei! E quanto a mim? – Falou totalmente horrorizado Kili, interrompendo a fala do outro – E como você ama a Fili e Glóin?! – O anão se sentia traído, levando a mão, dramaticamente, ao coração demonstrando que o órgão fora fatalmente atingindo.

– Tolo! Não é o mesmo tipo de amor! – Riu o hobbit da atuação que o seu companheiro estava fazendo – E eu também te amo. Mas o amor que tenho por você é... — O rubor começou a dominar o seu rosto – Diferente.

– Diferente? Como?

– Ora... Acho que já demonstrei e deixei bastante claro sobre a diferença! –Resmungou, fazendo biquinho.

– Hum... Demonstrou? – Drogo sabia qual era a tática do moreno, podia ver o sorriso travesso nos lábios do anão — Talvez eu já tenha esquecido. – Disse, isso coçando o queixo parcialmente barbado.

– Pois não serei eu que irá relembrá-lo – Ralhou Drogo, se levantando da cama. Entretanto, no meio do processo, se viu sendo impedido pelo príncipe, que o segurou pelo braço e o puxou de volta, fazendo com que caísse de encontro a ele. Na verdade, ambos colidiram com o colchão fofo da cama.

Kili!

– Esse é meu nome! – Brincou, abraçando o hobbit raivoso, não o deixando escapar mesmo que este sacudisse os pés loucamente – Então, será que agora poderá me mostrar a diferença?

Não! – Resmungou Drogo, teimosamente – Se não me soltar agora, Kili Durin, eu juro que irei-

– Então, acho que eu terei de tomar a iniciativa na demonstração. – Nisso, o anão interrompeu a ameaça do hobbit tomando os lábios do mesmo em um beijo. De início, parecia que Drogo não iria corresponder, mas a sua teimosia logo foi vencida pela persistência do moreno. Ainda mais, como poderia resistir àquelas táticas? Seria tolo em negar um beijo ao seu amor.

“Anão idiota...” Pensou enquanto enlaçava os braços no pescoço do príncipe, abrindo a boca para emitir um gemido de prazer, no qual também serviu de permissão para que o beijo fosse aprofundando — uma oportunidade que Kili não iria deixar passar.

Ambos os jovens estavam tão entretidos no beijo que nem notaram as batidas na porta, muito menos quando esta começou a se abrir.

– Drogo, você está aí? – Perguntou a voz que seria de Bilbo – Estamos buscando... Oh, por Yavanna!

O segundo rei exclamou surpreso ao entrar no quarto. Cobriu, com uma das mãos, os olhos de Frerin, que estava em seu colo.

Drogo e Kili se espantaram com a intrusão e se afastaram um do outro tão rapidamente que Kili caiu da cama. Colidiu fortemente com o chão, tendo as pernas ainda prostradas na cama, de modo que agora observava a porta de entrada do quarto de cabeça para baixo... E não gostou nem um pouco da visão; pois além do Tio Bilbo ter os flagrado, havia outro alguém que o acompanhava.

– Kili... — Rosnou Thorin, lançando o seu olhar mortal ao sobrinho.

– E você dizendo que eles não precisavam da conversa. – Disse Bilbo ao marido – Entende agora o que eu te falei sobre o risco de termos mais outros pequenos Durins engatinhando por Erebor?

– B-Bilbo! – Drogo já estava totalmente rubro com aquela situação, sua voz já se encontrava esganiçada devido ao nervosismo e embaraço – Nós só... Estávamos fazendo...

– Respiração boca-boca? – Completou Kili dando uma risada fraca, arrancando um meio sorriso do segundo rei e um rosnado de Thorin. Drogo apenas sacudiu a cabeça, massageando a testa, agora ainda mais envergonhado.

– Bem, eu estive te procurando por toda a manhã – Começou a falar o Bolseiro mais velho – Soube que ontem você dormiu no quarto de hóspedes, então logo pretendia te mostrar o quarto que tinha feito exclusivamente para você. Fico feliz que o nosso querido Kili tenha tido a iniciativa de apresentá-lo.

Kili se levanta do chão, com dificuldade, massageando a nuca dolorida devido a queda.

– Ora, foi uma honra mostrá-lo! – Disse o anão, totalmente alheio a situação crítica em que se encontrava.

– Creio que não necessitava mostrar, ao mestre Drogo, a cama. – Cada palavra dita pelo primeiro rei saia em meio a dentes que rangiam de fúria. Bilbo tentou não rir da expressão completamente séria do marido, para não prejudicar sua moral na frente do sobrinho.

– E onde ele iria dormir? Testar a maciez do material é algo muito importante para garantir uma boa noite de sono!

– Kili! – Drogo tinha pego um travesseiro e já estava pensando em uma maneira de fazer o príncipe se calar, mesmo que fosse o sufocando – Cala a boca! –Sussurrou.

– Mas não estávamos fazendo nada de mal. Só foi um simples beijo! – Tentou se defender.

–Tudo se inicia com um beijo... A questão é até onde vocês iriam parar. –Argumentou Bilbo – Sei que vocês se gostam, mas devem ter responsabilidade em seus atos!

– Nós não iríamos fazer nada mais além do beijo! – Enfatizou Drogo.

– Não iríamos? – Inqueriu Kili em um murmúrio meio decepcionado.

Shhhh! – O jovem Bolseiro realmente estava começando a reavaliar sua relação com o príncipe. No momento só pensava em dar um soco no rosto sorridente do seu amante.

– Drogo, será que poderia me ajudar a cuidar do Frerin? Acho que ele precisa trocar a fralda. – Drogo sabia muito bem que aquilo não era um pedido e sim uma ordem – Aproveitamos o momento para conversamos sobre a sua jornada; estou louco para saber as novidades do Condado.

– S-sim... — Falou enquanto rapidamente se levantava da cama para seguir o primo que já saia do quarto, mas antes, sussurrou um conselho para o seu amado: – Pense bem antes de falar! Não faça nada estúpido.

– Eu sempre penso antes de falar. E fazer algo estúpido? Eu? – Deu uma risada sarcástica, digna de alguém estúpido.

Desta vez Drogo não se controlou e deu um soco no ombro do anão – começando o golpe desde o ombro, como foi lhe ensinado ao manejar uma espada -. Deu certo.

Ouch! – Choramingou Kili, massageando o local acertado, surpreso com a força do hobbit.

– Comporte-se! – Esse foi o último conselho do hobbit, que agora corria atrás do seu primo.

E naquele momento estavam sozinhos... O príncipe e o rei.

– Uma bela manhã, não? – Kili quebrou o silêncio, forçando um sorriso que não foi correspondido por seu tio. Na verdade, o jovem anão já estava esperando uma explosão de fúria por parte do outro, esteve sempre se preparando para o pior — por isso até fechou os olhos e se encolheu.

– Vamos. – Comandou Thorin, já se encaminhando para a porta. Deixou Kili confuso com a ação. Não iria esbravejar? Falar milhares palavrões em khuzdûl? Colocar Kili de castigo por toda a eternidade?

– Para onde vamos? – Ousou questionar, ainda meio perplexo.

– Teremos uma conversa, mas não é só você que necessita dela; tenho que capturar o seu irmão também.

– Conversa? Que tipo de conversa?

Thorin não respondeu, apenas continuou andando. Kili o seguiu, relutante. O que, por Mahal, seria essa tal conversa?

~TKATC~

– O que está acontecendo? O que foi que você fez desta vez? – Sussurrou Fili ao irmão, enquanto observava, nervosamente, seu tio andando de um lado ao outro do quarto, parecendo uma fera enjaulada. O pior é que ambos os irmãos estavam ali presos naquela mesma jaula.

O que é que fiz? Por que sempre sou eu o culpado? – Resmungou Kili, cruzando os braços diante de si.

– Porque desta vez não fui eu que fiz algo... Então, seguindo o raciocínio, o mais lógico é que você que fez a besteira.

Kili não respondeu, apenas continuou com os braços cruzados.

– Você fez mesmo algo?

– Talvez...

Talvez!?

– Foi apenas um beijo!

Fili o encarou, sem saber o que responder. Realmente, não era algo ruim o suficiente para estarem naquela estranha situação. O que havia de mais em Kili beijar Drogo? Bilbo parecia não se importar com o fato do primo estar enamorado ao príncipe anão; na verdade, ele mesmo serviu de intermediário nas cartas trocadas por ambos. Logo, Thorin não deveria ter nada contra a esse romance, pois o seu tio nunca faria algo contra a vontade do seu querido hobbit. Então, qual era o problema?

– Eu o beijei na cama e meio que Thorin e Bilbo nos flagraram. – Disse, dando os ombros.

Na cama? – Fili quase caiu da cadeira em que estava sentado.

– E por isso que tenho que ter essa conversa com vocês. – Falou Thorin, interrompendo a discussão dos irmãos.

– Que tipo de conversa seria? – Inqueriu Fili, desconfiado.

O rei anão estava sentado na frente dos sobrinhos, as mãos postas atrás das costas lhe conferiam um ar sério e duro, mas parecia desconfortável, o que deixou os príncipes ainda mais curiosos e preocupados.

– Vocês já não são mais crianças... — Thorin deixou seus olhos se reterem momentaneamente em Kili – Pelo menos creio que não são.

– Ei. Eu já tenho barba! Isso significa que sou um adulto. – Bradou Kili, ofendido.

– Que barba? – Riu o irmão, sem pena.

– Eu tenho sim! Está começando a crescer, veja! – Passou as mãos no rosto para enfatizar os seus poucos pelos faciais. Thorin rolou os olhos e Fili gargalhou – E eu já tenho bigode! Isso deve significar alguma coisa, não?

– Não é unicamente a barba que marca a maturidade de um anão. – Disse firme o primeiro rei, ignorando o fato de Kili estirar a língua para o irmão mais velho e este lhe responder com uma careta. – A questão é que vocês, conforme crescem, irão ganhar mais responsabilidades e também ganharão mais oportunidades. Irão descobrir que... Bem... Alguns indivíduos lhe são atraentes... E sentirão diferentes anseios.

– Pela a barba de Mahal. Estamos tendo aquela conversa. – Fili parecia horrorizado, desconcertado e meio ofendido.

– Que conversa afinal? – Resmungou Kili, ainda confuso. O anão loiro levou a mão a testa, tentando não perguntar aos deuses o porquê de seu irmão ser tão lento.

– Ele irá tentar nos explicar sobre o sexo — Sussurrou, ríspido.

– Mas nós já sabemos o que é isso!

– Será que sabem mesmo? – Interpôs Thorin – Será que irão pensar bem nas suas escolhas enquanto estiverem beijando e tocando a pessoa que ama?

Fili corou. Era parcialmente desconfortável ter aquele tipo de conversa com o seu tio – primeiro porque ele tentava não desviar os olhos dos dois.

– Mas o que tem de errado? Só estamos expressando o nosso amor! – Lógico que Kili não compartilhava do desconforto do irmão, logo falava aquelas coisas.

– Você quer que Drogo fique grávido? – Perguntou de supetão, irritado, o primeiro rei.

– Hm... Quero. Digo, não agora, mas no futuro... – Falou, meio tímido.

– Exatamente, no futuro! Você e ele mal entraram na idade adulta, ainda estão apreendendo sobre a vida! Um bebê, neste momento, seria uma grande responsabilidade que vocês ainda não estariam preparados para enfrentar!

Kili abaixou a cabeça, envergonhado. Não tinha, verdadeiramente, pensado nas consequências dos seus atos – que nem foram consumados, pensou ele, meio consternado.

– Mas... Existem outras formas de sentir prazer que não envolva, necessariamente, fazer bebês. – Sugeriu Fili.

– Sério? – A animação de Kili tinha retornando.

– E como você sabe disso? – Thorin dirigiu a pergunta ao seu sobrinho mais velho, que engoliu em seco.

– N-não que eu tenha já testado essas outras formas... Eu ouvi alguns relatos de outros anões e também as conversas dos humanos nas tabernas. Ainda mais, não sou tolo, tio... Sei como é a mecânica do processo.

– Acho bom mesmo que saiba. Não irá desejar que seu amado comedor de capim se machuque no processo, não é mesmo? – Provocou Thorin, apreciando a expressão de raiva que começou a dominar o rosto do sobrinho.

– O nome dele é Legolas! – Rangeu os dentes.

– E alguém poderia se machucar? – Inqueriu Kili, afoito, com seus olhos castanhos realmente muito confusos.

Fili e Thorin se entreolharam e depois voltaram o olhar para o mais novo.

– Se é tão sabido, Fili, por que não explica ao seu irmão?

– Eu? Mas você é o nosso tio! És o adulto responsável! Além disso, tens muito mais experiência. – Disse, dando um meio sorriso, ao observar a postura de Thorin desmoronar um pouquinho.

Thorin praguejou na língua dos anões. Kili só os observava, ansioso por conhecimento. Principalmente aquele tipo de conhecimento.

– Bem... – Pigarreou o primeiro rei – Iremos começar pelo o básico. Kili, quando duas pessoas se gostam muito...

Fili se deixou soltar um longo suspiro e tentou não prestar atenção naquela estranha aula, alternando o olhar entre as duas figuras ou, simplesmente, encarar as paredes de pedra. Sem dúvida, aquele dia estava sendo um dos mais estranhos que já vivera.

– Eu tenho que enfiar o quê e aonde? – Perguntou Kili, extremamente surpreso, no meio da explicação.

Fili cobriu o rosto corado com as mãos, abafando um choramingo de súplica a Mahal.

Iria reformular: aquele foi o dia mais estranho e vergonhoso que já vivera.

Notas finais
Lady: bate e palma e da um grito quem ja quer o legolas de volta Eu estou literalmente morta com o Kili nesse capítulo. ERU, DAI-ME PACIÊNCIA